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A COMUNICAÇÃO SOCIAL NO TERCEIRO SETOR: UM ESTUDO DE CASO DA FUNDAÇÃO PROJETO PESCAR


 

Trabalho de Conclusão de Curso

Estudo de Caso

Fundação Projeto Pescar

Discente

Cristiele Magalhães Ribeiro

Orientadora

Prof. Dr. Adair Caetano Peruzzolo

Instituição de Ensino

Universidade Federal de Santa Maria – UFSM

Conclusão

Maio de 2002


 

INTRODUÇÃO

A partir de 1960, os problemas brasileiros, como o êxodo rural, aumento das favelas e o progressivo número de desempregados, começaram a se agravar, deixando muitas pessoas à margem da sociedade, sem conhecimento tecnológico atualizado para se inserir no mercado de trabalho, sem auxílio para a educação, saúde e moradia suficientes para suprir suas carências.

Com isso, o setor civil, que já vinha agindo em benefício dessas pessoas, mais de uma maneira filantrópica e assistencialista que educadora e de dever social, e geralmente ligado a organizações religiosas, começou a ter suas primeiras iniciativas de “agente social”, o que já vinha acontecendo em países da Europa e nos Estados Unidos.

Atualmente podemos encontrar nas mais diversas áreas a atuação de pessoas ou entidades representantes do terceiro setor. Mesmo as empresas que antes promoviam somente ações assistenciais, sem muito envolvimento com a comunidade, voltaram a sua atenção para esta realidade.

Depois do Estado, o primeiro setor, e do mercado, o segundo setor, surge então o terceiro setor. Por ser um setor novo, muito há ainda o que se explorar e estudar. E como a comunicação é a arte do relacionar-se, deve ser estudada e teorizada para melhor atender a este setor, que tende a crescer muito pelas próximas décadas.

Uma comunicação eficiente forma a identidade das organizações, é através dela que as organizações poderão ter um trabalho eficiente e duradouro, garantindo de certa forma a sua perenidade. É através da comunicação que o público interno irá se engajar com a causa/idéia/produto, que a sociedade irá reconhecer este trabalho como efetivo, que o número de clientes engajados com a missão da organização aumentará.

Não podemos levar em conta somente o fato de que a inteligência das relações sociais aponta para a sabedoria ética citada acima, o valor econômico também pode ser um forte incentivador no engajamento das empresas com atividades do terceiro setor. A maioria das empresas é beneficiada economicamente tendo iniciativas como estas, já que obtendo o respeito da sociedade, com certeza terá mais clientes satisfeitos e engajados.

O TERCEIRO SETOR

Segundo Gohn (1999, p. 33), o terceiro setor é “uma nova ordem social, que se coloca ao lado do Estado – o primeiro setor -, e do mercado – tido como o segundo setor”. Hoje, fala-se em responsabilidade social, que consiste em ações de duas vias, todos recebem algum tipo de retorno, todos se desenvolvem. As empresas recebem reconhecimento por suas ações junto ao terceiro setor, os voluntários sentem-se recompensados com os resultados que obtêm do seu próprio trabalho e dedicação em prol de uma causa em que acreditam e os assistidos recebem apoio para desenvolverem-se física e intelectualmente e terem capacidade (ferramentas) para continuarem-se desenvolvendo.

As ações do terceiro setor são “soluções engendradas pelas ações coletivas populares, baseadas em planos coletivos de baixo custo e com utilização do trabalho comunitário, no cenário brasileiro, tanto urbano como rural” (Gohn, 1997, p. 12). Elas podem atender carências como harmonia, controle social, áreas da saúde, do meio-ambiente, da educação, da cultura, entre outras.

Muitas associações, fundações, organizações não-governamentais e movimentos foram criados para, juntamente com o Estado e a iniciativa privada, realizar projetos de desenvolvimento social. Ou seja, o primeiro e o segundo setores (Estado e mercado, respectivamente) unem-se com o terceiro setor em prol de um bem comum. O mercado continua sendo o gerador de impostos, empregos e circulação da moeda, o Estado continua responsável pela assistência básica à sociedade (saúde, educação e moradia) e pela formulação das políticas públicas, e o terceiro setor entrelaça essas duas realidades e usa os conhecimentos, o espaço físico e, muitas vezes, o apoio financeiro dos outros dois setores para auxiliar às pessoas em situação de risco social.

O terceiro setor é muito mais do que um denunciador dos problemas sociais, ele é um agente social, e já adquiriu tal importância que pode ser considerado um setor intermediário capaz de potencializar aquilo que de melhor têm o primeiro e o segundo setores.

Na situação em que se encontra a realidade brasileira, com as suas diferenças sociais alarmantes, a atuação do terceiro setor produz resultados satisfatórios e efetivos e abrem novas esperanças para os cidadãos. É a nova face da visão de um mundo novo que se cria, de uma nova sociedade – um novo conceito de organização social e democracia.

A RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS EMPRESAS

Por meio deste trabalho, tentamos entender como se dá essa nova via, esse novo entendimento acerca do dever social de que as empresas e a sociedade estão cada vez mais tomando conhecimento e se engajando. Responsabilidade Social, para Andrade (1996:60), é o mesmo que função social, “conjunto de atribuições exercidas pelas empresas a serviço de toda a coletividade”.

O fato de que “o patrimônio somado das trezentas famílias mais ricas do planeta equivale ao patrimônio somado dos 40% da população mais pobre” (Ioschpe, 1997, p. 16), não é um dado que somente provoque sentimento de solidariedade em algumas pessoas, provoca também a preocupação do Estado, que sozinho não mais consegue resolver esses problemas; das empresas que precisam escoar o seu produto para continuar empregando seus colaboradores e gerando riquezas; e da sociedade civil que precisa de emprego, segurança, moradia, educação e seus direitos assegurados.

As empresas estão começando a ficar conscientes de que não são ilhas dentro do sistema capitalista, ou seja, elas pertencem a este sistema e somente sobreviverão se ele for e persistir sadio e dinâmico, e começam também a criar suas fundações com fins públicos. 

As empresas devem começar esse processo de serem socialmente responsáveis, cidadãs, dentro de suas próprias estruturas, ou seja, primeiramente com os seus funcionários. Estes precisam ter os seus direitos de trabalhador e cidadãos assistidos, precisam estar motivados, satisfeitos, com saúde e educação, trabalhando num ambiente agradável e seguro para depois, sim, a empresa começar a agir em seu entorno, em prol da comunidade em que está inserida.

As empresas, na atual realidade econômica, precisarão ser socialmente responsáveis para sobreviverem. A empresa socialmente responsável, com certeza tem uma boa imagem, seus produtos serão reconhecidos no mercado, pois funcionários valorizados têm mais probabilidade de produzir produtos de boa qualidade, seu nome será sempre citado, dificilmente sofrerá depredações e, conseqüentemente, seu lucro terá mais chances de aumentar. Inclusive, caso haja diferença de preço com o produto do concorrente, pagarão mais caro pelos seus produtos pelo fato de a considerarem ética, de confiança e interessada no futuro da sociedade em que está inserida.  Segundo Young (2001), 19% dos consumidores são capazes de rejeitar um produto devido à qualidade do mesmo ou por não confiarem na empresa.

Para divulgar ao público as atividades que as empresas vêm desenvolvendo na área social, foi desenvolvido o Balanço Social. Na França, desde 1977, é legalmente obrigatória a publicação do Balanço Social das empresas com mais de 750 empregados. No Brasil, algumas empresas têm realizado o Balanço Social sem que isto seja obrigatório. O Balanço Social é uma avaliação para medir e julgar os fatos vinculados à empresa, tanto internamente – empresa/empregados – como externamente (empresa/comunidades).

O agir socialmente responsável está dando certo, pois, se as empresas estão sobrevivendo, a população está mais bem assistida e desenvolvida e o Estado está exercendo a sua política e trabalhando em conjunto com o terceiro e segundo setores, é porque o ciclo econômico está acontecendo de maneira adequada.

A COMUNICAÇÃO SOCIAL

As formas de comunicação vêm sendo estudadas e aprimoradas cada vez mais pelos seres humanos para facilitarem a compreensão e a relação entre si. A importância da comunicação deve-se justamente ao fato de que é a relação procurada entre as pessoas para facilitar a satisfação de desejos e das necessidades e a conquista de um lugar na organização e nas disputas sociais.

Com o advento da Internet e das novas tecnologias, que resultaram na comunicação à distância em tempo real e, de uma certa forma, na globalização da informação, o antigo processo de comunicação começa a tomar um novo sentido. “... As noções de tempo e espaço modificaram-se completamente em processos de comunicação. (Meneghetti, 2001, p. 23)”.

No meio empresarial, “o papel estratégico da comunicação é auxiliar internamente, motivando os empregados a uma ação produtiva e, externamente, ajudando a posicionar a empresa junto aos seus públicos externos” (Corrado, 1994, p. 35). Neste contexto, o profissional de comunicação, pode desenvolver e avaliar os processos de comunicação externos e internos da empresa, possibilitando uma imagem positiva da mesma. Isto também pode ser realizado em organizações do terceiro setor.

Considerando-se que “o direito à informação é um bem público, tradicionalmente reconhecido como direito universal, a comunicação, como processo de produção e transmissão de informações e conhecimentos, educa e instrumentaliza o cidadão para a convivência social” (Meneghetti, 2001, p. 23). A comunicação bem trabalhada no terceiro setor garantirá a seriedade do trabalho destas organizações, que precisam relacionar-se bem com seus diversos públicos, assim como o mercado e o Estado.

A Comunicação Social no Terceiro Setor

As organizações do terceiro setor dependem do apoio do governo, do mercado e da sociedade para existirem, já que são formadas por voluntários e, muitas vezes, são mantidas por empresas ou por projetos de governo. Para isso, o item que mais influencia na sua sobrevivência é a sua credibilidade. Suas ações precisam ser transparentes, pois serão cobradas a todo o momento por explicações sobre onde investiram o que receberam. Estas ações, a sua missão, os valores e os resultados do trabalho realizado, precisam ser divulgados para a comunidade, seus colaboradores e assistidos. “Só há uma área onde a comunicação predomina, é no setor sem fins lucrativos. A própria razão de uma associação existir é ouvir seus membros, comunicar suas posições, representá-los e proporcionar feedback” (Corrado, 1994, p. 207).

Cada organização do terceiro setor desenvolve a comunicação com os seus públicos de acordo com as suas características, necessidades e competências. Há organizações que são famosas pela maneira com que comunicam o seu trabalho. “Organizações de alto conceito, como o Greenpeace (...) procuram agitar as coisas na mídia, a fim de conseguir alta visibilidade para manter a credibilidade da organização e receber apoio financeiro de simpatizantes” (Corrado, 1994, p. 209).

O marketing social procura “(vender) idéias e novas atitudes, facilitando o acesso a informações que se tornam públicas pelo bom uso do marketing e da comunicação aplicados ao desenvolvimento comunitário (...) Marketing social = marketing de idéias, causas e programas sociais” (Meneghetti, 2001, p. 29).

Para as entidades do terceiro setor sobreviverem, não adianta somente agir, elas precisam utilizar-se de estratégias de comunicação assim como o mercado e o governo já vêm usando, mas de uma forma adaptada as suas necessidades. As entidades do terceiro setor precisam ter um planejamento estratégico de comunicação, utilizando-se inclusive de técnicas de marketing, neste caso, de marketing social.

A presença de um profissional de Comunicação nas organizações do terceiro setor se faz de extrema importância, já que com o planejamento estratégico, gastos desnecessários poderão ser eliminados, novos apoiadores e patrocinadores poderão ser encontrados, mais credibilidade a organização conseguirá alcançar, entre outros resultados positivos.

O Trabalho de Relações Públicas no Terceiro Setor

O termo Relações Públicas envolve processo, função, atividade, profissional, cargo e profissão (Simões, 1990, p. 45). Surgiu no início do século XX, com o avanço industrial e tecnológico e o aperfeiçoamento dos meios de comunicação de massa e começou a ter mais intensidade depois da Segunda Guerra Mundial (Kunsch, 1986, p. 123).

Os comunicadores, principalmente o profissional de Relações Públicas, inserem-se na realidade empresarial com facilidade, pois são eles que poderão identificar as necessidades dos funcionários, dos clientes, dos fornecedores e da sociedade, através de pesquisa de opinião, da observação e de outros instrumentos dos quais são conhecedores. São eles que podem contribuir para a construção da imagem positiva da empresa, formulando estratégias de comunicação interna e externa, criando vínculos entre os funcionários e os mais diversos públicos da empresa, divulgando-a, criando e administrando projetos sociais, entre outras atividades.

Sendo o profissional de Relações Públicas o responsável por “facilitar as transações com os diversos públicos, além dos clientes, e mantê-los fiéis e multiplicadores” (Simões, 1990, p. 42), é muito importante que ele mostre aos administradores das empresas em que trabalha o quão importante é que estas sejam socialmente responsáveis. O profissional de Relações Públicas, exercendo a sua atividade, poderá criar e executar projetos que engajem a empresa aos seus funcionários e a sociedade, fazendo que estes acreditem na filosofia da empresa e “torçam” por ela, como disse Pierry (2001).

Em organizações não-governamentais (ONGs), a presença do profissional de Relações Públicas também é muito importante. Fazer com que estas organizações tenham o reconhecimento da sociedade, um bom relacionamento interno entre os seus voluntários e demais colaboradores e com a imprensa. Pois, esta, exercendo importante influência sobre a sua imagem, garantirá a sua existência e o seu sustento, já que estas organizações dependem do apoio financeiro e do reconhecimento do meio empresarial, do governo e, sobretudo, da sociedade.

Segundo a Associação Brasileira de Relações Públicas (ABRP), Relações Públicas é a “a atividade e o esforço deliberado, planejado e contínuo para estabelecer e manter a compreensão mútua entre uma instituição pública ou privada e os grupos de pessoas a que esteja direta ou indiretamente ligada” (Peruzzo, 1986, p. 33).

Atuando em empresas que possuem projetos sociais ou em entidades do terceiro setor, o profissional de Relações Públicas precisará saber relacionar interesses públicos e privados, ter um conhecimento teórico sobre sociedade e organizações para trabalhar a comunicação também de forma socialmente responsável.

Podemos, então, ter certeza de que o profissional de Relações Públicas deve estar presente nas organizações do terceiro setor. Muitas organizações já têm voluntários da área ou mesmo profissionais, outras possuem pessoas que estão desenvolvendo atividades deste profissional, sem estarem preparadas para isso.

ESTUDO DE CASO: A FUNDAÇÃO PROJETO PESCAR

A Fundação Projeto Pescar, com sede em Porto Alegre/RS, tem o objetivo de implantar escolas técnicas profissionalizantes em empresas para jovens em situação de risco. A primeira escola surgiu em 1975, na empresa Linck, na qual foi criado um curso profissionalizante para um grupo de jovens de uma comunidade carente, vizinha à empresa.

O Projeto tem o nome inspirado no provérbio chinês “Se queres matar a fome de alguém, dê-lhe um peixe. Se queres que ele nunca mais passe fome, ensine-o a pescar” e surgiu em 1988 para incentivar e assessorar as novas escolas que estavam sendo abertas em outras empresas.

O Projeto atende jovens de 15 a 18 anos, oferecendo um curso profissionalizante, geralmente na área em que a empresa atua, com a duração de 6 a 12 meses. As turmas geralmente são de 15 a 20 alunos por semestre. “Em média, a Rede atende 1200 novos alunos por ano. (...) Cerca de 70% desses alunos encontram uma colocação no mercado de trabalho logo após a formatura” (Pescar 25 anos, 2001, p. 21).

Com a expansão do Projeto, em 1995 foi instituída a Fundação Projeto Pescar. Com a criação da Fundação, as escolas já existentes puderam começar a se articular e a continuar difundindo a idéia em outras empresas. Hoje, a rede de escolas da Fundação conta com mais de 40 empresas franqueadas no país, possui oito empresas mantenedoras e sete apoiadoras.

A missão da Fundação é “promover ações junto a empresas através de uma franquia social que possibilite o desenvolvimento pessoal e profissional de adolescentes em situação de risco social”. (Pescar – Relatório de Atividades, 1999, p. 4) Tem como valores[1] co-responsabilidade, parceria, inovação, excelência, comprometimento, participação, simplicidade, respeito, transparência e sustentabilidade. E como princípios pedagógicos: aprender a aprender, utilizar situações-problema, trabalhar e produzir em equipe, aprender fazendo, fazer aprendendo; comunicar-se e comunicar descobertas com clareza, atuar no entorno social. Sua meta é “a abertura de novas vagas e a expansão nacional da Rede de Escolas” (Pescar 25 anos, 2001, p. 21).

Além de fornecer um ensino profissionalizante e de ensinar noções importantes de convivência social (saúde, auto-estima, comportamento, direitos, etc.), a Fundação exige que os alunos continuem seus estudos no ensino médio e fundamental, mostrando-lhes a importância disto em suas vidas profissionais e afetivas. 

O objetivo principal de nosso trabalho foi conhecer e estudar os fluxos de comunicação existentes dentro da Fundação Projeto Pescar, e também, conhecer a história, os objetivos e os princípios desta Fundação; levantar o objetivo das empresas em serem suas franqueadas; conhecer o processo de aprendizagem e ressocialização dos jovens inseridos nas escolas pertencentes à Fundação; conhecer como se dá o encaminhamento dos mesmos ao mercado de trabalho; saber se há e, se houver, como se dá o acompanhamento do futuro profissional e familiar dos ex-alunos e consignar os resultados em uma produção acadêmica.

Realização do Estudo de Caso

Este estudo de caso consistiu numa pesquisa exploratória, realizada mediante observação sistemática não participante.

Devido à disponibilidade de tempo e espaço da Fundação, a pesquisadora conviveu pouco com as pessoas que trabalham em sua sede. A pesquisadora sentiu dificuldades de participar de eventos promovidos pela Fundação, mas, em contrapartida, as escolas se mostraram bastantes abertas à pesquisa e à presença da pesquisadora.

Em cada empresa visitada, foram realizadas entrevistas com um de seus representantes, com um funcionário que tivesse contato com os alunos durante os estágios, com um professor, um voluntário e três alunos de cada escola.

A amostra utilizada na pesquisa foi não probabilística, levando em conta sempre a acessibilidade aos entrevistados. O universo da pesquisa levou em consideração todas as empresas da Grande Porto Alegre[2] que possuem escolas da Fundação, totalizando 12 empresas visitadas. Foi realizada uma análise através da leitura do material que a Fundação dispõe de divulgação e histórico e, principalmente, realizado um levantamento bibliográfico.

Na sede da Fundação Projeto Pescar, foram entrevistados: a comunicadora voluntária, o gerente de expansão e projetos, a secretária e a diretora. Com estes questionários não foi realizado um levantamento de dados por serem únicos, eles auxiliaram na captação de informações, compreensão do material de divulgação da Fundação e auxílio na estruturação de idéias relativas à pesquisa.

Os Fluxos de Comunicação na Fundação Projeto Pescar

Entrevista com Representantes das Empresas Franqueadas da Fundação Projeto Pescar

As empresas que se interessam em fazer parte da Fundação Projeto Pescar vêem nesta, em primeiro lugar, a credibilidade. Segundo a gerência da Fundação, os principais motivos que levam as empresas a serem franqueadas da Fundação são a sua experiência, know-how[3], a sua tecnologia para este tipo de ação, as características do setor empresarial e o fato de a Fundação se configurar como rede. Foi citado também o contexto nacional, a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente e o incentivo do setor público.

O profissional de Relações Públicas é o mais presente nas empresas visitadas (33% delas possuem este profissional em seu quadro de pessoal) em comparação com outros colegas da área da Comunicação Social, mas essa porcentagem ainda é incipiente, apesar de boa parte destas empresas trabalharem junto a Agências de Publicidade e Propaganda (33%) e Assessoria de Imprensa (34%).

Também a participação deste profissional na formulação dos projetos sociais destas empresas ainda é muito pequena, apenas um dos representantes entrevistados fez referência à presença do mesmo nesta atividade.

16,66% dos representantes entrevistados disseram ser a missão da empresa o motivo fundamental que os levou a realizar os seus projetos sociais e outros dois representantes citaram que a empresa não pode mais estar dissociada da comunidade em que está inserida, ou seja, confirmou a idéia que citamos anteriormente nesta pesquisa, de que as empresas não podem mais se considerar “ilhas” dentro de suas próprias comunidades.

Quanto aos resultados apresentados à empresa, três dos doze entrevistados citaram a satisfação de poder estar fazendo alguma coisa além do core business[4] e três falaram no comprometimento dos funcionários com essas causas.

41,66% dos representantes citaram como motivo principal que levou a empresa a fazer parte da Fundação o compromisso social da empresa para com a sua comunidade e outros 41,66% citaram estes projetos sociais como um desejo/ideal da diretoria/diretor.

Representantes falaram que um dos principais resultados ou retornos que estão sendo apresentados à empresa com a manutenção da escola do Pescar é a satisfação em estar fazendo algo, o orgulho / estímulo dos funcionários e o fato dos formados estarem se inserindo no mercado de trabalho.

Quanto ao controle sobre onde os formados estão se inserindo profissionalmente, 75% dos representantes entrevistados citaram que os alunos continuam em contato com a empresa em que se formaram.

O envolvimento destas empresas com ações sociais não estão limitando-se apenas a abrir e manter uma escola da Fundação. Segundo seus representantes, novos projetos estão sendo planejados para serem realizados futuramente: na área assistencial, educacional, esportiva e da saúde; educacional e abrir outra escola do Pescar.

A experiência das franqueadas demonstra que, além da ação social em si, outros fatores decorrem desta iniciativa, como: maior comprometimento / motivação dos funcionários (13%), maior clima organizacional dentro da empresa (12%), melhor imagem da empresa (14%), reconhecimento da sociedade (14%), maior divulgação na mídia (8%), mobilização de empresas concorrentes na realização de projetos sociais (8%), diminuição das depredações da empresa (7%) e prêmios de reconhecimento (10%).

Abrir uma escola da Fundação fornece às empresas a oportunidade de ensinarem a atividade que mais sabem desenvolver: o seu próprio serviço. Tendo mão-de-obra qualificada que possa ensinar os alunos e uma sala para o funcionamento da escola, facilmente a empresa poderá ser uma franqueada da Fundação. Nove das empresas visitadas ensinam a atividade que mais desenvolvem na empresa, ou seja, o seu foco.

Nesta pesquisa não conseguimos constatar o aumento das vendas após a implantação da escola do Pescar, mas os empresários alegam que o aumento do reconhecimento da empresa por empresas parceiras e pela comunidade em geral foi considerável.

83,33% dos representantes entrevistados disseram que a empresa é informada com clareza sobre as realizações da Fundação Projeto Pescar, o que aparentemente indica uma comunicação muito boa entre as franqueadas e a Fundação Projeto Pescar.

Constatamos que os veículos mais eficazes de comunicação utilizados entre a Fundação Projeto Pescar e as suas franqueadas são a internet (19%), os eventos (15%) e as correspondências (13%), demonstrando a modernidade das formas de comunicação da Fundação. Com a internet, de forma barata e ágil, todas as escolas são informadas sobre os últimos acontecimentos ligados à Fundação Projeto Pescar e vice-versa.

A divulgação da Fundação para as empresas e a sociedade ainda pode ser considerada ineficiente, já que 75% dos representantes entrevistados tomaram conhecimento da Fundação por meios alternativos (além do jornal – 17% e através de outros empresários – 8%), como: através de visita a Linck, de outra fundação do terceiro setor, de visitas de representantes da Linck ao presidente da empresa, da própria empresa em que trabalha e de passar na frente da Linck (vendo os meninos e o outdoor).

Entrevista com Alunos das Escolas da Fundação Projeto Pescar

A entrevistadora percebeu diferença entre a auto-estima dos alunos que estavam recém entrando na escola da Fundação e aqueles que já estavam há alguns meses estudando na escola. Ao entrevistar uma turma que estava há apenas uma semana na escola de uma das empresas franqueadas da Fundação. Resgatar a auto-estima, fazer com que os alunos acreditem em si mesmos e busquem seus objetivos, é um dos principais propósitos da Fundação. Para ela, isto é muito mais importante que ensinar noções básicas de mecânica ou qualquer outra atividade.

Percebeu-se que o principal propagador de informações dentro das escolas é o professor. 24% dos alunos afirmaram que é através dele que recebem informações sobre o que outras escolas da Fundação estão realizando, através dele 38% dos alunos disseram ficar informados onde as pessoas formadas em sua escola estão trabalhando e 23% alegaram ser o professor o informante sobre quando são inauguradas ou fechadas outras escolas da Fundação.

O “boca-a-boca” tem sido a principal estratégia de divulgação sobre a seleção para o ingresso nas escolas da Fundação, tanto que 35% dos alunos entrevistados tomaram conhecimento da seleção através de amigos. Na abertura de suas escolas, as empresas chegaram a fazer a divulgação para a comunidade dos seus cursos, mas a cada seleção o número de candidatos às vagas começou a aumentar muito além do que poderia ser atendido.

Antes de ingressarem na Rede Pescar, 23 alunos trabalhavam sem carteira assinada e apenas dois trabalhavam com carteira assinada. Apenas dois tinham carteira assinada, demonstrando a exploração do trabalho  destes menores pelo empresariado e pela comunidade.

A integração entre os alunos é ótima (41%), boa (28%) e muito boa (25%). Talvez pela auto-estima elevada, as respostas sejam tão positivas.

Cinco alunos citaram que a Fundação representa para eles a esperança de um futuro melhor. Falar que uma instituição fornece esperança para o futuro, é porque as suas ações estão sendo efetivas, estão alcançando os seus objetivos. Pois é através do surgimento da esperança, da visualização de que há outra realidade senão a vivida e da criação de novas necessidades, que se terá forças e argumentos para mudar a sua própria realidade.

Entrevista com Voluntários das Escolas da Fundação Projeto Pescar

A maioria dos voluntários entrevistados (63,63%) são funcionários das empresas que possuem uma escola da Fundação e tomaram conhecimento sobre ela, dentro do seu local de trabalho. 25% dos entrevistados tomaram conhecimento da escola em que trabalham através do jornal e 75% através de outros meios, como é o caso de tomar conhecimento dentro da empresa em que trabalham, através de professores da rede, através de alunos e do outdoor da Linck.

Com a pergunta sobre o que representa a Fundação para os voluntários, além das alternativas apresentadas pela entrevistadora (uma maneira de contribuir com o aperfeiçoamento do trabalho voluntário no terceiro setor – 16%, uma forma de ajudar alguém que precisa – 19%, uma maneira de adquirir experiência – 19%, uma forma de melhorar o currículo – 13%, uma maneira de realizar marketing pessoal – 20%), 20% dos entrevistados citaram: poder dividir o que sabe com os outros e dar atenção para os alunos, oportunidade, satisfação pessoal, aprendizado grande com os alunos, etc.

Um dos entrevistados falou que a idéia de carência de sua empresa é diferente da idéia de carência de outras escolas da Fundação. Segundo ele, outras escolas consideram mais o marketing e não realmente o fato de poder ajudar. Este também é o ponto de vista de outro entrevistado que citou que a Fundação gira muito em torno do marketing e não traz benefício para os alunos e citou que na empresa em que trabalha o Projeto Pescar é algo concreto, é realmente profissionalizante e voltado para menores de baixa renda.

Para oito dos 11 voluntários entrevistados, há falhas na comunicação externa da Fundação e para 10 dos entrevistados há falhas na comunicação interna da Fundação.

Um dos entrevistados apontou como falha na comunicação interna a falta de informações. Outro falou que a solução para isto é criar um mural na empresa.

As falhas apontadas na comunicação externa da Fundação foram: pouca divulgação para a mídia, universidades, empresas; ausência de postura ativa perante as empresas. As soluções apontadas para resolverem as falhas na comunicação externa da Fundação foram: fazer anúncios em jornal, TV, revistas; fazer informativos para universidades, empresas; elaborar um plano estratégico voltado para a comunicação, campanhas publicitárias; realizar visitas em empresas.

A entrevistadora acredita que as perguntas feitas sobre a comunicação interna e externa da Fundação poderiam ter tido outra formulação. A palavra negativa/pejorativa “falhas” deturpou ou desvirtuou um pouco as respostas. Muitos voluntários gostariam de fazer observações sobre o funcionamento da comunicação e não apontar “falhas”. A entrevistadora deveria ter perguntado qual a visão dos voluntários quanto a este aspecto e não falar já na pergunta quais eram as “falhas”, já que o objetivo era saber como a comunicação estava acontecendo e depois chegar a uma conclusão.

Foi perguntado aos voluntários como eles obtinham informação sobre o destino dos alunos formados em sua escola, apenas 13% disseram que era através de eventos e 59% dos entrevistados apontaram outros meios de informação, como: pela assistente administrativo; pela própria empresa; através dos funcionários; através do professor da escola; pelo Departamento de Recursos Humanos da empresa e pelos alunos.

Segundo os voluntários entrevistados, os resultados obtidos ao se dedicarem para as escolas do Pescar, são: satisfação pessoal, troca de conhecimento e realização.

Entrevista com Professores das Escolas da Fundação Projeto Pescar

Segundo a gerência da Fundação, todos os professores recebem uma qualificação inicial de 70 horas, no mínimo. Neste treinamento são discutidas questões relacionadas diretamente à Pedagogia, como se dá o processo de aprendizagem e é discutido o Estatuto da Criança e do Adolescente. Os professores são qualificados para realmente poder trabalhar na perspectiva dos valores que regem a Fundação. 

Após esta qualificação inicial que vai dar o status para a escola, esse professor será automaticamente inserido no programa de qualificação continuada que ocorre durante o ano e é composto por cursos específicos e pontuais, encontro de imersão anual de três dias, encontros de trocas de experiências e encontro de alunos. Este programa de qualificação continuada foi produzido pela Fundação em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Muitos dos professores entrevistados eram também os próprios coordenadores das escolas da Fundação, alguns são, inclusive, antigos funcionários das empresas. A proximidade dos professores aos alunos e a suas famílias, a troca de experiências, o ensino da atividade profissionalizante e da auto-estima, a carência dos alunos, a desestruturação familiar dos mesmos, a diferença entre o meio em que vivem e como são tratados e o ambiente empresarial e a atenção recebida por funcionários, professores, voluntários e colegas, faz com que a maioria dos professores seja chamada de “pai” pelos alunos.

De acordo com 40% dos professores entrevistados, o encaminhamento dos formados em sua escola ao trabalho é feito através de telefonemas para empresários de interesse (40%). Outros 60% dos entrevistados citaram as seguintes alternativas: agência de empregos, a empresa tem a responsabilidade de ficar com dois alunos a cada turma, correspondência para outras empresas, visitas nas empresas, contatos pessoais, ex-alunos ligam para a escola em que se formaram quando sabem de novas vagas, preparação dos alunos para as entrevistas, preparação do currículo, empresas ligam para cá pedindo informação, as escolas da Fundação se ajudam.

Os professores são informados sobre as ações da Fundação através da internet (19%) e de outros meios, como: correspondência, folder, informativo, bilhete, telefone, visita da Fundação à escola, na própria empresa.

Sobre o que outras escolas da Fundação estão realizando, os professores são informados principalmente através de eventos (22%), internet (16%), material gráfico da Fundação (11%) e dos meios: jornal da escola e revista da empresa, correspondência, contato pessoal, o voluntariado tem uma forte comunicação interna; telefone, visitas.

Seis dos doze professores entrevistados disseram não haver falhas na comunicação interna da Fundação, enquanto cinco disseram que sim. Quatro dos professores disseram haver falhas na comunicação externa da Fundação, em contrapartida dos sete que disseram não haver falhas.

As falhas apontadas na comunicação interna foram: não tem informações de determinadas escolas do Pescar; falha gerencial, a Fundação é limitada pelos recursos que tem, divulgação chega atrasada. Foram apontadas as seguintes soluções: maior número de reuniões entre professores; a Fundação poderia se comunicar mais; pessoas têm que vestir a camiseta, terminar com a autopromoção; alguém específico para essa função; boletins mensais com resultados de todas as escolas.

Entrevista com os Funcionários das Empresas Franqueadas da Fundação Projeto Pescar

A integração entre os alunos e com os funcionários das empresas franqueadas, nos parece positiva, já que nove dos 11 entrevistados responderam que os procedimentos tomados pela empresa para a integração entre eles não precisam mudar.

Quanto aos resultados positivos, a entrevistadora apontou alguns que poderiam ser os apresentados pela escola do Pescar à empresa e os funcionários responderam que são verdadeiros os seguintes: maior comprometimento / motivação dos funcionários – 9, melhor clima organizacional dentro da empresa – 9, melhor imagem da empresa – 10, reconhecimento da sociedade – 11, maior divulgação na mídia – 7, mobilização de empresas concorrentes na realização de projetos sociais – 6, diminuição das depredações na empresa – 0, prêmios de reconhecimento – 4.

Além dos resultados apontados pela entrevistadora, os funcionários também citaram a gratificação de saber que a cada turma a empresa está colocando pessoas diferentes no mercado de trabalho e até mesmo na vida; velocidade na questão da organização; os funcionários aprendem com os alunos e vice-versa; satisfação pessoal, motiva os funcionários.

CONCLUSÃO

As diferenças sociais podem ser superadas. Neste trabalho mostramos que o simples acesso ao conhecimento pode tornar o nosso lugar melhor de ser habitado, mais justo, menos desigual. O acesso ao conhecimento torna o ser humano capaz de fazer escolhas, de refletir em si e nos outros, de ser cidadão, com desejos, vontades, esperança.

Nosso ponto de vista no começo da pesquisa e que tentamos comprovar no transcorrer da mesma é que as empresas que fazem parte da Fundação acreditam na responsabilidade social como promotora de imagem positiva e de geradora de lucros, mas, ao mesmo tempo, acreditam que são agentes fundamentais de humanização do espaço de vida das pessoas e de suas atividades, e que, junto com a sociedade, podem melhorar a situação de certas pessoas.

As empresas ligadas à Fundação Projeto Pescar deram-se conta de que também são responsáveis por essa realidade, como a idéia, que falamos no transcorrer do trabalho, de as empresas não serem apenas "ilhas" dentro de um sistema mais complexo.

O envolvimento dos funcionários com os alunos e a escola do Pescar também foi detectado. Os funcionários se sentem também atuantes dentro do cenário da responsabilidade social. A missão da empresa é facilmente transmitida e acreditada pelos funcionários que se integram tanto com as atividades da escola, quanto com as da empresa. Sentem-se responsáveis também pelo sucesso de ambas e orgulhosos por trabalharem na empresa e atuarem socialmente. Às vezes, muitos dos funcionários convivem na mesma comunidade dos alunos, o que gera ainda um maior envolvimento.

A satisfação pessoal foi um imperativo nas respostas dos voluntários, representantes de empresas, professores e funcionários, demonstrando que a missão da Fundação, principalmente o item “co-responsabilidade” está realmente efetivado. Um dos sinais de que a comunicação é eficiente na organização, é quando do maior ao menor cargo transmitem a mesma idéia sobre assuntos relacionados à empresa em que trabalham. Se a maioria dos colaboradores das escolas do Pescar citou a expressão “satisfação pessoal”, é porque a comunicação, de certa forma, é eficiente.

Muitos professores, voluntários e representantes das empresas evitaram falar que nas escolas da Fundação formava-se “mão-de-obra”, fazendo questão de afirmar que as escolas formam cidadãos capazes de conviver numa empresa e na sociedade, para crescerem e continuarem se desenvolvendo com as próprias pernas.

A Fundação Projeto Pescar vetou o acesso da pesquisadora ao seu material de planejamento estratégico e educacional, alegando que essa era a fórmula secreta do sucesso da Fundação e que não poderia cair em outras mãos, principalmente nas mãos de outras fundações. Segundo eles, nem as empresas que se interessam em ser franqueadas têm acesso a esses documentos antes de assinarem o contrato com a Fundação para que justamente não aconteça esse “vazamento” de informações / experiência.

Este fato é mais bem explicado por Meneghetti, segundo a autora, “embora o conceito de concorrência não se aplique à realidade do terceiro setor, existe sim certa competição por recursos e espaços de divulgação e isso precisa ser levado em conta também” (2001, p. 38). Não podemos negar que este veto de informação nos dá a idéia de que não há um ideal de melhoria universal, mas sim, a de uma mercadoria em transação. Se houvesse realmente a tentativa de melhorar uma sociedade inteira, mais fundações e entidades deveriam ter acesso a essas informações, para que baseadas nelas também pudessem ter sucesso.

Este tipo de informação deveria também ser socializada, pensando em todo o sistema social (conjunto), e não mantendo o pensamento empresarial de "retorno financeiro" a todo o custo. Nem todas as regras que se aplicam no meio empresarial se aplicam às fundações e este é um claro exemplo. Uma grande (e reconhecida) fundação como a Pescar, que já formou tantos jovens e já auxiliou tanto no desenvolvimento da sociedade, não precisaria temer a "concorrência", há espaço e verba para todos, desde que o lado social seja sempre levado em conta em primeiro lugar.

As pessoas que trabalham na Fundação Projeto Pescar (funcionários, gerentes e voluntários) realizam em conjunto todas as tarefas da Fundação, inclusive os projetos e a divulgação da mesma. Para Meneghetti (2001, p. 40), “a comunicação deixou de ser uma área, um departamento estanque ou uma sala dentro da organização (...). Sem comunicação uma organização do terceiro setor não sensibiliza apoiadores para sua causa, não conquista voluntários, não capta recursos nem ganha visibilidade na mídia”.

A Fundação possui uma comunicadora voluntária (com formação em Publicidade e Propaganda e Relações Públicas) que instrui os demais colaboradores da Fundação com conhecimentos da área e trabalha em conjunto com os mesmos para a realização dos projetos e demais atividades relacionadas à comunicação da Fundação.

Sabemos que dentro de qualquer organização há pensamentos e idéias controversas do que realmente pretende a organização, sendo que isto, muitas vezes é um problema de comunicação e, principalmente, de Relações Públicas. Nesta pesquisa, pudemos perceber que algumas pessoas ligadas às escolas do Pescar têm a idéia de que a Fundação quer somente se autopromover (realizar marketing), citaram também que há algumas empresas franqueadas que não trabalham com jovens realmente carentes, sendo que a pesquisadora, descobriu através de entrevista, uma pessoa que não é voluntária por vontade própria na escola do Pescar, mas sim, porque a sua superior na empresa exigiu que ela fosse.

O fato de que somente o coordenador da escola recebe as informações vindas da Fundação, muitas vezes todas elas não são transmitidas na íntegra aos demais colaboradores e alunos. Talvez por falta de estrutura e tempo, a Fundação otimize as informações desta forma, deixando a cargo do coordenador a responsabilidade de retransmitir as informações de interesse dos demais. A pesquisadora acredita que seria muito importante que todos os colaboradores recebessem as informações relativas às atividades da Fundação Projeto Pescar e das empresas franqueadas da mesma, talvez assim diminuíssem algumas idéias controversas encontradas durante as entrevistas.

Avaliando os fluxos de comunicação da Fundação Projeto Pescar, acreditamos que os mesmos estão, de certa forma, precisando ser mais intensivos. Estes fluxos de comunicação devem ocorrer não somente entre a Fundação e professores, ou professores e alunos, ela deve ser mais ostensiva, deve atingir todos ligados à Fundação (funcionários e representantes das empresas franqueadas, voluntários, professores, alunos, gerência da Fundação etc).

O trabalho que vem sendo desenvolvido pela Fundação Projeto Pescar a 25 anos mostra a força que o meio empresarial tem de auxiliar no desenvolvimento social, de fazer a sua parte no bem-estar de todos. Agora, além do Estado e de uma parte da sociedade que trabalham em prol de pessoas desassistidas, também o setor empresarial está tomando a iniciativa.

Seja por marketing, pelo envolvimento e motivação dos funcionários, por lucros maiores, por fidelização de clientes, ou seja, o fato de estar atuando socialmente, auxiliando no desenvolvimento de nossa comunidade, parte do setor empresarial está fazendo o que todos nós, como cidadãos, devemos fazer: promover a divisão de conhecimento. Promover a educação para que todos tenham iguais condições de crescer numa sociedade extremamente competitiva e desigual como a nossa.

NOTAS

[1] “Os valores (...) são preceitos que constituem um conjunto de princípios orientadores perenes”. (Meneghetti, 2001, p. 35).

[2] As cidades que compõem a Grande Porto Alegre são: Alvorada, Cachoeirinha, Canoas, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Esteio, Sapucaia do Sul, Eldorado do Sul, Gravataí, Guaíba e Santa Rita.

[3] Experiência, técnica, prática.

[4] Centro, núcleo dos negócios.

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Texto gentilmente enviado pela autora especialmente para a publicação neste site.