UTOPIAS & DISTOPIAS: 30 ANOS DE MAIO DE 68
Organização
Universidade Federal de Santa Maria
Profissional Responsável
Gisele Marchiori Nussbaumer
Ano da Premiação
1998
O chamado Movimento de Maio de 1968, com efeito, repercutiu nas
mais diferentes áreas: política, educação, filosofia, literatura e artes em geral. No
entanto, três décadas depois, as novas gerações parecem ignorar a importância de tais
conhecimentos na história do século XX.
Daí a idéia
da realização do evento "Utopias & Distopias: 30 anos de Maio de 68", uma
oportunidade singular para destacar a Universidade Federal de Santa Maria UFSM
do Rio Grande do Sul, como uma instituição de nível superior que, apesar da
crise pela qual passam as universidades federais, preocupa-se em estar à frente no debate
de questões que marcaram nossa época, como o chamado "pensamento de 68".
Transcorridos
trinta anos do movimento, acontecimento que abalou as estruturas de uma sociedade em seus
valores e concepções, tornava-se fundamental resgatar a história dos incidentes na
Universidade de Nanterre, em Paris, que culminaram com a derrocada dos alicerces de toda
uma lógica dominante da época.
No que se
refere ao Brasil, o ano de 1968 repercutiu de forma decisiva tanto no terreno político
quanto no artístico. A esquerda se revitaliza, os estudantes adquirem uma nova forma de
consciência política, as artes engajam-se contra o sistema. Necessário, pois, recuperar
esse momento da história brasileira tão pouco discutido quanto à sua influência nas
ações contestatórias que ainda resistem no atual cenário, dito
"despolitizado".
A
realização de um grande evento, nesse contexto, caracterizava-se, então, como
estratégia capaz de destacar a Universidade Federal de Santa Maria em âmbito local,
regional e nacional, por intermédio da associação da mesma a um dos mais significativos
movimentos de nosso século.
O case "Utopias & Distopias: 30 anos de Maio de 68" registra as
estratégias adotadas pela equipe de realização, composta em sua maioria por
professores, profissionais e estudantes de Relações Públicas, na execução do evento.
OBJETIVOS
 | Resgatar a
imagem da UFSM como uma instituição de ensino superior que promove a construção e a
crítica da sociedade.
|
 | Promover o
debate acerca da importância do Movimento de Maio de 1968 nas mais diversas
áreas do conhecimento.
|
 | Refletir
sobre as repercussões desse movimento no contexto brasileiro, mediante o resgate dos
momentos que marcaram a história de nosso país.
|
 | Resgatar a
influência do movimento no âmbito de Santa Maria, por meio de depoimentos de
personalidades locais que vivenciaram a época.
|
 | Apresentar e
discutir obras cinematográficas que delimitassem o processo social e político da época
e suas repercussões no atual quadro da sociedade brasileira.
|
 | Promover
atividades culturais que refletissem sobre os conhecimentos alusivos à situação
político-cultural do final dos anos 60.
|
AÇÕES
As ações
desenvolvidas tinham a preocupação de fazer com que o evento acontecesse de maneira
eficaz e, principalmente, diferenciada. Os principais pontos foram: divulgação,
infra-estrutura, emissão de convites, ordem de precedência, recepção dos convidados e
ordem do dia; também mereceu cuidado específico a organização da programação oficial
e das atividades paralelas.
Destaca-se
que a "ambientação" dos locais onde o evento aconteceu contou com os seguintes
estímulos:
 | cenários
criados especialmente e de acordo com a programação;
|
 | a
utilização de datashow projetando ao fundo das conferências imagens pesquisadas na
Internet do final dos anos 60 (que se alternavam a cada 20 segundos);
|
 | as
intervenções teatrais não divulgadas durante toda a programação, constituiram-se em
estratégias determinantes na diferenciação buscada pela equipe em seu planejamento.
|
Pretendeu-se,
com isso, criar um clima do "Utopias & Distopias", responsável
por essa diferenciação alcançada, em relação aos eventos tradicionais realizados no
meio acadêmico e empresarial, e pela conquista da simpatia dos participantes e da
opinião pública em geral.
EXECUÇÃO/ORGANIZAÇÃO
Divulgação
A divulgação do evento foi feita a partir do envio periódico de press
releases a imprensa local e regional, desde o início do mês de abril. Foram
elaborados kits para os jornalistas dos principais veículos de comunicação,
contendo as informações básicas sobre o evento e, também, material de apoio com fotos,
currículo dos conferencistas e dados sobre o tema "Maio de 68".
Também foram
enviadas peças de divulgação (cartazes e prospectos) para todas as universidades
públicas e particulares da região, e para as principais universidades do país com
cursos de graduação e pós-graduação nas áreas de comunicação, história, letras e
sociologia.
A
programação do evento foi enviada e publicada no calendário de eventos do Theatro Treze
de Maio e no calendário do Estado do Rio Grande do Sul.
Como forma de
ampliar a divulgação, utilizou-se a Internet e foram feitas inserções de dados sobre o
evento em publicações como o Jornal da SBPC e outras relacionadas à área
acadêmica. Também foi produzido pela área de Jornalismo do Curso de Comunicação
Social da UFSM, o jornal Fora de Pauta, que teve como tema o "Movimento de
Maio de 68", que foi amplamente distribuído. Para atingir a comunidade
universitária, em greve na época do evento, houve distribuição de material durante as
assembléias dos servidores da UFSM.
Por fim, além da divulgação institucional, buscou-se o apoio do jornal A
Razão, principal veículo local, que, com patrocínio do Unibanco, publicou anúncios
periódicos do evento (divulgação comercial) durante todo mês de maio.
Infra-Estrutura
Buscando
sinergia com a proposta arejada e inusitada do evento, ficou acertada a colocação de
banquetas, como as utilizadas para o desenho, no lugar da tradicional combinação
mesa-cadeiras.
Além de
minimizar o aspecto de superioridade hierárquica e distanciamento deste tipo de
mobiliário, tinha-se a intenção de obter um efeito de descontração e suposta
informalidade na abertura e no decorrer do evento. Junto a essa opção, acresceu-se a
fixação de um pedestal com microfone e de suportes de partituras para colocação de
pastas das autoridades que utilizariam a palavra.
Foram
previstos três discursos: do representante da Universidade Federal de Santa Maria, do
representante da Prefeitura Municipal de Santa Maria e do representante da Coordenação
Geral do evento.
As bandeiras
foram obtidas, como empréstimo temporário até a tarde do dia 26 de maio, junto a
Prefeitura da UFSM (da própria instituição) e a Secretaria da Cultura (do Brasil e do
Município). Sua fixação foi definida numa das cortinas superiores do palco,
respeitando-se a ordem oficial tendo a Universidade de Santa Maria a condição de
anfitriã.
A manutenção do púlpito, em contra-senso com o estilo anteriormente
assinalado, foi um artifício tanto para ordenar a visualização da platéia sobre o
fluxo informativo do evento quanto para permitir suficiente espaço para manejo e guarda
de materiais pelo apresentador.
Emissão de Convites
Os convites
foram emitidos em dois lotes e por processos variados, a partir de uma listagem de
convidados especiais da solenidade de abertura.
Autoridades
ligadas a UFSM, Prefeitura Municipal e Câmara Municipal de Vereadores, patrocinadores,
apoiadores e diretores e repórteres de veículos de comunicação receberam o programa
completo e o convite solicitando sua entrega na portaria como condição de acesso. Esse
controle foi combinado a posterior com a equipe de recepção.
Conferencistas,
presidentes de mesa e autoridades máximas dos órgãos promotores do evento receberam o
crachá de acesso permanente e o convite.
Os crachás
foram preenchidos manualmente com a proposta de maior aproximação/intimidade com os
colaboradores. Ambos os textos dos convites demarcavam a necessidade de confirmação de
presença na noite de abertura, através de telefones e atendentes previamente contatados
e orientados.
As autoridades que seriam convidadas à participação no palco foram
informadas diretamente ou pela equipe do evento através dos telefonemas. Os convites
foram entregues, na absoluta maioria, de forma pessoal pelo Mestre de Cerimônias, sendo
alguns enviados pelos correios.
Ordem de Precedência
Foram planejadas três possibilidades de
ordenação das autoridades a serem confirmadas nas banquetas da cerimônia, tendo a UFSM
como anfitriã e o Mestrado em Letras como co-anfitrião. Todas a banquetas foram
sinalizadas para correta execução do protocolo. Marcadores de mesa foram confeccionados
especialmente para os membros da mesa de trabalhos, além de cuidados com microfones,
copos dágua etc.
Recepção dos Convidados
Os convidados especiais da abertura,
portadores de crachás ou convites, foram encaminhados para filas nobres da platéia,
previamente sinalizadas e indicadas. As autoridades convidadas para subir ao palco foram
recepcionadas pelo Mestre de Cerimônias, a quem coube orientar a "Ordem do Dia"
e localizar cada componente. O assento foi indicado com sinalizadores. Fez-se também o
registro da presença na platéia de autoridades.
Ordem do
Dia
Após pesquisa em fontes impressas e
eletrônicas sobre a temática do evento, e a partir das necessidades básicas expressas
pela coordenação, passou-se para a redação dos textos das quatro noites de discussão.
Levou-se em conta o caráter informativo
introdutório, dados institucionais da promoção e apoio, currículo de cada
conferencista e apresentação dos presidentes de mesa e mediadores, programação do dia
seguinte, avisos relativos a crachás, festas e intervenções teatrais e certificados,
homenagens especiais, agradecimentos e entrega de kits com publicações.
PROGRAMAÇÃO OFICIAL
Dia 25 de maio de
1998
 | 20 horas
 | Abertura do Evento.
|
 | Intervenção Teatral do Grupo de Artes
Cênicas do CAL/UFSM, com o seqüestro do "Mestre de Cerimônias".
|
|
 | 21 horas
 | "Barricadas do Desejo"
conferência com Olgária Matos (Filosofia/USP), presidida Ronai Pires da Rocha
(Filosofia/UFSM).
|
|
Dia 26 de maio de 1998
 | 12 horas
 | Exibição do documentário "Maio de
68", da TV Cultura de São Paulo, seguida de debates.
|
 | Intervenção Teatral: desfile com pernas de
pau e fantasias.
|
|
 | 20 horas
 | "Maio 68: A Política na Forma de
Palavras" conferência com Antônio Fausto Neto (ECO/UFRJ), presidida por
Pedro de Souza (Letras/UFSC).
|
|
 | 21 horas
 | Show Musical com repertório comentado da
época.
|
|
Dia 27 de maio de 1998
 | 12 horas
 | "O Movimento Estudantil Universitário
em Santa Maria" conferência com Antônia Leite Martins (História/UFSM),
presidida por Vitor Biasoli (História/UFSM).
|
 | Intervenção Teatral: desfile da "Miss
Santa Maria 68", em alusão a despolitização local na época.
|
|
 | 13 horas
 | Comunicação Livre.
|
|
Dia 28 de maio de 1998
 | 12 horas
 | Exibição do vídeo "15 Filhos"
seguida de debate.
|
|
 | 20 horas
 | "l968: Um Ano Ímpar"
conferência com Robert Ponge (Letras/UFRGS) presidida por Pedro Brum Santos
(Letras/UFSM).
|
|
 | 21 horas
 | "Silêncio
e Memória nos Limites dos Sentidos"
conferência com Eni Orlandi (Letras/UNICANP) presidida por Amanda Eloina Scherer
(Letras/UFSM).
|
 | Intervenção Teatral: a questão da
liberação sexual e do movimento feminista.
|
|
Dia 29 de maio de 1998
 | 13 horas
 | Café Acadêmico "Sessenta (e Oito) na
Mesa" depoimento de personalidades locais atuantes na época.
|
 | Intervenção Teatral: sátira ao país do
futebol e do carnaval.
|
|
 | 20 horas
 | "Utopia Possível"
conferência com Marcos Rolim (Jornalista e Deputado Estadual) presidida por Orlando
Fonseca (Letras/UFSCM).
|
 | Intervenção Teatral: simulação do enterro
do estudante brasileiro Ronaldo Mota (Física/UFSM).
|
|
 | 21 horas
 | "O Território Flutuante"
conferência com Teixeira Coelho(ECA/USP) presidida por Ronaldo Mota (Física/UFSM).
|
|
ATIVIDADES
PARALELAS
Publicação
Edição, em novembro de l998, de um livro
com os textos das conferências e dos depoimentos do evento.
Jornal Fora de Pauta
Edição de um número de jornal
laboratório de Curso de Comunicação Social da UFSM, alusivo aos 30 anos do Movimento de
Maio de 68.
Rádio Ativo
Veiculação de dois programas
radiofônicos com temáticas alusivas ao Movimento de Maio de 68, nas duas últimas
quartas-feiras de maio, das 17 às 19 horas, na Rádio Universidade.
FORMAS DE
AVALIAÇÃO
Os resultados
alcançados com a realização do "Utopias & Distopias: 30 anos de Maio de
68" foram medidos através de instrumentos básicos da área de Relações Públicas,
como:
 | número de
inscritos e participantes;
|
 | observações
feitas durante o evento;
|
 | reação dos
participantes;
|
 | reuniões da
equipe de realização e com os promotores;
|
 | análise do
clipping;
|
 | comentários
informais;
|
 | correspondências
recebidas.
|
RESULTADOS ALCANÇADOS
O
"Utopias & Distopias: 30 anos de Maio de 68" aconteceu, justamente, em meio
a uma greve das universidades federais. Esse fato, aliado à situação política do
país, fez com que o evento tomasse uma proporção ainda maior do que a esperada pela
equipe realizadora.
Em primeiro
lugar, cabe destacar que o "Utopias" teve 270 inscritos e uma média de 600
participantes, já que as atividades realizadas no Campus da UFSM eram abertas à
comunidade.
Considerou-se
expressivo o número de inscritos já que o Theatro Treze de Maio, onde foram realizadas
as conferências, dispõe apenas de 300 lugares. Este é um número relevante também se
considerarmos a situação de greve e o conseqüente esvaziamento que ela provoca,
principalmente em se tratando de uma cidade primordialmente universitária, como é o caso
de Santa Maria.
É
interessante destacar que, dentre os participantes do evento (inscritos ou não), estava
presente um número expressivo de estudantes universitários e do segundo grau, que
tiveram uma participação ativa feita por intermédio de questionamentos aos
conferencistas e debatedores do "Utopias". Isso se deve, em parte, pelo
interesse que a iniciativa despertou nos professores da UFSM (em greve de ocupação), de
escolas e de cursinhos pré-vestibular da cidade.
Com o
"Utopias & Distopias", Santa Maria (cidade localizada fora do eixo dos
grandes centros) pôde receber conferencistas importantes do país que, além das
participações previamente agendadas no evento, se dispuseram a realizar reuniões com
grupos de professores e estudantes de pós-graduação da Universidade.
O
envolvimento em geral da comunidade universitária e santa-mariense também merece
destaque, principalmente dos mediadores, debatedores e personalidades convidadas para
fazer parte da tarde de depoimentos pessoais no Café Acadêmico "Sessenta (e
Oito) na Mesa".
A idéia de
organizar um evento pouco convencional para o meio acadêmico, usando recursos como
montagem de cenários, projeção de imagens de Maio de 68 através de datashow,
veiculação de músicas da época nos intervalos, quebra de "cerimonial", show
musical e intervenções teatrais, certamente colaborou para que o público se
sensibilizasse e se envolvesse mais com as atividades propostas.
Mais do que
assistir a um evento é necessário ser tocado por ele e, nesse sentido, o
"Utopias & Distopias" parece ter alcançado plenamente seus objetivos.
Acredita-se que essas "improvisações" a que o público foi submetido, tendo,
por exemplo, que cantar trechos de música quando interpelado pelo "Mestre de
Cerimônias" (com um microfone sem fio), foi uma demonstração de que, naquele
momento, como há trinta anos, era "proibido proibir".
Foi
praticamente consenso entre os promotores e organizadores a avaliação de que o evento,
com todas as suas conferências e com a apresentação de documentários seguidos de
debates, foi muito mais do que uma "aula" para seus participantes. Também
aflorou a importância de registrar os fatos da época, principalmente os relacionados à
Santa Maria e à sua Universidade, antes que informações preciosas se perdessem sem que
pudessem servir, de alguma forma, para as pesquisas acerca dessa época que estão sendo
ou podem vir a ser desenvolvidas nas mais diversas áreas do conhecimento.
Além da
programação oficial, que constou do prospecto, a equipe procurou tornar público todo
material que reuniu acerca do tema após ter fechado a programação do evento. Vale
destacar a participação da comunidade na "construção" do evento, por meio de
sugestões e entrega de materiais diversos. Com isso, por exemplo, após os vídeos e
debates realizados no Caixa Preta do Centro de Artes da UFSM, pôde-se projetar para os
presentes entrevistas gravadas em vídeo com o líder do Movimento de Maio de 68, Daniel
Cohn-Bendit, com a atriz Ítala Nandi e com o compositor Caetano Veloso.
Uma forma
eficaz de avaliar o evento foi conseguida pelo o clipping, que reuniu cerca de 45
matérias, notas e referências ao evento. A cobertura feita pela imprensa local
certamente fornece uma visão geral do evento e de sua repercussão.
As correspondências recebidas após o "Utopias & Distopias",
principalmente daqueles que participaram ativamente, são também um demonstrativo
concreto de que não houve somente um evento local. Destaca-se que as correspondências
recebidas caracterizam a importância do evento como estratégia para a solidificação de
uma imagem positiva da Universidade Federal de Santa Maria junto à opinião pública e,
mais especificamente, a líderes de opinião no meio acadêmico (os próprios
conferencistas). Manifestações diversas de outras instituições de ensino e comunidade
local e regional, também são um demonstrativo do reconhecimento pelo trabalho realizado.
RELAÇÕES
PÚBLICAS
No que se refere à sua contribuição para as Relações Públicas, o evento
caracterizou-se como uma oportunidade de dissociar a área de esteriótipos que lhe são
atribuídos e que entravam a abertura do mercado em certos setores.
Foi uma oportunidade de demonstrar a capacidade dos profissionais de
Relações Públicas em adequar estratégias e valorizar as particularidades das mais
diferentes instituições, clientes, temáticas e públicos.
Este case difundiu e inseriu as Relações Públicas em setores que,
por desconhecimento ou preconceito, são, por vezes, resistentes a área. Demonstrou ser
essa atividade adequada para atuar em campos que vêm se expandindo, como a organização
de eventos e a produção cultural.

Transcrição
adaptada dos registros existentes no CONRERP 2ª Região São Paulo/Paraná
|