Campanhas de Opinião Pública

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O ANFITEATRO DO CENTRO DE ARTES E LETRAS É UMA CAIXA PRETA

 

Organização

Universidade Federal de Santa Maria – Faculdade de Comunicação

Profissionais Responsáveis

Gisele Marchiori Nussbaumer e Jocélia Mainardi

Ano da Premiação

1995

 

INTRODUÇÃO

Quando iniciamos nossas atividades de Relações Públicas no Anfiteatro do Centro de Artes e Letras (CAL) da Universidade Federal de Santa Maria/RS, em 1992, como coordenadoras de uma equipe multidisciplinar que passou a ser responsável pelo local, o resultado da análise da situação que realizamos nos levou à conclusão de que um de seus problemas mais contundentes era justamente o nome.

Isso porque o Anfiteatro do CAL não foi concebido com a proposta de ser um anfiteatro comum. Mais do que isso, é um espaço destinado à cultura, o que é perceptível já na observação de sua proposta arquitetônica, ou seja, ele não possui aquela estrutura ascendente e estática característica dos anfiteatros e auditórios. Ao contrário disso, o local apresenta um espaço cênico totalmente modulável, pois não possui palco ou platéia fixos. Essas estruturas são montadas através da utilização de módulos, que podem ser dispostos das mais diversas formas.

Assim, muito mais do que um nome que não "combinava" com o espaço, a denominação "Anfiteatro do CAL" causava uma confusão conceitual que prejudicava a formação do conceito/identidade do espaço junto a seu público.

ESTRATÉGIAS

A partir disso, passamos a trabalhar na concepção e planejamento de uma campanha de mudança de nome. A princípio, não sabíamos se a campanha deveria ficar restrita ao público do Centro de Artes e Letras ou se deveria abranger toda a comunidade universitária e santa-mariense. Isso porque uma campanha de grande porte poderia redundar num enorme fracasso se não despertasse a vontade do público em participar. Ela poderia ficar pulverizada, enquanto que, se fizéssemos uma campanha interna, a probabilidade do que ela fosse bem-sucedida era bem maior, já que ali o espaço era mais conhecido.

Como o anfiteatro havia sido inaugurado em 1988 e havia iniciado suas atividades em 1990 ainda de uma maneira meio restrita, em 1993 ele não era muito conhecido nem dentro da Universidade, nem fora dela. Mesmo assim, nós optamos por realizar uma campanha mais abrangente porque acreditávamos que seria uma oportunidade única de promover uma aproximação mais efetiva entre o espaço e seus diversos públicos e de alcançar um comprometimento dos mesmos com um espaço para qual ele dariam um nome. Chegamos à conclusão, também, de que aquele não era o momento certo para realizarmos essa campanha, pois, para garantir seu sucesso, teríamos antes de tornar o espaço mais conhecido pela maior parte da comunidade local.

Com esse objetivo, passamos a desenvolver uma intensa agende de eventos e projetos culturais destinados aos mais diferentes públicos. Trouxemos os shows do cantor Vitor Ramil e "Cida Canta Chico", de Cida Moreyra; os espetáculos teatrais "Clown" e "Kelbilin", do Grupo Lume, de Campinas; "O Império das Meias Verdades", do polêmico diretor teatral Gerald Thomas (com Fernanda Torres); "Immagini Parata" e "Sogni Di Marinai", do Teatro Potlach, da Itália; "Indian Ensemble", da bailarina indiana Sanjukta Panigrahi e orquestra, entre outros. Visando ampliar o público do Anfiteatro do CAL, realizamos também oficinas para terceira idade e alunos de segundo grau.

Dentre todas as atividades desenvolvidas para tornar o espaço mais conhecido, destacamos dois projetos culturais gratuitos que tiveram bastante repercussão, principalmente, junto ao meio acadêmico.

O primeiro é o projeto "Terça Cultural", através do qual eram realizadas, todas as terças-feiras, apresentações culturais diversas como músicas, teatro, dança e poesia.

O segundo projeto é o "Quinta Versão", quando, todas as quintas-feiras, professores e especialistas reconhecidos discutiam com o público questões de interesse geral com cultura, política, utopia, violência, literatura, ensino, entre outros temas que passaram aos poucos a serem sugeridos pelos próprios participantes.

Esses eventos fizeram com que o então anfiteatro fosse veiculado no principal jornal local, pelo menos duas vezes por semana, na capa do caderno de cultura. Da mesma forma, os eventos promovidos receberam o apoio das emissoras de televisão locais e das rádios FM. A partir disso, o espaço passou a ser reconhecido como um importante pólo gerador e difusor de cultura.

Em 1993, acreditamos que o espaço já tinha alcançado respaldo suficiente junto à comunidade santa-mariense para realizar a campanha com sucesso.

OBJETIVOS

Conceder ao Anfiteatro do Centro de Artes e Letras (CAL), espaço cultural da Universidade Federal de Santa Maria/RS, um nome mais condizente com sua proposta arquitetônica e cultural.

Realizar uma campanha de opinião pública que envolvesse toda a comunidade santa-mariense na sugestão e escolha do novo nome, de forma a possibilitar uma aproximação mais efetiva entre o Anfiteatro do CAL e seus diversos públicos.

Despertar o comprometimento dos diversos públicos para com um espaço cultural para o qual eles dariam um novo nome.

Possibilitar uma divulgação intensiva do espaço junto à imprensa e comunidade local.

EXECUÇÃO

A execução da estratégia proposta foi desenvolvida em duas etapas. A primeira, a qual convencionamos chamar "Pré-Lançamento", diz respeito ao trabalho de divulgação feito com a imprensa local. A segunda, fase de "Lançamento", refere-se à realização da Campanha de Opinião Pública, propriamente dita, tendo como público-alvo a comunidade de Santa Maria.

Pré-Lançamento

Como o Anfiteatro do Cal, antes mesmo de ter seu nome mudado para CAIXA PRETA, já era assim denominado por alguns de seus usuários mais próximos – devido a sua estrutura arquitetônica, inspirada no modelo norte-americano Black Box – optou-se por fazer alusão a esse nome na divulgação da Campanha.

Iniciou-se o trabalho tendo como alvo principal a imprensa santa-mariense, por ser necessário conquistar o apoio dos jornalistas e seus veículos de comunicação para garantir o sucesso da campanha.

A divulgação junto à imprensa local teve início com o envio de teasers – textos feitos com o intuito de despertar curiosidade, sem explicitar o motivo de seu envio ou o fato que esconde – que chegavam todos os dias, no mesmo horário, nas mãos de jornalistas, editores, chefes de redação, locutores e apresentadores de todos dos principais veículos de comunicação locais.

O primeiro teaser fazia alusão às mais diferentes aplicações do termo CAIXA. O segundo teaser, enviado no dia seguinte, mostrava as diversas concepções da palavra PRETO e prometia que cada um receberia sua caixa preta no dia posterior. No terceiro dia, conforme prometido, foi enviada uma pequena caixa preta confeccionada em papel cartão, acompanhada de um bombom e um bilhete informando quando haveria novo contato.

No dia marcado, foi entregue o terceiro e último teaser, acompanhado pelo primeiro folder da campanha, que ainda não continha informações sobre a mesma, apenas explicava o que era o Anfiteatro do Cal e qual era sua proposta de ação cultural. No mesmo período, o folder 1 foi distribuído para a comunidade como forma de fornecer subsídios para a fase de votação da campanha. No teaser que acompanhava o folder, entregue à imprensa, a revelação de que o mistério da caixa preta seria desvendado em poucos dias.

Na data marcada, chegou às mãos de todos os jornalistas o kit completo com as peças gráficas produzidas para a campanha: folder 1, folder 2 e cartaz, junto a uma detalhada explicação de seus objetivos e a forma de participação. Esse material foi, na Fase de Lançamento, distribuído para a comunidade santa-mariense, como será demonstrado a seguir.

Essa primeira fase da Campanha, a qual chamamos de Pré-Lançamento, garantiu uma divulgação bastante eficiente para a continuidade do trabalho. Vale destacar, inclusive, que a própria estratégia de criar suspense e despertar a curiosidade dos jornalistas através dos teasers mereceu destaque no principal jornal local.

Lançamento

Cumprida a primeira fase da Campanha, a equipe de Relações Públicas passou a desenvolver as ações planejadas para buscar a participação da comunidade santa-mariense na Campanha de Opinião Pública para a mudança do nome do Anfiteatro do Cal.

Para isso, foram confeccionados enormes painéis em forma de mosaico utilizando os cartazes, o que produziu um grande impacto visual e despertou a curiosidade do público. Esses painéis foram colocados no Campus da UFSM e no centro da cidade, tendo permanecido nos locais por alguns dias.

Criada a expectativa, a equipe iniciou a distribuição das urnas, em formato de grandes caixas pretas, nos principais pontos da Universidade Federal de Santa Maria e no centro da cidade. No período de uma semana, a equipe fez a distribuição massiva do segundo folder, que continha o cupom para a sugestão do nome. Esse cupom também foi publicado diariamente no jornal A Razão, para que o maior número possível de pessoas pudesse participar.

Durante esse período, a comunidade santa-mariense pode depositar suas sugestões, a partir das quais, a Comissão do Anfiteatro do Cal selecionou os dez melhores nomes, dentre os quais seria escolhido o nome definitivo para o anfiteatro.

Selecionamos os dez nomes que iriam concorrer, a equipe integrou-se à comissão organizadora do "Natal Santa Maria", evento tradicional promovido pela prefeitura do município, que acontece todos os anos na praça principal da cidade e reúne milhares de pessoas.

Assim, o Natal Santa Maria 93 foi escolhido como palco para a votação popular e a divulgação do novo nome do espaço. Para tanto, a equipe montou quatro painéis com os dez nomes selecionados, e colocou uma enorme urna preta no centro da praça para que a comunidade depositasse seus votos.

A presença de pessoas representativas dos públicos com os quais o anfiteatro se relaciona foi garantida através do envio prévio de convites personalizados. A votação do nome foi feita durante a apresentação das atividades culturais programadas, quando a equipe, uniformizada de preto e identificada com crachás, distribuía cupons e os recolhia, já preenchidos, com pequenas urnas itinerantes.

Cupom de Votação

O estimulo à participação foi feito no palco montado na praça, durante os intervalos das atividades culturais, pelos próprios artistas.

Ao final do evento, a equipe anunciou o novo nome do Anfiteatro do Cal a partir de 1994: "Caixa Preta". Como premiação, aqueles que haviam sugerido esse nome ainda na primeira fase da campanha, ou seja, antes da seleção das dez melhores sugestões, ganharam uma carteira de livre acesso a todas as atividades promovidas pelo Caixa Preta em 1994.

FORMAS DE AVALIAÇÃO

Os resultados alcançados com o trabalho da equipe de Relações Públicas no Anfiteatro do Centro de Artes e Letras da Universidade Federal de Santa Maria foram avaliados da seguinte forma:

reuniões periódicas com a Direção e Equipe Multidisciplinar do Anfiteatro do Centro de Artes e Letras da UFSM;

participação do público nos eventos e projetos culturais desenvolvidos no espaço;

número de solicitações do espaço para realização de atividades culturais;

reação da imprensa às estratégias de divulgação;

análise do clipping de material publicado sobre o Anfiteatro do CAL e suas atividades;

coberturas espontânea da imprensa nas atividades culturais promovidas no espaço;

número de sugestões de nomes para o Anfiteatro do Centro de Artes e Letras;

participação do público na escolha definitiva (votação) do novo nome para o espaço.

RESULTADOS ALCANÇADOS

A "Campanha de Opinião Pública: o Anfiteatro do Centro de Artes e Letras é uma Caixa Preta" foi planejada não só com o objetivo de conceder ao espaço um nome mais condizente com sua proposta moderna e exclusiva, mas também, como uma forma de promover a aproximação entre o Caixa Preta e seu público.

Ambos os objetivos fora plenamente alcançados através do envolvimento do público em geral que participou com cerca de 600 sugestões de nomes, um número bastante considerável para uma cidade de interior do porte de Santa Maria, feitas através dos cupons distribuídos ou publicados no principal jornal local – A Razão. Outro demonstrativo da eficiência da campanha foi o fato de o público ter lotado a praça no evento de encerramento da mesma, votando em massa em seus nomes preferidos. Cabe destacar, inclusive, que se formaram "torcidas" que faziam suas "próprias campanhas" em favor de um ou outro nome.

O sucesso da campanha pode ser avaliado, ainda, pela reação da imprensa local ao trabalho de divulgação, que garantiu a intensa veiculação dos releases enviados e também a cobertura, não somente da campanha, mas de todas as atividades realizadas no espaço posteriormente.

Acreditamos que a criatividade da estratégia de divulgação foi de extrema importância para o sucesso da Campanha, tendo sido responsável pelo apoio da imprensa e, conseqüentemente, pela participação da comunidade, que teve a oportunidade de escolher o nome definitivo do Anfiteatro do Cal. E, quando falamos de criatividade, nos referimos à solução de problemas como, neste caso, a falta de divulgação do Anfiteatro junto `a mídia local.

A utilização de instrumentos pouco usuais em Relações Públicas, como os teasers, foi fundamental na conquista da imprensa e revelou-se uma estratégia eficiente e de baixo custo. Isso demonstra que nem sempre basta fazer "divulgação" ou "assessoria de imprensa", é necessário desenvolver estratégias de "relacionamento com a imprensa", tarefa que cabe, por competência e afinidade, à área de Relações Públicas.

Acreditamos que, a partir desse trabalho de Relações Públicas, as comunidades universitárias e de santa-marienses passaram a ter um conceito do espaço mais condizente com sua proposta, o que certamente as estimulou a prestigiar mais intensamente os eventos nele promovidos.

Essa afluência de público aos eventos resultou num crescimento das solicitações para utilização do espaço e para a realização de parcerias em produção cultural, tanto à nível local, como regional.

Somado a isso, o respaldo do público frente à multiplicidade de atividades culturais desenvolvidas produziu um maior reconhecimento do Caixa Preta junto à Direção do Centro de Artes e Letras e Administração Central da Universidade Federal de Santa Maria, que passaram a se comprometer mais com suas necessidades.

Como resultado do trabalho desenvolvido no local durante dois anos, que culminou com a "Campanha de Opinião Pública: o Anfiteatro do CAL é uma Caixa Preta", a Presidente do Caixa Preta, Profa. Beth Lopes, recebeu o Prêmio "Personalidade Cultural de Santa Maria", concedido pela Prefeitura Municipal, em julho de 1994. Esse prêmio foi uma forma de reconhecimento do poder público local quanto à relevância das atividades culturais promovidas no local e proporcionadas à comunidade santa-mariense; ou seja, o reconhecimento à um trabalho coordenado e executado por profissionais e estudantes de Relações Públicas.

Todos esses fatos demonstram que o potencial latente do espaço pode se desenvolvido a partir de um trabalho de ação e difusão cultural, fundamentado no esforço consciente e planejado de sua equipe de Relações Públicas.

Transcrição adaptada dos registros existentes no CONRERP 2ª Região – São Paulo/Paraná