DESATIVAÇÃO
DO FUSCA
Organização
Volkswagen
do Brasil
Profissional
Responsável
Paulo
José Dutra de Castro
Ano
da Premiação
1986
Em 27 anos de mercado brasileiro, o Fusca rodou quase todo tempo
imbatível. É um produto que passou a fazer parte do cotidiano e das emoções do povo
brasileiro. Fica então a pergunta:
Como desativar um produto símbolo do desenvolvimento econômico e
industrial brasileiro, que já é parte integrante da vida de milhões de pessoas, cujo
valor afetivo e emocional caracterizam o "evento" como sendo um fato muito mais
social do que mercadológico?
A Volkswagen tinha consciência do problema e para tanto foi
necessário estabelecer uma estratégia correta, observando todos os públicos envolvidos
para que a imagem da empresa não fosse desgastada e, ainda, dentro das possibilidades,
procurar capitalizar para a marca atributos positivos com relação aos outros modelos da
linha.
Deve-se ressaltar o ineditismo do evento uma campanha de
Relações Públicas tendo como tema a desativação de um produto, o que representa
principalmente, uma conquista para os profissionais da área de Relações Públicas,
comprovando, mais uma vez, a necessidade do setor na interação com os diversos setores
da empresa, e a eficiência com relação junto à opinião pública.
O
FATOR SURPRESA
O ponto principal de toda campanha foi o sigilo absoluto da notícia,
fundamental para alcançar os objetivos propostos, evitando-se rumores e boatos
infundados, como: dispensa de funcionários; incompreensão e desmotivação interna e
mesmo emissão de conceitos e pontos de vista puramente pessoais e em desacordo com a
"linha de pensamento e atuação" da direção da Empresa.
Inicialmente foi constituída uma equipe composta pela Diretoria de
Marketing, Diretoria de Relações Públicas/Imprensa e Diretoria da Agência de
Propaganda ALMAP. Aprovado, ficou com a Diretoria de Relações Públicas a coordenação
do "evento".
O
PROBLEMA
Apesar do Fusca ter sido "parte" da família brasileira,
uma nova realidade brasileira demonstrou que dentro do processo de fabricação, o Fusca
acabou de transformando num "produto artesanal", e praticamente "fora de
série".
Aliado a esses problemas de custo/produção, existe também o
aspecto comercial: se em 1972 o Fusca participava com 48,8% no total de carros de passeio
vendidos, em 1986 essa participação estava reduzida para 3,9%. Nada mais coerente do que
retirar o produto do mercado o grande problema é que este produto chamava-se
Fusca.
Pela complexidade da questão, seria praticamente impossível
"surpreender" os mais variados tipos de público com a notícia de paralisação
da produção, assim sendo optou-se pela "surpresa da notícia" com quatro meses
de antecedência.
O
DIA "F"
O dia 11 de agosto de 1986 foi a data escolhida para que todos os
envolvidos no processo de divulgação realizassem, de forma coordenada, as ações
planejadas. Somente para a área governamental houve a antecipação da informação.
Houve uma preocupação tanto com o público externo como interno.
Para a imprensa foi elaborado um press kit, e enviado a todos os jornalistas
especializados do país, sendo que o comunicado oficial foi feito através de telex a toda
a imprensa brasileira. E, ainda, a Agência de Propaganda que atende a Volkswagen
Alcântara Machado, Periscinoto Comunicações, foi acionada para que tivesse à
disposição dos jornalistas todo o material referente ao Fusca.
Os públicos interno e o misto, ou seja, os executivos e a rede de
concessionários, foram avisados por intermédio de reuniões, posicionando-os sobre o
assunto. O house organ, Jornal da Gente, no dia 12 de agosto foi
distribuído aos funcionários, com a matéria de capa sobre o assunto.
UM
FINAL FELIZ
Com todos os detalhes o evento teve realmente um "Final
Feliz", já que toda a imprensa anunciou com muito ênfase e impacto a
descontinuidade da produção do Fusca. Apesar de alguns "apelos emocionais",
destaques de alguns noticiosos, a força maior da notícia sempre foi o avanço
tecnológico da empresa, em relação à produção de seus outros modelos.
O que veio solidificar o sucesso alcançado pela ação foi também
as manifestações de inúmeras empresas, das mais variadas atividades, que aproveitaram a
oportunidade para veicularem anúncios em jornais e revistas, adequando os respectivos
produtos às homenagens e comentários positivos sobre o Fusca.
Podemos afirmar que a retirada do Fusca do mercado teve realmente um
"Final Feliz", graças a eficiência dos profissionais de Relações Públicas
que souberam explorar o "evento" com muito bom senso.

Originalmente publicado no Catálogo
Brasileiro de Profissionais de Relações Públicas, São Paulo, v. 8, não pag.,
1986, editado pelo CONRERP 2ª Região São Paulo/Paraná