A LAGOINHA: UM CASO ÚNICO
Os últimos boêmios de Belo Horizonte não se esquecem da velha Lagoinha,
um bairro de limites difusos mas de características marcantes. Escondida
pela rodoviária, cortada por viadutos e radicalmente transformada com a
chegada do trem metropolitano, a Lagoinha foi, até dez ou quinze anos
atrás, o reduto de seresteiros, dançarinos e amantes da noite de Belo
Horizonte. Ali, a menos de um quilômetro do centro da cidade, a vida era
outra. O bairro praticamente vivia à margem da capital, com seu comércio
agitado, os botequins sempre abertos e cheios, com as pensões, o ribeirão
Arrudas, o mercado, as farmácias, os camelôs, as delegacias, o barulho do
trem do subúrbio e cinemas.
Esta paisagem era emoldurada, no lado oposto, pela rotina dos bairros
da Graça, Colégio Batista, concórdia e um pedaço da Floresta, separados da
Lagoinha por uma colina, e que, ainda hoje, abrigam típicas famílias de
classe média com uma tranqüilidade própria das cidades do interior.
Espremida entre esses bairros e o centro de Belo Horizonte, a Lagoinha
fervilhava dia e noite, na pura boemia, e se perdeu no crescimento da
cidade que, inevitavelmente, pediu passagem para estender-se às regiões
que o bairro dividia.
A Lagoinha boêmia começou a morrer com a construção dos viadutos que
ligam o centro de Belo Horizonte à zona norte da cidade e recebeu o golpe
de misericórdia com o trem metropolitano, que determinou a construção de
modernas plataformas de embarque e desembarque, bem no coração do bairro,
atrás da rodoviária. O lugar ainda carrega o nome, mas a sua marca
registrada só existe mesmo na lembrança de boêmios renitentes, como os
escritores Wander Pirolli (que se orgulha de ter sido ali criado) e Manoel
Lobato (que ainda hoje mantém uma procurada farmácia nas entranhas do
bairro). O mercado e os cinemas foram implodidos e substituídos pelas
plataformas do metrô, muitas pensões fecharam, o Arrudas foi canalizado.
A Região
Foi assim que o governo de Minas e a prefeitura de Belo Horizonte
encontraram a região onde se localizava o único túnel da cidade quando
decidiram duplicá-lo, em 1984. Construído em 1971, para abrir a colina que
dividia os bairros e escoar o trânsito do centro e da zona sul para as
regiões leste e norte, o Túnel Lagoinha-Concórdia tornou-se pequeno para
atender à demanda do tráfego no local na década de 80.
O velho túnel dava vazão estratégica ao trânsito de veículos do centro
para a Pampulha, na direção do aeroporto, e vários municípios
"dormitórios", como, por exemplo, Sabará e Santa Luzia, além de 104
bairros das regiões leste e norte. Uma considerável faixa da população
passa por ali, obrigatoriamente, todos os dias, usando a Avenida Cristiano
Machado, que liga o centro a esses bairros. A passagem antiga era o ponto
de gargalo e congestionamento, pois "afunilava" esta avenida no seu
início, logo na saída do bairro Concórdia para o centro. Por tudo isto, a
duplicação do Túnel da Lagoinha era uma obra muito reclamada em Belo
Horizonte e do interesse de praticamente toda a população.
Ela beneficiou diretamente 1.200.000 pessoas, desafogando o trânsito do
centro para as regiões norte e leste. Com a inauguração prevista
inicialmente para fevereiro de 1987, e antecipada em três meses, a
Prefeitura de Belo Horizonte executou um dos mais importantes
empreendimentos de complementação do sistema viários da cidade. O novo
túnel foi construído em dois níveis, com 400 metros de extensão,
aumentando o fluxo de ônibus de 78 para 300 por hora. A obra incluiu
também a construção de quatro viadutos – três na direção centro-bairro,
dano acesso ao nível superior, e o quarto na direção bairro-centro,
possibilitando a saída do primeiro túnel. No sentido bairro-centro,
permitiu melhor acesso a uma das estações centrais do metrô de superfície
da capital, que, numa segunda etapa, irá percorrer sete bairros do setor
oeste, inclusive a Cidade Industrial.
A Comunidade
Quando a duplicação do túnel foi iniciada, não só a Lagoinha mudara.
Uma forte concentração de casas e prédios construídos em cima da colina
marcava a realidade geográfica da área, estando os bairros ao redor
densamente povoados. Eles mantinham, entretanto, a característica
residencial que dava aos seus moradores o privilégio de uma rotina típica
das pequenas cidades do interior, em pleno centro da capital.
Também a realidade política do país era outra. Os pacatos bairros,
inseridos num quadro social conquistado por uma tímida, mas inegável
organização popular, desfrutavam de uma expectativa crescente de
participação da comunidade nos assuntos que lhe diziam respeito.
Além disso, uma outra situação marcava esse quadro. A construção do
primeiro túnel afetou profundamente a comunidade, impedida de manifestar
seus receios e insegurança com os efeitos da obra em suas moradias e o
impacto de explosões de dinamite para abrir a rocha. Realizada numa época
politicamente fechada, com a imprensa censurada, aquela obra, por mais
necessária, deixou marcas sérias nos moradores, como mostra o depoimento
do diretor do Colégio Batista Mineiro, professor Armindo de Oliveira
Silva, dezesseis anos depois:
"Eu presenciei em 71 a abertura da primeira boca do túnel e naquela
época foi muito danoso. Eu morava muito mais longe – no alto da Rua
Pitangui – e lá houve muitas danificações, sobretudo de vidros quebrados
com estilhaços e pedras..." (junho de 1987).
A Obra
Vencendo a concorrência pública para executar a duplicação do túnel em
junho de 1984, a Construtora Andrade Gutierrez iniciou a implantação do
canteiro de obras em outubro daquele ano.
Além de ser uma obra urbana com longa duração e executada em pleno
centro de uma capital, a realidade geográfica, social e política
encontrada conferia-lhe uma alta singularidade. Apesar do "know-how" da
Construtora, as características e a história da comunidade próxima à
Lagoinha e à Concórdia tornavam o trabalho um caso único, com a Andrade
Gutierrez "entrando na vida da gente", como dizia um morador.
A escavação em rocha exigia o uso permanente de explosivos, aumentando
os transtornos normais causados por uma obra comum, principalmente para os
moradores da área localizada logo acima da rocha. Outra grande parcela da
população, usuária do antigo túnel, seria também afetada pela necessidade
de paralisação do trânsito no local, por medida de segurança, em várias
etapas.
A interferência da obra se refletiria também no aspecto emocional das
pessoas pelo desconhecimento técnico do processo construtivo e pela
expectativa quanto às detonações de explosivos, vivas na lembrança da
construção do primeiro túnel. O susto e medo diante das explosões
reforçavam a ameaça vista pela comunidade nos supostos efeitos da
construção na sua rotina. Receio de abalo na estrutura das moradias mais
próximas e quebra de vidros, barulho, poeira e o trânsito alterado, tudo
contribuía para tornar o quadro da duplicação do túnel mais complexo,
merecendo da parte da Construtora e da Sudecap a consideração cuidadosa de
aspectos humanos e psicológicos que o compunham.
Com uma dimensão clara deste contexto e coerente com sua política,
pareceu básica à Andrade Gutierrez uma postura de absoluto respeito para
com a comunidade, adotando, juntamente com avançados métodos construtivos,
medidas especiais de segurança e não negando, nem desconhecendo, em nenhum
momento, os incômodos causados pela obra.
Para minimizar os incômodos e garantir a segurança da comunidade
próxima, as escavações foram feitas com carga de explosivos reduzida à
metade, ao contrário da abertura de túneis em regiões isoladas. Isto
evitou vibrações, deslocamento de ar, lançamento de pedras e
conseqüentemente, danos nos prédios e construções. Para medir o alcance
das vibrações, foram empregados aparelhos especiais, que indicavam a
quantidade adequada de explosivos.
A instalação de uma manta de borracha nas entradas do túnel foi outra
técnica utilizada para maior segurança dos moradores, impedido o vazamento
de material detonado para foram e reduzindo o barulho das explosões.
Algumas medidas, como estas, foram previstas no projeto da obra e muitas
outras, adotadas ao longo da construção, atenderam solicitação dos
moradores.
O PROGRAMA DE INFORMAÇÃO E ORIENTAÇÃO À COMUNIDADE
Em agosto de 1984, logo após a assinatura do contrato, a Andrade
Gutierrez, por meio de sua Coordenadoria de Comunicação Social, começou a
estruturar o Programa de Informação e Orientação à Comunidade, proposta
analisada e apoiada integralmente pela Superintendência de Desenvolvimento
da Capital – Sudecap, empresa municipal contratante da obra, e pela
Assessoria de Imprensa e Relações Públicas da Prefeitura de Belo
Horizonte.
Uma equipe de Relações Públicas passou então a assessorar diretamente a
chefia de obra, com dedicação exclusiva a partir de outubro, quando foi
instalado o canteiro de obras, numa ação integrada com a área de
engenharia da construtora.
A busca de um relacionamento respeitoso e de confiança com a comunidade
local foi o objetivo estabelecido para o projeto do Túnel da Lagoinha, que
apresentava características específicas também sob o ponto de vista de
comunicação. O propósito da Construtora, definido desde a primeira hora,
era que a obra fizesse parte da vida da comunidade e esta da obra, a
partir da compreensão dos problemas enfrentados pelos dois lados.
Metodologia
O primeiro passo da equipe de comunicação foi analisar as
especificações técnicas e construtivas da obra, a história da região, seus
aspectos geográficos e políticos, componentes sociológicos e psicológicos
e as formas de organização da população dos bairros próximos. Um ponto
básico neste sentido era a avaliação dos efeitos deixados pela construção
do túnel antigo, em 1971, que neste levantamento preliminar se sobressaiam
na história local.
A situação com a qual a equipe se deparava e o objetivo pretendido,
exigiram uma metodologia de trabalho bem definida, que teve, entretanto,
uma elevada margem de flexibilidade, permitindo à equipe rever e
construir, a cada fase, a estratégia e as ações de comunicação com a
comunidade.
Neste sentido, não se teve um plano formal de comunicação e sim um
instrumento inicial de planejamento com previsão de ações, ao qual se
seguiram relatórios contendo adequações em razão do caráter absolutamente
dinâmico que o programa adquiriu desde sua definição.
Conhecimento da Situação
O diagnóstico inicial da situação se deu por intermédio de reuniões
conjuntas da equipe do programa com a área de engenharia da construtora e
representantes da Sudecap (o cliente), quando se discutiram exaustivamente
todos os aspectos que caracterizavam a duplicação do túnel.
Dados fornecidos pela prefeitura, como número de moradores, entidades
locais, características físicas dos bairros e outros importantes subsídios
para o trabalho de campo, permitiram uma primeira identificação de
lideranças e o mapeamento de informações para o detalhamento da estratégia
de ação.
Segmentação de Públicos
A segmentação de públicos da comunidade e de outras áreas com interesse
na obra foi realizada nessa fase, mas o cadastro formado ganhou "vida" e
foi completado a cada etapa como desdobramento do propósito de que a
comunidade fizesse parte da obra e esta da vida dos moradores. Nessa
linha, as lideranças formais e informais puderam ser conhecidas de perto,
todas elas, durante a execução do programa, o mesmo acontecendo com os
moradores da área mais próxima ao túnel.
Uma classe média organizada e participante, trazendo vivas as marcas da
construção do primeiro túnel, a insegurança e uma forte tendência para
reações emocionais, absolutamente naturais nas pessoas diante de situações
como as previstas na escavação do túnel, era o quadro destacado no
conhecimento da situação, permitindo à equipe de comunicação prever até
mesmo a possibilidade de a obra ser embargada pela comunidade.
Durante a duplicação do túnel duas eleições seriam realizadas – uma
para a prefeitura e outra para o governo do Estado. Isto também foi objeto
de consideração, evitando posteriormente qualquer enfoque que
caracterizasse objetivos político-partidários na estratégia definida.
O Enfoque
Para estabelecer o relacionamento com a comunidade baseado na confiança
e na compreensão, o programa foi estruturado em três etapas que
acompanharam o cronograma construtivo e pautado num enfoque de Relações
Públicas, com ações de comunicação interpessoal basicamente e total
disposição da construtora para ouvir a comunidade, estimulando as pessoas
a falarem e a se manifestarem, trazendo suas reivindicações e incômodos
diretamente à administração da obra. Era fundamental, dentro disso, que os
moradores soubessem que seriam ouvidos e atendidos, estando aí a base da
credibilidade no entendimento da construtora.
Essas deveriam ser garantias concretas para a comunidade, tão evidentes
e asseguradas como as medidas adotadas na parte técnica. Para isto, a
sustentação do programa voltou-se para o diálogo, por meio de conversas
diretas da equipe de comunicação com os moradores, de porta em porta, no
canteiro de obras, em centros de reunião dos bairros próximos,
personalizando toda a comunicação e, principalmente, ouvindo as pessoas.
Sem persuasão, sem paternalismo e sem qualquer argumentação
político-partidária, a compreensão pretendida implicava também em que a
comunidade estivesse informada sobre tudo que fosse do seu interesse.
Unidade Interna
Uma unidade nas ações e na postura de todos os envolvidos num universo
tão amplo como o daquela construção parecia também fundamental para se
chegar ao objetivo pretendido. Entre engenheiros, técnicos, pessoal
administrativo e operários, uma comunidade menor, mas expressiva, de mais
de mil pessoas, se formava internamente no canteiro de obras. Também nesse
âmbito, o Programa de Informação e Orientação à Comunidade foi pautada
pelas mesmas diretrizes definidas para o relacionamento com a comunidade e
com os públicos externos.
A primeira preocupação voltou-se para a comunicação com o cliente –
prefeitura e Sudecap, iniciada na própria definição do programa.
As empresas subcontratadas para serviços específicos mereceram
abordagem na mesma linha, buscando-se uma unidade em todos os níveis. Para
os moradores e qualquer segmento do público externo era importante que a
obra fosse vista no conjunto e não como ação isolada da construtora, da
prefeitura ou do governo do Estado.
Um importante respaldo com o qual a equipe do programa contou foi o
cuidado da construtora com as condições de trabalho do corpo técnico e dos
operários, parte de sua política social e trabalhista em todas as obras.
Do alojamento para 300 empregados (com infra-estrutura completa),
passando por um programa de lazer nos horários livres (com a construção de
uma quadra de esportes no canteiro de obras), ao restaurante montado
especialmente para oferecer alimentação variada e de boa qualidade aos 800
funcionários, tudo esteve organizado para garantir o bem-estar das pessoas
que atuaram na construção.
Orientada por nutricionistas, a cozinha do túnel tornou-se modelo para
os padrões convencionais de empreendimentos desse tipo, fornecendo 1.000
refeições diárias, além de 650 lanches aos empregados, três vezes ao dia.
O treinamento operacional dos operários incluiu uma ampla abordagem de
aspectos de segurança do trabalho e especificidades da construção, de tal
forma que, durante toda a duplicação do túnel, não houve nenhum acidente
de trabalho com morte. A média numa obra como essa é de um acidente fatal
para cada 500 metros de escavação.
Eventos especiais como churrascos ao final de cada etapa importante da
construção e homenagem aos funcionários de 10, 20 e 30 anos na construtora
(normais na sua rotina) foram organizados, envolvendo, na maioria das
vezes, os moradores. Times de empregados, do cliente e dos bairros
próximos disputaram torneios esportivos, buscando-se também como essas
atividades, uma integração interna e com a comunidade.
A preocupação com os empregados por parte da Andrade Gutierrez teve
ainda um reflexo importante no que toca à postura e ao comportamento dos
operários, convivendo no dia-a-dia com a comunidade. O depoimento da Sra.
Cláudia Costa, proprietária de uma pequena indústria e moradora nas
imediações do túnel, reflete o relacionamento cordial estabelecido entre a
comunidade e os operários da obra:
"Eu tenho muito entrosamento com os operários aqui. Teve uma turma aí,
daqueles que me arrumaram água para molhar a rua, que eu trouxe aqui, dei
cerveja... sábado depois do serviço, à tarde... Gostaram muito daqui, eu
vi que se sentiram valorizados com aquele convite... Executaram as suas
ordens, mas eu acho que devia agradecer a eles..." (25/10/1985).
Pessoal, Verba e Acompanhamento
A coordenação do Programa de Informação e Orientação à Comunidade foi
entregue a uma profissional de Relações Públicas e de Jornalismo da
Coordenadoria de Comunicação Social da Construtora, com a gerência geral
da chefia do setor.
A execução ficou a cargo de uma profissional de Relações Públicas e de
uma engenheira civil, que atuaram diretamente na obra com o apoio do grupo
de profissionais de Jornalismo, Publicidade e Relações Públicas da área de
Comunicação da Andrade Gutierrez. A produção de peças gráficas e
audiovisuais usadas na comunicação dirigida com a comunidade e a
sinalização da obra, bem como uma campanha publicitária programada para a
inauguração, foram entregues às agências de publicidade que atendem à
construtora. Todas as necessidades de apoio administrativo e material
foram supridas diretamente pela estrutura montada para a obra.
Quanto às verbas, o programa teve um custo relativamente baixo, tendo
em vista sua complexidade, extensão e duração. Uma preocupação com a
simplicidade e objetividade na escolha das atividades e meios,
prioritariamente de comunicação direta, marcou as decisões da equipe, em
que pese o fato de, em nenhum momento, haver restrições de verbas da parte
da construtora.
Gerenciado com prazos e qualidade rigorosamente observados, o programa
tinha como pauta de avaliação e aprovação de verbas a adequação à
realidade trabalhada na obra e aos públicos. Nesse sentido, observou-se
sempre a qualidade das peças utilizadas, sem nenhuma sofisticação, uma vez
que a comunidade, composta de diferentes segmentos sociais, apresentava
características bastante simples.
O acompanhamento do programa foi realizado, diariamente, em estreita
ligação da equipe com a chefia da obra. Na primeira e na segunda etapa,
principalmente, foram realizadas reuniões periódicas, com avaliação de
relatórios do trabalho de campo, registros de reclamações e sugestões dos
moradores, conforme o depoimento de Lélio Fabiano dos Santos, mestre em
Ciências da Informação pela Universidade de Paris, Superintendente de
Comunicação Social do INID/MG e membro da Comissão de Especialistas em
Comunicação do MEC:
"A duplicação do Túnel Lagoinha-Concórdia, sem querer fazer trocadilho,
trouxe uma luz no fim do túnel porque pela primeira vez, nós,
trabalhadores da comunicação, teóricos e professores, pudemos presenciar
uma empresa despertar para uma das coisas mais importes. Neste caso, uma
obra que poderia acarretar tantos transtornos para a população, essa
Empresa usou os instrumentos da comunicação para falar com a comunidade,
para dialogar com a comunidade... O fato dela ter sido informada, o que é
a matéria prima de uma política de comunicação, fez com que ela pudesse
colaborar com a execução da obra" (outubro de 1985).
CONSTRUINDO A CONFIANÇA
Primeira Etapa: A Fase Crítica
(de janeiro a setembro de 1985)
A primeira etapa de execução do Programa de Informação e Orientação à
Comunidade foi de desabafo coletivo, com os moradores protestando contra
os transtornos causados pela obra, principalmente em razão das explosões
de dinamite para escavação da rocha, do barulho intenso, da poeira e do
tráfego pesado de caminhões nas ruas dos bairros mais próximos.
Da instalação do canteiro de obras, em outubro, até o início efetivo da
construção, em dezembro de 1984 e janeiro de 1985, o principal trabalho da
equipe foi aprofundar o conhecimento da realidade e da população local.
Era essa a hora de conhecer as pessoas no seu dia-a-dia, com todo o
abalo real e emocional que a obra lhes causava.
A Implantação
Subindo ruas, visitando os moradores de casa em casa, recebendo-os na
obra, a aproximação com a comunidade foi iniciada, com a equipe de
Relações Públicas mantendo contatos com 2.700 famílias da região e
lideranças locais no mês de janeiro de 1985, explicando-lhes
detalhadamente aspectos dos processos construtivos, medidas adotadas para
segurança nas detonações de explosivos que seriam iniciadas em fevereiro,
e orientando-os sobre cuidados preventivos de sua parte durante as
detonações.
A forte resistência e temores da comunidade, previstos pela equipe,
apresentavam-se com uma intensidade infinitamente maior. O diagnóstico
feito confirmava principalmente o impacto das marcas deixadas pela
construção do primeiro túnel e a organização política da população.
A equipe desenvolvia o trabalho abordando, caso a caso, todas as
reações dos moradores. Com isso, as pessoas começavam a ver que tinham
acesso à obra, que podiam se dirigir à sua administração, aos engenheiros,
à equipe do programa para reclamar, manifestar seus receios e reivindicar
alterações, sendo efetivamente ouvidas, o que foi um primeiro aceno de
diálogo.
A dinâmica dessa ação inicial foi também um indicador para as decisões
e a administração da obra, possibilitando, desde o primeiro momento, a
revisão de processos construtivos. Algumas mudanças para atender à
comunidade podiam ser decididas imediatamente e outras demandavam tempo ou
estudo mais aprofundado de viabilidade técnica. Quando não atendida uma
reivindicação, isso era colocado sem nenhuma dissimulação.
O Clima
De janeiro a maio de 1985, tudo, no exato sentido, era "problema".
Alguns casos registrados pela equipe dão uma dimensão da situação
enfrentada. Entretanto, da forma como estava estruturado, o programa não
somente permitia como garantia que a população tivesse na administração da
obra o seu canal de comunicação e que a construtora, de seu lado,
esclarecesse eventuais mal-entendidos, compatibilizando, assim, os
interesses de cada parte.
"Comigo, quando não é no tiro é na bala". Essa é uma expressão típica
do interior de Minas Gerais que caracteriza as reações das pessoas,
principalmente em face das primeiras detonações de explosivos a céu
aberto, em fevereiro de 1985 e, posteriormente, em maio, quando o ritmo da
construção foi acelerado. De diferentes formas, o sentido dessa expressão
foi literalmente confirmado nas manifestações de moradores e até em ameaça
concreta de embarque da obra judicialmente.
Num final de semana, por exemplo, a equipe de esmerilhamento, ao
preparar um portão para o acampamento, trabalhou durante toda a noite de
um sábado. No domingo de manhã, moradores do prédio localizado ao lado da
oficina desceram à obra, prometendo um tiro no relógio de força se o
trabalho continuasse. A construtora transferiu a oficina para o canteiro
de obras, negociando um prazo de 30 dias e mantendo, no local antigo,
apenas o almoxarifado.
Também o morador de um edifício da rua Itaguara, no Colégio Batista,
veio registrar, absolutamente alterado, a interferência das explosões
noturnas no estado emocional de sua esposa, grávida, que se encontrava sob
forte tensão devido a duas detonações noturnas. Ao lado de inúmeras
manifestações individuais, outras, organizadas coletivamente, surgiram com
a mobilização de grupos de pessoas dos prédios da área mais próxima ao
túnel, mediante reuniões com a equipe da obra e síndicos dos condomínios
maiores.
A Andrade Gutierrez, de sua parte, via-se numa situação única. Mesmo
com todas as medidas adotadas para garantir a segurança da comunidade,
reduzir o barulho e o efeito das detonações, o impacto sobre as pessoas,
tanto no nível concreto como no emocional, era grande e representava,
muitas vezes, um mecanismo de explosão de outras angústias, pessoais e
sociais, acumuladas pela população.
Uma decisão importante nesta época foi assumida com a redução das
atividades noturnas no canteiro de obras e a suspensão de detonações de
explosivos no período de 22:00 às 6:00 horas da manhã (horário negociado
com os moradores). O trabalho de 24 horas ininterruptas numa obra é
normal, sendo esta alteração significativa do ponto de vista de cronograma
e custos da construção. Atendendo à comunidade com essas medidas, a
construtora introduziu mais equipamentos e aumentou a mão-de-obra,
garantindo também o cumprimento do contrato com o cliente.
Informação e Diálogo
Para ouvir a comunidade e receber suas reivindicações, foi montado um
estande de informações junto ao canteiro de obras, dispondo de material de
apoio como maquete do túnel, fotos, equipamentos e quadros sobre o esquema
de segurança.
O estande transformou-se num elo fundamental de aproximação com os
moradores, funcionando como ponto de comunicação direta com a comunidade.
Nele, chegava todo tipo de manifestação sobre a obra, tendo sido recebidas
8.256 visitas, de fevereiro a setembro. Até o final da obra, 12.818
pessoas procuraram o estande.
A Andrade Gutierrez e a Sudecap realizaram uma vistoria nas construções
locais antes e ao final da obra, ressarcindo aqueles que tiveram
problemas, como rachaduras e na estrutura, comprovadamente causadas pela
construtora do túnel. Outras vistorias, de rotina ao longo da obra,
permitiram pequenos reparos pela construtora. Todas as reclamações eram
analisadas e checadas por uma equipe técnica da obra. Além disso,
engenheiros e técnicos percorriam a região realizando vistorias e medições
do alcance das vibrações nas moradias próximas, procurando reforçar a
segurança da comunidade e responder usas indagações.
Usando sempre meios de comunicação direta, uma primeira circular
informando os moradores sobre o cronograma, as condições da obra,
horários, precauções e esquema das detonações foi entregue pessoalmente a
2.700 moradores em 29 de janeiro de 1985, num raio de 300 metros da
construção, compreendendo os bairros da Graça, Concórdia, Colégio Batista
e parte da Floresta.
Outros Meios
Priorizando as oportunidades de diálogo com os moradores, foi
organizado um esquema de visitas tanto da equipe do programa a escolas,
condomínios, clubes e outros locais, como de grupos da comunidade à obra.
Esses encontros reuniam lideranças formais e informais e a equipe
preocupava-se basicamente em esclarecer dúvidas sobre a interferência da
obra na região.
As primeiras palestras em escolas próximas reuniram, no Grupo Escolar
Flávio dos Santos, 1.200 alunos, de 22 a 26 de fevereiro, e no Colégio
Batista, na semana seguinte, 2.000. Além da exposição sobre a obra,
mostrando a maquete, desenhos, fotos e equipamentos, era exibido um
audiovisual nesses e em outros encontros. Um arquiteto da Metrobel,
empresa municipal de transportes urbanos, acompanhou a equipe nesses
contatos, discorrendo sobre as modificações no trânsito da região após a
construção do túnel.
"O pessoal da Construtora esteve aqui conosco. Apresentou o projeto
para os meninos, fez uma exposição. Depois, tivemos um encontro lá no
canteiro de obras... Toda obra, por mais bem planejada que seja, traz
transtornos e a pessoa sabendo o que ela vai lucrar depois, conhecendo a
obra e aquilo que ela vai facilitar, aceita com muito mais
tranqüilidade... Inclusive, eu acho que vocês não tiveram problemas mesmo
com as bombas explodindo. Conhecendo a envergadura da Construtora em
outros trabalhos, este foi muito importante, muito válido" (professora
Maria Regina Fonseca, diretora da Escola Estadual Flávio dos Santos –
junho de 1987).
Também uma pasta contendo detalhes da construção foi entregue às
lideranças e representantes da comunidade a fim de reforçar o nível de
referência desses públicos, formadores e multiplicadores de informações na
comunidade.
A Andrade Gutierrez preocupou-se ainda em informar a toda a população
as alterações no trânsito local, em conjunto com a Metrobel, pela imprensa
e por placas colocadas nas imediações da obra. Essas placas identificavam
a obra e o tempo de construção a cada etapa; ordenando esteticamente o
local, dentro de uma programação visual definida.
"Eu não fui até o estande, mas vieram umas pessoas olhar o meu açougue.
Me entregaram uns folhetos e isso deu mais segurança. A gente sabia o que
ia acontecer... era para abrir as janelas e tal, mas não aconteceu nada
não" (Dílson Brás Guimarães, comerciante local – junho de 1987).
A Imprensa e a Comunidade
A imprensa foi abordada sob um enfoque de Relações Públicas, como
multiplicadora de esclarecimentos e orientações junto à população. Além do
pronto atendimento a solicitações de jornalistas, sugestões de pautas e
envio de material informativo, foram feitos contatos com veículos de Belo
Horizonte logo ao início do programa, no final do mês de janeiro de 1985.
Em seguida, foram organizadas visitas de jornalistas à obra, com o
objetivo de mostrar-lhes as propostas do programa, de modo que a imprensa
pudesse reforçar a disposição da obra e da Equipe de Relações Públicas em
atender à comunidade e manter um canal de comunicação permanente com os
moradores. Um "press-kit", entregue neste momento, foi atualizado de dois
em dois meses, acompanhando cada fase da duplicação do túnel.
Um bom indicador da importância da comunicação com a imprensa ocorreu
na primeira detonação de explosivos. Editores e jornalistas receberam
previamente material informativo e foram convidados a acompanhar a
detonação, junto com moradores e autoridades. Esta primeira detonação era
fundamental como uma demonstração concreta da segurança da obra para a
população local.
Sob tensão e expectativa, os habitantes da área mais próxima foram
surpreendidos neste dia, pois esperavam um forte estrondo, seguido de
abalo geral de suas residências. As matérias publicadas pela imprensa
retrataram o "agradável desapontamento" dos que assistiram à detonação:
"Mais parece uma bombinha de São João" – disse um repórter de rádio que
transmitia diretamente do local, pois esperava ver muita pedra voando para
todo lado. Estava até com capacete de proteção, não houve muita poeira,
nem muito barulho. "Se o barulho foi de uma bombinha, alcancei meu
objetivo", respondeu ao repórter o engenheiro responsável pela explosão,
Rogério Nora de Sá, para quem as detonações não podem prejudicar a vida
rotineira dos moradores da Lagoinha, uma vez que serão feitas três vezes
por dia, exceto aos domingos" (Estado de Minas, 1° fev. 1985, p. 8).
Segunda Etapa: Consolidando o Relacionamento
(de outubro de 1985 a abril de 1986)
Esta etapa da obra foi marcada pelo estreitamento da relação da
Construtora com a comunidade e pelo reforço do trabalho de comunicação
interpessoal.
O tratamento dado às circulares e aos contatos da equipe manteve-se na
linha informativa, evitando qualquer tipo de persuasão ou divulgação da
obra, da Prefeitura, do projeto político do Governo e, muito menos, da
Andrade Gutierrez. Os síndicos dos condomínios maiores mereceram atenção
especial também nesta fase. Partiram deles, inclusive, várias sugestões
para que fossem realizados reuniões e encontros com pessoas e lideranças
da comunidade.
Na parte técnica, permaneceu a preocupação em levar segurança às
pessoas pois, a cada fase, um novo risco era visto pelos moradores.
Entretanto, informados e mais seguros, eles conviviam com os incômodos da
construção. As reações mais intensas e até agressivas do primeiro momento
davam lugar à compreensão com a obra e, a partir de janeiro de 1986, o
nível de entendimento obra-comunidade já era sólido.
Procurando atender as reivindicações dos moradores, já de rotina, a
Construtora adotou pequenos cuidados como caminhões molhando regularmente
as ruas mais atingidas pela poeira, por exemplo, de modo a reduzir os
transtornos causados pela construção no seu dia-a-dia. O depoimento da
Sra. Leila Jorge, comerciante local, mostra o significado destes cuidados
para a comunidade:
"Quanto à poeira, que incomoda muito mais, estão mantendo o caminhão
para molhar... Quando o canto da rua vai ficando feio, eu comunico à Vera,
ela comunica ao chefe e o peão vem fazer a limpeza" (outubro de 1985).
Intercâmbio
Um trabalho com a área acadêmica foi iniciado em março de 1986. Através
de convênio realizado com escolas de engenharia, esta iniciativa criou a
oportunidade de estágio para 40 estudantes, num intercâmbio destinado a
levar informações sobre uma obra urbana com essas características. Esse
trabalho foi ampliado, sendo incluídas visitas de estudantes e professores
de engenharia e de cursos técnicos, de empresas de governo e da área
privada.
Outro tipo de iniciativa marcou essa etapa, quando a Construtora passou
a receber solicitações de patrocínio e participação em eventos da
comunidade. Isto se tornou comum. De um bingo beneficente da Paróquia de
São Pedro, no bairro Floresta, até o apoio a semanas da criança e festas
juninas, tudo chegava e a Construtora procurava atender na mesma linha das
demais solicitações.
Bem ao costume mineiro, o relacionamento da comunidade com as pessoas
da obra não deixou de incluir manifestações de cordialidade: a equipe do
programa recebia, freqüentemente, doces e quitandas dos moradores próximos
e convites para festas e eventos locais. Da programação da Semana da
Criança de 1985, na Escola Benjamim Guimarães, fez parte, por iniciativa
da escola, a apresentação do audiovisual da obra, assistida por 839
alunos.
Isso refletida a aproximação da comunidade com a obra e respondia às
iniciativas da Construtora ao realizar torneios esportivos e eventos na
quadra de esportes do canteiro de obras. Não faltou, neste caso, quem
tenha apreciado, acima de tudo, este lado do programa, como o Sr. Ivan
Crepaldi, proprietário do Posto Patropi, na entrada no novo túnel:
"O que eu achei melhor foi quando inauguram a quadra lá embaixo e nos
convidaram para participar de um torneio de futebol e tinha churrasco. Foi
ótimo... o que mais me impressionou foi a organização a Empresa,
principalmente na parte de divulgação, já que se preocupou demais com
isso. Tudo que ia fazer, a gente via a moça saindo aí para cima, fazendo o
trabalho de campo em todas as casas" (junho de 1987).
Terceira Etapa: Fase Final – A Expectativa Atendida
(de maio a novembro de 1986)
O programa chegou à sua etapa final caracterizada pela consolidação de
sua proposta – a comunidade trazendo à Empresa suas reivindicações e
receios e negociando a contrapartida que julgava necessária. Nesta fase,
de acabamento da obra, a interferência na rotina dos moradores foi
sensivelmente diminuída. Ainda assim, a comunicação foi mantida, até à
última circular, distribuída em 28 de outubro de 1986, sempre com o mesmo
enfoque.
A expectativa da comunidade voltava-se agora para o benefício que o
novo túnel traria, já visível e concreto. O envolvimento gradativo e
recíproco criou condições inclusive para que, posteriormente, a população
se identificasse com o novo projeto, preocupando-se com a sua conservação
e manutenção.
A antecipação do término da construção em três meses foi um fator
técnico de destaque. Mesmo tendo alterado procedimentos construtivos para
atender à comunidade, a Construtora assegurou, nas áreas administrativas e
técnica, não só o cumprimento do cronograma, mas a construção do túnel num
prazo recorde de 27 meses.
Reconhecimento
Depois desta longa convivência, era hora de agradecer a compreensão da
comunidade e de mostrar, e só nesse momento, os benefícios do esforço
empreendido, através da divulgação do significado da obra para Belo
Horizonte, seus benefícios sociais e econômicos e o modelo de convivência
mútua desenvolvida. Foi produzida, então, uma campanha publicitária que
incluiu a veiculação de um anúncio em jornal, um volante de agradecimento
aos moradores da região e usuários do túnel, e faixas.
Os moradores dos quatro bairros no raio direto da obra receberam a
visita da equipe, sendo-lhes agradecido o apoio e oferecida uma lembrança.
A escolha do brinde para agradecimento e de outro, entregue no Natal de
1986 aos moradores, foi feita com a mesma preocupação de simplicidade que
marcou todas as iniciativas do programa. Essa não era só uma formalidade,
mas uma ação coerente com o enfoque personalizado dado ao programa nos
quase dois anos de sua execução. Os empregados da Construtora e das
empresas subcontratadas, representantes dos clientes, prefeito e
governador receberam também uma pequena comunicação de agradecimento,
abordando sua contribuição à obra.
Estava ali, com a duplicação do túnel, o resultado de um trabalho
realizado a partir de pequenas ações, que se efetivaram através do
tratamento e do enfoque personalizado garantidos pelo programa. Nas
palavras do engenheiro responsável pela construção do túnel, Rogério Nora
de Sá:
"A própria obra é assim. Você inicia uma obra e quando vai implantá-la,
começa com uma estrutura pequena, com um acabamento provisório e, na
medida que vai aumentando a solicitação, o serviço, você vai crescendo a
sua estrutura. Lógico que com um planejamento prévio, com conhecimento de
causa daquilo que você vai fazer. Mas as coisas têm que ter, realmente, a
sua seqüência e a sua evolução natural. A preocupação que a gente tem de
ser é esta, porque o trabalho de comunicação é similar à administração da
obra, que também cresce e desenvolve. A comunicação é, sem dúvida, uma
atividade, hoje, para ser inserida no contrato de uma obra urbana".
Credibilidade e Confiança
A reversão de um quadro de expectativa, angústia e até de revolta para
um clima de compreensão e credibilidade no empreendimento, e a própria
garantia de execução da obra de duplicação do Túnel Lagoinha-Concórdia
foram os resultados do Programa de Informação e Orientação à Comunidade.
"Constatado o problema que a obra geraria na região, o trabalho com a
comunidade foi realizado durante um ano e meio ou dois. Essa foi talvez a
decisão mais firme, mais certa, tomada pela obra. Eu acredito que se não
tivesse sido feito esse trabalho, possivelmente a obra ou estaria em
andamento até hoje ou, talvez, tivesse chegado até o ponto de ser
paralisada" (Dalmo Lúcio Mendes Figueiredo, engenheiro da Sudecap,
responsável pela supervisão da obra – junho de 1987).
O caminho percorrido com o trabalho de comunicação realizado nesta
obra, aliado à moderna engenharia, viabilizou não só um projeto de
interesse de toda a população de Belo Horizonte mas a compreensão do drama
vivido pela comunidade menor de uma região em obras, com sua rotina
radicalmente alterada.
Essa conciliação de interesses, sem o uso de instrumento de persuasão,
cooptação ou de justificativas sobre os benefícios finais da obra, foi uma
evidência de acerto do enfoque do programa, definido, planejado e
executado numa linha de Relações Públicas, tendo a Comunicação Integrada
como referência permanente. Com esse enfoque, ele permitiu, sobretudo, que
a Construtora identificasse os problemas na construção do túnel,
enxergasse os seus efeitos para as pessoas, entendesse a situação no
prisma da comunidade; ouvisse, informasse e, só então, buscasse a
compreensão dos moradores.
Por isso, mais do que os números, a palavra de quem foi sujeito e
público ao mesmo tempo, mostra os resultados efetivos do trabalho
realizado.
Vale, no entanto, falar de alguns dados: 12.818 pessoas foram atendidas
no estande montado no canteiro de obras e, só na primeira etapa, a equipe
contatou 10 mil pessoas, conversando pessoalmente em suas residências, na
obra e em locais de reuniões da comunidade.
Uma associação comunitária, a AMAFLOR (Associação dos Moradores e
Amigos da Floresta), reunindo moradores do bairro Floresta, foi organizada
a partir de encontros realizados para discutir os problemas causados pela
obra. Dona Maristela Carneiro, moradora da região conta isso e conclui:
"Não tínhamos motivos, depois disso, para reclamar, pois recebíamos todas
as informações, o que nos dava mais segurança. A gente conhece uma empresa
nesses pormenores" (junho de 1987).
Outro indicador de resultados é que o programa está sendo estendido a
projetos da própria Andrade Gutierrez em áreas urbanas, com as adaptações
necessárias. É o que ocorre, no momento, em São Paulo, onde a Construtora
está iniciando a construção de um conjunto de obras para a prefeitura
local. Também em São Luiz, no Maranhão, a experiência está sendo repetida
nas obras de saneamento básico da Capital.
Ainda internamente, a duplicação do Túnel Lagoinha-Concórdia permitiu à
empresa reafirmar a sua filosofia empresarial. A responsabilidade técnica
de executar um projeto de engenharia nos prazos, custos e condições
previstas, o respeito e o compromisso social com os públicos envolvidos
são elementos que se integram intimamente na perspectiva da Andrade
Gutierrez.
Isto não é visto, naturalmente, de uma maneira simplista, mas como
reflexo de amadurecimento político das empresas no setor privado. Uma
construção que reunia todas as condições para provocar um clima de guerra
carrega hoje, entre paredes de concreto, a cumplicidade de famílias
inteiras.
DEPOIMENTOS
"O intercâmbio da Construtora com a comunidade foi o mais relevante em
tudo. Nenhuma empresa coloca um engenheiro para explicar detalhe por
detalhe, como foi feito. O entrosamento com a prefeitura e a Sudecap nisso
foi fundamental... a comunicação foi tão importante com a parte técnica".
Hilton Ribeiro, repórter da Rádio América de Belo Horizonte – junho
de 1987.
"Este trabalho de antecipar informação para a gente deu mais segurança.
No começo eu tinha muito medo do túnel rachar e este trabalho tranqüilizou
a mim e à família, pois o túnel passa debaixo da minha casa; graças a Deus
correu tudo bem até o final".
Sr. Geraldo Gonçalves Silveira, morador do Bairro Colégio Batista –
junho de 1987.
"Há alguns anos atrás havia acontecido problemas com pedras lançadas
quando das detonações, quando abriram a primeira boca do túnel... Vimos
que as coisas agora estavam bem planejadas e ficamos conhecendo mais de
perto este trabalho por causa das duas (a engenharia e a relações
públicas)... Acho que isso também serve de inspiração para os meninos que
serão nossos futuros trabalhadores, engenheiros e técnicos".
Profa. Carolina de Queiroz Cassete, Colégio Batista Mineiro –
outubro de 1985.
"Bom, eu não gosto da explosão do túnel. Acho que, se vocês andarem
perguntando, ninguém vai dizer que gosta. Acho que podia tanto ser sem
ela! Mas sei que o pessoal do túnel está tentando não complicar a nossa
vida. Acho que eles tentam muito não afetar a vizinhança".
Cláudia Costa, moradora local – outubro de 1985.
"Eu não tive problemas, pois durante a construção já era previsto tudo
aquilo que eles passaram através de informações e, então, não teve nada
que poderia ter surpresa. Visitei várias vezes o estande e conversei
várias vezes com a engenheira Vera. Eu moro bem em frente ao túnel e os
impactos e aqueles abalos, creio que todos sentiram. Mas, não afetou o
prédio em nada... Eu já vi, por boca de terceiros, informações de obras,
mas como esta de participar, de ter folhetos, de ter informações nas mãos
eu nunca tinha visto. Isto deveria acontecer em todas as obras públicas,
pois é essencial".
Sra. Maria José Lopes Pereira, moradora local – junho de 1987.