Responsabilidade Social

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UMA PARTE PELO SOCIAL

 

Nara Damante e Paulo Nassar

 

INTRODUÇÃO

Diante de um cenário recessivo, o que levaria conglomerados como General Motors, Pão de Açúcar, RBS, Belgo-Mineira, dentre outros, a investir na criação de entidades específicas e programas contínuos de responsabilidade social? Mais que fazer doações ou apoiar ações voltadas à comunidade, essas empresas descobriram que atuar em sociedade e no mercado requer uma maior consciência do relacionamento com seus públicos e de ter participação ativa na transformação das mazelas sociais. Numa realidade complexa como a brasileira, em que as diferenças sociais e econômicas se intensificam, as companhias perceberam, na última década, que a visão de negócio estava sendo ofuscada por uma miopia que, se não devidamente cuidada, poderia comprometer seriamente o seu desenvolvimento futuro e, conseqüentemente, afetar os lucros.

A preocupação ganhou corpo com a competitividade de mercado e fez com que algumas companhias investissem em marketing social. Outras companhias, por sua vez, mais atentas às necessidades dos funcionários, clientes, fornecedores, comunidade e do país, assumiram um comprometimento muito maior do que anunciar atitudes ou encabeçar ações paternalistas: a adoção de uma série de indicadores que lhes permitam traçar uma radiografia das ações e criar um instrumento que possa refletir os anseios da empresa como um todo.

A divulgação desses elementos pelas corporações acaba gerando uma natural simpatia de todos os públicos. Seja nos momentos de sucesso ou fraqueza, a própria natureza corajosa da instituição em dividir sua realidade faz com que ela atraia uma imagem positiva. E não é apenas a simpatia da comunidade ou dos funcionários que a empresa pode conquistar. O Real ABN Amro Bank criou um fundo de investimentos - Ethical Fund - especialmente de empresas que cumprem seus princípios éticos, demonstrando que os acionistas também optam por instituições com este perfil.

"Na prática, isso significa que essas mesmas empresas apresentam boa rentabilidade e se tornam ainda mais atraentes por suas ações sociais", afirma Roberto Gonzalez, superintendente de desenvolvimento da Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais (Abamec), de São Paulo. Ele aponta empresas como Marcopolo, Weg, Copesul, Aracruz, Perdigão e os bancos em geral como instituições em que além da avaliação financeira, são atrativas do ponto de vista da responsabilidade social.

A Abamec - primeira entidade do mercado financeiro a discutir responsabilidade social, em 1992, - é contrária à obrigatoriedade da publicação do relatório balanço social, como pretende um projeto de lei em tramitação na Câmara Federal. Se os parágrafos primeiro e segundo do artigo 4º do substitutivo forem aprovados pela Câmara, será necessário esse pré-requisito para que as empresas obtenham financiamentos e linhas de crédito e possam participar de licitações para prestação de serviços ao governo.

É nesse contexto que cada vez mais empresas aumentam gradativamente seus investimentos em responsabilidade social. Mas, para ser uma empresa socialmente responsável, é preciso ter transparência na divulgação das informações, estabelecer compromissos públicos, envolver-se com instituições que representam interesses variados, atrair e manter talentos, desenvolver alto grau de motivação e comprometimento dos colaboradores, lidar com situações de conflitos com habilidade e criar metas sociais de curto e longo prazos.

Foi para difundir essas práticas na divulgação do balanço social entre as empresas no Brasil que a Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais (Abamec), a ABERJE, a Fundação Instituto de Desenvolvimento Empresarial e Social (Fides), o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e o Instituto Ethos se uniram para promover a primeira edição do Prêmio Balanço Social.

De um movimento nascido na Europa do pós-guerra e no contexto da Guerra Fria, as empresas privadas acabaram por se sensibilizar do dever de realizar ações sociais. A própria necessidade imperiosa de recuperação dos países devastados pela guerra fez com que a consciência aflorasse nessas entidades, dando impulso para uma nova filosofia de gestão. E para dar conta do quê, como, quando, onde e por quê realizavam esse trabalho, originaram os primeiros balanços sociais, que em países como França, Itália e Espanha são objetos de prolixas legislações que conferem rigor às publicações. Hoje, o Brasil é o país da América Latina com maior consciência e discussão, inclusive na imprensa, em torno do papel das empresas como agente de transformação social.

MODELOS INSTAURADOS

No Brasil, alguns modelos de divulgação de balanço social foram implementados - como o do Ibase e do Instituto Ethos -, mas de modo geral, a maioria das empresas adapta o formato à sua realidade. O formato recomendado pelo Ibase pretende agregar a grande massa de empresas, quantificando os lucros e os relacionando aos investimentos em responsabilidade social e também reunindo algumas análises qualitativas interligando indicadores. No primeiro quadro do modelo, por exemplo, a empresa deve informar receita líquida, lucro operacional e valor da folha de pagamento. "Alguns querem divulgar apenas o que lhes convém. É preciso deixar claro que a empresa não precisa ser exemplar, mas ter o desejo de melhorar seus indicadores e se transformar numa organização socialmente responsável", afirma João Sucupira, coordenador do Ibase. Ele salienta que, para isso, a alta direção tem de assumir a implantação do modelo de forma séria, e não por modismo, e semear a cultura internamente, num trabalho multidisciplinar.

O marco da sistematização das atividades sociais no Brasil foi a campanha contra a fome e a miséria, liderada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, em meados dos anos 90. "Nascia ali a idéia de estímulo às empresas colaboradoras, conferindo um selo àquelas que divulgassem o modelo Ibase na íntegra", lembra Sucupira. Organizações como o Grupo Pão de Açúcar, Azaléia, Usiminas, Inepar, Petrobras e mais de 100 empresas já possuem a certificação.

Aos poucos, o discurso foi sendo incorporado pelas empresas no Brasil no sentido de serem mais pró-ativas e iniciarem o diálogo sobre impactos e práticas sociais, trabalhistas e ambientais. Nos últimos cinco anos, o tema vem ocupando maior relevância no contexto corporativo e, assim como demonstrar balanços financeiros, registrar os avanços sociais se tornou um hábito salutar para as instituições sob vários aspectos.

No país, a ação social - que muitas vezes é entendida somente como a relação da empresa com a comunidade - tem um peso muito forte. De acordo com pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), baseada em dados de 1999, foram investidos naquele ano R$ 4,7 bilhões em projetos sociais no Brasil. Mas a questão imperativa é que esse comprometimento atinja todos os públicos, fazendo com que as organizações alcancem a responsabilidade social, ou seja, a conduta ética e a busca da qualidade no conjunto de relações com os fornecedores, consumidores, funcionários, governo e comunidade. Esses investimentos ainda não são possíveis de quantificar, mas sabe-se que a tendência é de crescimento desses valores.

A primeira entidade no Brasil a se manifestar em relação a balanço social foi a Fides, há mais de 15 anos. "Se hoje vivemos a efervescência do conceito de responsabilidade social, às entidades cabe o papel de fomentar a maturidade do processo, que exige ética e transparência", diz Alberto Augusto Perazzo, presidente-executivo da Fides. Por entender que cada empresa deve, por meio de um modelo participativo, decidir como quer ser reconhecida no mercado como empresa socialmente responsável, a Fides não prega um modelo padrão de divulgação de balanço social. "É preciso responder internamente às questões pertinentes ao universo da empresa e construir indicadores no que se refere à sua atuação junto à comunidade, meio ambiente, funcionários, relação com fornecedores, clientes, sistema tributário e outros que julgarem importantes", acredita. A Fides recomenda que a detecção do que pode ser acompanhado e melhorado nunca seja feita como uma fotografia, mas que também apresente uma meta de transformação para o próximo ano.

Outra atuação da Fides é no sentido de que o resultado do trabalho não seja um material liderado pelas áreas de recursos humanos, marketing ou departamento financeiro da empresa, mas um resultado coletivo de reflexão. Perazzo defende que todos os objetivos corporativos estejam relacionados à visão social. Dentro desse contexto, o treinamento de pessoal pode ser encarado como uma atribuição de recursos humanos, mas tem um viés social na medida em que mexe com o nível de escolaridade e os recursos para obtê-lo.

O mesmo acontece com o lançamento de produtos, que pode impactar o meio ambiente, e assim por diante. "Não há área que não possa ter correlação com uma série de indicadores de índole social. É preciso identificá-los e tratá-los com transparência", afirma. Entre as organizações que contam com a consultoria da Fides estão o Grupo Algar, Integris, Gelre, Editora Nova Fronteira e Organização de Cooperativas do Estado de São Paulo, entre outras.

PADRÃO MUNDIAL

Em 1997, foi criada nos Estados Unidos uma ONG reunindo empresas de consultoria e lideranças empresariais em torno de um padrão mundial para relatórios sociais, criando o Global Reporting Initiative (GRI). A missão do GRI é de fazer com que o relatório tenha o mesmo rigor e importância dos balanços financeiros empresariais. "Sem desconsiderar o que já vinha sendo feito com o padrão Ibase e o foco em ação social, relações trabalhistas e com os consumidores, o Instituto Ethos formulou um guia que ajuda as empresas a estimular e acolher experiências. Criamos um modelo intermediário, mas sempre caminhando em direção ao do GRI porque acreditamos nessa convergência", diz Valdemar de Oliveira Neto, superintendente do Instituto Ethos. A idéia é complementar a quantificação com uma ampla gama de indicadores que denotam o impacto real do que os investimentos causam.

Numa versão simplificada do GRI, o guia do Instituto Ethos seleciona uma série de indicadores que as empresas brasileiras estão produzindo como, por exemplo, a diversidade na área de recursos humanos, envolvendo composição racial X cargos exercidos, número de mulheres em cargos de direção, diferença entre o menor e o maior salário, entre outros.

Oliveira Neto afirma que o índice mais difícil de se obter nos balanços sociais é sobre a questão racial. Diante dos baixos números de negros em altos cargos de direção e dos melhores salários, as empresas preferem fugir da questão alegando que publicar essa informação poderia contribuir para aumentar a discriminação racial. Oliveira Neto acredita que o guia do Instituto Ethos deve desaparecer para dar lugar ao GRI em três ou quatro anos, quando as organizações já terão experiência na implantação de sistemas de medição para os evolutivos de seus balanços sociais. Ele aponta Petrobras e Copesul como empresas que já estão se iniciando nos moldes do GRI. Por sua vez, a Natura é a única empresa brasileira a publicar, pelo segundo ano consecutivo, balanço integralmente de acordo com esse modelo internacional. Outra tendência é a de inserir os indicadores sociais no cotidiano da gestão empresarial.

A Telemig Celular entende a responsabilidade social como uma filosofia de atuação refletida na forma como conduz seus negócios, tornando-se parceira e co-responsável pelo desenvolvimento social. Procuramos integrar essa filosofia em toda a cadeia de negócios", define Ana Cristina Borges, gerente de projetos sociais do Instituto Telemig Celular. Para tanto, a empresa busca ouvir os interesses dos diferentes públicos com os quais se relaciona (acionistas, funcionários, prestadores de serviço, fornecedores, consumidores, comunidade, governo e meio ambiente) e incorporá-los no planejamento de suas atividades, atendendo às demandas de todos eles, e não apenas dos acionistas ou proprietários.

Para cada um dos públicos, a operadora de celular destina uma forma de atuação. Internamente, realiza ações voltadas para a melhoria da qualidade de vida dos funcionários, como o Projeto Vida Legal, o Programa Voluntários em Ação, que incentiva a participação comunitária e o Programa Fundo Amigo, que facilita e incentiva a participação dos funcionários na destinação de recursos do Imposto de Renda para Fundos Municipais da Infância e da Adolescência.

O trabalho realizado junto ao trade pela Telemig Celular visa difundir o seu entendimento de responsabilidade social e na inclusão de cláusula contratual que prevê rescisão do contrato em caso de uso de mão-de-obra infantil, não só pela prestadora de serviço como também por seus eventuais fornecedores. Atuando na comunidade mineira, a Telemig Celular promove trabalhos comunitários como o Programa Pró-conselho, programa de fortalecimento dos Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente e dos Conselhos Tutelares em Minas Gerais em parceria com o Unicef e o Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente. Na área cultural, a Telemig patrocina grupos teatrais e outros espetáculos com viés social, como o Circo de Todo Mundo, que trabalha com crianças de rua e o Ponto de Partida, que adotou um coral de crianças carentes no norte de Minas, os Meninos de Araçuaí.

ATUAÇÃO COM CRITÉRIOS

O balanço social da operadora de telefonia celular é parte integrante do relatório anual da empresa, seguindo as orientações do modelo do Ibase. A Telemig Celular atua comercialmente em 426 localidades do Estado de Minas Gerais, mas sua ação social abrange todos os 853 municípios, sem distinção.

Assim como a Telemig Celular, muitas empresas criam um departamento ou uma entidade específica para gerir e fomentar o conhecimento do tema em toda a organização. Esse também foi o caso do Grupo Pão de Açúcar com a formação de seu Instituto. Para o Grupo Pão de Açúcar, responsabilidade social é um conceito amplo de atuação com critérios éticos, integridade e transparência, conferindo credibilidade para as ações que realiza não só na operação da empresa mas junto ao público interno, clientes, fornecedores e comunidade.

Desta forma, atuam junto aos funcionários, com práticas e política de recursos humanos, numa demonstração de respeito, passando pelos critérios de operação, ao adotar linhas de mercadorias adequadas ao nível de competitividade, até a postura de relacionamento com ombudsman de clientes e representantes de fornecedores. Em ação social, realizada pelo Instituto Pão de Açúcar, o foco está na melhoria das condições educacionais e qualidade de vida das crianças e adolescentes.

Os projetos visam sempre o entorno das 507 lojas em diversos Estados. Por enquanto, há seis centros educacionais próprios, em parceria com entidades, localizados na Grande São Paulo, Santos, Rio de Janeiro e Fortaleza, e mais sete organizações sociais conveniadas que realizam o trabalho em Santos e São Paulo, contribuindo para a educação complementar à escola. "Já foram investidos R$ 10 milhões neste ano no projeto e o volume tende a ser crescente e independe dos resultados obtidos pela companhia", ressalta Rosangela Bacina Quilici, diretora do Instituto Pão de Açúcar.

O Pão de Açúcar publica seu balanço social inspirado no modelo Ibase, mas também incorporou as diretrizes do Instituto Ethos. Rosangela afirma que esse é um instrumento importante para detectar desvios e buscar evolução na operação do negócio, salientando que nenhum dado pode ser mascarado. Na totalidade dos investimentos, o Pão de Açúcar alocou 2,3% de seu faturamento bruto para ações sociais em 2001, englobando esforços dirigidos a funcionários, comunidade, marketing institucional e doações. Nos últimos três anos, essa média foi de 2%, indicando a crescente importância do tema na organização. O balanço social é publicado juntamente com o balanço financeiro da companhia e também em jornais da área de economia (no formato Ibase).

COMPARATIVOS DE VALORES

Em muitos casos, as empresas até comunicam seus investimentos em ação social, mas não divulgam seus números relativos a lucro, justificando a ausência do dado por receio de especulações da concorrência. Isso é o que acontece com a General Motors, que por meio do Instituto GM realiza suas atividades de apoio comunitário. De acordo com Valda Carrara, coordenadora geral de Projetos do Instituto GM, o modelo da empresa aos poucos vai se moldando ao do Ibase, embora o lucro líquido obtido pela montadora não seja divulgado, impedindo o comparativo de distribuição. Ela afirma que os trabalhos desenvolvidos no Brasil têm total autonomia em relação aos projetos da multinacional em outros países em que está presente.

O Instituto GM foi criado em 1993, mas desde que a GM se instalou no País, em 1926, sempre teve a preocupação de conviver bem com a comunidade ao seu redor. Inicialmente, eram feitas apenas ações de cunho assistencialista, com verba específica para este fim. Com o surgimento do Instituto, além dessa vertente de solidariedade - que privilegia campanhas emergenciais, como os auxílios às vítimas da fome, do frio, das enchentes, etc - também houve a preocupação com projetos mais elaborados, voltados para a educação complementar e à qualificação profissional. Um deles é o Formação com Competência (Foco), em parceria com o Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul (SP), que já formou 1,8 mil pessoas em oficinas de cursos. A GM vem ampliando sua participação em projetos desse porte, tendo investido R$ 2,8 milhões em ações sociais 2001.

Valda lembra que os funcionários são envolvidos na medida em que esses projetos são divulgados nos quadros de aviso, faixas de campanha e por e-mail interno. Para provocar a interação desse público com as ações sociais, o Instituto faz campanhas conjuntas de arrecadação de donativos e estabelece metas quantitativas para o público interno. Ao serem cumpridas, o Instituto se compromete a complementar com uma cota pré-estabelecida.

TRANSPARÊNCIA DAS AÇÕES

Reconhecer seus problemas e viabilizar soluções foi a iniciativa corajosa que tomou a RBS, tornando públicas informações que nem sempre as empresas gostam de mostrar. No balanço social do grupo gaúcho, por exemplo, foi detectado que as mulheres da empresa em nível gerencial ganham 50% menos que os homens em cargos equivalentes. Leo Voigt, diretor-executivo da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho e assessor da presidência da RBS, explica que a empresa não tinha claramente essa visão devido à existência de vários níveis gerenciais. Enquanto os homens ocupavam cargos de gerente-executivo, as mulheres tinham a função semelhante, mas com denominação de gerente-geral, por exemplo. Mas na diretoria, essa proporção fica mais clara, já que dos 16 componentes do alto escalão do grupo, apenas um é mulher. Esse dado é apresentado no relatório como uma descoberta e interpretado pelo grupo como elemento que exige melhoria.

Outro exemplo é o alto índice de rotatividade de funcionários, que já teve patamares menores no passado e que voltou a crescer. "A divulgação dos números não nos orgulha, mas não nos causa constrangimento. A empresa não se sente cobrada ou mal vista ao dar transparência a essas informações. Nem mesmo os acionistas, público normalmente conservador em qualquer empresa, reagiram negativamente", relata Voigt. Aliás, a comunicação da realidade do grupo é estimulada pelo presidente da RBS, Nelsom Sirotsky. "Ao ver esses números, acima de tudo, não impacta se o desempenho foi excelente ou nem tanto, mas sim saber coisas que eu não conhecia para orientar os processos de tomada de decisão", diz ele.

Os indicadores adotados pelo quinto balanço social da RBS têm inspiração nos modelos do Ibase, Ethos e da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, embora não siga fielmente nenhum deles. A Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho não se porta como braço social ou filantrópico do grupo, mas como área estratégica, relacionando-se com os diversos públicos de interesse. Embora o grupo RBS já tivesse seu viés de responsabilidade social, ao longo de um ano de existência, a fundação se encarregou de ampliar o conceito para gestão social. Como resultado, desenvolveu o balanço social e está finalizando o Guia de Ética e Responsabilidade Social da RBS. "O Guia de Ética reunirá as orientações que a empresa difunde a seus funcionários sobre ética e responsabilidade social, criando um código de conduta que compreenderá ética editorial, comercial, comunitária e de recursos humanos", afirma Voigt. Instrumento de uso interno, o Guia deriva do Manual de Ética e Redação do Zero Hora, jornal diário do grupo RBS.

Em termos de política de relações comunitárias, a RBS atua em 13 frentes, envolvendo vários setores do grupo. Os veículos de comunicação, por exemplo, fazem campanhas filantrópicas com autonomia, estimulando os próprios leitores e espectadores. Já a corporação se encarrega de projetos como o da duplicação da BR 201, do fortalecimento da estrutura de saúde pública no Sul do País e da doação de R$ 9 milhões para a construção do Novo Hospital da Criança Santo Antônio. Por sua vez, a Fundação se dedica a projetos comunitários em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Só em 2001, foram investidos R$ 52,325 milhões em projetos sociais, o que representa 9,55% do faturamento bruto da RBS.

INTEGRAÇÃO DE OBJETIVOS

Outra organização que tem em sua estrutura uma entidade destinada para cuidar da responsabilidade social é o Grupo Belgo, que tem a Fundação Belgo-Mineira exclusivamente voltada para o desenvolvimento de projetos sociais nas diversas comunidades de atuação de suas empresas. Todos os programas e projetos a cargo da Fundação devem necessariamente atender a mais de uma unidade industrial do grupo. O entendimento da Belgo-Mineira sobre responsabilidade social se alinha com os conceitos de responsabilidade social difundidos pelo Instituto Ethos de Responsabilidade Social Empresarial e pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD).

Como meio para consolidação da responsabilidade social na estratégia da empresa, foram desenvolvidos esforços visando a adoção das normas SA-8000 e AA-1000, o que deve acontecer em 2003. "Ser socialmente responsável é um ótimo negócio para a empresa, na medida em que reduz os seus riscos, melhora o ambiente de trabalho e operacional, eleva o moral interno, reputação e imagem, entre outros benefícios", diz Álvaro Machado, presidente da Fundação Belgo-Mineira.

A Belgo-Mineira atua com cerca de 30 programas sociais desenvolvidos em 11 comunidades de Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo, nas áreas da cultura, educação, saúde, meio ambiente e promoção social. Dois deles se tornaram itens de políticas públicas em Vespasiano e João Monlevade (MG), como o Programa Ensino de Qualidade, cujo objetivo é melhorar a gestão, o currículo e a avaliação escolares e o Programa de Educação Afetivo-Sexual, que trata das questões da sexualidade, saúde reprodutiva, droga e violência entre adolescentes de escolas públicas.

No ano passado, o balanço social da Belgo foi publicado junto com o Relatório Anual da empresa, partindo da premissa de que o desempenho social conta tanto quanto os desempenhos econômico e financeiro. Para a sua elaboração, a Belgo se inspirou no Guia de Elaboração de Relatório e Balanço Anual de Responsabilidade Social Empresarial, do Instituto Ethos, que incorpora a planilha de balanço social adotada pelo IBASE. "Não tivemos conflitos de transparência na elaboração do balanço social. Divulgamos aquilo que praticamos. O que não praticamos, não foi mencionado", garante Machado.

AÇÃO PERMANENTE

Essa mesma filosofia é compartilhada pelo Banco Itaú, numa demonstração de que o setor financeiro está assimilando o conceito em seus balanços. "O Itaú entende que as empresas devem contribuir para o desenvolvimento social, assumindo cada vez mais a dimensão de cidadania empresarial", afirma Antonio J. Matias, vice-presidente-executivo da área de apoio ao desenvolvimento de marketing do Banco Itaú. Coerente com este conceito, o Itaú dirige seus esforços prioritariamente para as áreas de educação/ensino fundamental e saúde por meio do Programa Itaú Social, implantado há nove anos.

Na visão de Matias, o sucesso do programa deve-se principalmente ao planejamento estratégico das ações, concentradas em ensino fundamental e saúde, aliado a parcerias com entidades especializadas do terceiro setor e com órgãos governamentais, o que garante a continuidade e o efeito multiplicador dos projetos. O programa Melhoria da Educação no Município, por exemplo, realizado em parceria com o Cenpec, o Unicef e a Undime, teve a participação, direta e indireta, de 40 mil professores e 1 milhão de alunos, em cerca de 600 municípios brasileiros. Outro projeto, o "Programa Educação & Participação" beneficiou 12 mil educadores, 175 mil crianças e adolescentes, com o trabalho de 1, 2 mil ONGs.

As ações foram consolidadas com a criação da Fundação Itaú Social, em dezembro de 2000, que passou a garantir um fluxo permanente de recursos para as ações implementadas pelo Programa Itaú Social. A Fundação desenvolve sua programação sem conexão com os resultados do banco por julgar que, desta forma, assegura a continuidade dos programas mesmo em casos de oscilação negativa do lucro. "A visão é de compromisso e atuação permanente", garante Matias. Internamente, o Itaú destinou benefícios sociais para funcionários da ordem de R$ 460 milhões em 2001, incluindo auxílio-doença, doações em situações de emergência, serviço social e plano de aposentadoria complementar, lazer, entre outros.

Para a divulgação dos principais números, o Itaú adota o modelo sugerido pelo Ibase, procurando aperfeiçoar os indicadores a cada ano. Também se orientam nas indicações do Instituto Ethos para o conteúdo e estrutura de tópicos, mas o resultado final é decorrente das próprias características de atuação do banco.

PERCEPÇÃO DAS AÇÕES

Tendo experiência em publicar balanços sociais desde 1996, o Banco do Brasil (BB) delega à área de relações com investidores seu trabalho de responsabilidade social. Mas todas as áreas são convidadas a dar sua contribuição baseada numa estrutura de tópicos como melhoria do relacionamento com clientes, acionistas e colaboradores. O BB adota o modelo do Ibase e acrescenta elementos de outras instituições, demonstrando para onde são canalizados os esforços. Como prática inserida inclusive em sua missão empresarial, o banco desenvolve várias iniciativas sociais por meio da Fundação BB. Na direção dos clientes, por exemplo, foram implantadas rampas de acesso para deficientes em todas as agências e terminais em altura mais baixa, sem esquecer das polêmicas que envolvem as portas giratórias, visando a segurança. "Essas ações ainda são pouco percebidas pela comunidade porque responsabilidade social ainda está muito atrelada a apoio social", constata Marco Giovanni, gerente de relações com investidores do Banco do Brasil.

De uma receita líquida de R$ 36,7 bilhões no ano passado, o Banco do Brasil repassou à sociedade R$ 1,073 bilhão sob a forma de projetos diretos ou viabilizados pelo governo, número 7% superior ao de 2000. Os balanços sociais do BB explicitam a solução de problemas, como a criação das comissões de conciliação prévia quando há conflitos na relação empresa-funcionários, agilizando o trabalho e evitando o caminho judicial. Outra proposta é o financiamento para a agricultura orgânica, tendo como objetivo eliminar incentivar produtores que não utilizam resíduos tóxicos. Na área dos investimentos internos, foram destinados R$ 2,1 bilhões, que incluem desde benefícios até treinamento para o pessoal. Neste ano, por meio da Fundação BB, está sendo instalada a Universidade Corporativa, uma solução e-learning disponibilizada para funcionários e clientes. "Também estamos promovendo um avanço do banco em relação à governança corporativa. Já garantimos a nossos acionistas o compromisso com a transparência das informações e agora queremos conferir a igualdade de tratamento a todos, convertendo ações preferenciais em ordinárias", explica Giovanni.

Originalmente publicado na revista Comunicação Empresarial, São Paulo, ano 12, n. 44, p. 10-18,
terceiro trimestre 2002.