Os Lucros Institucionais dos Investimentos Sociais: A
Comunicação na Era da Empresa Cidadã
Sylvia Bojunga Meneghetti
Jornalista
Há uma importante mudança em curso, neste final de
milênio, que ainda não é claramente percebida por diversos segmentos da nossa
sociedade, incluindo-se, neste grupo, inúmeros profissionais e veículos de
comunicação. Trata-se da evolução do conceito de filantropia empresarial
para investimento social, ou postura de responsabilidade social de
"empresas cidadãs". Para avaliar ganhos institucionais e sociais e
compreender os novos caminhos da comunicação corporativa, é necessário,
antes, conhecer mais de perto conceitos e práticas do chamado "Terceiro
Setor" – aquele que investe recursos privados para fins públicos,
coexistindo com o Estado (Primeiro Setor) e o Mercado (Segundo Setor).
No cenário de redemocratização e de maior participação
dos cidadãos e das organizações da sociedade civil (OSCs) na reorganização
daquilo que é de interesse público – como saúde, educação, cultura, meio
ambiente, assistência social – as empresas brasileiras comprometidas com o
bem-estar e o desenvolvimento das comunidades com as quais interagem
encontram-se diante de um duplo desafio. Como organismos vivos, integrados ao
todo maior, reconhecem que "estar de bem com a comunidade", "com
o entorno", é fator de sobrevivência numa economia globalizada e
competitiva.
Por outro lado, em tempos de "vacas magras", com
orçamentos enxutos, e sofrendo pressões sociais crescentes, vêem-se obrigadas
a rever seu relacionamento comunitário de modo a torná-lo mais eficiente e
duradouro, e, ainda, estabelecer um novo tipo de comunicação com seus
públicos estratégicos que a enxergam, sobretudo, como tábua de salvação e
fonte de recursos para resolver problemas e desigualdades sociais agravados pela
progressiva incapacidade dos governos.
A emergência do Terceiro Setor é fenômeno recente – na
esfera internacional ocorreu a partir dos anos 60 e, no Brasil, a partir dos 80.
No país, ainda não dispomos de dados suficientemente confiáveis que forneçam
a correta dimensão do investimento social praticado pela iniciativa privada.
Existe um descompasso entre o que é realizado e o que é
divulgado. Sabemos, no entanto, que há um grupo expressivo de organizações de
origem corporativa, no qual incluem-se as 42 instituições associadas ao GIFE
(Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), que alocam recursos financeiros,
humanos e tecnológicos, com objetivos bem definidos, em programas e projetos
focados e estratégicos. O GIFE estima que os investimentos de seus membros
somam um total aproximado de US$ 400 milhões/ano.
Aqui, interessa-nos investigar as razões da dificuldade de
acesso a informações e estatísticas e do conseqüente abismo entre o que é
feito e o que é comunicado à sociedade. Alguns entraves relacionam-se à
própria cultura das empresas, fundações e institutos que desenvolvem ações
sociais. Verifica-se que impera, internacionalmente, a "cultura da
modéstia", do "low profile", uma postura que deve ser respeitada
porque demonstra atitude ética, séria, de quem investe no campo social sem a
preocupação de "ganhar em cima disso".
Temendo que se estabeleça a indesejável confusão entre
práticas comerciais, com objetivos obviamente econômicos, e práticas de
desenvolvimento social, de natureza completamente distinta, muitas
organizações evitam divulgar os bons resultados de seus empreendimentos
sociais. O medo de serem tachados de "marqueteiros" é compreensível
num país onde, até muito recentemente, os empresários eram tidos como vilões
e a filantropia entendida como sinônimo de "pilantropia", até prova
em contrário...
Mas há razões mais pragmáticas para evitar a divulgação.
Numa pesquisa que está sendo desenvolvida no Rio Grande do Sul pela FIERGS
(Federação das Indústrias do Estado), em parceria com a UFRGS, vários
empresários manifestaram temor de que uma divulgação mais ampla de suas
bem-sucedidas ações sociais, como uma campanha institucional com anúncios em
revistas, jornais e veiculação em rádio e televisão, por exemplo, possa
provocar, no Governo, o desejo de tornar compulsórias iniciativas espontâneas
como a publicação do balanço social – um importante instrumento de
comunicação institucional.
Os relatórios anuais e boletins informativos, que adquirem
feições mais atraentes e profissionais, passando a ter versões nas páginas
da Internet, continuam sendo as peças mais utilizadas para circulação de
informações e prestação de contas sobre projetos sociais, lembrando que
credibilidade e transparência são atributos fundamentais para conquistar um
espaço na seara das empresas cidadãs.
Neste ano, o GIFE está publicando um relatório onde cada
associado faz a sua própria apresentação, constituindo uma espécie de
portfólio. O Council on Foundations – associação norte-americana que
congrega as maiores organizações fundacionais – por sua vez, instituiu um
prêmio anual para dar visibilidade aos melhores relatórios, páginas da Web e
vídeos, estimulando a comunicação do Terceiro Setor em nível profissional.
Realizou, também, uma pesquisa de opinião e constituiu um núcleo dedicado à
interlocução com a mídia e os poderes públicos.
No último Congresso do Council, em abril deste ano, as
organizações reunidas em New Orleans, EUA, buscaram novas respostas para
velhas perguntas: Será mesmo necessário comunicar? Para quem? Quando? Como? As
reflexões suscitaram um movimento para fomentar a comunicação do Terceiro
Setor. Numa espécie de mea culpa, concluiu-se que a falta de
divulgação sobre instituições que assumem funções sociais muito além de
sua vocação básica de geração de riquezas, fazendo grande diferença em
suas comunidades – um grupo, portanto, que "puxa para cima" –
acaba reforçando velhos mitos e preconceitos, como o da
"pilantropia", e deixando que o grupo que "puxa para baixo"
continue dominando os preciosos espaços da mídia.
Para acabar com a crença de que só o problema, o
escândalo, o crime e a violência são notícias que interessam e
"vendem", é preciso aprender a contar as histórias que falam das
soluções, dos caminhos possíveis. Se a nova realidade não está sendo bem
percebida pela opinião pública, provavelmente é porque não está sendo bem
divulgada. Conclui-se que está na hora de cobrir a agenda social com a mesma
competência profissional da economia, da política e dos esportes.
No campo social, o foco das campanhas institucionais deve
centrar-se em resultados que interessam a todos, ou seja: vidas transformadas,
crianças e adolescentes integrados à sociedade através do acesso à
educação, ambientes preservados, direitos humanos e valores culturais
respeitados. É preciso fazer trabalho de campo, falar com quem "está com
a mão na massa".
Nesse sentido, a ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da
Infância) vem desenvolvendo um trabalho exemplar, ao fornecer sugestões de
pautas que instrumentalizam os comunicadores para a elaboração de matérias
atraentes, com enfoque na busca de soluções. No GIFE, há bons exemplos de
organizações que investem em materiais e campanhas que dão visibilidade e
mobilizam a sociedade em torno de bandeiras comunitárias relacionadas à
missão institucional – uma forma eficiente de multiplicar resultados sem
falar diretamente da própria organização.
A comunicação "cidadã", construída sobre
valores éticos e planejada estrategicamente, além de agregar valor à imagem
corporativa e contribuir para a fidelização de clientes e consumidores, motiva
funcionários e colaboradores e ajuda a construir um melhor relacionamento com
as comunidades interna e externa. Nesse processo, são fundamentais os
investimentos em capacitação de pessoal sintonizado com a realidade, os
objetivos e mecanismos da ação social corporativa, para atuar nas empresas,
nas assessorias de imprensa e nos veículos. Só assim será possível difundir,
de forma ampla e mobilizadora, conceitos e práticas essenciais à mudança
social, como trabalho voluntário, parcerias Empresas/OSCs/Estado e programas de
desenvolvimento auto-sustentável.
A comunicação é uma área complexa que demanda
especialização. Além da diversidade de públicos e contextos, há uma variada
gama de ferramentas e novas tecnologias, como a Internet, que, embora estejam ao
alcance de todos, só proporcionam bons resultados se utilizadas por quem domina
sua linguagem. A especialização passa, também, pelo conhecimento da
realidade. É necessário manter-se atento às demandas sociais, pensar
estrategicamente, planejar, comunicar e avaliar resultados. Afinal, como afirmou
John Dewey, "há mais do que uma ligação verbal entre as palavras COMUM,
COMUNIDADE e COMUNICAÇÃO".
