CONCEITUANDO
RESPONSABILIDADE SOCIAL
Responsabilidade Social, Ética
e Cidadania
O trabalho de buscar uma
definição para Responsabilidade Social solicita inicialmente reflexões acerca
do conceito de ética e do desenvolvimento do processo de cidadania.
Etimologicamente a palavra responsabilidade deriva
do latim respondere, responder.
Segundo o dicionário Michaellis, responsabilidade é “a
qualidade de responsável”, que “responde por atos próprios ou de
outrem”, que “deve satisfazer os seus compromissos ou de outrem”.
As diferentes significações
percebidas para o termo suscitam questões ligadas à área do dever, da obrigação
legal ou moral que, por sua vez, nos faz adentrar o campo da ética.
Falar sobre ética e sua relação
com responsabilidade social nos remete diretamente ao problema do costume – hábitos
ligados às manifestações de cada coletividade através de suas tradições,
vivências e crenças.
De acordo com Solano Fleta,
costume: “...é a criação normativa de um grupo com tal competência jurídica
que possibilita dar origem a novas regras mediante sua conduta uniforme,” e
uso “é esta mesma conduta, porém de um grupo carente de poder normativo.
Para que o uso tenha significado jurídico precisa ser recebido de fora, do
Estado ou de um grupo capacitado pelo Direito.”
Basicamente podemos definir
dois tipos de uso: aquele que, com o passar do tempo, se transforma em costumes
jurídicos (regulamentados), pois cumprem todas as condições materiais e
formais destes. E o uso que, por não satisfazer determinados requisitos, não
se caracteriza como costume de Direito, isto é, norma exigida, ampliada pelos
mecanismos sancionadores correspondentes.
Seguindo este raciocínio Solano Fleta define
responsabilidade social: “Entende-se por
responsabilidade social o conjunto de obrigações inerentes a evolução de um
estado ou condição com força ainda não reconhecidas pelo ordenamento jurídico
positivo ou desconhecidas parcialmente, mas cuja força que se vincula e sua prévia
tipificação procedem da íntima convicção social de que não segui-la
constitui uma transgressão da norma da cultura.”
Uma análise mais aprofundada
sobre o conteúdo dessa definição suscita algumas reflexões: a íntima convicção
social que determina uma norma ou conjunto de obrigações, ainda que não
reconhecidas pelo ordenamento jurídico positivo, pertence ao campo da ética,
ou seja, os valores morais e os princípios ideais de conduta humana. Assim
sendo, responsabilidade social é processo resultante do desenvolvimento de
posturas éticas inerentes aos estágios de evolução de determinados grupos ou
organismos sociais.
Entrecruzando-se com o
conceito de ética, posto que a ele permanece estreitamente vinculado, vamos
encontrar o conceito de cidadania.
Inúmeros fatos poderiam ser
resgatados e analisados numa tentativa de pontuar historicamente os aspectos
econômicos, políticos e sociais que favoreceram o processar do conceito de
cidadania nas diversas sociedades.
Acreditamos, no entanto, que
esse resgate oferece conteúdo para um trabalho à parte. Partindo dessa
constatação, nos limitaremos a apontar apenas alguns fatos a título de
introdução na área da cidadania organizacional, em especial no contexto
brasileiro.
A chegada ao Brasil por parte
das empresas multinacionais, nos idos de 40 e 50 , promoveu significativas mudanças
no trabalho, nos costumes, na melhoria do nível de vida dos trabalhadores.
Paralelo a esses eventos, o Brasil assiste às primeiras transmissões
televisionadas e o rádio transistor proporciona às diferentes regiões e
classes sociais o acesso a informação.
Os anos 60 são marcados por
práticas de anti-cidadania devido ao regime político vigente que impedia a
liberdade de expressão.
Com a abertura política nos
anos 80 deu-se um reaprender sobre cidadania e foram decisivas nessa caminhada
as intervenções dos sindicatos e dos movimentos sociais que pretenderam, além
do modelo Walfare State, fomentar o debate público em torno dos direitos
da figura social denominada Consumidor.
Um outro fato marcante foi a implementação do
Plano de Comunicação da Rhodia que centrou sua preocupação na
qualidade
e sistematização da comunicação com os seus públicos, rompendo com a era do
“não temos nada a dizer”. Faz-se destaque ao papel dos Meios de Comunicação
de Massa no processo de democratização da informação. Carlos Fico, em Reinventando
o Otimismo, comenta da
importância dos meios na mediação de eventos circundantes ao espaço público
e ao espaço privado. Particularmente, identificamos nesse processo um dos
pilares da construção da cidadania empresarial brasileira na medida em que, ao
integrar o contexto no qual estão inseridas, as instituições precisam
conjugar o seu aspecto privado com a preocupação voltada aos públicos. Ou
seja, embora uma organização possa pertencer ao poder privado ela deve
responsabilidade e satisfação pública.
Um ponto de pauta que esteve
presente de modo muito forte foi a questão do consumidor, culminando com a
instituição do Código de Defesa Consumidor e a configuração do seu órgão
representativo, o PROCON.
Mais
recentemente, tivemos a abertura comercial do Brasil que permitiu a entrada de
empresas e produtos com preços e qualidade similares ou superiores aos
nacionais. De certo modo, diz Vera Giangrande, isso reforçou junto ao
empresariado a importância da fidelidade com seu cliente consumidor a ponto
dessas empresas instituírem a figura do Ombudsman como canal de comunicação
com esses clientes.
E sob a mesma orientação
conceitual são revisadas as práticas das organizações públicas que percebem
no indivíduo-cidadão o consumidor e avaliador de suas políticas e serviços.
Esse mesmo indivíduo que integra e ajuda a formar a opinião pública –
instrumento de legitimação de poder da sociedade civil.
Construção do Conceito de
Responsabilidade Social
Ao final das reflexões
apresentadas chegamos a conclusão que algumas considerações são necessárias
para precisão de um conceito voltado para responsabilidade social.
Ainda que pesem os fatores acima expostos, numa
tentativa de aplicação racional do termo responsabilidade social
desenvolvemos, a título de uma tímida colaboração, o conceito:
“Responsabilidade Social consiste no somatório de atitudes assumidas por
agentes sociais – cidadãos, organizações públicas, privadas com ou sem
fins lucrativos –estreitamente vinculadas a ciência do dever humano (ética)
e voltadas para o desenvolvimento sustentado da sociedade.”
RESPONSABILIDADE
SOCIAL NAS ORGANIZAÇÕES
Segundo o conceito
apresentado, a responsabilidade social não se restringe a atuação de um
determinado segmento da sociedade.
Abordamos, nesse capítulo,
qual a orientação de responsabilidade social processada pelas organizações
do Primeiro Setor (públicas), Segundo Setor (privadas) e Terceiro Setor (da
sociedade civil de interesse público), e focalizamos nossa verificação na
sociedade brasileira atual.
Primeiro Setor – Organizações
Públicas
A atuação das organizações
públicas nessa esfera é regulamentada pela política de ação social do
governo federal. Por sua vez, orientada pelos artigos 203 e 204 da Constituição
Federal no que tange à Assistência Social.
As ações do governo nessa
área, são realizadas com os recursos da Seguridade Social “financiada por
toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante
recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios através das contribuições sociais que incidem sobre
a folha de salários, o faturamento e o lucro dos empregadores, dos
trabalhadores e da receita apurada em concursos de prognósticos”.[1]
A política de ação social
do governo obedece basicamente a três princípios: integração,
descentralização e interação.
O conceito de “ação integrada” atende a duas vertentes
principais.
Uma é a criação de um eixo
norteador ou elo de ligação entre os vários órgãos do governo e que
perpassa ao longo de sua estrutura articulando as ações dos ministérios, das
autarquias e de outras instituições.
Esse elo atualmente se
consubstancia no Programa Comunidade Solidária que visa o atendimento das
diversas regiões brasileiras, objetivando a melhoria da qualidade de vida das
populações.
A outra vertente diz respeito
à idéia de simultaneidade,
ou seja, através do Programa e seus alvos prioritários, visa gerar ações
concomitantes dos vários órgãos e setores governamentais.
O segundo princípio, o da
“descentralização”, parte da consideração que a dimensão
territorial e a heterogeneidade observada entre as regiões brasileiras,
dificultam a ação flexível e eficiente do governo. Propõe, então, a redução
dos elos burocráticos contando com a participação das organizações não
governamentais.
De acordo com esse princípio
as instituições governamentais apóiam-se nas organizações da sociedade
civil que, por sua vez, irradiam suas ações e práticas consolidando o alcance
da política social do governo.
O terceiro princípio, talvez
o mais fundamental, se apóia na “interação”
entre sociedade e Estado. Baseia-se na premissa de que a política social
se torna mais eficiente se há envolvimento da comunidade por meio do papel
desempenhado por suas lideranças e seus membros ao coordenar e executar as ações
do Estado.
Ressalta-se, novamente, o
papel das organizações civis como interface privilegiada entre o Estado e
sociedade, ajudando na organização comunitária e na execução dos projetos
sociais.
A interação com a sociedade
enraíza e multiplica o resultado de ações primárias, criando um sistema
ampliado de atuações que envolvem inúmeras parcerias, entre 1º, 2º e 3º
Setores.
A Secretaria da Assistência
Social do Ministério da Previdência é o órgão responsável pela organização
da política pública de ação social do governo.
Compete à Secretaria propor
ao Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS os fundamentos da Política
Nacional voltada à essa área.
Dessa Política emana a lei
infra-constitucional – a Lei Orgânica da Assistência Social que estabelece
as normas, os critérios de prioridade e de elegibilidade, além de padrões de
qualidade na prestação de benefícios, serviços, programas e projetos em
parceria com os setores público e civil da sociedade.
Segundo
Setor – Organizações Privadas
A percepção, por parte de boa parcela do
empresariado, sobre a necessidade de um desenvolvimento sustentado vem gerando
uma postura que se contrapõe à cultura centrada na maximização do lucro dos
acionistas.
Certamente, o notável
economista americano Milton Friedman, ao afirmar que a responsabilidade de uma
organização baseia-se essencialmente na conquista e elevação de seus
dividendos, não avaliou os impactos que a nova orientação capitalista traria
ao mundo dos negócios.
O chamado capitalismo social
ambienta novas formas de relação entre empresas, funcionários, comunidades e
clientes. Esses segmentos passam a compartilhar objetivos e resultados em prol
da otimização e manutenção dos recursos necessários à perenidade dos negócios.
No âmbito da administração
das empresas privadas, várias teorias e correntes de estudos em Administração
sucederam-se na medida em que evoluía o ambiente social com suas variáveis.
Verificou-se que muita coisa
existente dentro das organizações era decorrente do que existia fora delas,
nos seus ambientes. As organizações escolhem seus ambientes, passam a ser
condicionados por eles, necessitando adaptar-se aos mesmos para poderem
sobreviver e crescer. Neste sentido, conhecimento do ambiente é vital para a
compreensão dos mecanismos organizacionais.
As transformações econômicas,
políticas e culturais da atualidade tornam-se então determinantes das novas
posturas empresarias.
O conceito de desenvolvimento
sustentado faz com que as organizações se voltem para os objetivos no longo
prazo e passem, então, a perceber que qualidade, preço competitivo e bons
serviços não representam mais os únicos diferenciais no mercado.
Consumidores melhor
informados e exigentes quanto a produtos e serviços se convertem em cidadãos
mais conscientes das necessidades de suas comunidades, e conseqüentemente
passam a reivindicar o cumprimento das responsabilidades das empresas para o seu
desenvolvimento.
As organizações que
trabalham para esse desenvolvimento compartilhado são classificadas como
empresas cidadãs.
Segundo Deborah Leipziger, diretora européia do
Council on Economic Priorities Acrecitation Agency – CEPAA, e uma das maiores
autoridades mundiais em cidadania organizacional: “empresas éticas e que
ajudam suas comunidades não são novidade”.
A referência mais antiga,
entre os exemplos de maior destaque, remonta a meados do século passado com a
atuação dos irmãos Clemens e August Brenninkmeyer, fundadores da rede de
lojas C&A, em 1841.
Apoiar a comunidade através
do financiamento de projetos sociais sempre fez parte da cultura e estratégia
da empresa, que desde sua fundação desenvolveu essa prática.
A empresa possui hoje cerca
de 700 lojas espalhadas pelo mundo e sua forma de processar a responsabilidade
social através de seu instituto – o Instituto C&A, com a participação e
adesão voluntária de seus funcionários, é modelo de referência para o
empresariado brasileiro.
Em nossa sociedade, os
reflexos da cultura de responsabilidade social, verificada em países mais
desenvolvidos, tem propiciado inúmeras práticas que aliam as iniciativas
privadas com as das organizações da sociedade civil sem fins lucrativos.
Embora essas práticas possam ser classificadas em categorias que correspondem a
um estágio de evolução da cultura de envolvimento social das empresas. Nesse
caso podem ser observados os modelos:
Para além da mera colaboração
com instituições filantrópicas realizada de forma aleatória, não
sistematizada e fora do âmbito de suas próprias vocações e missões, muitas
empresas brasileiras tem incorporado atitudes cidadãs através da prática da
filantropia estratégica.
Tal prática consiste na
administração inteligente da participação da empresa, através de
investimentos filantrópicos, nas causas sociais.
Compreende a análise,
escolha e determinação de uma causa que tenha, preferencialmente, relação
com o negócio da empresa.
Assim, ao invés de praticar uma política de doações,
a empresa investirá no(s) projeto(s) social(ais) específico(s) que agregará
valor a sua marca, despertando a associação positiva por parte de
consumidores, fornecedores, clientes e potenciais, entre seu nome e a ação
socialmente responsável.
Além disso, a filantropia
estratégica passa a conquistar credibilidade e seriedade através da forma
estruturada com que é administrada. A empresa passa a ter elementos para a
avaliação crítica e a mensuração dos resultados dos projetos. Com isso,
entidades beneficiadas são obrigadas a demonstrar o alcance de seus objetivos e
metas. Cria-se então um ciclo de profissionalização no âmbito das várias
organizações que se voltam para os problemas sociais.
Além dessas questões, a
filantropia estratégica engloba o processo de voluntarismo empresarial, ou
seja, o estímulo à participação dos funcionários da organização no
desenvolvimento de projetos voltados à comunidade.
As empresas percebem que o
envolvimento dos colaboradores internos traz ganhos multiplicados.
Ganha a empresa e seus negócios
pela representatividade que alcança ao ter seus funcionários diretamente
ligados aos objetivos sociais; ganham os próprios empregados que desenvolvem um
novo sentido de produção e relação humana através do trabalho e ganha a
comunidade ao contar com a aptidão, a energia, a criatividade e o compromisso
com a resolução de problemas por parte de um novo contingente de cidadãos.
A própria dimensão e ocorrência
dos problemas que afetam o ambiente social passam a ser melhor avaliadas, bem
como, as atitudes para a sua eficaz administração. Tais elementos contribuem
para o ciclo virtuoso da cidadania empresarial.
A sociedade civil solicita às
empresas públicas e privadas a prestação de contas referentes aos seus
investimentos sociais.
As empresas são estimuladas
e orientadas para a apresentação do Balanço Social – documento que
apresenta os dados relativos a sua atuação responsável para com o ambiente
interno e externo, demonstrando seu perfil social. Além disso, ampliam-se as
tendências de reconhecimento, por parte de organismos e entidades profissionais
na instituição de prêmios e selos voltados ao mérito social.
Chegam ao país as primeiras
certificações sociais através das normas BS 8800 e SA 8000.
Iniciativas e experiências
particulares contribuem para a criação de entidades voltadas para a disseminação
de valores e congregação de práticas educativas relacionadas à
responsabilidade social das organizações.
É o caso, por exemplo, do
Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social que reúne empresas
brasileiras que buscam o sucesso econômico sustentável no longo prazo
procurando adotar um comportamento socialmente responsável.
Em julho de 1998, o Ethos
reunia 30 empresas. Atualmente conta com a participação de mais de 150
empresas que se voltam para pesquisas, disseminação de informações
correlatas, apoio às empresas na elaboração de códigos de ética e de
conduta, à troca permanente de casos e realização de eventos mensais e anuais
que destacam as iniciativas e modelos de práticas de sucesso.
Entidades de destaque como
IBASE – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, GIFE –
Grupos de Institutos Fundações e Empresas, dentre outras, acrescentam esforços
na mesma direção.
Apesar do cenário promissor,
os números resultantes de uma avaliação sobre os investimentos em projetos
sociais, por parte das organizações privadas, destacam o enorme espaço a ser
preenchido por atitudes empresariais cidadãs.
Segundo Stephen Kanitz,
professor de Economia, Administração e Contabilidade da USP e criador do prêmio
Bem Eficiente para as entidades do Terceiro Setor: “as 500 maiores empresas
brasileiras doam aproximadamente 300 milhões de dólares para entidades
beneficentes. Além de ser uma quantia irrisória para os padrões
internacionais, a maioria delas o faz de forma totalmente aleatória, sem estratégia
filantrópica definida”.
A constatação revela que a
tendência de aplicação da filantropia estratégica no meio empresarial
brasileiro ainda é tímida.
Além disso, há indícios
que a prática da cidadania organizacional tem se restringido, mais
acentuadamente, no âmbito das empresas de grande porte.
Mais de 80% das organizações
que integram o Instituto Ethos em meados de maio do corrente ano tiveram um
faturamento da ordem de 102,6 bilhões de reais.
Faz-se necessário um estudo
mais apurado sobre o reflexo das novas tendências, nas empresas de médio,
pequeno e micro porte, a fim de verificarmos o panorama geral da
responsabilidade social nas organizações privadas.
Terceiro Setor – Organizações
da Sociedade Civil de Interesse Público.
O Terceiro Setor constitui-se
de organizações criadas por iniciativa de cidadãos com o objetivo de prestar
serviços ao público sem fins lucrativos (saúde, educação, cultura, habitação,
direitos civis, desenvolvimento do ser humano, proteção ao meio ambiente),
ainda que eventuais excedentes sejam reaplicados na manutenção das próprias
atividades ou remuneração de atividade profissional necessária. Suas receitas
podem ser geradas em atividades operacionais, mas resultam sobretudo de doações
do setor privado ou do setor governamental.[2]
O Terceiro Setor cresce
consideravelmente e rapidamente em várias partes do mundo movimentando um
volume de recursos da ordem de mais de trilhão de dólares,[3] volume esse maior que o PIB
de países como Brasil e Rússia.
O Centro de Estudos da Getúlio
Vargas concluiu, através de várias análises sobre o Terceiro Setor, que seu
crescimento se deve a quatro fatores básicos: a falência do Estado Social; a
crise do desenvolvimento sustentado; os reflexos da derrocada do socialismo na
Europa; e a convergência de inúmeros problemas sociais que afetam,
principalmente, países em estágio menos avançado de desenvolvimento
(analfabetismo, desemprego, poluição ambiental, carência de cidadania etc.).
A abrangência desses
problemas define o território onde as organizações da sociedade civil emergem
com força crescente.
Segundo Oded Grajew, do
Instituto Ethos e da Fundação Abrinq, só os Estados Unidos têm 32 mil fundações,
com patrimônio de cerca de 132 bilhões de dólares, dos quais 8,3 bilhões são
atribuídos através de verbas, sem considerar a doação de trabalho voluntário,
estimada em quase 200 bilhões de dólares. As atividades sem fins lucrativos,
nesse país, chegam a 1,2 milhão de organizações.
No Brasil, embora a tendência
de crescimento seja destacada, o Terceiro Setor ainda se apresenta algo tímido.
As estatísticas começam a
ser elaboradas através da iniciativa de entidades mais representativas, embora
ainda em número insuficiente para determinar um panorama real do setor.
Estima-se que haja no país 220 mil entidades sem
fins lucrativos, movimentando algo em torno dos 400 milhões de dólares e
empregando 600 mil pessoas, além dos 1,2 milhão de voluntários.[4]
Uma pesquisa realizada pela Kanitz & Associados
traz novos dados. O estudo demonstrou que as 400 maiores entidades assistenciais
brasileiras arrecadam por ano 1,2 bilhão de reais, o que ainda significa um
faturamento menor do que aquele obtido por uma das 500 maiores empresas do
Brasil.
O envolvimento de empresários
e profissionais de diversas áreas de atuação com as entidades do Terceiro
Setor vem contribuindo para a análise dos problemas que o segmento vivência.
Esse envolvimento acaba por influenciar e determinar novos instrumentos e
mecanismos que vão propiciando maior regulamentação e profissionalização no
setor.
Recentemente, o Congresso
Nacional instituiu a Lei que qualifica as Organizações da Sociedade Civil de
Interesse Público, bem como, regulamenta sua atuação.
Uma pesquisa nacional
realizada pelo idealizador do prêmio Bem Eficiente, Stephen Kanitz, demonstrou
que a maioria dos empresários brasileiros gostaria de disponibilizar verbas
para entidades filantrópicas. Porém, um clima de desconfiança, gerado pela
imagem negativa de algumas instituições, aliado à falta de informações
sobre a atuação do setor de forma geral, inibia as parcerias.
Essa constatação acabou
gerando inúmeros trabalhos voltados ao reconhecimento e divulgação das
entidades que trabalham de forma séria e criteriosa.
Exemplos de conduta
profissional e ética observados nas diversas instituições eficientes são
adotados como modelo de administração e compromisso social.
Para as organizações de boa
vontade, mas que ainda desenvolvem uma administração em moldes menos
profissionais, estão sendo criados cursos e seminários nas áreas de captação
de recursos, marketing, qualidade nos serviços, administração financeira e
outros assuntos gerenciais. O Projeto Gestão do Instituto de Cidadania
Empresarial é um exemplo de ação voltada para as entidades que buscam elevar
seu nível de profissionalização.
Observa-se, portanto, que no
Brasil há um princípio de mudança cultural em relação às organizações da
sociedade civil de interesse público.
A eficácia dessas organizações
passa pela capacidade de administração do seu “negócio” com vistas a
atrair o interesse de empresas públicas, privadas e cidadãos voluntários que
possam colaborar para o alcance de metas sociais.
O conceito de filantropia estratégica pode ser
avaliado e aplicado pelas entidades sem fins lucrativos.
A visão mercadológica destas, sem ofuscar o foco
no serviço essencial que devem desenvolver, contribui para a percepção de que
as organizações do Primeiro e Segundo Setores, e os cidadãos comuns, se
constituem num público prioritário.
PERCEBER
O PAPEL DAS RELAÇÕES PÚBLICAS NO DESENVOLVIMENTO DA RESPONSABILIDADE SOCIAL
Perceber a contribuição das Relações Públicas
na dinâmica da responsabilidade social das várias organizações, é, antes de
qualquer outro fator, relacionar ao processo a força da comunicação que move
a opinião pública; força essa que emerge do “direito
social à informação e à participação” dos indivíduos.[5]
As reflexões proporcionadas
por James F. Langton ao vincular as funções de Relações Públicas a “política
social” ou “assuntos públicos”; a posição de Bernays que associa a prática
de Relações Públicas ao estabelecimento de “um terreno comum para a
entidade e sociedade”, bem como, a visão de Childs sobre a aproximação
entre organização e o meio ambiente onde esta opera evidenciam a clara orientação
para destacar o papel das Relações Públicas como elemento de integração
entre os objetivos de uma instituição e o interesse público.
É na aproximação desses
interesses que vamos encontrar os fundamentos das práticas de Relações Públicas
que apóiam o desenvolvimento da responsabilidade social por parte dos vários
agentes de dada organização.
Para o início de nossa análise
promovemos uma relação entre o conceito de Relações Públicas, oriundo do
Acordo do México, e do conceito formulado para responsabilidade social.
No primeiro, temos que: “o
exercício profissional das Relações Públicas requer uma ação planejada com
apoio da investigação na comunicação sistemática e na participação
programada, para elevar o nível de entendimento, solidariedade e colaboração
entre uma unidade pública ou privada e os grupos sociais a ela vinculados, em
um processo de integração de interesses legítimos, para promover o seu
desenvolvimento recíproco, e o da comunidade a qual pertence”.
No segundo,
“responsabilidade social consiste na somatória de atitudes assumidas pelos
agentes sociais-cidadãos, organizações públicas ou privadas, com ou sem
finalidades lucrativas – estreitamente vinculadas à ciência do dever humano
(ética) e voltadas para o desenvolvimento sustentado da sociedade”.
Partindo da consideração
“dos objetivos” a que se referem ambos os conceitos temos 1 –
“a ação planejada” – com
o apoio da pesquisa e da comunicação através do entendimento e solidariedade
mútua – “promove o desenvolvimento
comum”; 2 – “as atitudes
éticas” dos agentes sociais “se
voltam para o desenvolvimento sustentado da sociedade”.
Percebemos, através da relação
estabelecida que os objetivos se complementam: “o
desenvolvimento de uma unidade pública ou privada e o dos grupos sociais a ela
vinculados passam, obrigatoriamente, pelo desenvolvimento sustentado da sociedade”.
Nesses cenários,
entrecruzam-se os objetivos das organizações (públicas ou privadas) com os
objetivos dos cidadãos.
É na intermediação entre
interesse privado e interesse público que se estabelece a função política
das Relações Públicas na medida em que estas corroboram para o
estabelecimento da praça democrática – “lugar onde se confrontam os
poderes, ou seja, a resultante dos projetos dos interesses e dos desejos
divergentes”.[6]
A continuidade de nossa análise
recai agora no processo implícito
em cada conceito anteriormente citado.
Temos no primeiro caso “a ação planejada com apoio da investigação na comunicação
sistemática e na participação programada”; e no segundo conceito “somatória
de atitudes vinculadas à ciência do dever humano (ética)”.
Vamos remeter a relação
estabelecida entre os processos acima para os fatores que se seguem.
Dado o ambiente sócio, econômico
e político vigente, as organizações percebem a necessidade de reorientar sua
estratégia de posicionamento, cujo foco desliza do cliente – consumidor para
o indivíduo – agente social no exercício da cidadania. A opinião pública
considera novos atributos na classificação de produtos e serviços das
organizações e estas necessitam da visibilidade aos novos componentes que
agregam valor à sua marca – a conduta ética e solidariamente responsável
para com o ambiente interno e externo.
A visibilidade de sua missão,
filosofia, valores e conduta requer o planejamento estratégico da comunicação
com esses ambientes.
O planejamento estratégico,
por sua vez, pressupõe a “ação planejada, vinculada a ciência do dever
humano, com apoio da investigação na comunicação sistemática e na participação
programada”.
A convergência dos
conceitos, acima apresentada, ambienta a função das Relações Públicas
voltadas à administração da comunicação, onde função administrativa e técnicas
de comunicação se fundem.
De acordo com o conceito de
Eric Carlson: “Relações Públicas é uma função administrativa que: 1 –
transmite e interpreta as informações de uma entidade para os vários setores
do respectivo público, e 2 – comunica as informações, idéias e opiniões
desses mesmos setores à entidade, a fim que daí resulte um sólido programa de
ação que conte com a inteira compreensão, aquiescência e apoio do público”.
Extrapolando os limites de
uma visão funcionalista, incluímos como elemento da administração estratégica
a comunicação integrada que considera, para a excelência do diálogo entre
organização e seus públicos, as diversas competências profissionais
existentes na área visando o desenvolvimento de um trabalho de natureza
interdisciplinar, como requer a interação entre organização e o meio
ambiente ajustado para o desenvolvimento social.
As reflexões ora
apresentadas apontam para a natureza e as funções que a prática das Relações
Públicas estabelecem.
A função política e a de
administração da comunicação não se excluem, antes, no desenvolvimento de
um planejamento estratégico, elas se complementam em função da excelência
que se almeja para o relacionamento organização-públicos.
A partir do referencial de
responsabilidade social até o momento apresentado, apenas um dos modelos que
caracterizam as práticas de Relações Públicas pode servir como modelo a ser
processado pelas organizações verdadeiramente voltadas para a cidadania
organizacional.
Trata-se do modelo
“simétrico de duas mãos” desenvolvido pelo professor James E.
Grunig em 1984.
O referido modelo pressupõe
um amplo programa de pesquisas que permitem a análise do ambiente externo e
interno da organização. Dessa forma, quanto ao ambiente externo, as principais
demandas por determinados serviços sociais podem ser detectadas; quanto ao
ambiente interno pode-se perceber as potencialidades e a vocação para o serviço
social por parte dos colaboradores (estímulo ao voluntarismo).
Além desses, e de outros
aspectos não menos relevantes, o modelo simétrico pressupõe o uso das
ferramentas de comunicação dirigida como ferramenta de apoio ao diálogo e a
interação entre organização e seus públicos.
Os efeitos dos atos de comunicação se fazem
equilibrados permitindo a compreensão mútua e a reciprocidade de interesses,
objetivo do processo em que se fundamenta a responsabilidade social.
CONCLUSÃO
Segundo a nova metodologia do
Relatório do IDH - Índice de Desenvolvimento Humano promovido pela ONU -
Organização das Nações Unidas, o Brasil passou do 75º para o 79º lugar na
classificação geral dos países, em relação ao nível de qualidade de vida
que apresentam.
Um dos critérios da nova
metodologia está ligado à questão da distribuição de renda e, conseqüentemente,
às decorrentes formas de exclusão social observadas nos países
subdesenvolvidos e em desenvolvimento.
Educação, saúde, habitação,
nível de empregabilidade, segurança, entre outras, são áreas críticas em
nosso país que se contrapõem ao processo de desenvolvimento sustentado,
atualmente percebido como fator inerente à sobrevivência das diversas organizações
da sociedade.
Essa percepção colabora
para o entendimento de que nenhuma instituição pública ou privada conseguirá
se desenvolver em meio a uma massa de excluídos – não-consumidores, não-públicos,
não-cidadãos.
A chamada sociedade da
informação e do conhecimento não poderá se constituir apenas através de
algumas de suas parcelas, antes, terá que promover o acesso às informações e
ao saber do conjunto social.
Nesse sentido, a força da
comunicação emerge como fator facilitador para a inclusão e integração
entre os indivíduos, as diversas organizações e classes sociais, posto que, o
saber compartilhado pressupõe as responsabilidades divididas, pressupõe um
ambiente democrático no qual direitos e deveres são discutidos e processados.
Desenvolvimento
e direito à informação e participação andam juntos. Nesse caminho, ao lado
de outros agentes, pode atuar o profissional de Relações Públicas.
No processar de suas funções e atividades, as
Relações Públicas contribuem para a formação de cidadãos e públicos
interligando interesses e necessidades das organizações públicas, privadas e
da sociedade civil - ligação que ajuda a estabelecer o "locus"
onde se desenvolve a responsabilidade social.

NOTAS
[1] Constituição
da República Federativa do Brasil – Brasília: Senado Federal, Centro Gráfico,
1988.
[2]
SROUR,
Robert Henry. Poder,
cultura e ética nas organizações. Rio de Janeiro: Campus, 1998.
[3] FONTE:
Johns Hopkins University – Revista Época, 25/10/99, p. 54.
[4] Instituto
Ethos.
[5] Fleta, Luis Solano. Fundamentos de las
relaciones públicas, Madri: Editorial Sínteses, 1995.
[6] Rosanvallon
apud Simões, Roberto Porto. Relações públicas: função política. 3.
ed.
São Paulo: Summus, 1995.

BIBLIOGRAFIA
BOBBIO, Norberto. A
era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992.
CORREA, Tupã Gomes
e Freitas, Sidneia (org.) Comunicação, marketing, cultura: sentidos da
administração, do trabalho e do consumo, São Paulo: ECA-USP: CLC, 1999.
DAHRENDORF,
Ralf. O conflito social moderno.
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Comunicação
apresentada ao GT de Relações Públicas, da INTERCOM
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XXIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado de 2 a 6 de
setembro de 2000 na Universidade do Amazonas, Manaus – AM