RELAÇÕES PÚBLICAS E O
CONSUMIDOR DE HOJE
Gaudêncio
Torquato
Professor
da Universidade de São Paulo
A
LÓGICA DO CONSUMO
Para
uma correta avaliação das possibilidades das Relações Públicas ante o
consumidor, principalmente num estágio de perturbação econômica, com sérios
reflexos sociais, como o que vivemos, é importante recuperar algumas idéias em
torno do que se pode chamar de processo de consumo. Afinal não se pode isolar o
consumidor, como indivíduo, do processo social, econômico, cultural e
político que o cerca. Eis, pois, alguns pontos que ajudam a compreender o exato
papel das Relações Públicas a favor do sistema empresarial e na perspectiva
de atingir o consumidor.
Em
primeiro lugar, é oportuno lembrar que o consumo se efetiva graças a uma
lógica própria, estribada, por um lado, pela necessidade de permitir um
sistema de permuta entre fornecedores e consumidores (processo de significação
e comunicação) e, de outro, pela característica de poder distribuir valores e
conceitos às pessoas (processo de classificação e diferenciação social).
Assim, o consumo tanto permite que o sistema de trocas seja realizado quanto
proporciona certo tipo de status a quem nele se engaja. A respeito desse
assunto, diz-se até que nunca os objetos são consumidos, em si, porque, acima
de tudo, representam sinais e símbolos de diferenciação entre os indivíduos.
Deduz-se
que a lógica do consumo reparte-se entre as necessidades fundamentais do
indivíduo e sua satisfação psicológica, tornando bem distintos o processo
individual de satisfação e o processo de diferenciação social. Sob outro
prisma, o consumo tem significados abrangentes.
Para
o economista, nada mais é que o sentido utilitário, o desejo do consumidor de
possuir determinado bem específico, de acordo com preferências estabelecidas
pelas leis do mercado e pela clivagem dos produtos em oferta. Para o psicólogo,
trata-se o consumo de uma questão de motivação, de satisfação do ego; para
o sociólogo, a questão do consumo pode ser visualizada sob o ângulo
eminentemente sociocultural, quando, então, situa-se o modelo consumista dentro
dos padrões globais dos sistemas políticos e econômicos. Para o antropólogo,
trata-se de necessidades vital do indivíduo, que é levado pela natureza a
satisfazê-la.
Este
mix conceitual permeia a figura do consumidor moderno. É difícil caracterizar
os ângulos que pesam mais na composição do consumista atual. É bem mais
fácil argumentar que a lógica clássica do consumo, amalgamada pela visão
multidisciplinar, põe à mostra, um Homem à procura da felicidade, que dá
preferência, em sua busca incessante, aos objetos que lhe acarretem o máximo
de satisfações.
Esses
objetos, produtos ou insumos, constituem sua fonte de equilíbrio, mas não lhe
fornecem uma completa e integral satisfação. Insatisfeito, o consumidor
reinicia sua procura. E o ciclo do consumo é assim, indefinido gerando a
renovação dos produtos de satisfação e diferenciação social, fazendo
brotar idéias originais, provocando o aumento dos ganhos, a proliferação dos
bens, a melhora (?) da qualidade e, ao final, contribuindo para o crescimento
econômico.
A NOVA
LÓGICA DO CONSUMO E O NOVO CONSUMIDOR
O
Brasil de setembro de 1984 agrega alguns componentes e determinantes para
explicar a atual posição do consumo. As variáveis econômicas e políticas,
por exemplo. A mudança a ocorrer (?) nos rumos políticos, o quadro do
desemprego, a devastadora inflação são alguns elementos que apontam para a
necessidade do consumidor decidir com base na teoria do "risco calculado".
Ele não se arrisca tanto quanto antigamente, os produtos e bens são
selecionados, de acordo com a lei das grandes necessidades. Já não se adquirem
tantos bens com a finalidade exclusiva de procura de status.
Há,
evidentemente, consumidores que procuram conjugar todos os aspectos, ajustando
os tipos de interesses. É o caso dos jovens, que são atraídos pela
glamorização dos meios de comunicação.
A
maior seletividade significa, de outra forma, mais esforço do consumidor, mas
barganha, mais pesquisa e, ao final, mais exigências de qualidade. O risco
calculado impede, sem dúvida, a aquisição de bens que possam comprometer o
amanhã. Não é à toa que se tem acumulado, no país, nos últimos tempos, a
poupança, sinal mais que representativo da insegurança social. Esse sentido de
acumulação de bens financeiros, em momentos de tensão e de grande
eletricidade, confere postura diferenciada ao consumidor, seja ele de produtos
de massa, de bens duráveis ou de serviços.
As
pesquisas de tendência sociocultural têm revelado contornos que mostram um
consumidor ardentemente equilíbrio no emprego. Em sua vida doméstica, procura
meios para viabilizar a idéia de simplicidade, pela aquisição de aparelhos
que facilitem a composição e as atividades do lar.
O
contexto social permite concluir que o consumidor deseja mudanças, expectativa
que o conduz para alguns compromissos e quebra de tabus, com maior
permissividade sexual, menor apego à ordem, porque a ordem como até agora foi
idealizada não tem sido eficaz para a melhoria social. Tanto por uma questão
econômica, que viabiliza a homogeneidade de patterns culturais
(vestimentas unisex), quanto por uma influenciação direta da mídia ou mesmo
pela aceitação paterna, a diferença dos sexos já não é tão importantes e
significativa, mesclando-se os comportamentos entre rapazes e moças.
Por
outro lado, o esforço maior pela sobrevivência, na crise, tem gerado maior
criatividade, mas idéias e indicações para propostas de soluções. Exemplos
dessas situações são os negócios próprios, desenvolvidos com idéias
originais e implementados com muito esforço, determinação e persistência.
Observa-se
criatividade até nas vestimentas, com os toques pessoais. A escassez leva, por
seu turno, as pessoas a um comportamento de lazer "recolhido",
denotando tal fato maior exposição dos consumidores aos meios de
comunicação, principalmente eletrônicos (veja-se, por exemplo, em São Paulo,
o caso da Bienal Internacional do Livro que, num espaço de 15 dias, vendeu mais
de um bilhão de cruzeiros, no maior movimento editorial já ocorrido no país
num espaço exíguo de tempo). A exposição à TV explica a tendência para a
maior automanipulação dos consumidores.
Outra
forma de preencher o tempo está na conservação da forma física, postura que
tanto pode Ter explicações ante a influência dos modelos televisivos
(incluindo os videoclipes) quanto pela necessidade de ajuste psicossomático.
Afinal, as tensões urbanas, conseqüências das imensas concentrações
populacionais, necessitam de tratamento permanente, principalmente em momentos
de recessão e intranqüilidade.
Pode-se
divisar, ainda, um consumidor altamente preocupado com a manutenção e
preservação da natureza, inseguro diante das investidas à violência urbana,
atirando-se irrefreadamente aos jogos de sorte e azar (lotos), numa busca
incessante do mágico e irracional, na esperança de resolver os problemas, com
uma só tacada (o ganho na loto).
Estes
traços permitem perfilizar o consumidor brasileiro, neste espaço histórico,
ficando mais claro o agente para quem se deve dirigir uma estratégia de
Relações Públicas de amplo espectro e alcance.
A ANTIGA
E A NOVA POSTURA DE RELAÇÕES PÚBLICAS
Tradicionalmente,
as Relações Públicas sempre se postaram ao lado complexos sistemas e
mecanismos de persuasão organizacional, trabalhando com suas ferramentas
próprias na faixa da comunicação institucional. Não é o momento para
relacionar os imensos ganhos empresariais gerados pelas políticas de Relações
Públicas. Sem dúvida, elas têm cumprido, historicamente, seu papel de
aglutinadora de interesses empresariais e marcado, de maneira quase definitiva,
a identidade do universo organizacional.
Em
sua missão, procuraram sempre se adaptar às circunstâncias e aos tempos. Que
novos ingredientes ditam, hoje a necessidade de nova postura para as Relações
Públicas? Tentemos responder.
O
primeiro ponto a se considerar diz respeito à necessidade das Relações
Públicas se adaptarem à cultura dos novos tempos e à identidade de um
consumidor mais exigente.
Esse
novo consumidor, resultante do composto cultural e social retratado acima, é,
hoje, sobretudo um Homem que se guia pelo que podemos chamar de
"autogestão técnica". Define parâmetros para sua vida, estabelece
metas, organiza-se de acordo com os riscos calculados, questiona a qualidade, é
mais racional e grita mais do que gritada no passado. Pleiteia, faz piquetes, à
frente de fábrica, participa de passeatas e denuncia os produtos contaminados,
sob o olhar da televisão. Não aceita passivamente a mistificação. E mais:
aprendeu até a contar a história da mistificação pelos mecanismos de
comunicação.
Como
se sabe, a cadeia de comunicação, formada pelos elos que unem Relações
Públicas, Publicidade, Jornalismo etc., tem sido utilizada pelas empresas para
tornar as escolhas dos consumidores simplesmente uma questão de persuasão.
Persuasão pela informação convincente (jornalística), persuasão pela
argumentação sólida, racional, lógica (Publicidade), persuasão pela
identificação de um conceito e uma identidade empresarial (Relações
Públicas).
Ocorre
que, a rigor, algumas técnicas, principalmente as publicitárias, têm
contribuído para certas distorções. Em relação a produtos, por exemplo,
critica-se a quebra da lei natural do produto, pela publicidade. Cada produto
tem uma vida útil, que é desvirtuada pelo processo de substituição e troca.
Abole-se a verdadeira realidade do produto. Desfigura-se o real, substitui-se o
concreto pelo abstrato, fragmenta-se a lei da naturalidade (os descartáveis
são exemplos dessa situação).
Levado
o pensamento para um corpo mais abrangente de situações, poder-se-ia dizer que
os mecanismos de persuasão despolitizam a política, desculturam a cultura e,
de certo modo, dessexualizam o corpo, homegeneizando casos, planificando
exemplo, estandardizando situações, amortecendo posições fortes,
fortalecendo posições fracas, dourando a pílula, narcotizando o consumidor. E
criando passividade. O consumidor passivo tem sido historicamente, o alvo dos
mecanismos de persuasão. Hoje é diferente.
Os
novos tempos mostram o despertar do consumidor, agora transformado no
questionador, no homem exigente, no agente de transformação. Identifica-se tal
posicionamente como um voltar às tradições mais humanísticas do culturalismo
europeu, a vocação do homem pelo zelo sobre os objetos, o sentimento e
disposição para a preservação dos alimentos em estado natural. Esse novo
consumidor, agora muito atuante, não aceita mais as explicações em torno de
descasos, desconsiderações, desleixos, oferecidas pelas organizações
públicas e privadas.
Neste
contexto, deve-se posicionar a estratégia de Relações Públicas. Estratégia
montada a partir do real conhecimento do novo Homem, a partir de um modelo de
pesquisa sociocultural, coisa bem mais complexa do que o simples desafiar e
enumerar de públicos, como fazem tradicionalmente os Departamentos de
Relações Públicas.
As
Relações Públicas, mais que antes, necessitam aprumar seu discurso à procura
de pontos que possam justapor os interesses dos consumidores e das empresas,
sem, contudo, se desviar de compromissos éticos que restabeleçam a verdade, a
realidade, as exigências dos consumidores.
Os
novos tempos sugerem que a política de contar o que aconteceu deve ser a marca
dos compromissos empresariais. A ética dos negócios, nesses tempos de
mudança, não pode passar por cima dos valores mais nobres do Homem,
principalmente quando esse se conscientiza dos seus direitos e compromissos para
com a sociedade.
Restabelece-se
e também restaura-se, assim, a responsabilidade social das organizações,
responsabilidade aqui entendida não apenas como sua possibilidade de gerar
empregos, mas como a obrigação de oferecer produtos honestos, de qualidade, a
obrigação de reconhecer os erros, omissões e desleixos. Não se trata de
falso moralismo, nem mesmo de tentativa de busca de purismos. Trata-se,
sobretudo, de considerar uma nova realidade social, calcada numa dinâmica de
mudanças e num sopro de renovação que se irradia por diversos contos do mundo
ocidental.
Em
países de economia em desenvolvimento, com largas diferenças regionais e
contrastes absurdos, o ajustamento das políticas de Relações Públicas
torna-se altamente prioritário, sob pena de vermos, mais uma vez, cópias mal
desenhadas de modelos que, infelizmente, não tem sido moldados à nossa imagem
e semelhança.

Originalmente publicado em Comunicarte, Campinas, v. 2, n. 4, p. 79-83,
segundo semestre 1984.