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RELAÇÕES PÚBLICAS: UM CASO DE
RESPONSABILIDADE CIVIL

 

Pedro Luiz Dias

Profissional de Relações Públicas

 

O painel já havia acabado. Saía com a sensação de ter deixado a responder completamente algumas perguntas que foram dirigidas à mesa pelos participantes da XIV Semana Paulista de Estudos de Relações Públicas na Universidade de Taubaté.

A experiência do Cel. Feliciano tinha contribuído para que abandonássemos uma ampla área de discussão sobre um caso de Marketing com aplicação em Relações Públicas, repassando itens e etapas de um grande "case", como é o caso da indústria automobilística brasileira que enfrenta a implacável concorrência dos veículos importados.

Porém, ainda me restava uma sensação de que poderia ter refletido um pouco mais sobre uma pergunta ou outra. Talvez pudesse ter abordado um pouco mais sobre as efetivas contribuições de Relações Públicas para a conjuntura comunitária, política e empresarial que neste momento vivenciam o furor do fenômeno comunicação.

Tenha-se em mente que as estruturas mais sólidas do mundo contemporâneo se curvam à necessidade de edificar melhores canais de comunicação, seja no universo político (vide Leste Europeu), seja no universo econômico (vide Nafta, Mercosul e Euromarket).

Nunca a comunicação foi tão necessária como é agora, tanto como ciência quanto essência das modernas técnicas de administração e gerência de pessoas (ou times de trabalho como queiram). A falha de comunicação, a falta de comunicação, a duplicidade de comunicação e as distorções de comunicação nunca foram tão mensuradas como têm sido na atualidade.

Já me preparava para deixar o auditório quando uma pergunta por escrito me foi passada por um estudante.

– "Olha, esta pergunta não é minha. É daquele senhor lá no fundo do auditório. Ele é médico. Veio do Japão há algum tempo e gosta muito do Brasil".

O estudante apontava para um senhor no fundo do auditório, todo trajado de branco, o que insinuava sua profissão.

Abri a folha dobrada que o estudante me estendia e lia a seguinte explicação e pergunta:

"O brasileiro acha que tudo que vem de fora é melhor do que nós fazemos. Por exemplo: a frase do ex-presidente Collor – ‘Os carros brasileiros são carroças’. Como sou estrangeiro e vivo há muito tempo no Brasil, no meu ponto de vista esta é a melhor moradia do mundo, e tem tudo para evoluir. Pergunto: por meio da palavra ou do profissional de Relações Públicas não está na hora de mudar este país usando mais otimismo e credibilidade por intermédio do profissional de Relações Públicas? Qual é a melhor técnica do profissional de comunicação para utilizar este serviço?" Assinado: Médico. "O nome, lamento, está ilegível na folha".

Seguramente esta foi uma das melhores perguntas daquela tarde e cutucava diretamente todo o plenário. Pena que a pergunta não tenha chegado em tempo hábil na mesa para que todos os participantes pudessem colaborar com alguma opinião ou mesmo refletir melhor sobre "qual é a minha parte neste contexto?"

Já me preparava para opinar sobre o que acabara de ler quando percebo a aproximação do médico, que muito alegre, repetiu o teor da pergunta.

Nisso, um pequeno grupo de alunos se juntou ao nosso e conversamos sobre o assunto.

A questão é fundamentalmente sociológica, cultural. Por incrível que pareça ainda não sabemos quem somos, o que somos e até mesmo o que queremos. Afinal o que é ser cidadão brasileiro? Quem no mundo liga para isso? O que as Relações Públicas têm a ver com isso? E assim por diante.

Participei ao médico e aos alunos minha experiência pessoal. A experiência de quem pode atestar a percepção de um país diferente nos últimos quatro anos, dado que estive fora do país nesse período.

Obviamente que o período de registro data das eras "AC" e "DC" ("antes de Collor" e "depois de Collor"). Por obra e força dos meios de comunicação, a sociedade brasileira teve a oportunidade de se manifestar – a princípio – espontaneamente e – mais tarde – decididamente motivada contra uma estrutura social cansada, viciada e apática.

Despertou-se para o que antes era tido como fora de moda, despertou-se para aquilo que os amorfos chama de "politicamente correto", despertou-se para o ser responsável por aquilo que alguém faz com o poder de um voto eleitoral, enfim despertou-se para a cidadania.

O conceito de viver em comunidade passou a ganhar mais e melhores cores. O discurso virou fato, o sonho nunca antes imaginado tornou-se realidade. A força da coletividade ganhou ruas e praças, mobilizou segmentos sociais e proporcionou influências irresistíveis.

Explicava ao médico japonês, cujo nome não pude registrar, que os últimos anos foram pródigos na organização social do Brasil. Jamais na história da nossa sociedade surgiram tantas e tão fortes entidades, política e corretamente mobilizadas. Vivemos a nossa fase "renascentista", na qual a chama de um certo orgulho pátrio nos enche o peito e anima a uma caminhada por dias melhores, nem tão fáceis.

As manifestações públicas passaram a ser tão freqüentes e tão contagiantes, que exageros foram cometidos sob uma não muito clara bandeira de pressão política popular.

Há a certeza que não nos modificamos da noite para o dia, e que quatro anos estão longe de uma mudança sócio-cultural nas raízes dessa brasileiríssima raça cósmica.

Originalmente publicado no número 42 do jornal O Público, órgão informativo da Associação Brasileira de Relações Públicas – Seção Estadual de São Paulo, em novembro/dezembro de 1993, página 3.