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RELAÇÕES PÚBLICAS E O PRINCÍPIO DA POLÍTICA INATACÁVEL

 

Roberto Porto Simões

Professor da FAMECOS -– PUC/RS

 

A história a seguir dizem ser verdadeira, porém mesmo que não seja, interessa-nos a sua essência, a fim de explicitar o valor dos princípios básicos que sustentam qualquer técnica. E Relações Públicas, também, é uma técnica. Vejamos a história.

"Havia um universitário, realizando seus estudos ao mesmo tempo em que trabalhava para o seu sustento. Isto é um fato normal com a maioria dos universitários brasileiros, apenas que este exercia ambas as atividades no mesmo horário. Com isto sempre correndo, tentando chegar aos dois lugares ao mesmo tempo. A sala de aula levava desvantagem quantitativamente, contudo suas notas eram excepcionais.

"Certa vez, mais apressado que de costume, interrompeu o professor, pedindo que lhe desse o princípio básico do conteúdo da aula que estava sendo ministrada. O professor, apesar de surpreso, satisfez a solicitação, ao final do qual o aluno levantou-se e dirigiu-se para a porta, tendo como destino a rua. Foi então a vez do professor perguntar se ele não iria continuar a assistir a aula. Já com a porta aberta, um pé fora, o aluno respondeu: ‘Não! Não é necessário. O resto eu deduzo, basta-me o princípio’."

Esta figura nos é útil para clarificar aos leitores que é assim que estamos tentando tratar este artigo, ou seja, fornecendo alguns princípios, a fim de que os administradores deduzam suas políticas organizacionais e, implicitamente, as de Relações Públicas.

Dentre os princípios básicos de Relações Públicas intrínsecas, destaca-se um, talvez, o primordial, o da política inatacável. Entendemos por isto, o fato de somente ser possível bom nível de relacionamento público, quer seja interno ou externo à organização, se a empresa operacionalizar-se em políticas inatacáveis, isto é, se as normas e ações estabelecidas e executadas sejam aceitas e não produzam argumentos contrários em razão de suas bases éticas.

Aceita-se que possam existir opiniões contrárias ao fenômeno, mas geralmente o são em face de preconceitos ou boatos, os quais esclarecidos esvaziam qualquer crítica. Apenas que é dificílimo modificar um preconceito ou um boato. O correto é evitá-los. Foi com origem nesta premissa que surgiu a definição conceitual imprecisa de RR.PP.: "Relações Públicas é 90% trabalhar corretamente e 10% informar". Ou num jogo de palavras, R = realizar; P = publicar. Dizemos imprecisa, porque Relações Públicas não é somente isto.

Este ponto em si próprio gera controvérsia, pois há o preconceito quase generalizado que a empresa e o empresário, cujo objetivo é o lucro, possam esquematizar sua atuação por intermédio de conduta ética. Contudo, muitas organizações assim o fazem. A verdadeira empresa assim o faz. Aquela que se posiciona não somente para o lucro do imediatismo, mas para a prestação de serviço à sociedade, pelo qual lucro é meio e não fim, assim o faz. E, como resultado, elas, salvo outras variáveis, subsistem no espaço e no tempo com um status equilibrado.

Os dados revelam o baixo número de empresas em nosso Estado que permaneceram em um mesmo status por mais de três anos. Surgiram repentinamente na opinião pública e, do mesmo modo, desapareceram. Isto significa, salvo outras causas, status fabricado ou golpe de sorte. Gente houve que ganhou dinheiro, mas a empresa como tal, abstraindo o restante, só perdeu sendo olhada em nosso mundo ocidental latino-americano, auferindo lucros superiores a 100% além de empregar métodos deletérios nestas suas conquistas.

Esta é a imagem da empresa em nossa sociedade. Existem justos, pagando pelos pecadores, pois as pseudo-empresas cavaram e continuam cavando o túmulo do seu sistema. Este trabalho é realizado por duas forças:

por políticas que deixam a desejar;

por colocar em prática pareceres de pseudoprofissionais de Relações Públicas, aconselhando programas e campanhas institucionais intensos, porém sem conteúdo estrutural.

Quando descoberto o engodo, acontece o efeito de bumerangue – outro princípio de Relações Públicas – o feitiço vira contra o feiticeiro – em igual imensidade às ações publicitárias realizadas, inicialmente, contra a empresa, depois contra o sistema em sua totalidade. A comprovação deste fenômeno pode ser realizada por meio das críticas em obras, artigos e também da ação estatizante do governo.

É nosso parecer que o processo de estatização tem como causas mediatas e imediatas algumas coisas do que acima foi dito, pois o Estado, sendo gerente do bem comum, é obrigado ao intervir em razão de sua política inatacável, sob pena de, se assim não o fizer, sofrer as conseqüências junto aos seus cidadãos. É tudo isto, um sistema de efeito-causa-efeito.

Originalmente publicado no número 10 do jornal O Público, órgão informativo da Associação Brasileira de Relações Públicas – Seção Estadual de São Paulo, em julho/agosto de 1980, página 4.