Teorias e Conceitos

Anterior Voltar Próxima

 

UM PROCESSO PARA DETERMINAR O INTERESSE PÚBLICO

 

Celso Feliciano de Oliveira

Antônio Telles de Vasconcelos

Profissionais de Relações Públicas

 

Em maio de 1979, atendendo as exigências escolares do Curso de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes de São Paulo (ECA-USP), elaboramos um diagrama como decorrência de um estudo feito para a disciplina e Administração da Comunicação, regida pelo Professor Doutor Cândido Teobaldo de Souza Andrade, em um seminário subordinado ao tema "Comunicação e Desenvolvimento" (Dinâmica da Comunicação).

Em 1978, em Tese de Livre Docência na disciplina Relações Públicas Governamentais, na mesma ECA-USP, o professor Teobaldo de Andrade, já sustentava a necessidade de se incluir entre os poderes administrativos, o Poder Controverso que, em conseqüência, precisava de uma administração adequada.

Duas coisas são indiscutíveis. Primeiro, que enquanto houver duas pessoas, ou mais, haverá a controvérsia; segundo, que a administração pública existe em função do interesse público.

O que propusemos, então, foi um processo para determinar o interesse público, a partir de uma controvérsia.

Sentíamos que era (e é) imperativo criar um sistema capaz de captar e interpretar os anseios sociais e promover, por todos os meios, o diálogo, estabelecendo um universo de debates que conduzisse à ação conjugada e, determinasse aquilo que levaria ao progresso social, que é, realmente, o interesse público.

Isto não poderia se concretizar apenas com o emprego dos meios de comunicação de massa, pois se estes podem bombardear a mente humana indiscriminadamente, teremos que dispor de outros elementos que auxiliem na reorganização das idéias difusas e mantenham o equilíbrio de pessoa, e, por extensão, da sociedade, propiciando elementos para a formação da opinião e da opinião pública. Estes elementos são os meios de comunicação dirigida, selecionados e utilizados de acordo com as circunstâncias para grupos previamente identificados, que chamamos de público.

Aliás, já em 1964, em livro editado pela UNESCO, Wilbur Schramm procurou em diversos capítulos advertir o leitor para os limites das potencialidades dos veículos de massa, alertando para o papel fundamental da comunicação dirigida, especialmente quando, para se obter o desenvolvimento, exige "a modificação de concepções, crenças e normas sociais fortemente arraigadas".

Entre as recomendações deixadas no final do livro destacam-se a oitava: "Um país em desenvolvimento deve dar atenção especial à combinação dos veículos de massa com a comunicação interpessoal". Explica Schramm que "os veículos de massa podem ser eficientes, e a comunicação interpessoal também pode ser eficiente mas [...] os dois juntos podem algumas vezes ser muito mais eficientes" e insiste na importância da combinação que deve ser buscada em todas as oportunidades e salienta "que essa combinação, potente como é, não será automaticamente positiva. Exige atenção especial, cuidado e muita habilidade".

Por isso acreditamos que a administração da comunicação de um sistema ou, no dizer de Andrade (78), a administração da controvérsia pública, deve ser entregue ao profissional de Relações Públicas, não apenas pelas razões já apresentadas, ou pelo objeto princípios gerais e diretores, campos de atividades e instrumentos da profissão, mas, especialmente pelos fundamentos éticos das Relações Públicas que, como disse Andrade (75) "significam realmente uma revolução e a criação de uma nova mentalidade baseada na preocupação de bem satisfazer o interesse público".

Ele, como nós, acredita na "vitória da comunidade dos públicos, em plena sociedade de massa em que vivemos", condicionando-a na determinação do interesse público que se estabelecerá a partir do acatamento consciente das responsabilidades sociais em todos os setores da atividade humana.

Após termos alinhado estas breves considerações sobre o assunto tão amplo e atraente, apresentamos as seguintes conclusões:

se o progresso social é perseguido através de projeto de transformação econômica, política e social, está ligado à idéia de desenvolvimento que deve ser partilhado por todos, pois em nome de todos é levado a efeito;

administrar a comunicação deve ser uma das principais preocupações para os países em desenvolvimento, como o instrumento mais valioso e poderoso na catalização do interesse social;

atribuir tal administração à área de Relações Públicas que tem como principal escopo de sua atividade a interação social e harmonização do interesse público;

integrar a comunicação sobre a forma sistêmica, onde os múltiplos aspectos de sua influência e capacidade sejam mais bem exploradas.

O diagrama demonstra o processo de determinação do interesse público desde o surgimento de uma controvérsia pública, definindo os campos de atuação da publicidade, da imprensa e das Relações Públicas de uma instituição pública ou privada, com atuação integrada da comunicação sob a forma sistêmica onde os múltiplos aspectos de sua influência e capacidade sejam mais bem explorados.

 

Processo para Determinação do Interesse Público

 

De acordo com o diagrama, diante de uma controvérsia pública a instituição deve acionar a administração correspondente. Este setor distribuirá, então, as tarefas de comunicação pelos órgãos competentes da área, seja de propaganda e publicidade, seja de Relações Públicas.

A comunicação assim coordenada será planejada produzida, codificada, emitida e avaliada com a necessária "unidade e compatibilidade temática". O pessoal de propaganda e publicidade cuidará da difusão pela imprensa e por outros veículos de comunicação massiva, procurando atingir a massa consumidora, ou simplesmente, massa. O pessoal de Relações Públicas divulgará suas mensagens pelos veículos de comunicação dirigida, e, também pela imprensa, criando e motivando o público, oferecendo a desejada oportunidade para a formação da opinião pública.

De qualquer maneira, não se pode esquecer que tanto a comunicação feita para a massa como a elaborada para o público, poderão alcançar a mesma pessoa (indivíduo capaz, com capacidade de raciocínio e de autodeterminação).

Quando a administração da controvérsia pública coordenar a comunicação ciente de que no final da linha está um ser humano (que, sobre tudo, deve fazer uso da razão sobre a emoção, admitindo-se a persuasão apenas para iniciar o diálogo e promover a participação), então o processo será executado para que o cidadão seja realmente informado e motivado, pois ele tem o direito de saber e a participação voluntária é indispensável para a solução dos grandes problemas (nacionais, por exemplo).

Somente entre o que participam ativamente da vida comunitária é que poderemos aquilatar a verdadeira opinião pública efetivamente formada. Os trabalhos de propaganda e publicidade e de Relações Públicas devem ser adequadamente coordenados para que cada cidadão tome conhecimento dos atos, obras e realizações e se conscientize dos esforços e objetivos da instituição e se predisponha a participar.

Esta participação se efetivará de várias maneiras, mas terá a expressão maior no universo de debates de onde se extrairá aspirações, expectativas e perspectivas. Aliás, dentre as 15 leis da Opinião Pública, enunciadas por Cantril, encontramos que "o povo é menos relutante em aceita as decisões importantes tomadas por seus dirigentes se ele sente que, de alguma maneira, está tomando parte nessas decisões". E mais, "se o povo, em uma democracia, goza de facilidades educacionais e de livre acesso às fontes de informação, a opinião pública revela um senso comum obstinando".

Com o debate amplo se obterá a ação conjugada do público, respeitando-se a liberdade de manifestação do pensamento, onde a interpretação e a indagação sobre o andamento dos negócios (do Estado, por exemplo) "são componentes do direito de saber e a crítica, a dúvida, a discussão e o debate são formas do exercício da liberdade de pensamento", tudo objetivando o progresso social, a determinação do interesse público.

Eis aí as nossas idéias. Eis aí o assunto para discussão.

A palavra está aberta para aqueles que desejem "esticar o papo" desta tribuna para que possamos conhecer o pensamento de cada um e chegar a um consenso, a um pensamento profissional representativo.

Originalmente publicado no número 13 do jornal O Público, órgão informativo da Associação Brasileira de Relações Públicas – Seção Estadual de São Paulo, em março/abril de 1981, páginas 1 e 3.