ESTA NA
HORA DE FAZER RELAÇÕES PÚBLICAS NA ROÇA
Valentim
Lorenzetti
"Galho de Goiabeira de Três Nós, Ajuda Relações Públicas".
Ultimamente temos tido conhecimento de vagas oferecidas a profissionais de
Relações Públicas para exercer atividade no interior, em área urbana ou, mesmo, junto
a comunidades rurais. Está havendo uma preocupação cada vez maior de integrar o campo a
parcela da população mais beneficiada com as conquistas e o avanço da tecnologia.
O papel de levar o homem do campo a assimilar todo esse progresso da última
década é, sem dúvida, trabalho de Relações Públicas. Sabe-se, por exemplo, que mesmo
no Brasil muitos institutos científicos (como o Instituto Biológico ou o Instituto
Agronômico, em São Paulo) têm desenvolvido pesquisas que levam a uma produtividade
maior na agropecuária valorizando o trabalho do homem do campo; contudo, tem sido muito
grande a distância entre os resultados dessas pesquisas e sua aplicação.
Tudo por uma questão de relacionamento entre o homem-pesquisa e o
homem-do-campo. E não é que não tenha havido boa vontade de ambas as partes, pelo
contrário, muito esforço vem sendo feito para transferir os benefícios da pesquisa para
a prática do campo. Os meios e as técnicas devem ter sido inadequadas: um homem urbano
não entende qual é o pólo de interesse do homem rural. E fica cada um na sua ponta do
fio falando a linguagem dos mudos.
Há muito tempo tomamos conhecimento de uma experiência fascinante realizada
por um grupo de enfermeiras de Saúde Pública em determinada comunidade rural do interior
de São Paulo. Vale a pena contar, pois se trata do maior "case" de Relações
Públicas na roça que eu vi até hoje. É o seguinte.
Nessa comunidade rural, integrada por umas 100 famílias de lavradores, havia
um problema crônico de saúde: diarréia. O Serviço de Saúde identificou que a causa
estava na água contaminada da fonte onde toda a comunidade se abastecia. O problema foi
entregue às enfermeiras de Saúde Pública que são as grandes "Relações
Públicas" da saúde. Estudaram o assunto; conviveram dias e dias na comunidade.
Fizeram amizade firme com muitas donas de casa, tomaram muito café com bolo de fubá,
ficaram conhecendo os problemas de cada casa, aprenderam a linguagem os hábitos da
comunidade. E nos bate-papos sempre era provocado o assunto da "dor de barriga".
As enfermeiras ouviam as queixas das mulheres:
Tem dia que não dá nem pra gente fazer nada, a dor de barriga não
deixa.
Realmente, uma preocupação da comunidade era a doença crônica. Agora,
como botar na cabeça daquele pessoal simples que o problema estava na água; a água
"tão fresquinha da bica?" Ninguém ia acreditar, e, pior ainda: as enfermeiras
deixariam de ser aceitas, pois "como é que essa gente da cidade vem aqui no mato
dizer que a água não é boa. Água limpinha que nem um espelho, vê lá que isso dá
doença na gente".
Aqui é que entrou a iniciativa maravilhosa das enfermeiras-Relações
Públicas. Nas conversas com as donas de casa a enfermeira procedia mais ou menos assim:
Tem muita gente com dor de barriga aqui?
Se tem, ainda hoje o Zé não foi trabalhar de manhã, ontem eu quase
não consigo levantar da cama.
Sabe uma "simpatia" muito boa pra curar essa dor de barriga?
Sei não, só sei que já tentamos de tudo, até benzimento, e nada
deu certo.
Pois eu vou ensinar uma "simpatia" que dá certo. A senhora
quer fazer?
Se quero, moça, pois não tenho procurado outra coisa ultimamente.
Então, preste atenção. A senhora vai na bica, enche o caldeirão de
água e traz para casa. Coloque o caldeirão no fogo, para ferver a água.
Ferver a água?
E, mas não é só isso não. Preste atenção. Enquanto o caldeirão
estiver no fogo, a senhora vai ali no pastinho e corta um pequeno galho de goiabeira. Mas
precisa ser um galho de três nós. Entendeu bem? Três nós. Não pode ser dois nem
quatro, se não a simpatia não dá certo. Três nós, certo?
Certo, entendi, tem de ter três nós.
Está bem. Ai a senhora pega esse galho, vê se a água está
fervendo, fazendo bolhas. Se a água está fervendo, tira o caldeirão do fogo e deixa
esfriar. Quando ela estiver fria, a senhora coloca o galho dentro do caldeirão e mexe a
água da seguinte maneira: dá três voltas para a esquerda e três para a direita. Não
pode ser duas, nem quatro, Entendeu bem?
Ah, entendi sim.
Mas não acabou ainda a simpatia não. A senhora tem que dar três
voltas para a esquerda e três para a direita, três vezes. Certo? Sempre três vezes.
Sei, três vezes sempre.
(Com essas voltas a água fervida é reoxigenada, pois no processo de fervura
perde-se o oxigênio e seu gosto não fica muito agradável. Mexendo a água, o oxigênio
se reintegra ao líquido e ela fica boa de novo. Mas, vá explicar isso pra a "Dona
Maria" da roça...)
Bem, depois que mexeu três vezes, dá a água para toda a família
beber. E só bebe dessa água com simpatia. A senhora vai ver como ninguém mais vai ter
dor de barriga.
Ah! Eu vou fazer agora mesmo. Não custa a gente tentar, né?
Dito e feito, as mulheres começaram a fazer a "simpatia". E
ninguém mais teve dor de barriga. Agora, eu pergunto, isto é ou não um trabalho
maravilhoso de Relações Públicas? Relações Públicas no seu mais alto nível, ou
seja, uma solução radical dos problemas. E ninguém falou com o presidente de nenhuma
empresa, falou com uma turma de caipiras para resolver problemas de base.
Esta é uma história verdadeira. E tantas outras devem estar sendo escritas
por esse interior afora. Só que o profissional de Relações Públicas está à margem de
todas elas. Esta à margem do processo de desenvolvimento do país, hoje baseado no campo.
Porque os profissionais ainda são "homo urbanus" e acham degradante ir morar no
mato. Ficamos na cidade ditando regras para o campo, e nos transformamos em tecnocratas
alienados.
É hora de ir para a roça, desbravar o campo, comer poeira. Vamos
pensar seriamente nisso, pois temos certeza de que a safra será muito boa.
