Relações com os Públicos

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RELAÇÕES PÚBLICAS COM O PÚBLICO INTERNO

 

Ricardo Eduarte Pereira

Profissional de Relações Públicas

 

Muito embora não cheguem a causar polêmica é freqüente ouvirem-se argumentações de um tratamento preferencial a outros públicos das empresas em detrimento do seu próprio público interno.

Há, por outro lado, aqueles que consideram ser o público interno o primeiro a receber as atenções dos programas de Relações Públicas posto que, segundo seus defensores, é no interior da própria empresa que se inicia um bom entendimento, a partir do qual os outros ficarão muito mais fáceis e os programas externos terão como reforço a boa vontade e cooperação internas.

Independentemente de tendências, preferimos evidenciar a importância que exerce sobre a própria vida da empresa o relacionamento promovido entre si e seus empregados. Consideramos, antes de mais nada, que cada empregado, como de resto todo homem, pela faculdade natural que tem de manifestar-se a receber informações, representa um potencial receptor e difusor de opiniões relativamente aos grupos de pessoas a que esteja ligado, dentro e fora da empresa.

Entendemos, portanto, que iniciativas e a manutenção de bom relacionamento corporativo entre empresas e empregados não devem constituir metas de trabalho exclusivas de Relações Públicas, mas, inicialmente, de Relações Industriais, cuja concepção de ação está longe de apenas administrar os direitos e deveres entre empresas e empregados, embora muitos, por razões algumas até justificadas, nem isso o façam.

A compreensão da função social da empresa e suas perspectivas de crescimento ou mutações devem levar as Relações Industriais à antecipação de propostas e de programas que conciliem objetivos da empresa e dos empregados, proporcionando a existência de um clima de cooperação e incentivo.

Esta prática representa o atendimento à necessidade de desenvolvimento da comunidade empresarial, o que se refletirá no respeito mútuo entre patrões e empregados. Esta integração respeitosa, aliás, é condição fundamental em quaisquer outras categorias de relacionamento e convivência sadios do homem com o seu mundo e consigo mesmo, sinal de inequívoca sabedoria. Nesse ambiente, cujo objetivo deve constituir a intenção e os esforços de todos, a tarefa de Relações Públicas será bem-sucedida, por intermédio da implantação de instrumentos para o público interno.

O púbico interno em uma organização não é formado apenas por seus empregados. Este público revela-se ainda mais importante se considerarmos a família de cada funcionário como segmento do público interno. Mas para que serve termos proposto mais uma categoria "Segmento do Público Interno"? Que importância tem ele no relacionamento Empresa X Empregado X Empresa?

Vejamos: o IBGE calcula para cada trabalhador brasileiro a média de quatro pessoas em cada família. Grosso modo, temos então que se uma empresa tem 5 mil empregados, ela terá um segmento adicional de 15 mil pessoas, segmento que tem interesse direto no desenvolvimento daquela empresa.

Ora, isto é bastante natural, e sabem muito bem os profissionais da área de Relações Industriais, dos dispositivos de assistência médica e previdenciária constantes da legislação trabalhista no amparo ao trabalhador e à sua família, além, obviamente, do próprio salário. E sabemos que a subsistência de cada família depende, na maioria de vezes, fundamentalmente daquele emprego.

Esta análise, ainda que superficial, quadruplica nossas preocupações. Quando vemos estampados nos jornais que 400 horistas de determinada empresa foram demitidos, imediatamente inferimos que 1.600 pessoas somaram-se às cerca de quatro milhões (segundo cálculos do DIEESE) que perderam aquele vínculo de sustento, vital para a sobrevivência.

Concluindo, o fato da subsistência de cada família depender direta ou indiretamente daquele trabalho faz com que toda ela fique especialmente interessada nos fatos e acontecimentos ocorridos no âmbito empresarial, mantendo, portanto, uma natural expectativa com o que se passa na organização.

OPINIÕES E BOATOS

Os teóricos de Relações Públicas sustentam não haver público sem opinião. E como sabemos que não pode haver opinião sem informação, significa que um agrupamento de pessoas não indica necessariamente que seja um público. Para que transformemos um grupo em um público precisamos inicialmente informá-lo, para que ele possa discutir seus pontos de vista sobre o assunto informado e tenha condições de manifestá-los. A isto chamamos opinião do público, que outra coisa não é senão a própria opinião pública.

Por outro lado, todos conhecem as ondas de boatos causadas por obra não se sabe de quem, que de vez em quando assolam a nossa empresa. Mais ou menos como as epidemias de gripe, ninguém sabe quem trouxe, como veio, e nem quando vai acabar. Mas sabemos que se facilitamos ela pega todo mundo, deixando um rastro lamentável. Com o boato acontece também a mesma coisa. O escritor Érico Veríssimo no romance de ficção "Incidente em Antares", interpretou o boato, e foi muito feliz:

"Um boato é uma espécie de enjeitadinho que aparece à soleira de uma porta, num canto de muro ou mesmo no meio duma rua ou duma calçada, ali abandonado não se sabe por quem; em suma, um recém-nascido de genitores ignorados. Um popular acha-o engraçadinho ou monstruoso, toma-o nos braços, nina-o, passa-o depois ao primeiro desconhecido que encontra, o qual por sua vez entrega o inocente ao cuidado de outro ou outros e assim o bastardinho vai sendo amamentado de seio em seio ou, melhor, de imaginação em imaginação, e em poucos minutos cresce, fica adulto – tão substancial e dramático é o leite da fantasia popular –, começa a caminhar pelas próprias pernas, a falar com a própria voz e, perdida a inocência, a pensar com a própria cabeça desvairada, e há um momento em que se transforma num gigante, maior que os mais altos edifícios da cidade, causando temores e, às vezes, até pânico entre a população, apavorando até mesmo aquele que inadvertidamente o gerou."

Ora, tanto a gripe pega um corpo debilitado quanto o boato a uma empresa sem defesas de comunicação. Quando encontramos uma empresa, entidade, instituição ou órgão público sem veículos internos de comunicação podemos ter a certeza do surgimento de boatos na certa. E o que é pior, a ideologia do boato é sempre negativa. É sempre o ridículo, o grotesco, o maldoso, que ganham maior velocidade em termos de boato. É freqüente coisa deste tipo: "Você já sabe da última? O diretor X vai ser transferido de seção. Agora ele vai para não sei que área!". "Área tal? Que nada! Ele tá com um pé na rua!" ...etc! Este diálogo pode parecer inocente. E até pode ser. Mas é possível que ele, surgido do nada, possa realmente provocar uma situação tal que venha resultar na dispensa do tal diretor X.

Quem de nós não observou este fenômeno. E até participamos dele. Isto não quer dizer que não aconteçam boatos em empresa que possuam veículos de comunicação interna. Os boatos existem porque são naturais nos agrupamentos sociais. Os veículos de comunicação interna não eliminam os boatos. O que podem fazer, no máximo, é reduzir seus efeitos negativos. E isto, se bem orientados, fazem mesmo.

JORNAL INTERNO

Um importante veículo de Relações Públicas de qualquer empresa é o jornal interno. Através dele são veiculadas as notícias de interesse institucional da organização e são abordados os fatos e pessoas de interesses da comunidade empresarial. É muito simples compreender como é significativa a função de um jornal interno; ele leva, simultaneamente, a todos os funcionários e suas famílias, o que realmente está acontecendo na organização, democratizando a notícia e impedindo, com isso, o surgimento de boatos negativos.

Cada funcionário ou familiar que lê o jornal transforma-se num pólo de informações sobre a empresa podendo transmitir a vizinhos, parentes e amigos informações sobre ela.

A implantação de um jornal interno na organização deve considerar uma pauta editorial de interesse do universo daquela empresa. Usará sempre que possível uma linguagem ao leitor médio, que possa ser entendida tanto pelos técnicos como pelo pessoal de nível cultural mais modesto.

O sucesso de um jornal interno é diretamente proporcional à utilidade das informações veiculadas para os funcionários. O jornal interno que não leva informações de seu interesse está condenado ao fracasso.

Uma das formas mais eficientes de se medir a penetrabilidade de um jornal ou revista internos é olhar as latas de lixo da empresa e ao redor do prédio no dia da distribuição.

O jornal ou revista interno deve ter seu sistema de alimentação alicerçado nas chamadas fontes de informação, ou seja, em pessoas espalhadas por todos os setores da organização que atendam algumas exigências:

tenham um conhecimento técnico que possa fornecer matérias assinadas cujo teor seja ligado à natureza da instituição;

sejam líderes naturais ou formais e que detenham informações de interesse da comunidade;

tenham vinculação direta com o desenvolvimento dos funcionários. Por exemplo: Relações Industriais, Organização e Métodos etc.

O jornal ou revista deve ter um conselho editorial formado por pessoas que tenham pelo menos as características acima, que, com a coordenação de Relações Públicas, vai definir o perfil editorial para a publicação bem como discutir cada edição.

JORNAL MURAL

Um outro veículo de comunicação para o público interno é o "jornal mural".

O jornal mural é um veículo de comunicação social que encontra suas origens na pré-história do homem. Todos sabem que o homem começou a registrar sua história nas paredes das cavernas, há coisa de 40 mil anos. A importância destas comunicações em épocas tão remotas é de tal significado que, através delas, podemos identificar a própria personalidade de cada tribo e sua peculiar forma de vida.

O jornal mural é um veículo essencialmente comunitário, no qual seus participantes podem ler e escrever mais livremente suas notícias e opiniões. Ao contrário de outros veículos de comunicação social, o jornal mural é aquele que exige uma participação mais efetiva de cada um. Exemplo de grande importância para a vida de suas comunidades é o jornal mural chinês, o Dazibao (a pronúncia é Táchin-Bao).

Neste lado do mundo, em algumas empresas, também encontramos iniciativas de desenvolvimento de jornais murais. Entretanto, freqüentemente são confundidos com quadros de avisos e vice-versa.

Fisicamente o jornal mural se parece muito com um quadro de avisos. Também se apresenta em um painel retangular, normalmente forrado de feltro verde, pregado na parede. Igualmente precisa ser colocado em local estratégico para que todos possam ler. Necessita de boa iluminação como o quadro de avisos, mas tem algumas diferenças fundamentais: o quadro de avisos contém, ou deve conter, apenas informações de ordem administrativa, como horários, normas, determinações.

Já o jornal mural, como o próprio nome indica, precisa trazer notícias, ou seja, tudo quanto é novo, verdadeiro e útil aos funcionários. Isto obviamente vai implicar um esforço constante de renovação das matérias ali contidas; coisa que não acontece com o quadro de avisos. O jornal mural pode recorrer a jornais e revistas, os mais variados, numa tentativa de recortar artigos de maior interesse da comunidade. A isto, na gíria profissional, convencionou-se chamar de "agência Gillette-Press".

Um jornal mural, sempre que possível, deve ser bem ilustrado, mesmo que em detrimento dos textos. Mais ou menos como os jornais quando expostos nas bancas de revistas para atrair o comprador.

Um dos problemas com que se defronta o editor ou coordenador do jornal mural e também do jornal ou revista internos é a colaboração. É freqüente recebermos colaborações impublicáveis, seja pela qualidade do texto ou pelo temas abordados. Muitas com fofocas e brincadeiras, às vezes de péssimo gosto. E ficamos "toureando" o colaborador, na esperança de que ele desista da idéia. Quando ele não entende a nossas resistências, dizemos claramente as razões e resolvemos o problema.

MANUAL DE INTEGRAÇÃO

Um outro veículo, que o profissional de Relações Públicas pode auxiliar a editar, pertence a área de Relações Industriais, chama-se "manual de integração".

O manual de integração é um veículo único, ou seja, não tem periodicidade, embora deva manter-se atualizado. Editado sob forma de livreto, traz as principais informações sobre a empresa, como seu histórico, natureza, objetivos gerais, filiais, organogramas e o famoso "Quem é Quem" na empresa. Este último diz rapidamente o currículo e a função de seus diretores, gerentes, superintendentes etc., e outras informações que possam situar o funcionário na realidade daquela instituição.

O manual de integração, como o próprio nome está a sugerir, é um veículo destinado a auxiliar a integração de novos funcionários. Pode ser editado na forma impressa e/ou audiovisual. E, naturalmente, é complementado com explicações pessoais do seu chefe sobre aquele setor e a importância da atividade do recém-chegado.

EVENTOS DE INTEGRAÇÃO SOCIAL

Eis aqui algumas atividades internas que, apesar de não constituírem iniciativas típicas da área de Relações Públicas, devem contar com o seu integral apoio, seja na participação dos eventos propriamente ditos, seja no oferecimento incondicional dos veículos de comunicação sob sua responsabilidade. São os eventos sociais, cívicos, esportivos e culturais que cada empresa realiza com o seu público interno.

As justificativas da existência desses acontecimentos no seio das empresas são as mais diversas; entretanto, acreditamos que todas elas caibam na compreensão de que cada comunidade empresarial é formada por um contingente de valores individuais que transcendem à própria capacidade específica, objeto do contrato de trabalho. Em outras palavras, quando um empregado é admitido traz consigo um potencial de aptidões e habilidades em várias outras áreas do conhecimento e relacionamento humanos que virá somar-se às existentes na empresa.

Ao surgirem oportunidades, elas se manifestam. Estas oportunidades, naturalmente, devem atrair o maior número de participantes segundo as predisposições e preferências da comunidade. Geralmente são criadas por associações ou grêmios de funcionários e/ou unidades de Relações Industriais e/ou Relações Públicas e, ainda, podem ser geradas espontaneamente por grupos ou lideranças informais. Citemos alguns exemplos:

Eventos Sociais – festividade de Natal, juninas, programações comemorativas aos dias da secretaria, da telefonista e outros: almoços, jantares e churrascos festivos, etc.

Eventos Esportivos – torneios e campeonatos internos e interempresariais de futebol de salão e de campo, basquete, vôlei, jogos olímpicos, jogos de salão (xadrez, dominó etc.) e inúmeros outros.

Eventos Cívicos – iniciativas cívico-culturais alusivas ao aniversário da empresa, 7 de setembro, 15 de novembro, Dia da Bandeira, abertura da primavera, fundação dos Estados e municípios onde a empresa atua etc. Algumas dessas iniciativas estariam mais bem contidas sob o tema "Relações com a Comunidade" e, embora não sejam muito comuns, vêm sendo desenvolvidas com certo êxito, em especial nos desfiles de 7 de setembro, nas comemorações do Dia do Município, ocasiões em que algumas empresas têm mostrado alegorias ilustrativas de suas atividades.

Eventos Culturais – alguns dos mais importantes projetos de integração de funcionários ocorrem sob o tema cultural. Concursos literários (contos, poesias, monografias); de artes plásticas (pintura, desenho, escultura, tapeçaria); de artesanato, fotografia, coral, grupo experimentais de teatro e de música, programações cinematográficas internas, passeios, excursões e tantos outros. Têm sido cada vez mais incentivadas nas empresas as possibilidades de participação das famílias dos funcionários. Além da parte social, o tema cultural tem oferecido excelentes oportunidades de trabalho.

CONCLUSÕES

Esta, enfim é nossa visão das atuais possibilidades de colaboração de Relações Públicas nos esforços de relacionamento com o público interno.

Naturalmente, muita prática precisa ser revista, muita idéia nova há de ser experimentada e cuidadosamente pesquisada, procurando orientar-se basicamente pela dinâmica da opinião pública. Isto sugere que o que é bom para uma empresa não quer dizer que obrigatoriamente seja bom para outra.

Nem mesmo que só por que uma vez tenha dado certo determinado tipo de trabalho seja continuamente repetido. Significa que precisamos montar sentinela e não perder de vista as mutações da opinião pública, com pena de ficarmos pregando no deserto.

Originalmente publicado no número 19 do jornal O Público, órgão informativo da Associação Brasileira de Relações Públicas – Seção Estadual de São Paulo, em novembro/dezembro de 1982, páginas 3 e 4.