COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL
E AS NOVAS RELAÇÕES PÚBLICAS
Paulo Nassar
Jornalista
A
evolução da Comunicação Organizacional tem sido influenciada diretamente
pelos grandes acontecimentos políticos e econômicos que nos últimos quarenta
anos modificaram a sociedade brasileira. Entre esses eventos estão
principalmente os governos militares, a transição democrática, a inserção
do país no processo de globalização econômica.
O
ambiente antidemocrático dos governos militares, de 1964 até 1984, não
permitiu a articulação de inúmeros públicos e suas reivindicações perante
as organizações. O Estado brasileiro autárquico e militarizado via o
estabelecimento de qualquer controvérsia como sintoma de subversão.
Por
outro lado, as práticas monopolísticas e políticas destinadas a reservar
mercados para setores econômicos nacionais colaboravam para o estabelecimento
de organizações com perfil fechado e sem nenhuma vontade de informar e
capacitar as massas trabalhadoras ou, ainda, de dialogar com consumidores
fragilizados em seu poder de escolha e, pior, sem meios jurídicos para fazerem
valer seus direitos.
Ainda
nesse período, o espaço público era informado por uma imprensa escrita
maniqueista e balizada pelos dogmas da Guerra Fria, além de ver-se empobrecido
por um sistema de rádio e televisão voltado, exclusivamente, para o
entretenimento ou destinado a mobilizar a sociedade brasileira apenas diante de
causas unidimensionais, como a campanha governamental "Brasil – ame-o ou
deixe-o", amplamente veiculada na época.
Pode-se
afirmar que o período ditatorial brasileiro foi extremamente adverso e
inóspito para o desenvolvimento das Relações Públicas e do Jornalismo
Empresarial. De tal forma que as únicas estruturas destinadas a operar a
comunicação organizacional a alcançar alguma visibilidade histórica foram as
denominadas assessorias especiais de Relações Públicas (Aerp’s) ligadas aos
diferentes governos militares, a empresas estatais e a universidades.
No
universo das empresas privadas o que se configurava – sem nenhuma importância
na construção da história da Comunicação Organizacional brasileira – eram
os relações-públicas e jornalistas, atrelados a estereótipos, maneirismos e
até indumentária importada dos seus congêneres norte-americanos, produzindo
uma comunicação de índole taylorista.
Foi
nesse panorama cinzento que se fundou, em outubro de 1967, a Associação
Brasileira de Comunicação Empresarial – cuja sigla, Aberje, na época,
significava Associação Brasileira de Editores de Revistas e Jornais de
Empresa. Por meio dela, jornalistas e profissionais de Relações Públicas,
influenciados pelas teorias do psicólogo norte-americano Abraham Maslow
(1908-1970) tentavam a partir de uma visão mediática, aproximar, integrar,
principalmente o público trabalhador à estrutura organizacional. É o que
aflora dos depoimentos do primeiro presidente, o jornalista Nilo Luchetti, de
nacionalidade italiana, gerente da Pirelli, em Santo André (SP), quando se
refere às razões que levaram à fundação da associação, entre elas, a de
"especial ênfase no relacionamento civilizado entre empresas e
empregados".
Os
editores associados à Aberje – como Luchetti que, nos anos 60, comandava a
revista Notícias Pirelli – esforçaram-se em esboçar um modelo editorial no
qual os assuntos servissem para "estimular a inteligências das pessoas, a
cultura e a educação". Apesar disso, o perfil das publicações
empresariais que predominou durante os anos ditatoriais, principalmente daquelas
voltadas ao público trabalhador, foi marcial e asséptico, tratando elas
"apenas dos fatos da casa, sempre iguais e corriqueiros, como joguinhos de
futebol entre empregados e alegres convescotes de confraternização" (Luchetti).
Essa
situação, em que o Jornalismo Empresarial e as Relações Públicas eram
vistos pelos gestores como ferramentas de segunda linhagem, dispensáveis e não
fazendo parte permanente do planejamento estratégico empresarial, só começa a
ser rompida com os primeiros movimentos sociais que levarão, na segunda metade
dos anos 80, à redemocratização do país.
A
emergência das reivindicações dos operários do ABC paulista (1983), a
anistia política (1979), o movimento das Diretas Já (1984) e o advento da Nova
República (1984) trouxeram de volta o debate entre os diferentes públicos e as
organizações. A controvérsia e o diálogo são elementos essenciais para a
prática e o desenvolvimento do Jornalismo Empresarial e das Relações
Públicas.
Foi
em 1985, no ambiente da Nova República, que a Rhodia brasileira divulgou o seu
Plano de Comunicação Social[1], que levava em
consideração a possibilidade de conflitos iminentes daquela organização com
os mais diferentes públicos brasileiros e, em conseqüência disso, a
necessidade permanente de atender de forma integrada às demandas de
comunicação desses agentes sociais. O documento questionava a forma como eram
operadas dentro das organizações as tradicionais ferramentas de comunicação:
Publicidade, Pesquisa Mercadológica, Assessoria de Imprensa e Relações
Públicas.
O
motor do plano era a preocupação com o ambiente político. Isso explica a
importância que ele dava às técnicas de relacionamento com a imprensa,
chegando a prever regras práticas de como atender, passo a passo, no dia-a-dia,
as demandas dos jornalistas. A imprensa, para os comunicadores da Rhodia, era os
olhos e ouvidos da sociedade e também a principal interface entre a
organização e os seus públicos-alvo.
O
Plano de Comunicação Social da Rhodia constituiu-se no documento mais
importante da Comunicação Empresarial dos anos 80. Ele sintonizava as
mudanças no papel da comunicação e dos comunicadores diante das
transformações do ambiente político brasileiro. Com a Nova República, as
organizações começaram acompanhar e a interagir com o que acontece fora dos
seus muros. Essa nova conjuntura, no entanto, não teve força para mudar a
postura das empresas e dos seus gestores em relação à comunicação interna e
à comunicação administrativa. Nesse sentido, o plano da Rhodia – e seus
clones – não conseguiu alcançar um status sistêmico, no qual existem de
fato um planejamento e ações em comunicação voltadas para todos os públicos
estratégicos das organizações.
A
partir do início dos anos 90, os gestores empresariais passaram a ser
pressionados por fatores de ordem macro e microeconômica, destacadamente a
inserção das atividades econômicas num movimento de escala global, as
primeiras mudanças no perfil do Estado autárquico brasileiro e as demandas
advindas do movimento de reestruturação produtiva.
São
fatores que continuam instigando fortemente as organizações, obrigando-as a
repensar os seus modelos de administração e, para que isso tenha bom curso,
construir modelos de comunicação interativos que abarquem também os seus
colaboradores, com ênfase nos trabalhadores, fornecedores e distribuidores.
A
necessidade de se comunicar permanentemente, de forma integrada, com todos os
públicos que formam a imagem das organizações é a tônica que se aprofunda
ao longo dos anos 90. O objetivo é a comunicação empresarial pensada de forma
estratégica, tendente a estruturar mensagens customizadas, que se opõem ao
behaviorismo e a um neotaylorismo selvagem, responsáveis por processos
alienantes de reengenharias, downsizings e qualidade total, centrados apenas na
produção e comercialização.
Esse
processo rompe com os guetos corporativistas ligados à Comunicação
Organizacional. O Jornalista, o Publicitário, o Profissional de Relações
Públicas, os gestores de Recursos Humanos, Marketing e Administração,
isoladamente, não dão conta dos desafios dessa comunicação. É o surgimento
de uma nova Relações Públicas, cuja plataforma teórica e profissional agrega
competências multiprofissionais e leva em consideração o desafio político
permanente das organizações: conquistar os inúmeros públicos para suas
políticas, metas e resultados.

[ 1 ] Nota: a
íntegra desse plano pode ser vista em VALENTE, Célia, NORI, Walter. Portas
abertas: a experiência da Rhodia – novos caminhos da comunicação social
na empresa moderna. São Paulo: Best Seller, 1990.

Originalmente publicado pela ABERJE.