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AS
INTERFACES DAS RELAÇÕES PÚBLICAS E DA COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL NO BRASIL
Margarida
Maria Krohling Kunsch
Professora
da Universidade de São Paulo
INTRODUÇÃO
Analisar
as Relações Públicas e seu papel no contexto das organizações tem sido uma
constante ao longo de nossa carreira acadêmica, principalmente a partir do
ingresso na pós-graduação, em 1979.
Tratava-se,
para nós, de defender a necessidade de integrar as diversas subáreas da
comunicação organizacional, dentre as quais a de Relações Públicas. Começamos
a enfatizar essa proposta numa época em que o tema ainda não era objeto de
estudos mais concretos na academia e, nas organizações, as Relações Públicas,
o jornalismo empresarial, a assessoria de imprensa ainda cumpriam suas tarefas
de forma estanque, sem maior preocupação quanto à união sinérgica de esforços
entre os setores de comunicação institucional, comunicação mercadológica,
comunicação interna e comunicação administrativa.
Em
1985, na dissertação de mestrado, expusemos nosso posicionamento. Em 1991, na
tese de doutorado, procuramos aplicá-lo à comunicação de uma organização
concreta. E, em 1996, na tese de livre-docência, o externamos num contexto mais
amplo.
A
presente exposição tem como base este último trabalho, centrando-se na
pesquisa teórica e de campo que, em função dele, fizemos sobre a contribuição
das Relações Públicas para o desenvolvimento da comunicação organizacional
no Brasil.
O
projeto foi realizado em duas etapas. Na primeira, realizou-se o levantamento,
com registros bibliográficos e resumos, do referencial teórico sobre Relações
Públicas e comunicação organizacional, incluindo o material em livros, teses,
dissertações, artigos científicos, anais e catálogos, o que possibilitou
reunir a bibliografia sobre essa temática no período de 1950 a 1995. Na
segunda, buscaram-se as opiniões de segmentos profissionais e organizacionais
da área de comunicação social, com as quais se comprovou que as Relações Públicas
contribuíram expressivamente para o avançado estágio em que se encontra,
hoje, a comunicação organizacional no país.
BUSCANDO
AS FONTES
Tratava-se
de um estudo que envolvia as Relações Públicas e sua contextualização na
comunicação organizacional, com a qual se conectam também outras subáreas,
principalmente a de comunicação mercadológica e a de comunicação interna.
Por isso, foram muitas as referências bibliográficas utilizadas, destacando-se
as contribuições de alguns autores. Em Relações Públicas, ressaltamos as idéias
de James E. Grunig e Todd Hunt; em comunicação organizacional, as de Geraldo
Goldhaber e Gary Kreeps; em marketing, as de Philip Kottler. Quanto à comunicação
interna, valemo-nos essencialmente do corpo teórico que fomos construindo e
formando, cumulativamente, ao longo dos anos. Além disso, perpassaram-se todos
os inventários de comunicação e Relações Públicas que se achavam à
disposição.
Valemo-nos
também de várias fontes informatizadas, especialmente a dos sistemas Dedalus e
Pegasus, das bibliotecas da Universidade de São Paulo e da Escola de Comunicações
e Artes, respectivamente, bem como o Portdata do Centro de Documentação da
Comunicação nos Países de Língua Portuguesa (PORTCOM), órgão filiado à
Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação –
INTERCOM.
Buscamos
ainda outras alternativas para localizar, até onde foi possível, tudo o que já
havia sido publicado em livros, coletâneas, dissertações, teses, apostilas,
artigos, reportagens e outros materiais impressos. Com essa finalidade,
consultaram-se bibliotecas públicas e de escolas superiores de algumas das
principais cidades brasileiras.
A
listagem e o resumo de todo o material encontrado levou à montagem de um
referencial tão completo, quanto possível, sobre Relações Públicas e
comunicação organizacional no período de 1950 a 1995. Com mais de mil
registros, é a primeira bibliografia especializada desse gênero no Brasil e,
futuramente, pretende-se publicá-la, com vistas a uma socialização maior do
estudo empreendido. Na seqüência, tecemos alguns comentários pertinentes.
RELAÇÕES
PÚBLICAS
Quanto
aos livros, incluindo-se os traduzidos e alguns opúsculos, chegamos a levantar
o total de 62, podendo existir mais alguns que não tivemos acesso. Em linhas
gerais, podemos dizer que a maioria das obras concentra-se muito mais no aspecto
instrumental do que em estudos teóricos da atividade, percebendo-se nítida
tendência para sua aplicação a determinados segmentos, como o empresarial e o
governamental.
São
exceções, por exemplo: Comunicação social e Relações Públicas, de Walter
Ramos Poyares, empreendendo profunda e objetiva análise filosófica das duas áreas;
Psicossociologia das Relações Públicas, de Cândido Teobaldo de Souza
Andrade, apresentando os fundamentos do comportamento coletivo e da opinião pública,
bases do processo de Relações Públicas; Usos e abusos de Relações Públicas,
de José Xavier de Oliveira, abordando criticamente conceitos e práticas e
revelando os bastidores do processo de regulamentação da profissão no País;
Relações públicas: função política, de Roberto Porto Simões, expondo nova
proposição teórica; e Relações públicas no modo de produção capitalista,
de Cicília Maria Krohling Peruzzo, questionando a essência na aparência da
profissão, dentro de um referencial dialético.
No
conjunto, os autores que mais sobressaíram, quer pelo número de edições de
suas obras quer pela adoção destas nos cursos de Relações Públicas das
escolas de Comunicação, foram: Cândido Teobaldo de Souza Andrade, Roberto
Porto Simões, Margarida M. Krohling Kunsch, Cicília M. Krohling Peruzzo, Hebe
Wey, Martha d’Azevedo e Marcos F. Evangelista. Quem mais publicou foi Souza
Andrade, a quem coube também o pioneirismo da primeira tese de doutorado e do
primeiro livro impresso, nessa área, no Brasil.
No
que se refere a teses e dissertações, foi-nos possível catalogar 43 trabalhos
defendidos no referido período: três de livre-docência, 10 de doutorado e 30
de mestrado. A Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
destacou-se nessa área, gerando em seu âmbito 37 (86%) desses produtos: três
teses de livre-docência (100%), oito teses de doutorado (80%) e 24 dissertações
de mestrado (80%).
Os
temas mais explorados, ao longo das três últimas décadas, foram, por exemplo:
finalidade de Relações Públicas; nos anos 80, aspectos estratégicos e políticos
da profissão, o planejamento da atividade e seu papel nas organizações, nos
órgãos governamentais e nos contextos da administração, do público
consumidor, do meio rural e da defesa civil; nos anos 90, a produção científica,
o ensino e a função da área no conjunto da comunicação organizacional, nos
campos da saúde e do turismo, com relação ao mercado e ao meio ambiente.
Os
autores de teses e dissertações que as publicaram em livros foram: Cândido
Teobaldo de Souza Andrade, Margarida M. Krohling Kunsch, Roberto Porto Simões,
Hebe Wey, Cicília M. Krohling Peruzzo, J. B. Pinho e Cleuza Cesca.
Pelos
dados apresentados, conclui-se que o Brasil tem uma produção significativa em
Relações Públicas. O que se faz necessário é democratizá-la ainda mais, além
de avaliá-la de alguma forma, até mesmo para elevar o seu nível,
questionando-se, por exemplo, se tudo o que veio à luz realmente pode ser
considerado como novo e científico. Uma reflexão séria sobre esses pontos
certamente contribuirá para que a universidade cumpra sua missão de vanguarda
na geração de conhecimentos de que a sociedade tanto necessita.
COMUNICAÇÃO
ORGANIZACIONAL
Em
todo o mundo, a preocupação inicial era mais voltada para a comunicação
administrativa, ou seja, o mero intercâmbio de informações dentro de uma
organização (fluxos, redes etc.). Nos anos 70, autores como Lee Thayer,
Charles Redfield e Everett e Rekha Rogers,
por exemplo, trabalharam muito nessa linha. Os dois primeiros tiveram seus
livros traduzidos no Brasil. Muitos autores de administração, ao abordar a
comunicação, puseram ênfase nesse enfoque. Aos poucos, essa visão limitada
foi se abrindo para uma comunicação mais abrangente, que envolve o clima e a
cultura das organizações e sua vinculação com o meio ambiente externo.
A
produção científica em comunicação organizacional é hoje significativa em
países europeus e na Austrália, mas sobretudo nos Estados Unidos, onde existe
grande volume de obras sobre essa temática. O mesmo não acontece com o Brasil,
onde, a nosso entender, os estudos acadêmicos nessa área ainda são
emergentes. Ao se confrontar a atuação do mercado e a do setor de negócios e
a geração de livros, teses e dissertações, ver-se-á que a defasagem é
grande.
As
escolas superiores brasileiras não souberam observar a importância e a
necessidade de propiciar oportunidades aos cursos de pós-graduação para que
eles se voltassem para essa área. Talvez o regime autoritário que esteve em
vigor por mais de duas décadas tenha sido uma das causas. Além disso, falar
sobre esse assunto significava, nos meios universitários, privilegiar o
capitalismo empresarial. Por isso as iniciativas foram pessoais e isoladas.
A
primeira tese de doutorado sobre jornalismo empresarial – área que, pela direção
dada na época, abriu caminho, junto com a de Relações Públicas, para ampliar
a comunicação das organizações – coube a Francisco Gaudêncio Torquato do
Rego. Foi ele quem, na prática, iniciou os estudos nesse campo na Escola de
Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Em entrevista a Revista
Aberje, ele deu este depoimento:
“Precisei
lutar como um Kamikaze para defender a necessidade dessa disciplina e enfrentei
muitas pressões. Na escolas da época, julgava-se que o jornalismo empresarial
era uma área que não atendia aos interesses da sociedade.”
A
exemplo do que fizemos com Relações Públicas, também realizamos o
levantamento bibliográfico e resumimos as obras específicas de comunicação
organizacional produzidas de 1972 (ano em que Torquato apresentou seu trabalho)
a 1995.
No
que se refere aos livros, conseguimos detectar 29 trabalhos, dos quais seis são
traduções de autores estrangeiros. Os temas mais comuns foram a própria
comunicação organizacional, as interfaces entre esta e a administração, o
jornalismo empresarial e a assessoria de imprensa.
Quanto
a teses e dissertações, registramos duas teses de livre-docência e quatro de
doutorado, além de 19 dissertações de mestrado. Os assuntos abordados nas
teses foram o jornalismo empresarial, a comunicação nas organizações utilitárias,
as comunicações interpessoais no serviço público, a comunicação na área
governamental e a comunicação na universidade.
Dentre
essas, publicaram-se em livros a tese de livre-docência de Torquato e as teses
de doutorado e de livre-docência de Margarida Maria K. Kunsch.
Nas dissertações de mestrado, os temas que apareceram com mais freqüência
foram: jornalismo empresarial, comunicação interna, sistema de comunicação,
comunicação e informações tecnológicas e comunicação organizacional. Pelo
que nos foi dado apurar, até o momento nenhuma foi convertida em livro. Do
total de 25 documentos identificados, também nessa área a primazia coube a
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, com seis teses
(100%) e nove dissertações (47%).
É
possível prever o aumento da produção científica nessa área. Estão
surgindo novos cursos de pós-graduação em comunicação, em que a incluem em
suas linhas de pesquisa. Além disso, há hoje bom número de pós-graduandos do
Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo, da Escola de
Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, dedicando-se à pesquisa e
ao desenvolvimento de novos trabalhos.
Outro
fator que está contribuindo positivamente é a atuação de um dos muitos
grupos de trabalhos da INTERCOM, concretamente o de comunicação organizacional
que, nos últimos três anos, conseguiu reunir bons papers, originados de
pesquisas e estudos levados a efeito nesse campo, que oportunamente merecem ser
publicados em forma de coletânea. No que diz respeito à área acadêmica
brasileira, a comunicação organizacional tem que ser mais bem-equacionada. A
produção realizada é muito repetitiva, com exceção de alguns poucos
trabalhos inovadores que representam um real avanço qualitativo. Nunca é tarde
para se recuperar o tempo perdido...
OUVINDO
O MERCADO
Formulação
da Proposta
A
questão de fundo que originou e orientou nossa pesquisa de campo formulava-se
nestes termos: no Brasil, as Relações Públicas têm sido efetivamente
atuantes desde a década de 1950, sob várias formas e terminologias;
entretanto, ainda lhes falta um posicionamento mais definido de suas reais funções
e de sua importância; por isso, as Relações Públicas não vêm valorizando,
na prática, o seu verdadeiro papel no atual estágio da comunicação
organizacional. Tínhamos em vista três objetivos básicos:
-
analisar
a evolução das Relações Públicas no âmbito das organizações
complexas;
-
demonstrar
como Relações Públicas colaboraram no estágio atual que se encontra a
comunicação organizacional;
-
contribuir
para o avanço da pesquisa científica nas duas áreas.
Para
conduzir a investigação, em razão do problema esboçado e dos objetivos traçados,
orientamo-nos por algumas hipóteses que eram tomadas como premissas:
 |
o
conhecimento limitado das Relações Públicas impede a sua real importância
no conjunto da comunicação organizacional; |
 |
a
regulamentação da profissão, pela Lei nº. 5.377, de 11 de dezembro de
1967, foi prematura, pois suas atividades não se haviam consolidado na prática; |
 |
o
departamento de Relações Públicas está sendo gradativamente substituído
pelo de comunicação social, em virtude de maior abrangência deste último; |
 |
ocorre
atualmente uma invasão da área pela área de marketing, em razão da falta
de agressividade dos militantes da categoria para ocupar os espaços de
mercado, de uma qualificação inadequada ou da ausência de base científica; |
 |
a
graduação do profissional não o capacita para o exercício de suas reais
funções, devendo sua formação dar-se em nível de pós-graduação. |
Pesquisa
de Opinião
Para
verificar se essas nossas indagações se faziam presentes também no mercado,
fomos colher as opiniões de diferentes segmentos profissionais e
organizacionais relacionados com as duas áreas, usando como instrumentos a
entrevista e o questionário. Este último era formado, basicamente, por
perguntas abertas, com ampla margem para o registro de pareceres e sugestões.
No entanto, para certos segmentos também acrescentamos algumas perguntas
fechadas, com mais alternativas de respostas. Assim, foi possível dar
tratamento estatístico a certas questões, mesmo não se tendo em vista fazer
uma pesquisa quantitativa.
Este
trabalho de campo foi desenvolvido no decurso de 1994, aproveitando-se os espaços
abertos pelo XVII Congresso Brasileiro de Pesquisadores da Comunicação,
organizado pela INTERCOM, no qual se fizeram presentes professores e
profissionais de diversas regiões do país. Além disso, também exploramos a
oportunidade oferecida por um fórum de debates sobre o conceito normativo da
profissão, promovido pelo Conselho Federal dos Profissionais de Relações Públicas
(CONFERP), com o apoio da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São
Paulo, no qual compareceram representantes dos conselhos regionais da maioria
das capitais brasileiras, além de líderes nacionais e integrantes das
diretorias de entidades de classe. Pessoas ou organizações que não
conseguimos contatar diretamente receberam o questionário pelo correio.
No
segmento profissional, abordamos dois subsegmentos: o de Relações Públicas e
o de comunicação organizacional, selecionando profissionais que se destacam
por sua trajetória no cenário nacional e por sua especialização,
principalmente aqueles que presidiram ou ainda presidem órgãos de classe.
No
subsegmento de Relações Públicas, mantivemos contatos com dirigentes e
ex-dirigentes do CONFERP, dos Conselhos Regionais dessa entidade, da Associação
Brasileira de Relações Públicas (ABRP), da Associação Brasileira das
Empresas de Relações Públicas (ABERP), assim como com os dos sindicatos
existentes em alguns Estados brasileiros. Atingimos o total de 58 pessoas, das
quais 10 foram entrevistadas pessoalmente e 48 responderam ao questionário.
As
informações colhidas propiciaram a visão geral das Relações Públicas no
Brasil, de sua contribuição para o desenvolvimento da comunicação
organizacional, das interfaces entre as duas áreas, da polêmica em torno da
lei que regulamentou a profissão, do relacionamento com o marketing e da formação
superior.
No
subsegmento de comunicação organizacional, por meio de entrevistas pessoais,
que tinham na pauta principalmente o surgimento e a evolução da comunicação
organizacional, aspectos conceituais e a produção acadêmica da área, falamos
com 10 pessoas, das quais cinco (dos seis) foram ex-presidentes da ABERJE, o
presidente atual dessa entidade, os presidentes do Sindicato Nacional das
Empresas de Comunicação Empresarial (ANECE), além de três professores.
No
segmento organizacional, com o objetivo de conhecer as opiniões e idéias de
todos os que se valem das Relações Públicas, empregando suas técnicas ou
usufruindo seus benefícios, atingimos vários subsegmentos. Arrolamo-los a
seguir, indicando para cada um o número de entidade ou empresas atingidas, bem
como o de retornos obtidos:
 |
associações
e sindicatos de Relações Públicas e comunicação empresarial – 36/06; |
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associações
e sindicatos afins de comunicação social e de Relações Públicas –
32/05; |
 |
assessorias
de comunicação social e de Relações Públicas – 101/05; |
 |
empresas
de jornalismo, de rádio e de televisão – 36/07; |
 |
agências
de propaganda – 08/02; |
 |
organizações
em geral – 43/05. |
Os
questionários versavam sobre temas como a importância do setor; a diminuição
de seu espaço; os programas levados a efeito; a contribuição para o avanço
da comunicação organizacional; a validade, ou não, da demarcação de áreas;
a formação e o perfil do profissional.
Apesar
do retorno reduzido, a amostra não deixou de ser ilustrativa, considerando-se
que as contribuições vieram de entidades e empresas de porte, de ramos
diferentes e de diversos lugares do país.
Análise
dos Dados
As
respostas dos diferentes segmentos pesquisados deixaram bem claro os pontos
abaixo listados.
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O
conhecimento limitado das Relações Públicas impede o reconhecimento de
sua importância no conjunto das demais subáreas de comunicação
organizacional como função estratégica. Muitos sugeriram ações
concretas para melhorar a situação, como campanhas publicitárias,
entrevistas, publicação de artigos, edição de livros, dentre outras, a
par de divulgação mais completa das atividades e atribuições da área na
mídia impressa e eletrônica. |
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Os
profissionais de Relações Públicas concordaram com a opinião de que a
regulamentação da profissão, pela Lei nº. 5.377, de 11 de dezembro de
1967, foi prematura, embora a maioria tenha ponderado que esse fato deve ser
debitado à conjuntura do país, numa época em que o Estado autoritário
queria ter o controle de tudo o que envolvesse a comunicação. Nos
segmentos organizacionais, por outro lado, a maioria posiciona-se contra a
legislação em vigor, que seria responsável pelo esvaziamento da área no
Brasil. |
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Uma
grande parcela, tanto dos profissionais de Relações Públicas quanto dos
de comunicação organizacional, os princípios interessados nessa questão,
afirmou que os tempos mudaram e que o termo comunicação, por ser mais
abrangente, deve substituir o de Relações Públicas para designar o
departamento que coordena as atividades comunicacionais de uma organização.
Também nas respostas dos segmentos organizacionais ficou patente a
necessidade de um setor que integre o conjunto dessas atividades. |
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A
invasão da área de marketing nas atividades inerentes às Relações Públicas
dá-se em razão da falta de maior agressividade dos profissionais da
categoria para ocupar os espaços de mercado, de qualificação inadequada e
da ausência de base científica. Pelos depoimentos dados, as Relações Públicas
não souberam acompanhar as novas exigências do mercado e perderam muito
para o marketing, em decorrência das causas apontadas como pressupostos. Os
segmentos organizacionais foram contundentes aos assinalar que o principal
problema é o de educação de mercado, da necessidade de obter-se
resultados mais rápidos e mensuráveis e da falta à maioria dos
profissionais de Relações Públicas de uma visão global da comunicação. |
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Não
houve consenso da proposição de que a formação do profissional de Relações
Públicas em nível de graduação não o capacita para o exercício das
suas reais funções, fazendo-se necessário que a formação se dê em nível
de pós-graduação. Para os pesquisados, os cursos são deficientes e devem
melhorar. Por outro lado, houve posicionamento quase unânime no sentido de
se abrir espaço para que os portadores de diplomas de outros cursos de
graduação façam Relações Públicas em nível de pós-graduação lato
sensu. Isto foi bastante salientado tanto no segmento profissional
quanto nos segmentos organizacionais. |
Suposições
Confirmadas
O
trabalho de campo realizado permitiu aceitar, como evidentes, alguns
posicionamentos que expomos como hipóteses a serem confirmadas.
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As
Relações Públicas realmente contribuíram para sistematizar o setor de
comunicação organizacional no Brasil. Apenas uma minoria dos profissionais
e das organizações alcançadas pela pesquisa não concorda com essa
proposição. |
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A
área acomodou-se com a regulamentação e não soube enfrentar de forma
agressiva as mudanças e as exigências do mercado. Por isso perdeu o seu
papel estratégico de conduzir e administrar a comunicação nas organizações
e a oportunidade de ser reconhecida socialmente. |
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Como
uma das formas de fugir da legislação relativa ao exercício da profissão,
apareceram novas denominações para aquilo que se pode considerar a essência
da função de Relações Públicas, como assuntos corporativos, relações
institucionais, endomarketing, marketing social, marketing cultural etc. |
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Ainda
há distanciamento entre a área acadêmica e o mercado profissional. Poucos
eram, até agora, os estudiosos que percebiam as novas tendências e
tentavam encaminhar um processo para reverter a estagnação conceitual. A
maioria das escolas continuava a reproduzir noções superadas: as Relações
Públicas vistas como “algo superior”, assessorando só as altas cúpulas
e voltando-se apenas para tarefas como orientar o cerimonial, promover
festas, organizar eventos, “construir e manter a imagem positiva”. A área
não tem alicerce firme nas ciências sociais aplicadas e nas ciências do
comportamento – comunicação, filosofia, sociologia, psicologia social,
antropologia, política, história, ética, marketing. Por outro lado, o
estudante, muitas vezes, ainda sai da faculdade sem ter adquirido boa base
teórica e sem ter aprendido corretamente as técnicas, portanto,
despreparado para desempenhar satisfatoriamente sua função. Para saber
atuar estrategicamente, o profissional deve ter formação sólida, humanística
e especializada, qualificação e experiência. Os equívocos prejudicaram
muito a área, a qual faltou também incorporar sua utilidade socioeconômica
ao conjunto dos objetivos sociais e mercadológicos das organizações. |
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Existem
no Brasil duas correntes já bastante conhecidas. Uma dos correntes
compreende as Relações Públicas como parte integrante da macroárea da
comunicação organizacional, ao lado do jornalismo, da publicidade, da
propaganda e da editoração, entre outras subáreas possíveis, que devem
interagir com vistas à construção de conceito institucional sólido para
a organização. A outra vincula as Relações Públicas à administração,
atribuindo-lhes a peculiaridade do uso de técnicas de comunicação no
desenvolvimento de sua missão. A visão das Relações Públicas como
gerenciadoras da comunicação nas organizações, a exemplo do que já
aconteceu no passado e seguido a tendência que, defendida por nós há
quase vinte anos, hoje volta a configurar-se, não chegou a ser explorada
pelos pesquisados. |
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O
quadro apresentado é um tanto negativo, mas os anos 90 apontam para novas
tendências e perspectivas promissoras. Surge hoje, graças à democracia e
em decorrência das exigências postas pela sociedade, novo posicionamento
das organizações diante da opinião pública. Faz-se necessário ampliar
os canais de comunicação e estar sempre atento às necessidades e às reações
dos públicos. Nesse contexto, a área de Relações Públicas passa a ser
mais valorizada e mais requisitada, conforme evidenciam os depoimentos
recebidos e o aumento da oferta de estágios. No entanto, sua atuação tem
que ser no âmbito de comunicação integrada, somando-se os esforços da área
com os de setores afins dentro da organização, e na busca de resultados.
Ou, melhor dizendo, é preciso que as Relações Públicas exerçam função
estratégica, pautando-se por novos paradigmas. |
INTERFACES
DE UMA ÁREA E UMA SUBÁREA
No
Brasil, as Relações Públicas exerceram papel importante na formação de uma
área que aos poucos vai integrando a comunicação institucional (Relações Públicas,
imprensa, publicidade, editoração), a comunicação mercadológica
(propaganda, relacionamento com o cliente, eventos), a comunicação interna e a
comunicação administrativa.
Essa
área mais abrangente assume nomes diversos, como comunicação social
corporativa, empresarial e organizacional. A denominação de comunicação
social passou a ser adotada por influência do Concílio Ecumênico Vaticano II
(1962-1965), que, entre muitos outros, afirmou o “ Decreto sobre os meios de
comunicação social”. Mas essa denominação, como outras, não é muito
adotada, preferindo-se ficar simplesmente como termo de comunicação,
reservando-se a primeira para os meios de comunicação de massa, embora também
para estes já se tenha consagrado a palavra mídia.
As
expressões comunicação empresarial e organizacional, como em outros países,
são usadas indistintamente na literatura acadêmica e profissional, mas não
para designar departamentos internos. A segunda, aos poucos, está ganhando
estrutura especial. Nós sempre temos optado por esta, pelo fato de ter maior
amplitude, aplicando-se a qualquer organização e não só aquilo que se chama
de “empresa”, além de abranger todo o espectro das atividades
comunicacionais.
A
substituição, em 1979, da anterior Assessoria de Relações Públicas por
Secretaria de Comunicação Social com o status de ministério, na área do
Poder Executivo Federal, quer queira quer não queira, teve influência na adoção
de outros nomes para os departamentos que integram as atividades comunicacionais
das organizações, o que se tornou uma constante a partir de meados dos anos
80.
A
primeira empresa a criar a gerência de comunicação social foi a Rhodia, em
1985. Capitalizando para si os benefícios de uma nova realidade institucional,
ela procurou integrar nesse setor todas as atividades de Relações Públicas
internas e externas (projetos institucionais e comunitários), imprensa
(assessoria e publicações) e marketing social (publicidade, valorização do
consumidor e pesquisa de mercado). Tratava-se de ordenar a comunicação
organizacional, deixando de lado sua fragmentação em diversos setores, e
posicionando-a num contexto estratégico e mercadológico. Por outro lado, também
na área acadêmica e em fóruns começaram as discussões sobre a comunicação
nas organizações que passou a ser vista como macroárea integrada.
Comunicação
Integrada
É
preciso sublinhar a necessidade dessa comunicação integrada, cada vez mais
premente numa sociedade globalizada, que, acima de tudo, exige das organizações
resultados efetivos para se tornarem ou continuarem competitivas. Nós sempre
ressaltamos essa idéia de forma incisiva, em nossa tese de livre-docência. É
imprescindível que as diversas subáreas atuem em parceria dentro de uma área
maior de comunicação, coordenada por uma diretoria específica.
Nas
organizações utilitárias, públicas e privadas, isso ainda está longe de ser
uma praxe generalizada. Mas nos campos acadêmico e profissional, está-se
atentando para isso com crescente empenho. Muitos autores abordam o tema. A
maior parte das assessorias hoje oferece serviços nessa linha. Muitas das novas
que vão surgindo já adotam a terminologia comunicação integrada em suas razões
sociais. Até mesmo o governo federal, cuja comunicação sempre padeceu de
todas as deficiências políticas e estruturais, que sempre afetaram essa área,
deu grande passo nesse sentido, embora não tenhamos conhecimento de que a
iniciativa esteja funcionando na prática.
Em
1993, criou-se o Sistema de Integrado de Comunicação Social da Administração
Pública Federal (SICOM), que passou a denominar-se Sistema de Comunicação
Social do Poder Executivo Federal a partir de 1996, já na gestão de Fernando
Henrique Cardoso (1994- ). Este é integrado pela Secretaria de Comunicação
Social da Presidência da República (SECOM), como órgão central, e pelas
unidades que, nos ministérios, em outros setores federais, nas autarquias,
fundações e sociedades sob controle direto ou indireto do governo, tenham a
atribuição de gerir atividades de comunicação nas áreas de imprensa, Relações
Públicas e publicidade (que inclui a propaganda institucional e mercadológica,
a publicidade legal e a promoção institucional e mercadológica).
As
ações são orientadas pelo Plano de Comunicação Institucional, elaborado
pela SECOM, e pelo Plano Anual de Comunicação, desenvolvido pelos demais
integrantes do SICOM. O primeiro estabelece as políticas e diretrizes globais
de comunicação social e consolida as prioridades do poder executivo nessa área.
Administrando
a Comunicação
Tendo
contribuído para o desenvolvimento da comunicação organizacional assim
considerada, as Relações Públicas têm importante papel nesse contexto, em
união estreita e sinérgica com as atividades de outras subáreas, como já
dissemos. Mas hoje os debates começam a tomar uma nova direção, que, bastante
provocadora, será um grande desafio para os teóricos, os profissionais e as
organizações. Não deveria caber às Relações Públicas ser essa área mais
abrangente?
Qual
é a área de comunicação organizacional que tem por obrigação avaliar e
prognosticar o pensamento e as reações dos públicos senão a de Relações Públicas?
Pela
natureza de suas atividades, pelo seu objeto de estudo e pela própria formação
dos profissionais, cabe às Relações Públicas essa tarefa. Trata-se de entrar
no mérito de princípios e fundamentos que devem ser a essência dessa
atividade, que, em 1984, Grunig e Hunt sintetizaram como "a administração
da comunicação entre a organização e seus públicos".
Dez
anos depois,
em 1994, os dois autores retomaram esse posicionamento, apresentando uma
conceituação de Relações Públicas que talvez seja a mais clara e mais
precisa que nos foi dado conhecer até agora. Para eles, muitas definições
contêm dois elementos: comunicação e gerenciamento. Ou seja, Relações Públicas
é o caminho formal pelo qual as organizações se comunicam com seus públicos,
de forma planejada ou administrada. Enquanto grande parte das ações de
comunicação organizacional acontece em virtude da oportunidade, Relações Públicas
é a comunicação planejada e coordenada por gerentes profissionais.
Essa
visão, assimilada por nós desde 1979 e exposta em nossos três trabalhos de pós-graduação,
já citados, começa a voltar à tona também no Brasil.
“Hoje,
nos mercados mais desenvolvidos, que estão com as vistas voltadas para o ano
2000, Relações Públicas está sobrepondo-se às demais ações da empresa –
marketing, recursos humanos e outras –, envolvendo a empresa como um todo.”
Tratam-se
de novos paradigmas a serem considerados quando se admite que a comunicação,
uma atividade dinâmica e em contínua evolução, só se estagna, com toda uma
seqüência de efeitos negativos, se os que com ela militam se acomodarem e
ficarem parados no tempo!
Tudo
isso são aspectos do que nos propusemos com este trabalho. Mostrar as
interfaces entre as Relações Públicas e a comunicação organizacional no
Brasil.

NOTAS
BIBLIOGRÁFICAS
A dissertação de mestrado, a tese de doutorado e a de livre-docência foram
publicadas por editoras comerciais, em 1986, 1992 e 1997 com os títulos,
respectivamente, de "Planejamento de Relações Públicas na Comunicação
Integrada", "Universidade e Comunicação na Edificação da Sociedade"
e "Relações públicas e Modernidade: Novos Paradigmas na Comunicação
Organizacional".
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fundamentos e sistemas na organização, na administração, nas relações
interpessoais. São Paulo: Atlas, 1976; REDFIELD, Charles E. Comunicações
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COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL.
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Comunicação empresarial/comunicação institucional: conceitos, estratégias,
sistemas, estruturas, planejamento e técnicas. São Paulo, Summus:
1986; KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Universidade e comunicação
na edificação da sociedade. São Paulo: Loyola, 1992; Relações
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n. 96, p. 12-14, quarto trimestre de 1994.

Este trabalho tem por base a tese de livre-docência, "As Relações
públicas e suas interfaces com a comunicação organizacional no Brasil" e
no livro "Relações públicas e modernidade: novos paradigmas na comunicação
organizacional". A autora agradece a contribuição e a participação das
bolsistas do CNPq vinculados a ECA-USP: Ely Tsuruye Matsumoto, Lilliana R. Lima
Brancallion, Simone D. Gardinali Novacinski e Maria Eugênia A. B. Gouveia, que
foram imprescindíveis para o desenvolvimento da pesquisa.
Originalmente
publicado em CORRÊA, Tupã Gomes, FREITAS, Sidinéia Gomes (Org.)
Comunicação, marketing, cultura: sentidos da administração do
trabalho e do consumo. São Paulo:
ECA/USP; CLC, 1999. p. 251-266.
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