Idéias e Tendências 1

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AS INTERFACES DAS RELAÇÕES PÚBLICAS E DA COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL NO BRASIL

 

Margarida Maria Krohling Kunsch

Professora da Universidade de São Paulo

 

INTRODUÇÃO

Analisar as Relações Públicas e seu papel no contexto das organizações tem sido uma constante ao longo de nossa carreira acadêmica, principalmente a partir do ingresso na pós-graduação, em 1979.

Tratava-se, para nós, de defender a necessidade de integrar as diversas subáreas da comunicação organizacional, dentre as quais a de Relações Públicas. Começamos a enfatizar essa proposta numa época em que o tema ainda não era objeto de estudos mais concretos na academia e, nas organizações, as Relações Públicas, o jornalismo empresarial, a assessoria de imprensa ainda cumpriam suas tarefas de forma estanque, sem maior preocupação quanto à união sinérgica de esforços entre os setores de comunicação institucional, comunicação mercadológica, comunicação interna e comunicação administrativa.

Em 1985, na dissertação de mestrado, expusemos nosso posicionamento. Em 1991, na tese de doutorado, procuramos aplicá-lo à comunicação de uma organização concreta. E, em 1996, na tese de livre-docência, o externamos num contexto mais amplo.[1]

A presente exposição tem como base este último trabalho, centrando-se na pesquisa teórica e de campo que, em função dele, fizemos sobre a contribuição das Relações Públicas para o desenvolvimento da comunicação organizacional no Brasil.

O projeto foi realizado em duas etapas. Na primeira, realizou-se o levantamento, com registros bibliográficos e resumos, do referencial teórico sobre Relações Públicas e comunicação organizacional, incluindo o material em livros, teses, dissertações, artigos científicos, anais e catálogos, o que possibilitou reunir a bibliografia sobre essa temática no período de 1950 a 1995. Na segunda, buscaram-se as opiniões de segmentos profissionais e organizacionais da área de comunicação social, com as quais se comprovou que as Relações Públicas contribuíram expressivamente para o avançado estágio em que se encontra, hoje, a comunicação organizacional no país.

BUSCANDO AS FONTES

Tratava-se de um estudo que envolvia as Relações Públicas e sua contextualização na comunicação organizacional, com a qual se conectam também outras subáreas, principalmente a de comunicação mercadológica e a de comunicação interna. Por isso, foram muitas as referências bibliográficas utilizadas, destacando-se as contribuições de alguns autores. Em Relações Públicas, ressaltamos as idéias de James E. Grunig e Todd Hunt; em comunicação organizacional, as de Geraldo Goldhaber e Gary Kreeps; em marketing, as de Philip Kottler. Quanto à comunicação interna, valemo-nos essencialmente do corpo teórico que fomos construindo e formando, cumulativamente, ao longo dos anos. Além disso, perpassaram-se todos os inventários de comunicação e Relações Públicas que se achavam à disposição.

Valemo-nos também de várias fontes informatizadas, especialmente a dos sistemas Dedalus e Pegasus, das bibliotecas da Universidade de São Paulo e da Escola de Comunicações e Artes, respectivamente, bem como o Portdata do Centro de Documentação da Comunicação nos Países de Língua Portuguesa (PORTCOM), órgão filiado à Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – INTERCOM.

Buscamos ainda outras alternativas para localizar, até onde foi possível, tudo o que já havia sido publicado em livros, coletâneas, dissertações, teses, apostilas, artigos, reportagens e outros materiais impressos. Com essa finalidade, consultaram-se bibliotecas públicas e de escolas superiores de algumas das principais cidades brasileiras.

A listagem e o resumo de todo o material encontrado levou à montagem de um referencial tão completo, quanto possível, sobre Relações Públicas e comunicação organizacional no período de 1950 a 1995. Com mais de mil registros, é a primeira bibliografia especializada desse gênero no Brasil e, futuramente, pretende-se publicá-la, com vistas a uma socialização maior do estudo empreendido. Na seqüência, tecemos alguns comentários pertinentes.

RELAÇÕES PÚBLICAS

Quanto aos livros, incluindo-se os traduzidos e alguns opúsculos, chegamos a levantar o total de 62, podendo existir mais alguns que não tivemos acesso. Em linhas gerais, podemos dizer que a maioria das obras concentra-se muito mais no aspecto instrumental do que em estudos teóricos da atividade, percebendo-se nítida tendência para sua aplicação a determinados segmentos, como o empresarial e o governamental.

São exceções, por exemplo: Comunicação social e Relações Públicas, de Walter Ramos Poyares, empreendendo profunda e objetiva análise filosófica das duas áreas; Psicossociologia das Relações Públicas, de Cândido Teobaldo de Souza Andrade, apresentando os fundamentos do comportamento coletivo e da opinião pública, bases do processo de Relações Públicas; Usos e abusos de Relações Públicas, de José Xavier de Oliveira, abordando criticamente conceitos e práticas e revelando os bastidores do processo de regulamentação da profissão no País; Relações públicas: função política, de Roberto Porto Simões, expondo nova proposição teórica; e Relações públicas no modo de produção capitalista, de Cicília Maria Krohling Peruzzo, questionando a essência na aparência da profissão, dentro de um referencial dialético.

No conjunto, os autores que mais sobressaíram, quer pelo número de edições de suas obras quer pela adoção destas nos cursos de Relações Públicas das escolas de Comunicação, foram: Cândido Teobaldo de Souza Andrade, Roberto Porto Simões, Margarida M. Krohling Kunsch, Cicília M. Krohling Peruzzo, Hebe Wey, Martha d’Azevedo e Marcos F. Evangelista. Quem mais publicou foi Souza Andrade, a quem coube também o pioneirismo da primeira tese de doutorado e do primeiro livro impresso, nessa área, no Brasil.

No que se refere a teses e dissertações, foi-nos possível catalogar 43 trabalhos defendidos no referido período: três de livre-docência, 10 de doutorado e 30 de mestrado. A Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo destacou-se nessa área, gerando em seu âmbito 37 (86%) desses produtos: três teses de livre-docência (100%), oito teses de doutorado (80%) e 24 dissertações de mestrado (80%).

Os temas mais explorados, ao longo das três últimas décadas, foram, por exemplo: finalidade de Relações Públicas; nos anos 80, aspectos estratégicos e políticos da profissão, o planejamento da atividade e seu papel nas organizações, nos órgãos governamentais e nos contextos da administração, do público consumidor, do meio rural e da defesa civil; nos anos 90, a produção científica, o ensino e a função da área no conjunto da comunicação organizacional, nos campos da saúde e do turismo, com relação ao mercado e ao meio ambiente.

Os autores de teses e dissertações que as publicaram em livros foram: Cândido Teobaldo de Souza Andrade, Margarida M. Krohling Kunsch, Roberto Porto Simões, Hebe Wey, Cicília M. Krohling Peruzzo, J. B. Pinho e Cleuza Cesca.

Pelos dados apresentados, conclui-se que o Brasil tem uma produção significativa em Relações Públicas. O que se faz necessário é democratizá-la ainda mais, além de avaliá-la de alguma forma, até mesmo para elevar o seu nível, questionando-se, por exemplo, se tudo o que veio à luz realmente pode ser considerado como novo e científico. Uma reflexão séria sobre esses pontos certamente contribuirá para que a universidade cumpra sua missão de vanguarda na geração de conhecimentos de que a sociedade tanto necessita.

COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL

Em todo o mundo, a preocupação inicial era mais voltada para a comunicação administrativa, ou seja, o mero intercâmbio de informações dentro de uma organização (fluxos, redes etc.). Nos anos 70, autores como Lee Thayer, Charles Redfield e Everett e Rekha Rogers,[2] por exemplo, trabalharam muito nessa linha. Os dois primeiros tiveram seus livros traduzidos no Brasil. Muitos autores de administração, ao abordar a comunicação, puseram ênfase nesse enfoque. Aos poucos, essa visão limitada foi se abrindo para uma comunicação mais abrangente, que envolve o clima e a cultura das organizações e sua vinculação com o meio ambiente externo.

A produção científica em comunicação organizacional é hoje significativa em países europeus e na Austrália, mas sobretudo nos Estados Unidos, onde existe grande volume de obras sobre essa temática. O mesmo não acontece com o Brasil, onde, a nosso entender, os estudos acadêmicos nessa área ainda são emergentes. Ao se confrontar a atuação do mercado e a do setor de negócios e a geração de livros, teses e dissertações, ver-se-á que a defasagem é grande.

As escolas superiores brasileiras não souberam observar a importância e a necessidade de propiciar oportunidades aos cursos de pós-graduação para que eles se voltassem para essa área. Talvez o regime autoritário que esteve em vigor por mais de duas décadas tenha sido uma das causas. Além disso, falar sobre esse assunto significava, nos meios universitários, privilegiar o capitalismo empresarial. Por isso as iniciativas foram pessoais e isoladas.

A primeira tese de doutorado sobre jornalismo empresarial – área que, pela direção dada na época, abriu caminho, junto com a de Relações Públicas, para ampliar a comunicação das organizações – coube a Francisco Gaudêncio Torquato do Rego. Foi ele quem, na prática, iniciou os estudos nesse campo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Em entrevista a Revista Aberje, ele deu este depoimento:

“Precisei lutar como um Kamikaze para defender a necessidade dessa disciplina e enfrentei muitas pressões. Na escolas da época, julgava-se que o jornalismo empresarial era uma área que não atendia aos interesses da sociedade.”[3]

A exemplo do que fizemos com Relações Públicas, também realizamos o levantamento bibliográfico e resumimos as obras específicas de comunicação organizacional produzidas de 1972 (ano em que Torquato apresentou seu trabalho) a 1995.

No que se refere aos livros, conseguimos detectar 29 trabalhos, dos quais seis são traduções de autores estrangeiros. Os temas mais comuns foram a própria comunicação organizacional, as interfaces entre esta e a administração, o jornalismo empresarial e a assessoria de imprensa.

Quanto a teses e dissertações, registramos duas teses de livre-docência e quatro de doutorado, além de 19 dissertações de mestrado. Os assuntos abordados nas teses foram o jornalismo empresarial, a comunicação nas organizações utilitárias, as comunicações interpessoais no serviço público, a comunicação na área governamental e a comunicação na universidade.

Dentre essas, publicaram-se em livros a tese de livre-docência de Torquato e as teses de doutorado e de livre-docência de Margarida Maria K. Kunsch.[4] Nas dissertações de mestrado, os temas que apareceram com mais freqüência foram: jornalismo empresarial, comunicação interna, sistema de comunicação, comunicação e informações tecnológicas e comunicação organizacional. Pelo que nos foi dado apurar, até o momento nenhuma foi convertida em livro. Do total de 25 documentos identificados, também nessa área a primazia coube a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, com seis teses (100%) e nove dissertações (47%).

É possível prever o aumento da produção científica nessa área. Estão surgindo novos cursos de pós-graduação em comunicação, em que a incluem em suas linhas de pesquisa. Além disso, há hoje bom número de pós-graduandos do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, dedicando-se à pesquisa e ao desenvolvimento de novos trabalhos.

Outro fator que está contribuindo positivamente é a atuação de um dos muitos grupos de trabalhos da INTERCOM, concretamente o de comunicação organizacional que, nos últimos três anos, conseguiu reunir bons papers, originados de pesquisas e estudos levados a efeito nesse campo, que oportunamente merecem ser publicados em forma de coletânea. No que diz respeito à área acadêmica brasileira, a comunicação organizacional tem que ser mais bem-equacionada. A produção realizada é muito repetitiva, com exceção de alguns poucos trabalhos inovadores que representam um real avanço qualitativo. Nunca é tarde para se recuperar o tempo perdido...

OUVINDO O MERCADO

Formulação da Proposta

A questão de fundo que originou e orientou nossa pesquisa de campo formulava-se nestes termos: no Brasil, as Relações Públicas têm sido efetivamente atuantes desde a década de 1950, sob várias formas e terminologias; entretanto, ainda lhes falta um posicionamento mais definido de suas reais funções e de sua importância; por isso, as Relações Públicas não vêm valorizando, na prática, o seu verdadeiro papel no atual estágio da comunicação organizacional. Tínhamos em vista três objetivos básicos:

  1. analisar a evolução das Relações Públicas no âmbito das organizações complexas;

  2. demonstrar como Relações Públicas colaboraram no estágio atual que se encontra a comunicação organizacional;

  3. contribuir para o avanço da pesquisa científica nas duas áreas.

Para conduzir a investigação, em razão do problema esboçado e dos objetivos traçados, orientamo-nos por algumas hipóteses que eram tomadas como premissas:

o conhecimento limitado das Relações Públicas impede a sua real importância no conjunto da comunicação organizacional;

a regulamentação da profissão, pela Lei nº. 5.377, de 11 de dezembro de 1967, foi prematura, pois suas atividades não se haviam consolidado na prática;

o departamento de Relações Públicas está sendo gradativamente substituído pelo de comunicação social, em virtude de maior abrangência deste último;

ocorre atualmente uma invasão da área pela área de marketing, em razão da falta de agressividade dos militantes da categoria para ocupar os espaços de mercado, de uma qualificação inadequada ou da ausência de base científica;

a graduação do profissional não o capacita para o exercício de suas reais funções, devendo sua formação dar-se em nível de pós-graduação.

Pesquisa de Opinião

Para verificar se essas nossas indagações se faziam presentes também no mercado, fomos colher as opiniões de diferentes segmentos profissionais e organizacionais relacionados com as duas áreas, usando como instrumentos a entrevista e o questionário. Este último era formado, basicamente, por perguntas abertas, com ampla margem para o registro de pareceres e sugestões. No entanto, para certos segmentos também acrescentamos algumas perguntas fechadas, com mais alternativas de respostas. Assim, foi possível dar tratamento estatístico a certas questões, mesmo não se tendo em vista fazer uma pesquisa quantitativa.

Este trabalho de campo foi desenvolvido no decurso de 1994, aproveitando-se os espaços abertos pelo XVII Congresso Brasileiro de Pesquisadores da Comunicação, organizado pela INTERCOM, no qual se fizeram presentes professores e profissionais de diversas regiões do país. Além disso, também exploramos a oportunidade oferecida por um fórum de debates sobre o conceito normativo da profissão, promovido pelo Conselho Federal dos Profissionais de Relações Públicas (CONFERP), com o apoio da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, no qual compareceram representantes dos conselhos regionais da maioria das capitais brasileiras, além de líderes nacionais e integrantes das diretorias de entidades de classe. Pessoas ou organizações que não conseguimos contatar diretamente receberam o questionário pelo correio.

No segmento profissional, abordamos dois subsegmentos: o de Relações Públicas e o de comunicação organizacional, selecionando profissionais que se destacam por sua trajetória no cenário nacional e por sua especialização, principalmente aqueles que presidiram ou ainda presidem órgãos de classe.

No subsegmento de Relações Públicas, mantivemos contatos com dirigentes e ex-dirigentes do CONFERP, dos Conselhos Regionais dessa entidade, da Associação Brasileira de Relações Públicas (ABRP), da Associação Brasileira das Empresas de Relações Públicas (ABERP), assim como com os dos sindicatos existentes em alguns Estados brasileiros. Atingimos o total de 58 pessoas, das quais 10 foram entrevistadas pessoalmente e 48 responderam ao questionário.

As informações colhidas propiciaram a visão geral das Relações Públicas no Brasil, de sua contribuição para o desenvolvimento da comunicação organizacional, das interfaces entre as duas áreas, da polêmica em torno da lei que regulamentou a profissão, do relacionamento com o marketing e da formação superior.

No subsegmento de comunicação organizacional, por meio de entrevistas pessoais, que tinham na pauta principalmente o surgimento e a evolução da comunicação organizacional, aspectos conceituais e a produção acadêmica da área, falamos com 10 pessoas, das quais cinco (dos seis) foram ex-presidentes da ABERJE, o presidente atual dessa entidade, os presidentes do Sindicato Nacional das Empresas de Comunicação Empresarial (ANECE), além de três professores.

No segmento organizacional, com o objetivo de conhecer as opiniões e idéias de todos os que se valem das Relações Públicas, empregando suas técnicas ou usufruindo seus benefícios, atingimos vários subsegmentos. Arrolamo-los a seguir, indicando para cada um o número de entidade ou empresas atingidas, bem como o de retornos obtidos:

associações e sindicatos de Relações Públicas e comunicação empresarial – 36/06;

associações e sindicatos afins de comunicação social e de Relações Públicas – 32/05;

assessorias de comunicação social e de Relações Públicas – 101/05;

empresas de jornalismo, de rádio e de televisão – 36/07;

agências de propaganda – 08/02;

organizações em geral – 43/05.

Os questionários versavam sobre temas como a importância do setor; a diminuição de seu espaço; os programas levados a efeito; a contribuição para o avanço da comunicação organizacional; a validade, ou não, da demarcação de áreas; a formação e o perfil do profissional.

Apesar do retorno reduzido, a amostra não deixou de ser ilustrativa, considerando-se que as contribuições vieram de entidades e empresas de porte, de ramos diferentes e de diversos lugares do país.

Análise dos Dados

As respostas dos diferentes segmentos pesquisados deixaram bem claro os pontos abaixo listados.

 O conhecimento limitado das Relações Públicas impede o reconhecimento de sua importância no conjunto das demais subáreas de comunicação organizacional como função estratégica. Muitos sugeriram ações concretas para melhorar a situação, como campanhas publicitárias, entrevistas, publicação de artigos, edição de livros, dentre outras, a par de divulgação mais completa das atividades e atribuições da área na mídia impressa e eletrônica.

Os profissionais de Relações Públicas concordaram com a opinião de que a regulamentação da profissão, pela Lei nº. 5.377, de 11 de dezembro de 1967, foi prematura, embora a maioria tenha ponderado que esse fato deve ser debitado à conjuntura do país, numa época em que o Estado autoritário queria ter o controle de tudo o que envolvesse a comunicação. Nos segmentos organizacionais, por outro lado, a maioria posiciona-se contra a legislação em vigor, que seria responsável pelo esvaziamento da área no Brasil.

Uma grande parcela, tanto dos profissionais de Relações Públicas quanto dos de comunicação organizacional, os princípios interessados nessa questão, afirmou que os tempos mudaram e que o termo comunicação, por ser mais abrangente, deve substituir o de Relações Públicas para designar o departamento que coordena as atividades comunicacionais de uma organização. Também nas respostas dos segmentos organizacionais ficou patente a necessidade de um setor que integre o conjunto dessas atividades.

A invasão da área de marketing nas atividades inerentes às Relações Públicas dá-se em razão da falta de maior agressividade dos profissionais da categoria para ocupar os espaços de mercado, de qualificação inadequada e da ausência de base científica. Pelos depoimentos dados, as Relações Públicas não souberam acompanhar as novas exigências do mercado e perderam muito para o marketing, em decorrência das causas apontadas como pressupostos. Os segmentos organizacionais foram contundentes aos assinalar que o principal problema é o de educação de mercado, da necessidade de obter-se resultados mais rápidos e mensuráveis e da falta à maioria dos profissionais de Relações Públicas de uma visão global da comunicação.

Não houve consenso da proposição de que a formação do profissional de Relações Públicas em nível de graduação não o capacita para o exercício das suas reais funções, fazendo-se necessário que a formação se dê em nível de pós-graduação. Para os pesquisados, os cursos são deficientes e devem melhorar. Por outro lado, houve posicionamento quase unânime no sentido de se abrir espaço para que os portadores de diplomas de outros cursos de graduação façam Relações Públicas em nível de pós-graduação lato sensu. Isto foi bastante salientado tanto no segmento profissional quanto nos segmentos organizacionais.

Suposições Confirmadas

O trabalho de campo realizado permitiu aceitar, como evidentes, alguns posicionamentos que expomos como hipóteses a serem confirmadas.

As Relações Públicas realmente contribuíram para sistematizar o setor de comunicação organizacional no Brasil. Apenas uma minoria dos profissionais e das organizações alcançadas pela pesquisa não concorda com essa proposição.

A área acomodou-se com a regulamentação e não soube enfrentar de forma agressiva as mudanças e as exigências do mercado. Por isso perdeu o seu papel estratégico de conduzir e administrar a comunicação nas organizações e a oportunidade de ser reconhecida socialmente.

Como uma das formas de fugir da legislação relativa ao exercício da profissão, apareceram novas denominações para aquilo que se pode considerar a essência da função de Relações Públicas, como assuntos corporativos, relações institucionais, endomarketing, marketing social, marketing cultural etc.

Ainda há distanciamento entre a área acadêmica e o mercado profissional. Poucos eram, até agora, os estudiosos que percebiam as novas tendências e tentavam encaminhar um processo para reverter a estagnação conceitual. A maioria das escolas continuava a reproduzir noções superadas: as Relações Públicas vistas como “algo superior”, assessorando só as altas cúpulas e voltando-se apenas para tarefas como orientar o cerimonial, promover festas, organizar eventos, “construir e manter a imagem positiva”. A área não tem alicerce firme nas ciências sociais aplicadas e nas ciências do comportamento – comunicação, filosofia, sociologia, psicologia social, antropologia, política, história, ética, marketing. Por outro lado, o estudante, muitas vezes, ainda sai da faculdade sem ter adquirido boa base teórica e sem ter aprendido corretamente as técnicas, portanto, despreparado para desempenhar satisfatoriamente sua função. Para saber atuar estrategicamente, o profissional deve ter formação sólida, humanística e especializada, qualificação e experiência. Os equívocos prejudicaram muito a área, a qual faltou também incorporar sua utilidade socioeconômica ao conjunto dos objetivos sociais e mercadológicos das organizações.

Existem no Brasil duas correntes já bastante conhecidas. Uma dos correntes compreende as Relações Públicas como parte integrante da macroárea da comunicação organizacional, ao lado do jornalismo, da publicidade, da propaganda e da editoração, entre outras subáreas possíveis, que devem interagir com vistas à construção de conceito institucional sólido para a organização. A outra vincula as Relações Públicas à administração, atribuindo-lhes a peculiaridade do uso de técnicas de comunicação no desenvolvimento de sua missão. A visão das Relações Públicas como gerenciadoras da comunicação nas organizações, a exemplo do que já aconteceu no passado e seguido a tendência que, defendida por nós há quase vinte anos, hoje volta a configurar-se, não chegou a ser explorada pelos pesquisados.

O quadro apresentado é um tanto negativo, mas os anos 90 apontam para novas tendências e perspectivas promissoras. Surge hoje, graças à democracia e em decorrência das exigências postas pela sociedade, novo posicionamento das organizações diante da opinião pública. Faz-se necessário ampliar os canais de comunicação e estar sempre atento às necessidades e às reações dos públicos. Nesse contexto, a área de Relações Públicas passa a ser mais valorizada e mais requisitada, conforme evidenciam os depoimentos recebidos e o aumento da oferta de estágios. No entanto, sua atuação tem que ser no âmbito de comunicação integrada, somando-se os esforços da área com os de setores afins dentro da organização, e na busca de resultados. Ou, melhor dizendo, é preciso que as Relações Públicas exerçam função estratégica, pautando-se por novos paradigmas.

INTERFACES DE UMA ÁREA E UMA SUBÁREA

No Brasil, as Relações Públicas exerceram papel importante na formação de uma área que aos poucos vai integrando a comunicação institucional (Relações Públicas, imprensa, publicidade, editoração), a comunicação mercadológica (propaganda, relacionamento com o cliente, eventos), a comunicação interna e a comunicação administrativa.

Essa área mais abrangente assume nomes diversos, como comunicação social corporativa, empresarial e organizacional. A denominação de comunicação social passou a ser adotada por influência do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), que, entre muitos outros, afirmou o “ Decreto sobre os meios de comunicação social”. Mas essa denominação, como outras, não é muito adotada, preferindo-se ficar simplesmente como termo de comunicação, reservando-se a primeira para os meios de comunicação de massa, embora também para estes já se tenha consagrado a palavra mídia.

As expressões comunicação empresarial e organizacional, como em outros países, são usadas indistintamente na literatura acadêmica e profissional, mas não para designar departamentos internos. A segunda, aos poucos, está ganhando estrutura especial. Nós sempre temos optado por esta, pelo fato de ter maior amplitude, aplicando-se a qualquer organização e não só aquilo que se chama de “empresa”, além de abranger todo o espectro das atividades comunicacionais.

A substituição, em 1979, da anterior Assessoria de Relações Públicas por Secretaria de Comunicação Social com o status de ministério, na área do Poder Executivo Federal, quer queira quer não queira, teve influência na adoção de outros nomes para os departamentos que integram as atividades comunicacionais das organizações, o que se tornou uma constante a partir de meados dos anos 80.

A primeira empresa a criar a gerência de comunicação social foi a Rhodia, em 1985. Capitalizando para si os benefícios de uma nova realidade institucional, ela procurou integrar nesse setor todas as atividades de Relações Públicas internas e externas (projetos institucionais e comunitários), imprensa (assessoria e publicações) e marketing social (publicidade, valorização do consumidor e pesquisa de mercado). Tratava-se de ordenar a comunicação organizacional, deixando de lado sua fragmentação em diversos setores, e posicionando-a num contexto estratégico e mercadológico. Por outro lado, também na área acadêmica e em fóruns começaram as discussões sobre a comunicação nas organizações que passou a ser vista como macroárea integrada.

Comunicação Integrada

É preciso sublinhar a necessidade dessa comunicação integrada, cada vez mais premente numa sociedade globalizada, que, acima de tudo, exige das organizações resultados efetivos para se tornarem ou continuarem competitivas. Nós sempre ressaltamos essa idéia de forma incisiva, em nossa tese de livre-docência. É imprescindível que as diversas subáreas atuem em parceria dentro de uma área maior de comunicação, coordenada por uma diretoria específica.

Nas organizações utilitárias, públicas e privadas, isso ainda está longe de ser uma praxe generalizada. Mas nos campos acadêmico e profissional, está-se atentando para isso com crescente empenho. Muitos autores abordam o tema. A maior parte das assessorias hoje oferece serviços nessa linha. Muitas das novas que vão surgindo já adotam a terminologia comunicação integrada em suas razões sociais. Até mesmo o governo federal, cuja comunicação sempre padeceu de todas as deficiências políticas e estruturais, que sempre afetaram essa área, deu grande passo nesse sentido, embora não tenhamos conhecimento de que a iniciativa esteja funcionando na prática.

Em 1993, criou-se o Sistema de Integrado de Comunicação Social da Administração Pública Federal (SICOM), que passou a denominar-se Sistema de Comunicação Social do Poder Executivo Federal a partir de 1996, já na gestão de Fernando Henrique Cardoso (1994- ). Este é integrado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (SECOM), como órgão central, e pelas unidades que, nos ministérios, em outros setores federais, nas autarquias, fundações e sociedades sob controle direto ou indireto do governo, tenham a atribuição de gerir atividades de comunicação nas áreas de imprensa, Relações Públicas e publicidade (que inclui a propaganda institucional e mercadológica, a publicidade legal e a promoção institucional e mercadológica).

As ações são orientadas pelo Plano de Comunicação Institucional, elaborado pela SECOM, e pelo Plano Anual de Comunicação, desenvolvido pelos demais integrantes do SICOM. O primeiro estabelece as políticas e diretrizes globais de comunicação social e consolida as prioridades do poder executivo nessa área.

Administrando a Comunicação

Tendo contribuído para o desenvolvimento da comunicação organizacional assim considerada, as Relações Públicas têm importante papel nesse contexto, em união estreita e sinérgica com as atividades de outras subáreas, como já dissemos. Mas hoje os debates começam a tomar uma nova direção, que, bastante provocadora, será um grande desafio para os teóricos, os profissionais e as organizações. Não deveria caber às Relações Públicas ser essa área mais abrangente?

Qual é a área de comunicação organizacional que tem por obrigação avaliar e prognosticar o pensamento e as reações dos públicos senão a de Relações Públicas?

Pela natureza de suas atividades, pelo seu objeto de estudo e pela própria formação dos profissionais, cabe às Relações Públicas essa tarefa. Trata-se de entrar no mérito de princípios e fundamentos que devem ser a essência dessa atividade, que, em 1984, Grunig e Hunt sintetizaram como "a administração da comunicação entre a organização e seus públicos".[5]

Dez anos depois,[6] em 1994, os dois autores retomaram esse posicionamento, apresentando uma conceituação de Relações Públicas que talvez seja a mais clara e mais precisa que nos foi dado conhecer até agora. Para eles, muitas definições contêm dois elementos: comunicação e gerenciamento. Ou seja, Relações Públicas é o caminho formal pelo qual as organizações se comunicam com seus públicos, de forma planejada ou administrada. Enquanto grande parte das ações de comunicação organizacional acontece em virtude da oportunidade, Relações Públicas é a comunicação planejada e coordenada por gerentes profissionais.

Essa visão, assimilada por nós desde 1979 e exposta em nossos três trabalhos de pós-graduação, já citados, começa a voltar à tona também no Brasil.

“Hoje, nos mercados mais desenvolvidos, que estão com as vistas voltadas para o ano 2000, Relações Públicas está sobrepondo-se às demais ações da empresa – marketing, recursos humanos e outras –, envolvendo a empresa como um todo.”[7]

Tratam-se de novos paradigmas a serem considerados quando se admite que a comunicação, uma atividade dinâmica e em contínua evolução, só se estagna, com toda uma seqüência de efeitos negativos, se os que com ela militam se acomodarem e ficarem parados no tempo!

Tudo isso são aspectos do que nos propusemos com este trabalho. Mostrar as interfaces entre as Relações Públicas e a comunicação organizacional no Brasil.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] A dissertação de mestrado, a tese de doutorado e a de livre-docência foram publicadas por editoras comerciais, em 1986, 1992 e 1997 com os títulos, respectivamente, de "Planejamento de Relações Públicas na Comunicação Integrada", "Universidade e Comunicação na Edificação da Sociedade" e "Relações públicas e Modernidade: Novos Paradigmas na Comunicação Organizacional".

[2] THAYER, Lee O.  Comunicação: fundamentos e sistemas na organização, na administração, nas relações interpessoais. São Paulo: Atlas, 1976;  REDFIELD, Charles E.  Comunicações administrativas4. ed.  Rio de Janeiro: FGV, 1980;  ROGERS, Everett M., AGARWALLA-ROGERS, Rekha.  La comunicacion en las organizacionesMéxico: McGraw-Hill, 1980.

[3] COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL. Revista Aberje, São Paulo, n. 15, p. 14,  segundo trimestre 1995.

[4] TORQUATO DO REGO, F. Gaudêncio. Comunicação empresarial/comunicação institucional: conceitos, estratégias, sistemas, estruturas, planejamento e técnicas.  São Paulo, Summus: 1986;  KUNSCH, Margarida Maria Krohling.  Universidade e comunicação na edificação da sociedade.  São Paulo: Loyola, 1992;  Relações públicas e modernidade: novos paradigmas na comunicação organizacional.  São Paulo, Summus, 1997.

[5] GRUNIG, James E., HUNT, Todd.  Managing public relations.  New York Holt: Rinehart & Winston, 1984. p. 8.

[6] HUNT, Todd e GRUNIG James E.  Public relations techniques.  Orlando, Holty: Rinehart & Winston, 1994. p. 5-7.

[7] IANHEZ, J. Alberto.  Relações Públicas e as organizações no ano 2000.  Mercado Global, n. 96, p. 12-14, quarto trimestre de 1994.

Este trabalho tem por base a tese de livre-docência, "As Relações públicas e suas interfaces com a comunicação organizacional no Brasil" e no livro "Relações públicas e modernidade: novos paradigmas na comunicação organizacional". A autora agradece a contribuição e a participação das bolsistas do CNPq vinculados a ECA-USP: Ely Tsuruye Matsumoto, Lilliana R. Lima Brancallion, Simone D. Gardinali Novacinski e Maria Eugênia A. B. Gouveia, que foram imprescindíveis para o desenvolvimento da pesquisa.

Originalmente publicado em CORRÊA, Tupã Gomes, FREITAS, Sidinéia Gomes (Org.)  Comunicação, marketing, cultura: sentidos da administração do trabalho e do consumo.  São Paulo: ECA/USP; CLC, 1999.  p. 251-266.