RP
ACABOU?
Flávio Valsani
Profissional
de Relações Públicas
Lembram-se daquele senhor, de unhas cuidadosamente manicuradas, cabelos
irrepreensivelmente penteados e mantidos no lugar à custa de quilos de
"Glostora", vestindo sempre ternos cinza?
Lembram-se dele? Sempre atarefado não havia ninguém como ele para
organizar um coquetel, receber uma visita, mandar um cartão de aniversário. Era sempre
ele quem todos procuravam para saber qual a posição correta da bandeira brasileira ou a
ordem de precedência das autoridades. Só ele era capaz de responder qual o tratamento
adequado para um bispo ou como endereçar um ofício.
Pois é, creio que todos nós tivemos a oportunidade de cruzar, pelo menos
uma vez na vida, com este nosso personagem, mesmo que não tenhamos a menor idéia do que
significa essa tal de "Glostora" - aliás, se você sabe o que é isto,
certamente já passou dos quarenta...
Sabe, portanto, que ele era conhecido como o "RP" da companhia e
que acabou por cair mais ou menos por acaso nesta função. Afinal, já tinha tempo de
casa suficiente para ser promovido - mas não possuía nenhuma habilidade específica, ou
título, ou padrinho... Por outro lado, lidava bem com o público, era metódico e
cuidadoso, não ameaçava ninguém, era amigo de todos.
Verdade seja dita, ao receber o encargo, ele procurou se informar.
Associou-se a entidades, solicitou seu registro profissional e procurou desenvolver seu
trabalho com consciência e seriedade, até onde lhe era possível. Foi, de fato, o que
fez, durante vinte anos. Da mesma maneira, sempre da mesma maneira, até se aposentar, com
todas as honras e glórias. E, ao receber sua placa comemorativa, saiu decepcionado com a
festa, um evento que não havia ninguém como ele para organizar.
Pois é, meus amigos, nosso personagem recolheu-se às delícias da vida em
família e agora passeia com os netos, lê jornal e, vez por outra, relembra seus tempos
de organizador de eventos ao preparar as reuniões de condôminos do edifício onde mora.
Esperamos todos que ele seja feliz, por muitos anos, ainda, mas não venham
me dizer que este nosso personagem era profissional de Relações Públicas. Nem ele o
era, nem era Relações Públicas o que ele fazia. Embora, certamente, não só ele como
os que o colocaram nessa função tivessem a mais absoluta certeza de que o fosse.
Estranho, não? E, todavia, não interpretem mal essa minha afirmação um
tanto azeda. Não quero com ela desfazer das pessoas de idade ou de várias das atividades
que mencionei ao longo destas linhas. A postura do nosso personagem nada tem a ver com sua
idade física. Conheço muitos profissionais com mais de 50 anos que são verdadeiros
garotos, no entusiasmo, na busca de novas tecnologias e novos caminhos. Gente, em uma
palavra, que não tem medo do novo.
GERAR MUDANÇAS
E este é o ponto. Dizer que Relações Públicas acabou é o mesmo que dizer
que se esgotou nossa capacidade de gerar mudanças. Porque é isto o que Relações
Públicas faz: gera mudanças. Talvez esta seja a principal explicação para a alegação
de que os profissionais de Relações Públicas venham sendo preteridos por seus pares da
tão abrangente área da comunicação, especialmente jornalistas.
De maneira geral, as pessoas odeiam mudanças. Toda mudança enfrenta uma
resistência inicial, que tem de ser trabalhada e esclarecida. Além disso, para a média
das pessoas, Relações Públicas é assessoria de imprensa ou, pelo menos, assessoria de
imprensa é considerada a parte mais visível da atividade de Relações Públicas. E,
para falar com a imprensa, melhor ser jornalista.
Se esta afirmação é verdadeira ou não, isto não tem a menor importância
porque, em nossa atividade, lidamos o tempo todo com percepções de fatos. Mais que com
os fatos propriamente ditos.
E já que estamos falando de percepções, que bombardeamos o estereótipo do
profissional de Relações Públicas, é justo apresentarmos nossa percepção deste
profissional. Para começo de conversa, ele (ou ela) tem alguns pré-requisitos: fala mais
de uma língua, tem sólida cultura geral e está em permanente busca de novos desafios.
Além disso, tem uma visão abrangente do processo. Está envolvido em
programas de qualidade, proteção ambiental, atividades comunitárias e, o mais
importante, tem consciência de que comunicação não é um fim, mas um meio.
Extremamente poderoso, é verdade, mas meio. Meio de facilitar que os objetivos
estratégicos da entidade para quem ele presta seus serviços sejam atingidos. Meio de
garantir uma postura ética e cidadã dessa entidade, disseminando internamente a
transparência como valor fundamental. Meio de assegurar, pelo trabalho solidário e
produtivo, o entendimento entre a entidade e todos os seus públicos-alvo.
E, em caso de crise, é a pessoa adequada para garantir que a expectativa da
comunidade e dos diversos públicos que buscam esclarecimento seja atendida desde o
primeiro instante e não apenas quando a emergência tiver sido resolvida e todos os
vizinhos, curiosos, palpiteiros e transeuntes tiverem dado já suas entrevistas,
contribuindo para a desinformação geral.
Tudo isto é trabalhar com Relações Públicas. E mais outras tantas
atividades, de patrocínios culturais a informativos, de prêmios científicos a
lançamentos de produtos, de programas de comunicação voltados para empregados àqueles
voltados para a reciclagem de lixo. A partir do momento em que a entidade precisa se
relacionar com alguém, Relações Públicas está lá. E mesmo antes que a entidade
adquira essa consciência, lá está o embrião de Relações Públicas, contido na
clássica frase "precisamos fazer alguma coisa", leia-se, "gerar alguma
mudança".
Não desejo, porém, arvorar-me em dono da verdade. Pode ser que Relações
Públicas tenha acabado e eu tenha estado tão ocupado que nem tenha percebido. Pode ser,
mas ainda acho que o que realmente acabou foi apenas uma forma ultrapassada de encarar o
próprio processo de comunicação, já que vivemos, hoje, o on-line/real-time. Explode
uma bomba em Timor Leste e um escriturário no Recife se horroriza com o fato. A Turquia
sofre um terremoto e o pescador barriga-verde dá graças a Deus por viver num país sem
cataclismos. Da mesma forma, as ações de comunicação precisaram ganhar em agilidade,
dinamismo. Precisaram rever não apenas seus processos, mas até seus conceitos.
PROFISSIONALISMO
Comunicação, no geral, e Relações Públicas em particular, deixaram de
ser atividades para amadores. Uma ação inadequada pode reverter em danos catastróficos
para a imagem de instituições que, até ontem, eram consideradas modelos de solidez. A
democracia e a participação da sociedade no gerir seu próprio destino tornaram esta
nossa atividade ainda mais essencial. Principalmente porque, além de lidarmos com
percepções, fundamentamos nossas mensagens no racional, na informação partilhada e em
fatos, não em discursos.
Pode ser, porém, que Relações Públicas tenha acabado. Talvez tenha sido
inadvertidamente substituída por algum outro conceito pretensamente mais ao gosto da
modernidade como "administração de reputações" ou "marketing
social". O que quer que tenha acontecido, o fato é que tenho visto cada vez mais e
mais profissionais jovens e velhos competentes e entusiasmados,
desenvolvendo novos, interessantes e eficazes caminhos para a geração de mudanças.
Se todos eles são profissionais de Relações Públicas, médicos,
engenheiros, publicitários, jornalistas, administradores, isto é uma outra história,
que fica para outra vez.
