Idéias e Tendências 1

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A BOA IMAGEM COMEÇA EM CASA

 

Valentim Lorenzetti

 

A força da imagem de uma empresa ou instituição esta diretamente relacionada com a consistência de seus atos, com a coerência entre o discurso e a ação. Envolve muito mais do que simples divulgação ou propaganda; envolve posturas, consciência social, planejamento estratégico. A empresa ou a instituição não está à margem da cidadania, ela tem de exercer seu papel de cidadã responsável. Vender um bom produto ou um bom serviço hoje já não é mais suficiente para que a empresa tenha imagem positiva na opinião pública. O produto ou o serviço adequado às necessidades de segmento de mercado, planejado dentro de competente estratégia de marketing, é apenas uma das ferramentas que ajudam a construir a boa imagem da empresa.

Está cada vez mais difícil, senão impossível, em termos empresariais a aplicação da célebre máxima de Maquiavel "os fins não justificam os meios". Por um bom produto não se podem até ignorar normas simples de convivência social, como por exemplo o respeito à comunidade e à natureza. Se todos concordamos que vivemos num mundo interdependente, não podemos, aqui no Brasil, ficar apenas achando graça do movimento ecológico da Inglaterra, que publica em livro a relação de lojas que fabricam móveis feitos com madeira de florestas tropicais que o mundo quer preservar. Lojas essas, de nome respeitável, que começam a sentir o boicote do consumidor.

A imagem é um negócio sério, é o ativo mais importante da empresa, e por isso não pode ficar na mão de especialistas que só pensam em mercado. A imagem é construída por uma infinidade de públicos diferenciados em que o mercado é apenas um deles. O profissional de Relações Públicas tem, por formação e vivência, uma visão abrangente desses públicos e das estratégias que podem levar a mudanças de atitudes e de posturas para a formação de uma imagem consistente.

Em momentos de crise econômica, as empresas procuram investir mais em vendas para fazer caixa. E, no campo da imagem, enveredam por casuísmo na área de eventos badalados pela mídia. Eventos que se sustentam enquanto estiverem acesos os holofotes e ocupados os espaços em jornais e revistas. A disseminação de cultura, que é uma das obrigações da empresa, virou marketing cultural. E, como marketing pressupõe que o retorno do investimento passe a ser avaliado por padrões que não medem o valor agregado ao maior ativo da empresa – a imagem .

Construção de imagem é trabalho permanente, coerente e planejado. Exige exercício contínuo do diálogo com todos os públicos, funcionamento incessante de pontes de duas mãos, trânsito livre de informações objetivas. "Quero que minha empresa apareça de forma positiva pelo menos uma vez por semana num grande jornal de São Paulo ou do Rio de Janeiro", dizia-me há tempos um grande empresário paulista. "Muito bem", eu lhe respondi. "Acontece que, enquanto esperava na recepção pelo senhor, que se atrasou meia hora no compromisso agendado, fiquei conversando com a recepcionista e ela não soube informar-me nada a respeito da empresa e dos produtos fabricados. Tive até a impressão de que aqui se fazem negócios escusos, meio secretos. Antes de o senhor aparecer na imprensa, não seria bom dar mais atenção ao seu público mais próximo, seu empregado?"

Não se pode confundir imagem projetada com imagem percebida. Todos queremos projetar uma boa imagem. Contudo, o trabalho sério procura saber como essa projeção é percebida. E, na maioria das vezes, os públicos a percebem de forma diferente. Aí a projeção perde toda a credibilidade, geralmente porque se baseia apenas em palavras que não têm respaldo nas ações e na postura da empresa.

Esse assunto deu margem até à criação da vinheta "não é o que parece" quando a imprensa se refere à fala dos políticos e administradores públicos. Pode também ser aplicada ao discurso de algumas das chamadas lideranças sindicais, empresariais e até religiosas. Com isso, a credibilidade das instituições que representadas por esses faladores vai chegando perto do zero. Eles se sustentam enquanto o refletor está ligado, porém esquecem que as instituições que representam não podem ficar ao sabor do liga-desliga refletor, elas devem ser permanentes.

A falta de transparência é um desastre maior quando a ambigüidade e a opacidade vêm do poder público, fonte geradora de exemplos. O poder público é algo exposto, visível, e, quando seus atos não são transparentes, a visibilidade que dele se tem é algo disforme, indefinido, parecido com esses bonecos de desenho animado que mudam de forma e consistência num abrir e fechar de olhos. É preciso, portanto, discutir a força da imagem numa hora em que a credibilidade de muitas de nossas instituições, inclusive empresariais, está bastante baixa justamente porque têm pretendido projetar uma imagem que a opinião pública percebe inconsistente.

Originalmente publicado na revista Exame, São Paulo, v. 21, n. 19, p. 154, set. 1989.