MARKETING
PARA RELAÇÕES PÚBLICAS
Valentim
Lorenzetti
O profissional de Relações Públicas tem de lutar para ocupar seu espaço
na sociedade. Esta frase encerra uma verdade, mas tem vezo autoritário.
A ocupação de espaço, neste caso, não é uma tomada de poder em que, no
vazio, instalamos nossa tropa de choque e içamos a bandeira simbolizando a conquista.
Os espaços estão todos ocupados. Relações Públicas é inerente ao ser
humano, às instituições, às empresas, aos governos. Todos têm seus públicos e, bem
ou mal, estão com eles se relacionando.
Neste país-continente convivem lado a lado os curiosos em Relações
Públicas e os profissionais de Relações Públicas. O dono de uma loja de sapatos
considera-se um bom "RP" porque agrada seus clientes; o presidente de uma grande
empresa considera-se perfeito "public relations" porque a hora que quiser pega o
telefone e fala direto com o ministro; um médio empresário com certeza dirá para os
seus amigos, com muito orgulho que ultimamente tem feito muito "RP" porque tem
almoçado com jornalistas e artistas.
Como, então ocupar esses espaços, se eles já estão maciçamente ocupados?
Não estão ocupados, não dirá você, postulante a um cargo de Relações
Públicas. Na sua cabeça não estão ocupados, mas não é só a "sua" cabeça
que interessa aqui, é a cabeça daquele que pode abrir um espaço.
O profissional de Relações Públicas normalmente começa seu trabalho para
alguma instituição fazendo uma auditoria de opinião. Você, candidato a uma ocupação
de Relações Públicas, já fez sua auditoria para saber como os seus prováveis
empregadores ou clientes vêem ou sentem Relações Públicas? Pense nisso: é muito
importante entender o seu público; ele é quem pode abrir espaço.
A questão, portanto, não é "ocupar espaço", mas, sim, entender
o nosso público. O público "consumidor" de Relações Públicas. Entender que
esse público, por exemplo, quer resultados e está disposto a ceder espaços para quem
lhe apresentar uma proposta na qual ele sinta resultados melhores do que os colhidos até
então. Na medida em que ele perceber que o profissional dá melhor resultado do que o
"curioso" é pelo profissional que ele opta.
Relações Públicas como qualquer profissão, exige iniciação. Não dá
para chegar ao topo da escada sem ter galgado degrau por degrau. É preciso ter coragem e
dedicação para começar pelos primeiros degraus, geralmente obscuros mas profundamente
pedagógicos. Para o recém-formado em uma faculdade o registro profissional, obrigatório
por lei, não o coloca no topo da escada; ajuda a abrir a porta onde estão os primeiros
degraus.
Que produto vendemos nós, profissionais de Relações Públicas? O
publicitário vende campanhas, anúncios; o jornalista vende matérias; o médico vende
consultas para quem se sente doente; o engenheiro vende projetos de obras. E o
profissional de Relações Públicas vende o quê? Já pensou nisso quando você vai
oferecer seus serviços a alguém?
Nós vendemos serviços que ajudam a instituição a melhorar os canais de
relacionamento com seus públicos. Então estou eu, profissional de Relações Públicas,
diante do dono de um posto de gasolina (posto de gasolina, sim; ele não tem seus
públicos e não precisa ganhar mais espaço oferecendo melhores serviços?) e digo para o
espantado dono do estabelecimento: o senhor precisa contratar um profissional de
Relações Públicas para trabalhar melhor a sua imagem e comunicar-se mais com seus
públicos. O dono do posto, não muito habituado a raciocínios abstratos, provavelmente
dirá: "é acho que preciso mesmo, mas por enquanto a gente vai tocando assim mesmo;
mais tarde quem sabe...".
A figura do dono do posto pode ser extrapolada para muitos outros donos e
para muitos executivos de bom nível. Geralmente quem não conhece, tem vergonha de
confessar, e quem conhece Relações Públicas (por ouvir falar) tem dificuldade de
avaliar seus benefícios.
Relações Públicas é um profissional para o mercado. Acontece que há,
ainda, muitos colegas que acham o contrário, que o mercado é para Relações Públicas.
Uma espécie de Marketing às avessas. Portanto, além de fundamental embasamento
teórico, a escola deveria estar mais junto do mercado entendendo as necessidades desse
mercado. Logo, cada região tem peculiaridades de mercado; a parte prática da profissão,
na escola deve ser direcionada para atender a essas peculiaridades. Pelo menos o
recém-formado deixaria a escola falando uma linguagem mais inteligível para seu mercado.
O empresário busca eficiência. O Brasil busca eficiência. Relações
Públicas é uma das armas. Os jovens que estão hoje nas escolas precisam adquirir
espírito empreendedor, têm de lançar-se no mercado de forma arrojada, não como
pedintes de emprego ou apenas denunciando quem exerce ilegalmente a profissão, mas
oferecendo respostas a problemas de relacionamento, levando propostas concretas para seus
prováveis clientes ou empregadores. Conhecer o mercado é oferecer o que o mercado
precisa este é o Marketing que Relações Públicas precisa desenvolver para abrir
seus próprios espaços.
Do contrário, continuaremos poucos, quase sem expressão política,
deitados à minguada sombra da regulamentação profissional.
Relações Públicas, como
profissão, precisa aproximar-se mais do mercado. Algumas iniciativas já vêm
sendo adotadas:
Logo, há em andamento o esboço
de um grande programa de Marketing para Relações Públicas. É preciso,
contudo, um planejamento que possa unificar a linguagem, estabelecer a mensagem
preferencial: “Relações Públicas para o Mercado”, isto é, temos de falar
“para fora”, para o consumidor de Relações Públicas, não para nós
mesmos. Esta mensagem seria vivenciada de forma diferente em cada região do país,
atendendo as peculiaridades regionais.
A ABERP, na época em que ocupávamos
o cargo de presidente, fez uma proposta ao Ministério da Educação e Cultura
(proposta esta hoje sepultada no próprio Ministério) em que a profissão de
Relações Públicas poderia ganhar uma grande força no mercado elevando, no
contexto, o status de professores e
das próprias Escolas de Comunicação que mantêm cursos regulares de Relações
Públicas.
Nossa idéia de vender Relações
Públicas para o mercado continua, pois sentimos ainda o divórcio entre o
produto (Relações Públicas) e seu consumidor (o empresariado) abrindo brechas
para o descrédito da profissão.
É preciso somar, os Cursos de
Relações Públicas das Escolas de Comunicação, professores, as agências
experimentais, o CONFERP e os CONRERPs, as ABRPs, os Sindicatos de
Profissionais, a ABERP, num grande programa de Marketing. O mercado é quem nos
paga o salário, só o mercado pode fortalecer economicamente a profissão,
motivar o interesse dos jovens, melhorar a remuneração dos professores.
Estamos propondo o fim da defesa
de interesses pessoais que têm levado o atrito entre entidades, para começarmos
a falar uma linguagem unificada que possa ser entendida pelo mercado. Estamos
propondo o estabelecimento de um canal de relacionamento entre Relações Públicas
e empresariado da iniciativa privada e de empresas estatais.

Originalmente publicado no número 35 do jornal O Público,
órgão informativo da Associação Brasileira de Relações Públicas Seção
Estadual de São Paulo, em agosto/outubro de 1988, página 2 (primeira parte) e
em janeiro/fevereiro de 1989, página 3 (segunda parte).