A FALTA
DE HERESIA EM RELAÇÕES PÚBLICAS
Waldyr
Gutierrez Fortes
Professor
da Universidade Estadual de Londrina
Heresia, de acordo com diversas fontes, é um conjunto de idéias, opiniões,
ou práticas com as quais desvia-se daquele corpo aceito de convicções, costumes e
práticas em um empreendimento organizado.
Embora o termo seja usualmente aplicado em matérias de crença ou moral,
como a religião, é apropriado onde quer que a educação, costumes ou
"práticas-certas" ditarem as reações de uma maioria ou de todos os
profissionais de uma área, como acontece na Ciência. Mais claramente, falar sobre
heresia requer dois componentes lógicos: um corpo aceitável de costumes, crenças e
práticas, endossadas pela maioria dos praticantes de uma área ou profissão, e um
conjunto de propostas desviadas, não tradicionais, ou idéias e práticas não aceitas.
É nosso ponto de vista que as Relações Públicas, tanto no seu pensamento
teórico quanto na sua prática profissional, têm uma grande subjugação das primeiras
condições, tidas como lógicas, e uma carência da segunda. Há um volume insuficiente
de heresia no pensamento de Relações Públicas, um número insuficiente de práticas
alternativas, pensamentos e crenças.
A proposta é sugerir algumas idéias potencialmente heréticas e, ao mesmo
tempo, desvios heurísticos da prática acadêmica e profissional corrente de Relações
Públicas. É basicamente uma provocação para que outros também venham a apresentar
outras idéias heréticas, para que fique assegurada a sobrevivência da profissão de
Relações Públicas.
Ao examinar o lado acadêmico de Relações Públicas, pode ser observado que
muito pouco, em termos de novas idéias, tem surgido. A repetição constante dos mesmos
conceitos provoca um desgaste natural desta teoria, pois a repetição nem sempre
transmite o conteúdo completo e, como nada é adicionado, o desgaste é muito grande.
Não que esta teoria não seja boa. Ela é a melhor possível. Mas não tem avançado
tanto quanto permite os caminhos abertos pelos seus autores.
Colocá-la em cheque poderia ser uma opção, desde que lúcida, para
testá-la em novas aplicações, novas maneiras de pensar, ou mesmo uma leitura mais
moderna desses pressupostos, ainda não totalmente esgotados. Entretanto, o que se observa
é uma crítica contundente por parte daqueles hábeis leitores das "orelhas" de
livros, que não leram, não entenderam, mas partem para a crítica, como se fossem
grandes pesquisadores. Além disso, não apresentam nenhuma contribuição teórica para
modificar ou mesmo refutar o que é tido até como senso comum.
Falar-se em público, comunicação dirigida, pesquisa de opinião,
comunicado de imprensa e outras expressões corriqueiras no meio acadêmico, faz com que
os "grandes" profissionais ou apresentem um ar de espanto ou de total desprezo,
pois para eles professor não é um profissional de Relações Públicas em atividades
acadêmicas, aluno é um alienígena, e a escola é alguma coisa para se ficar distante.
Não se pode dizer, também, que o que se produz nas escolas é a mais pura
ciência de Relações Públicas. Infelizmente, muitos cursos de Relações Públicas
ainda são "tocados" por recém-formados ou por professores improvisados de
outras áreas, que apenas procuram desempenhar um papel de reprodutores salivares daquilo
que um dia tiveram uma vaga referência. Mas, existem exceções, e elas apresentam um
número significativo.
A baixa remuneração, a falta total de condições plenas de ensino e
pesquisa, o despreparo dos alunos ingressantes nos cursos superiores, faz com que a
situação tenda a agravar-se. Chegou-se ao absurdo das entidades mantenedoras preferirem
graduados, em detrimento dos pós-graduados, para gerar uma "economia" para os
seus cofres. E o nível de ensino, como fica? Resposta: professores fazem de conta que
estão ensinando e os alunos fazem de conta que estão aprendendo algo, ou até alguma
coisa realmente útil.
Esta situação, felizmente, começa a mudar, não por uma "tomada de
consciência" dos interessados, mas por forças externas, isto é, em decorrência
das exigências do Ministério da Educação, pela realização da avaliação dos cursos,
professores e alunos.
Aqueles realmente preocupados com a situação ficam praticamente sozinhos
com os seus temores, pois os profissionais já colocados no mercado de trabalho não
querem nem lembrar que existem cursos de Relações Públicas, quanto mais contribuir com
a sua experiência ou mesmo com a pressão de sua importância, quando poderiam propor
convênios, ajudas financeiras, ou mesmo, um tipo de fiscalização para que as escolas
pudessem oferecer aquele mínimo necessário ao futuro profissional que estará
concorrendo no mercado. Aqui, também, há exceções, mas são poucas.
Isto tudo poderia levar para uma outra heresia. Teriam esses profissionais
que estão atuando no mercado de trabalho contribuições reais a oferecer às escolas?
Pelo que se tem visto, a resposta é: não.
Por recusarem compreender a teoria proposta, as pesquisas desenvolvidas
(principalmente pelos programas de pós-graduação), por não saberem das reais
potencialidades surgidas nos cursos de graduação, esses profissionais permanecem
repetindo eternamente as mesmas "técnicas", as mesmas rotinas e as mesmas
performances, que um dia deram certo. Ter uma experiência repetida vinte vezes, não é a
mesma coisa que ter vinte anos de experiência.
Os profissionais no mercado de trabalho desenvolvem determinadas alquimias
entendidas somente por eles próprios. Exceções existem, felizmente, mas são poucas.
Apesar disto, esses praticantes de Relações Públicas acabam sendo considerados os
maiores. E os menores? A heresia está em que, qualquer que seja a experiência, ela deve
ser compartilhada e estar aberta às críticas, para que tanto os profissionais como os
estudantes de Relações Públicas, possam tirar delas novos caminhos, novas posturas,
novos padrões éticos, e o melhor lugar para que isto ocorra é, sem dúvida nenhuma, o
mundo acadêmico de Relações Públicas.
Se verificarmos outras profissões, constata-se que os iniciantes estão
ligados aos grandes nomes, são discípulos de determinados especialistas, e têm muito
orgulho disto. Já em Relações Públicas...
Aqueles que se aproximam das escolas de Relações Públicas passam a ser
vistos com desconfiança pelos seus pares. Qual seria a intenção? Preparem-se para o que
está por vir? Quere, descobrir mecanismos para resguardarem-se das reais potencialidades?
As dúvidas são muitas, e o quadro fica mais claro quando se participa de encontros,
seminários, congressos. Aqueles que são convidados a falar e, praticamente, são
sempre os mesmos, pois não se sabe o que está sendo realmente produzido e muitos
profissionais simplesmente se escondem fazem relatos parciais, contando o milagre
mas jamais o "santo" ou a "prece".
O que ouvimos é o quanto foi gasto para a distribuição de agrados e de
brindes, na veiculação de anúncios na televisão, ou o quanto foi conseguido na
imprensa em termos de informação gratuita. E o público? O público que se dane! E a
responsabilidade social da empresa? Nem sei o que é isto! E o assessoramento à alta
direção, a pesquisa? Ah! Isto é conversa de professor, de teórico, a realidade
profissional é outra. E qual é a realidade profissional, então? Bem, isto é outra
conversa, que fica para outro dia. Até logo. Venham me visitar, OK?
Então, o que fazer? Cabe aos profissionais de Relações Públicas tentar
outras idéias, colocar no papel as suas experiências, sistematizá-las objetivamente,
com método, para que os leitores tenham condições de perceber o quadro como um todo. O
caminho intuitivo poderia ser uma grande contribuição desses profissionais, quando
tentariam teorizar em torno daquilo que tem como a prática profissional de Relações
Públicas. O grande perigo aqui é se o que está sendo feito é realmente consistente e
importante.
Esses mesmos profissionais devem procurar as escolas, ficar à disposição
dos professores, cobrar uma participação mais efetiva e, eventualmente, conseguir de
suas empresas uma participação financeira de apoio às iniciativas das escolas. Não é
necessária uma grande contribuição, mais o somatório de pequenas quantias poderia dar
bons resultados. Que tal se, ao invés da produção de caros brindes ditos culturais, o
famigerado "marketing cultura", esse mesmo dinheiro fosse encaminhado para uma
escola para equipar um laboratório de Relações Públicas? Parecer heresia? Então as
coisas estão realmente precisando ser mudadas.
As escolas, seus alunos e professores, devem estar conscientes daquilo que
realmente desejam. Para isto, é importante que conheçam os profissionais, debatam com
eles, procurem conhecer novas obras e não somente aquelas indicadas pelos professores,
decidir ser efetivamente um profissional de Relações Públicas e procurar todos os meios
para que isto ocorra.
Um recado tanto para os profissionais como para estudantes e professores da
área: qual foi a última vez que a sua entidade associativa, a ABRP, foi procurada? Está
registrado no Conrerp? E as anuidades, estão em dia? Isto é uma outra heresia? Tomara
que não.
Para finalizar, o que realmente importa é que todos nós, profissionais,
professores, alunos de Relações Públicas, dediquemos um tempo para pensarmos na
profundidade e na abrangência das Relações Públicas, preparando esta atividade para os
novos tempos, quando a participação mais efetiva e consistente nas organizações será
uma exigência.
Se não estivermos preparados para isto, outras profissões ou profissionais
irão ocupar o nosso lugar, pois terão muito mais para oferecer do que a simples rotina.
A nova administração que se desenvolve está preocupada com o ambiente no qual as
empresas atuam, e quem, melhor do que nós, poderia interpretar este ambiente? Ou conhecer
os públicos de interesse da organização seria mais uma heresia?

Adaptação de artigo originalmente publicado no número 34 do jornal O Público,
órgão informativo da Associação Brasileira de Relações Públicas Seção
Estadual de São Paulo,
em junho/julho de 1988, página 3.