ASSESSORIA DE IMPRENSA: O
COMPROMISSO DE PRESTAR CONTAS À SOCIEDADE
João Evangelista Teixeira
Profissional
de Relações Públicas
Quero
tentar responder, aqui, a quatro perguntas: Por que, o que é, como e até onde
prestar contas à sociedade por meio dos veículos de comunicação?
Prestar
contas... Por quê? Por que importante?
Primeiro,
porque é uma obrigação da empresa. Segundo, porque é bom para a empresa.
Obrigação
porque a empresa não é algo isolado, mas um dos componentes da estrutura
social; obrigação porque a ação da empresa tem seus efeitos sobre a
comunidade; obrigação porque, afinal de contas, a sociedade é a principal
responsável pelo alcance do principal objetivo de qualquer empresa, ou seja, o
lucro.
Bom
para a empresa porque o "prestar contas" pode ser um dos caminhos a
ser por ela trilhado na promoção de sua imagem ou conceito positivo e, mesmo
até, na produção de seus produtos. E nisto não há crime algum. O crime
passaria a existir no momento em que a empresa, para se promover e para promover
seus produtos e serviços, se utilizasse da pressão sobre a informação e
tentasse controlá-la por meio de seu poder econômico.
E
o que significa, no nosso caso, para uma empresa, "prestar contas à
sociedade"? Seria simplesmente, por se tratar de uma sociedade anônima, a
obediência à obrigatoriedade de se publicarem atas e balanços? Certo que
não.
Muito
mais do que isto, trata-se de explicar à sociedade o que ela (empresa) é, o
que faz e em que acredita; trata-se de explicar à sociedade o que é seu
produto e a que se destina; trata-se de dizer à sociedade quais são suas
contribuições para a evolução tecnológica; trata-se de dizer como estão
seus negócios: se eles estão sendo um peso ou um alívio para a comunidade;
trata-se de tornar conhecida sua posição a respeito dos assuntos importantes
que envolvem a comunidade; trata-se de mostrar qual é a importância do papel
de seus lucros ou prejuízos na comunidade; trata-se de tranqüilizar a
comunidade quanto ao fato de não ser ela (empresa) uma agressão e, sim, uma
proposta de progresso.
É
com esta consciência que o profissional de comunicações deve compor o quadro
da Assessoria de Imprensa dentro de uma empresa. E aqui vão alguns requisitos
que, a meu ver, devem ser estabelecidos nesta função de prestar contas:
-
É
necessário que as empresas se desfaçam dos estereótipos com que são
vistos os profissionais da imprensa. Sensacionalistas? Corruptos?
Distorcedores dos fatos? Mentirosos? Desonestos? Tais características não
são um apanágio dos jornalistas, mas possibilidades da natureza humana,
enquanto por si mesma contingente; assim como as virtudes que se opõem são
outras possibilidades que, igualmente, dizem respeito a qualquer ser humano,
também por sua própria natureza contingente, em busca da perfeição.
-
Que
a empresa reconheça que ela é melhor fonte de informação sobre si mesma,
mesmo quando se trate de informações de caráter negativo e que,
necessariamente, virão a público.
-
Que
todos os setores da empresa compreendam a importância da informação (do
"prestar contas") e que seu fluxo poderá se interromper na medida
em que algum setor se negar a dele participar.
Aos
profissionais da comunicação compete manter o fluxo da informação da empresa
da informação da empresa com seus públicos. Embora a função editorial seja
própria do jornalista e a ação formal e planejada de divulgação e defesa da
boa imagem da empresa seja própria do profissional de Relações Públicas, a
empresa não pode ficar tolhida em aspectos formais e legais, porque tanto a
promoção de sua boa imagem quanto a manutenção do fluxo de informações é
uma tarefa maior que é de responsabilidade de todos os seus funcionários.
Tratando-se
do fluxo de informações, a Assessoria de Imprensa não possuirá
necessariamente a informação. Esta pode ser encontrada com maior segurança em
cada uma das áreas responsáveis pelo assunto a ser divulgado e delas
dependerá também a qualidade e o pronto aproveitamento da informação.
É
um engano pensar que o setor de imprensa ou que o jornalista é a pessoa mais
bem informada do mundo em todos os sentidos. Enquanto possuem um número maior
de informação sobre um número maio de assuntos, podem até sê-lo.
Quando
se trata, porém, da informação específica sobre um determinado assunto, cada
área é logicamente a mais bem informada.
A
matéria-prima, portanto, do que se constitui na notícia propriamente dita,
pertence aos diversos setores da companhia, que tem por tarefa, fornecê-la à
Assessoria de Imprensa para ser trabalhada de forma jornalística e divulgá-la.
-
Alargar
o campo de atuação e ir bem além , muito além do release. É
simplesmente absurdo o fato de algumas empresas divulgarem determinada
informação sob a forma de release e, depois, ao serem indagadas por algum
jornalista para o fornecimento de maiores detalhes, responderem que nada
mais tem a falar.
Além
do mais, preocupo-me muito com o release que simplesmente é publicado naquelas
colunas especialmente criadas para ele. Pergunto-me: Quem o lê? E, às vezes,
fico com a impressão de que somente eu e os concorrentes da empresa em que
trabalho o lemos. O concorrente, porque precisa acompanhar o que minha empresa
faz; eu, porque preciso recortar e mostrar serviço a meu patrão. Não tenho
nenhum levantamento que confirme ou desminta esta impressão. São apenas
conjecturas, porém, válidas.
-
Jamais
recorrer ao poder da publicidade para pressionar o fluxo da informação.
Considero como míope a visão que leva a concluir que o veículo em que a
empresa anuncia deva, necessariamente, publicar notícias da mesma. E de um
grau de miopia muito mais acentuado, em termos publicitários, a decisão de
se eliminar da própria mídia, o veículo que se recusou a badalar a
empresa ou que sobre ela publicou alguma notícia que lhe desagradasse.
Entendo
que a veiculação de um anúncio deva ser fruto da análise de todas as
variáveis mercadológicas e que deva ter como resultado o aumento nas vendas do
produto.
É
preciso que nos lembremos de que, ao tirá-lo de um determinado veículo por
mera vingança, não é apenas do veículo que estaremos nos vingando mas
também da nossa própria miopia, pois estaremos destruindo todo o planejamento
realizado e colocando em risco o retorno da verba investida na campanha.
Esta
atitude é, muitas vezes, fruto ou de negociatas ou de decisões tomadas por
base em amizades que nada tem a ver com a política mercadológica de uma
empresa séria.
Estar
presente nos veículos de comunicação como notícia e administrar os conflitos
daí decorrentes é muito mais uma tarefa de Relações Públicas, dentro dos
princípios de ética que regem o exercício desta profissão.
-
Utilizar-se
de forma correta de outros instrumentos que estão à disposição da
empresa. Entre eles, escolho a entrevista para me delongar um pouco mais,
dando aqui aquelas qualidades que, acho, devem estar presentes num
entrevistado:
-
Ter
pleno conhecimento do assunto de que vai falar.
-
Não
ficar na defensiva, ou seja, não mostrar insegurança.
-
Não
ser agressivo. A agressividade só servirá para gerar indisposição
por parte daquele que será o responsável pela redação da matéria.
-
Ironias
e brincadeiras devem ser evitadas. Um texto escrito dificilmente
retratará a tonalidade da voz que, quase sempre, é o principal
instrumento da ironia e da brincadeira.
-
Falar
sempre de forma clara e pausada, sobretudo quando o jornalista não
dispuser de um gravador. É preciso que nos lembremos de que o
jornalista é contador de casos e de que "quem conta um conto
aumenta um ponto". Observe-se que, se a entrevista for por
telefone, é preciso que se fale ainda mais devagar e que se repitam os
pontos principais e em particular aqueles em que a possibilidade de
mal-entendidos for maior.
-
Não
se perturbar quando uma pergunta não puder ser respondida. Para tanto,
temos três diferentes maneiras de responder a uma pergunta:
-
Fornecer
a informação solicitada.
-
Dizer
que não tem a informação e que vai providenciá-la. Providenciar.
-
Afirmar
que não pode fornecê-la e dar as razões por que não pode.
-
Preparar-se
bem para cada entrevista.
-
Ter
a consciência de que, ao falar com um jornalista, não é em seu nome que
está falando, mas em nome da empresa em que trabalha.
-
Tentar
sempre colocar a empresa dentro de um contexto maior e não limitar-se a
falar exclusivamente dela e de seus produtos. É muito comum esta atitude um
tanto "narcisista" que leva os empresários a julgarem que sua
empresa é a mais bela e perfeita coisa que existe neste mundo e que ela,
por si mesma, é uma notícia. Um engano que pode trazer decepções:
"Falei tanto e foi publicado tão pouco".
-
Pensar
bem em cada coisa que vai dizer. As tradicionais reclamações – "O
jornalista distorceu", "Eu não falei nada disto" – são
muito mais o resultado de afirmações impensadas do que de distorções dos
repórteres. Eles distorcem, é verdade, pelo simples fato de serem
narradores do que ouviram. A razão mais comum é que o que o entrevistado
pensa ter dito não é, muitas vezes, aquilo que realmente ele disse.
Após
abordar esses dois instrumentos (o release e a entrevista) – poderíamos ainda
falar de artigos especiais, de notas oficiais, de eventos para a imprensa etc.
– falta-nos ainda responder à última pergunta: Até onde uma empresa deve
prestar contas a sociedade por meio dos veículos de comunicação? Entendo que
até os limites de sua privacidade. E o que entendo por privacidade de uma
empresa?
Entendo
aqueles assuntos que ela estabeleceu como confidenciais em virtude de sua
divulgação pode resultar em prejuízos, afetando, portanto, sua própria
razão de ser, que é ter lucros. Se o jornalista me pergunta – é apenas um
exemplo – quantas unidades eu produzo e se a revelação deste dado favorecer
meus concorrentes, julgo-me no direito de, explicando esta razão, abster-me de
fornecê-la e espero do jornalista o mesmo tratamento de respeito que estou lhe
dando.
Estas
são as linhas mestras que vêm norteando meu trabalho com a imprensa nesses 10
anos e, acreditando que, por não me afastar delas, nunca tive nenhum
aborrecimento com qualquer jornalista.

Originalmente publicado no CONRERP Informa, São Paulo, v. 7, n. 2,
mar./abr. 1984, editado pelo CONRERP 2ª Região – São Paulo/Paraná