Empresas e Cases 1

Anterior Voltar Próxima

 

Campanha Por Uma Letra Melhor: Um caso de Ouvidoria Atuando na Melhoria da Qualidade

 

Maria Irene Bachega (1)

Ronise Frediani Motta (2)

Rosa Maria Bicarato Gonçalves (3)

Mara Silvia Lyra Campos (4)

 

UM HOSPITAL ESPECIALIZADO

O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo – HRAC-USP, conhecido carinhosamente por "centrinho", localizado em Bauru/SP, é especializado no tratamento e na reabilitação de portadores de lesões lábio-palatais, deficiências auditiva, visual e de linguagem, dismorfias crânio-faciais, malformações de extremidades, deficiências múltiplas. Reconhecido como Centro de Excelência na América Latina e Referência Mundial pela Organização Mundial de Saúde, há 33 anos o HRAC/USP atende aos portadores de deficiências do país.

Na década de 80, é o primeiro hospital universitário do Estado a ser conveniado com o INAMPS para prestar assistência especial e integral aos portadores de malformações faciais. Em 1985, é o primeiro convênio entre o HRAC/USP e a Funcraf – Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-Faciais, grande parceira do Hospital a partir desse ano.

Os recursos que sustentam o atendimento integral oferecido pelo "centrinho" são provenientes da Universidade de São Paulo (USP) e do SUS (Sistema Único de Saúde), administrados pela Funcraf. O tratamento inclui todas as etapas terapêuticas necessárias para a reabilitação e integração social através de uma equipe multidisciplinar nas áreas de medicina, odontologia, fonoaudiologia, serviço social, enfermagem, psicologia, nutrição, fisioterapia, pedagogia e áreas de apoio.

Para a reabilitação completa o atendimento ao paciente dura, em média, 20 anos. Na área das anomalias craniofaciais, destacam-se no tratamento os implantes ósseo-integrados intra e extra-orais. Na área de deficiência auditiva há programas que visam prevenir, educar, reabilitar e habilitar por meio de adaptações e atividades terapêuticas, com destaque para os programas de implante, entre eles o implante coclear multicanal, prótese de alta tecnologia.

São oferecidos, ainda, alguns serviços especiais como: realização de exames para exclusão de paternidade a pedido do Poder Judiciário, exames de histocompatibilidade para transplantes de órgãos, e, atendimento odontológico a excepcionais, realizado em centro cirúrgico, sob anestesia geral. Os programas sociais se destacam pelo auxílio aos pacientes e acompanhantes na hospedagem, transporte, alimentação e medicação.

Alguns programas do HRAC/USP são considerados especiais por estenderem o atendimento também à comunidade ou por estarem ligados a pesquisas científicas desenvolvidas por universidades estrangeiras. São eles: o Programa de Descentralização, que visa prestar assistência aos portadores de anomalias craniofaciais, nos mesmos moldes e padrão de qualidade alcançados no Hospital em Bauru, para diversas regiões brasileiras; o Projeto Flórida – University of Florida/Gainesville, USA um intercâmbio científico; e o Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação – NIRH, que tem projetos na área educacional e profissionalizante dos pacientes.

São atendidos pacientes de todas as regiões do país e de alguns países vizinhos. A eficiência no tratamento reflete nos números de pacientes matriculados. Ao todo são cerca de 50 mil pacientes matriculados, mais de 200 procedimentos de implantes cocleares e mais de 6000 adaptações de aparelhos de amplificação sonora individual (AASI). O HRAC desenvolve, também com prioridade, atividades ligadas às áreas de ensino e pesquisa. O objetivo é difundir e aprimorar técnicas de diagnósticos, prevenção e atendimento formando profissionais especializados no processo de reabilitação.

A OUVIDORIA NA BUSCA DA MELHORIA NA QUALIDADE

Em setembro de 1999, ocorreu a implantação do Serviço de Ouvidoria no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais HRAC/USP.

A Ouvidoria funcionou como uma alavancagem na melhoria da qualidade do Hospital, embasando no Código de Ética definido pela Associação Brasileira dos Ouvidores (ABO), cuja função do Ouvidor é de atuar na melhoria da qualidade do serviço prestado estabelecendo uma parceria interna em prol da qualidade, em busca da eficiência e da austeridade administrativa; podendo agir com propostas de modificações nos procedimentos para a melhoria de qualidade.

A primeira atuação da Ouvidoria foi identificar, buscar e analisar os pontos de conflitos, para a posterior, desenvolver ações específicas atingindo a meta com resultados satisfatórios. No diagnóstico foram identificadas situações de difícil resolução, uma vez que não são passíveis de mudanças de protocolos e sim, de comportamentos de pessoas.

Este resultado reafirmou o compromisso por parte da equipe de Ouvidoria na ação na busca de soluções e mudanças no comportamento dos profissionais do HRAC/USP, pois caso contrário, o resultado implicaria em prejuízo ao usuário.

O hospital adota procedimentos para a matrícula dos seus pacientes: primeiro o paciente deve ser elegível aos programas oferecidos pela instituição e depois é realizada a abertura de um prontuário. O prontuário é o documento onde estão anotadas a identificação do paciente, informações cirúrgicas, as condutas terapêuticas, as consultas inter-setores, solicitação de internação, os agendamentos, o controle de freqüência, as orientações sobre o tratamento do paciente, e o atendimento das áreas que compõem a equipe multidisciplinar do hospital (medicina, odontologia, fonoaudiologia, enfermagem, nutrição, serviço social, psicologia, fisioterapia e áreas de apoio).

Portanto, este material serve de consulta por parte da equipe de profissionais do Hospital. O sistema utilizado pela instituição é o prontuário único, ou seja, mantém arquivado e conservado todos os documentos do paciente, em uma única pasta, desde o primeiro atendimento, até mesmo depois da alta, com o propósito de realizar pesquisas, após autorização da Comissão de Ética em Pesquisa em Seres Humanos.

A Ouvidoria realiza a abertura dos seus procedimentos e necessita deste prontuário para a análise dos casos, antes do encaminhamento aos respectivos responsáveis. Ao analisar estes prontuários, a Ouvidoria identificou um agravante: os profissionais avaliam os prontuários, muitas vezes, por "associação", pois as letras são ilegíveis.

A questão principal era entender como poderia haver um trabalho, conhecido como "multi ou interdisciplinar", se o único documento que o identifica neste tipo de atuação em equipe, é falho e merecedor de uma mudança urgente?

De acordo com o Artigo 72 do Código de Defesa do Consumidor, o prestador de serviços, tal como o médico ou profissional de saúde, não pode "impedir ou dificultar" o acesso do consumidor às informações que sobre ele constem em cadastros, bancos de dados, fichas e registros.

Já o Código de Ética Médica, em vigor desde 1988, em seu artigo 39, diz que: "É vedado ao médico receitar ou atestar de forma secreta ou ilegível, assim como assinar em branco, folhas de receituário, laudos, atestados ou quaisquer outros documentos médicos, entre outros, o direito a um prontuário, ficha ou registro médico, acesso a todas as informações que dizem respeito à nossa saúde, inclusive numa linguagem que possamos entender e compreender, além de receita em letra legível. A condenação varia de acordo com os danos causados."

CAMPANHA: POR UMA LETRA MELHOR

Conforme informações, a letra ilegível que "popularmente" ficou conhecida como a letra de médico, é uma tradição antiga. Esta característica marcante advinha da relação de poder, no caso, do médico, em relação ao paciente. Esta tradição foi tão enraizada por estes profissionais que, mesmo aqueles que escrevem com letra legível, adotaram este "modelo" na escrita.

Estudos realizados na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por uma estudante de medicina, revelam que são várias as dificuldades encontradas por pacientes em decifrar as recomendações médicas, sendo que um quarto dos acompanhantes de crianças sai da sala sem entender o que deve ser feito. Dos 100 entrevistados, 90% não sabiam nem mesmo o nome do médico, 24% não sabiam dizer o que havia sido prescrito. Segundo a responsável pela pesquisa, este comportamento significa pressa associada à falta de relação entre médico e paciente (O Estado de S. Paulo, p. A8-96, nov. 2000).

No "centrinho" ocorre que, além de prescrever receitas, toda a equipe de profissionais realiza a análise do prontuário, ou melhor, necessita decifrar a letra do outro profissional para prosseguir no atendimento. Não somente o médico, como também, os outros profissionais de saúde, adotaram a conduta da letra ilegível, resultando um círculo vicioso, em que o maior prejudicado é o paciente/cliente.

Entre tantos motivos, a Ouvidoria realizou uma ação de caráter preventivo com o envolvimento do público interno e externo do Hospital, inclusive da comunidade bauruense. Em setembro de 2000, foi sugerido a "Campanha Por Uma Letra Melhor" com o objetivo de mobilizar e sensibilizar a equipe de profissionais do HRAC/USP, para a melhoria da letra nas anotações do prontuário e, conseqüentemente, tornar a interpretação do diagnóstico e conduta terapêutica, mais precisa.

Além disto, a idéia da Campanha resultaria em outros benefícios como o de estimular a leitura do prontuário; agilizar a análise; despertar o interesse dos profissionais em ler as anotações das outras áreas; atender a lei que estabelece a clareza nas informações para o paciente, inclusive o prontuário com letra legível e criar uma relação de cumplicidade entre os profissionais. As etapas da campanha consistiram em quatro fases: a confecção de cartazes, o lançamento, um seminário e a extensão da campanha à comunidade.

ESTRATÉGIAS E EXECUÇÃO

Para conseguir os resultados previstos nesta Campanha era necessário buscar parceiros da própria Instituição. A primeira ação foi convidar as comissões de ética médica, de ética de enfermagem, de qualidade e produtividade, diretoria clínica e conselho clínico para aprovarem a idéia e participarem ativamente da ação, o que causou um resultado positivo, pois os mesmos, engajaram na Campanha.

A estratégia inicial desta Campanha foi trabalhar o autojulgamento dos profissionais em relação à forma como escrevem. Foram confeccionados cartazes com anotações fiéis do prontuário (cópia idêntica). O texto do cartaz trazia a seguinte mensagem:

"Você consegue ler estas anotações? Melhore a sua Letra. Uma má interpretação pode trazer prejuízos ao tratamento!".

Os cartazes foram afixados em locais estratégicos, de grande circulação dos profissionais.

A segunda parte da Campanha foi o convite aos profissionais da instituição que realizam as anotações no prontuário, inclusive, a equipe do agendamento, para o Coquetel de Lançamento da Campanha "Por Uma Letra Melhor".

No lançamento, a Ouvidora apresentou a Campanha, com total apoio do Superintendente do Hospital. Também foi preparada, para a data, uma exposição com cartazes esclarecendo os principais objetivos desta ação.

Com o objetivo de informar a todos os profissionais, sem exceção, a exposição passou a ser circulante. Assim, foi possível que todas as Unidades e setores do Hospital entendessem o real objetivo da Ouvidoria. Em todos os momentos as tentativas visaram evitar a confusão de que a Campanha tinha um caráter de prevenção e não de punição.

A terceira etapa foi a que teve maiores resultados. Com a grande repercussão na mídia bauruense e da região, a Ouvidoria resolve, como na proposta inicial, convidar um palestrante para falar sobre os direitos do paciente. Neste momento tornava-se necessário convidar, para a realização da palestra, um profissional que tivesse muita credibilidade, para sensibilizar cada envolvido sobre a necessidade de mudança.

Assim, o convite foi feito ao Dr. Edson Luiz Vismona, Secretário da Justiça e da defesa da Cidadania do Estado de São Paulo, e presidente da Associação Brasileira de Ouvidores (ABO), ao Dr. Antonio Lourenço Pancieri, Ouvidor da Secretaria da Justiça e da defesa da Cidadania do Estado de São Paulo, e ao Dr. Ricado Morishita Wada, diretor de Programas Especiais da Fundação Procon, que aceitaram prontamente.

Foi preparado um dia para a realização do seminário "A Instituição Pública com Qualidade". No período da manhã foram convidadas as autoridades locais para assistirem a uma mesa redonda, composta pelos palestrantes, pela Ouvidora e pelo Superintendente do HRAC/USP.

No período da tarde a palestra foi destinada aos profissionais do Hospital, que tiveram a oportunidade de receber informações sobre Ouvidoria, sobre a lei de Defesa do Usuário do Serviço Público e sobre qualidade no serviço público. O seminário resultou em um sucesso fantástico.

RESULTADOS

A Ouvidoria com a realização da Campanha "Por Uma Letra Melhor" agiu na prevenção de ocorrências e na melhoria da qualidade com resultados satisfatórios.

A Campanha trouxe uma grande resistência, principalmente por parte dos médicos que já estão acostumados a receber este tipo de crítica, um reflexo do corporativismo desta classe. Porém esta resistência era um reflexo altamente positivo, já que todos estavam atentos à Campanha.

Na data do lançamento, poucos médicos compareceram. Neste mesmo dia a TV Modelo, emissora da TV Globo, realizou uma entrevista junto aos profissionais do "centrinho", apresentando os motivos da realização da campanha, inclusive com depoimentos dos próprios profissionais e de outros que têm dificuldades em interpretar as anotações, provando assim, a cumplicidade que existe entre os próprios profissionais. A reportagem foi ao ar no horário nobre da emissora e foi apresentada ao vivo no dia do lançamento. Muitos dos profissionais que não compareceram ao lançamento puderam assistir a iniciativa pela TV.

A repercussão da campanha surtiu efeito em São Paulo, a Ouvidora concedeu matéria à rádio USP e à rádio Jovem Pan, Bandeirantes além dos jornais, TV e rádio local. O jornal informativo do Cremesp – Conselho Regional de Medicina do Estado São Paulo, publicou matéria, mostrando a preocupação do hospital em prevenir ocorrências.

A Ouvidoria, ainda, prestou orientação e atendimento a várias entidades de Bauru e região, sobre a elaboração da Campanha.

Os resultados foram incalculáveis no nível de melhoria da letra, porém a Ouvidoria do HRAC/USP teve o orgulho do dever cumprido, pois teve a certeza que conseguiu despertar a responsabilidade dos profissionais no tratamento de cada um destes pacientes.

Trabalho realizado pela equipe de Ouvidoria do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo – Campus de Bauru.

(1) Ouvidora do HRAC/USP, doutora em Pediatria pela Faculdade de Medicina de Botucatu – Unesp-Botucatu, SP.

(2) Assistente de Ouvidoria do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais – HRAC/USP, Relações Públicas e especialista em Planejamento e Marketing.

(3) Assistente de Ouvidoria do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais – HRAC/USP, Assistente Social e especialista em serviço Social na área da Saúde e Reabilitação

(4) Técnico Administrativo da Ouvidoria do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais – HRAC/USP.

Artigo gentilmente enviado pelos autores especialmente para a publicação neste site.