SABER OUVIR, O SEGREDO DA COMUNICAÇÃO
Vera Giangrande
Nós, latinos, somos ótimos para falar, falar, falar e
falar. É preciso contrariar um pouco a latinidade e passar a ouvir, ouvir,
ouvir e ouvir. Aí, sim, saberemos atender. Porque o grande segredo do
atendimento é este: ouvir.
Lembro-me aqui de Jorge Simeira Jacob, idealizador do Grupo
Fenícia, um homem que reputo dos melhores, senão o melhor empresário que já
tive a honra de conhecer e de servir. Já em 1981, quando ainda não se falava
em Código de Defesa do Consumidor, ele, numa palestra em público, colocava no
alto da pirâmide o seguinte: cl, cl, cl, cl. Era o cl de cliente.
Refiro-me a isto porque quero abordar a inversão da pirâmide, que, destacada a
partir dos anos 90, Simeira começou a praticar uma década antes. Minhas
considerações giram em torno, principalmente, de organizações que lidam
diretamente com o consumidor, como uma loja de eletrodomésticos, um banco, um
supermercado.
Até há pouco tempo, se colocavam na pirâmide da estrutura
de organizações desse tipo, do topo para a base, o presidente, os diretores,
os gerentes, os subgerentes, os chefes, os trabalhadores e, por fim, os
consumidores. Hoje estamos invertendo a pirâmide, de tal sorte que os
consumidores fiquem no alto, seguidos dos funcionários que fazem a interface
com os consumidores. Vêm então os que ajudam os funcionários a fazer bem
feita essa interface com os consumidores, mediante um trabalho de primeira. Mais
para baixo vão aparecendo os gerentes e os diretores. Bem na base está o
presidente, cuja missão carregar a casa nas costas e não permanecer sentado em
cima dela.
Por que esta preocupação com o consumidor? Eu costumo dizer
que, se o pessoal da diretoria financeira do Grupo Pão de Açúcar não tiver
uma mentalidade focada no consumidor, não vou atender direito aquela minha
cliente que levou um tombo no supermercado e cujas despesas de hospital preciso
pagar. E pagar hoje, agora, já e não daqui a oito dias, depois de catorze
assinaturas. Por que essa preocupação com o funcionário, que faz interface
com o cliente externo? Por que essa preocupação com o atendimento?
Nos Estados Unidos, onde dizem que as coisas andam melhor,
uma pesquisa feita pela US News and World Reports indicou que, dos clientes
perdidos no varejo, 1% se perde por morte; 3% são perdidos porque mudam de
casa; 5%, porque adotam novos hábitos de vida; 9%, porque acham altos os
preços; 14%, porque se decepcionaram com uma eventual baixa qualidade dos
produtos; 68%, porque estão descontentes com o atendimento pessoal. Esse estudo
mostra claramente a importância do relacionamento.
Ele envolve tanto o consumidor (o cliente externo) como o
funcionário (que para nós é o cliente interno). Já disse alguém que atrair
um cliente pelo marketing tradicional custa cinco vezes mais caro do que
conservar um cliente por meio do marketing de relacionamento. Eu digo que, além
de custar cinco vezes mais barato, o marketing de relacionamento tem uma
vantagem adicional: o cliente fidelizado, que gosta de nós, que se relaciona
bem conosco, invariavelmente acaba trazendo novos clientes, sempre.
Marketing de relacionamento é o que procuro fazer no Pão de
Açúcar. Não se trata senão de outra expressão, travestida de modernidade,
para relações públicas. O objetivo é exatamente este: estabelecer, manter e
aprimorar as relações entre a empresa e o cliente, de sorte que todos tenham
lucro e os negócios perdurem. Ou seja, para que os objetivos de todos sejam
atingidos. Isto se dá pelo cumprimento de promessas feitas entre as partes,
também de forma implícita. Quando se jura amizade a alguém, qual a promessa
implícita? Lealdade. Quando se passa a trabalhar num lugar, qual a promessa
implícita? Eu vou lhe ser fiel e, em contrapartida, quero que me trate com
dignidade. Será que todos nós cumprimos isso?
As pessoas são o recurso-chave numa organização. Todos
são responsáveis por ela. Os diretamente envolvidos com o cliente externo, que
são todos aqueles da grande área de comunicação, relações-públicas,
marqueteiros, pessoal de promoção etc. E todos os indiretamente envolvidos,
aqueles que prestam serviços "ocultos" ao cliente externo. Uma boa
contabilidade está prestando serviço "oculto" ao cliente externo. O
pessoal de logística de um supermercado, quando faz um trabalho inteligente de
separação de produtos e abastece a loja a tempo e a hora, está sendo um
grande fator de satisfação do cliente, embora seja um marqueteiro oculto.
Como corolário, gostaria de destacar aqui esta parte da
abordagem organizacional total que é a busca da qualidade e da satisfação do
cliente.
Para que uma empresa se volte realmente para a qualidade do
atendimento, com vistas à satisfação e à fidelização de seu cliente, ela
precisa se rearranjar um pouquinho. Numa loja organizada, o vendedor acessa um
terminal de computador, coloca nele os meus dados e imediatamente tem a
informação de que meu nome não está na lista negra do Serviço de Proteção
ao Crédito, acerta comigo em quantas vezes quero pagar, calcula automaticamente
o valor dos juros e das prestações, aperta um botão e emite o meu carnê.
Isso tudo não leva mais do que três minutos, quando no balcão de lojas
tradicionais se deve enfrentar filas de até uma hora para abrir um crediário.
Lojas versáteis conseguiram uma agilidade fantástica. Para isso, tiveram que
partir bem do começo, com um novo conceito de treinamento e até mesmo de
recrutamento. E, sobretudo, com o aperfeiçoamento da comunicação
bidirecional.
O que é a comunicação bidirecional? É a comunicação do
olho-no-olho. E como uma empresa de vinte mil funcionários, a exemplo do Pão
de Açúcar, se comunica de maneira bidirecional? Dando a oportunidade de
resposta. Temos, por exemplo, um videojornal para todo o grupo, que é feito uma
vez por mês. Com quinze minutos de duração, é vivo, dinâmico, bonito. De
cada edição é enviada uma cópia para todos os departamentos e todas as
lojas, acompanhada de questionários. A média de respostas é de 11.500 por
mês, muito expressiva. Isto prova que as pessoas estão interessadas, querem
ser ouvidas, também as pessoas de dentro da empresa.
Além disso, temos reuniões. Numa reunião alguém fala de
quinze a vinte minutos e depois abre o debate. Anteontem, de manhã, reuni-me
com os funcionários e à tarde, com 230 clientes da loja de Campo Grande (MS).
Em ambos os casos foi um "bate-bola" o tempo inteiro, muito
enriquecedor. Isto é comunicação bidirecional. Enfim, há que se envolver e
engajar toda a empresa. Para isso é necessário reunir, reunir, reunir; falar,
falar, falar; ouvir, ouvir, ouvir; motivar, motivar, motivar. Permanentemente.
A meu ver, quem quer conseguir a excelência na comunicação
deve, por um lado, ser levemente "pirado", um tanto quanto neurótico.
Neurose em pequena dose é ótimo, é pimenta. Por outro lado, deve estar
motivado. Eu diria que a motivação às vezes substitui com vantagem a neurose.
Capacitação. Lembro-me de meu começo como
ombudsman
do Grupo Pão de Açúcar. Quando eu dizia às meninas das caixas que era
preciso tratar bem a cliente, a primeira pergunta que me faziam era:
"Como?" Como? Elas não sabiam como tratar bem. Parei então para
pensar. De onde vem esta menina, esta moça, esta mulher? Como é que ela foi
criada? Quantas vezes terá ouvido alguém dizer "Como vai, Joaninha? Você
está bem hoje"? Ela nem sabe que isso existe! Então, é preciso capacitar
as pessoas.
Nesse ponto, é necessário que entre nós e aqueles que
trabalham conosco haja entendimento quanto ao conteúdo da linguagem usada. Há
conceitos que transmitimos com uma facilidade fantástica, mas que nem todos
entendem. O Comitê de Qualidade do Grupo Pão de Açúcar vai às lojas para
verificar as condições dos produtos vendidos, principalmente nos setores de
carnes, peixes, legumes, verduras e frutas, e diz que é preciso ter toda a
higiene no corte da carne, no manuseio do frango, porque o consumidor vai se
alimentar disso. "Ah, sim, toda higiene, sim." O que o interlocutor
terá entendido? O que é higiene para ele?
E o que dizer quanto à recompensa? Esta não se resume a
dinheiro. É termos a certeza de que alguém vê o que estamos fazendo. De que
estamos bem posicionados no banco de talentos do departamento de pessoal, onde
se registram nossos méritos para uma futura promoção. De que temos apoio da
gerência e da supervisão. E, sobretudo, de que a empresa está aberta para
ouvir e solucionar nossos problemas internos e externos.
Como é que o cliente mensura a qualidade da empresa? De um
banco, por exemplo. Vou ao Banco do Brasil pedir um empréstimo. A qualidade
técnica do que eu procuro são juros a X por cento, com N facilidades de pagamento etc., tudo o que me diz objetivamente que o serviço é
aquele que eu estava necessitando. E, paralelamente, há a qualidade funcional
inerente a esse empréstimo. Da telefonista, de quem me recebeu na entrada, da
secretária etc. O olhar de quem me atendeu, que pode ter sido frio ou então
acompanhado de um sorriso e de uma saudação cordial.
Na época em que eu era consultora, estava conseguindo um
cliente muito importante para um banco. Eu chegava ao banco e encostava meu
carro junto a um enorme portão. "Sim?", dizia-me um guarda com
fisionomia inquisidora e de poucos amigos. "Identidade!", pedia ele
secamente, como que dando uma ordem, ainda através da grade de ferro.
Anunciava-me então por um bendito walkie-talkie: "Dona fulana, tá
aqui uma tal de dona Vera, que quer falar com fulano". Por fim, o grande
favor: "Tá bom, encoste o carro aí e pode entrar". Resultado? Na
terceira reunião com o presidente, devolvi a conta. E o banco? Treinou todos os
guardas.
Termino falando de uma empresa que, tendo passado por um
tenebroso inverno, quase foi à falência. Em 1989, o Pão de Açúcar tinha 549
lojas e quase 60.000 funcionários; vendia 4.000 dólares por funcionário e 314
dólares por metro quadrado. Em 1995 eram 218 lojas e bem menos funcionários.
Mas, tendo implementado um trabalho de motivação e de valorização do cliente
interno e externo, estava vendendo 10.560 dólares por funcionário e 830
dólares por metro quadrado. Faço questão de mostrar esses dados, porque acho
contraproducente falar-lhes de teorias sem provar que tudo isso tem alguma
validade diante da realidade da empresa.

Originalmente publicado pela ABERJE.