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EMPRESAS MONTAM ESTRATÉGIA DE RELAÇÕES PÚBLICAS PARA FORTALECER IMAGEM

 

Maroni J. Silva

Jornalista

 

Ao mesmo tempo em que desenvolvem esforços a fim de ajustarem-se aos mais avançados padrões de desenvolvimento do mundo, na área produtiva e de meio ambiental, muitas empresas brasileiras de celulose e papel, procuram também fortalecer suas raízes nas comunidades onde atuam. O trabalho envolve ações nas áreas de comunicação, cultura, recreação, social e de saúde. O objetivo é eliminar o estigma arraigado na cultura popular, de que o setor é apenas poluidor, além de melhorar a qualidade de vida dessas comunidades, mostrando, na prática, o lado da indústria que se preocupa também como o progresso econômico do País e com o bem estar da população.

O trabalho exige, muitas vezes, uma verdadeira reciclagem, em termos de gestão empresarial. O leque de variáveis que normalmente influencia no planejamento estratégico e macroeconomia das empresas, teve que incorporar fatores incomuns de áreas do conhecimento como Psicologia Social, Sociologia e Antropologia. Tudo isso forma um todo, às vezes complexo, ancorado numa moderna estratégia de Relações Públicas, atividade que passou a desempenhar um papel de ponta nos projetos de integração das empresas às comunidades onde estão inseridas.

Muitas fábricas de papel e celulose fora do eixo Rio–São Paulo–Belo Horizonte estão localizadas em pequenas cidades, onde o nível de atendimento em termos de serviços e a precariedade dos equipamentos urbanos, sociais, de recreação, saúde e educação são imediatamente postos em xeque, com a chegada de novos habitantes, exigindo ações também imediatas. Telêmaco Borba (PR) a 250 quilômetros de Curitiba, com 70 mil habitantes, onde se localiza a Klabim Fabricadora de Papel e Celulose S.A. (Divisão Paraná), é um exemplo acabado das pequenas comunidades urbanas do interior brasileiro, onde, à primeira vista, o progresso parece um corpo estranho no cotidiano das pessoas.

CONVIVÊNCIA HARMONIOSA

Nem sempre, porém, as autoridades públicas das grandes ou pequenas cidades dispõem de recursos financeiros para ampliar redes de esgoto e de abastecimento de água, construir novas escolas, postos de saúde, melhorar a infra-estrutura de transporte e, ainda, garantir a segurança, como ensinam os manuais de Teoria Geral do Estado. O campo é fértil, portanto, para quem pretende plantar boas ações com o objetivo de equilibrar a relação entre oferta e demanda de serviços, buscando, inclusive, uma convivência harmoniosa com a comunidade.

Há um consenso, hoje, entre os fabricantes de celulose e papel sobre o fato de que quando a questão ambiental é mal resolvida, incomoda a população, afeta a imagem e a credibilidade institucional das empresas. É com base em diagnósticos como esse e tendo presente o quadro de carências da população em geral, que as empresas atuam em várias frentes de trabalho, sem paternalismo e sem esconder que poluem, como diz Mário Pazinato, assessor de comunicação da Klabin. Em geral, complementa Luís Washington Westmann, gerente de recursos humanos e de comunicação da Bahia Sul Celulose, as empresas realizam atividades baseadas na filosofia da "troca positiva".

Quem chega em Telêmaco Borba, de avião, por exemplo, observa, ainda do alto, sinais visíveis das mudanças na cidade, patrocinadas pela Klabin. Um deles é a torre de televisão, com componentes eletrônicos de última geração, doada à comunidade, para facilitar as retransmissões na cidade, agora com aparências de cidade grande. O aeroporto também é obra da Klabin, assim como o quartel do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar e a sede da Guarda-Mirim, uma instituição local que trabalha com menores carentes, abrigando cerca de 250 crianças. A Klabin também construiu num centro médico-odontológico que atende, entre funcionários e dependentes, cerca de um terço da população da cidade. Outra obra de caráter social foi a construção de uma escola para 1o e 2o graus, com nove salas e um anfiteatro, para 400 pessoas, doada à comunidade.

MEIO AMBIENTE

Na área ambiental, especificamente a Klabin foi além de tratar seus efluentes e realizar os cuidados normais, legais e estratégicos para uma grande fabricadora de celulose e papel - um setor globalizado. Investiu US$ 1 milhão num programa de recuperação da bacia do rio Tibagi, que abastece a fábrica e 41 municípios da região, através de um consórcio que envolve também a UEL, o governo do Estado e representantes dos municípios vizinhos. O rio Tibagi corta o Estado do Paraná, numa extensão de 600 quilômetros, passando por regiões distintas, onde recebe esgotos, efluentes industrias e resíduos de agrotóxicos.

O projeto vem sendo executado desde 1989 e visa limpar as águas do rio, em dez anos. Mas os resultados já estão aparecendo, conforme informou o assessor, com a volta da atividade pesqueira. Outra iniciativa da Klabin, foi a implantação em Telêmaco Borba, de um aterro sanitário com 25 mil metros quadrados, em substituição ao antigo depósito de lixo urbano – o Lixão – localizado praticamente na barranca do rio Tibagi. Enfoque semelhante teve a campanha "Plante Calor Humano", desenvolvida pela Ripasa S.A.; este ano, durante a Exposição de Produtos Industriais, em Limeira, interior de São Paulo, onde está localizada sua fábrica de celulose que fornece matéria-prima à todas as demais unidades do grupo.

O objetivo da campanha, conforme explicou Sandra Pegorelli, assessora de Relações Públicas, foi arrecadar agasalhos em troca da doação de mudas de árvores nativas. Foram arrecadadas 20 toneladas de roupas, que foram distribuídas pelos órgãos de assistência social do governo de São Paulo. A campanha foi apenas um item do chamado "Programa de Proteção Ambiental com Ações Institucionais", iniciado na década de 80, que norteia todo o trabalho de integração sócio-ambiental da empresa. De certa forma, conforme relatou a localização da fábrica foi o que mais influenciou na elaboração do plano, cujas ações institucionais foram iniciadas somente depois da execução do programa de proteção ambiental, com o investimento de US$ 35 milhões.

DUAS FRENTES

Embora a fábrica da Ripasa esteja instalada em Limeira, às margens do rio Piracicaba e distante 25 quilômetros do centro urbano, as queixas contra o odor vinham de Americana, que fica a um quilômetro da indústria. A localização geográfica deu margem, inclusive, para que pessoas e autoridades locais criticassem a empresa, segundo Pegorelli, pelo fato de que os impostos eram recolhidos para Limeira, enquanto a comunidade de Americana ficava com os problemas ambientais. Para solucionar a questão, explica a assessora, a empresa agiu em duas frentes. Inicialmente, implementou um programa de proteção ambiental reduzindo em 99% a emissão de gases odoríficos, em Americana. "Não há tecnologia disponível no mundo que nos permita chegar a 100%", afirma Pegorelli.

De acordo com informações da empresa, o número de reclamações da população caiu de 420, em 1985, para zero em 1991, 1992 e 1993. As ações institucionais começaram a ser implementadas na seqüência, sendo que todo o programa, incluindo o de proteção ambiental, gasta, anualmente, 2% do orçamento geral da fábrica.

A primeira atuação foi o "Programa de Portas Abertas", pelo qual 10 mil pessoas visitaram a fábrica, num único dia. Na área esportiva, a Ripasa patrocinou um time de futebol de Americana – o Rio Branco – que ascendeu à primeira divisão de clubes nacionais, e o clube Atlético Monte Líbano, de basquete, também de Americana.

Do ponto de vista cultural, a empresa também desenvolveu várias atividades na cidade. Foram distribuídos 330 mil livros de 64 autores de ficção, aventura, suspense e poesias, na forma de doação às 3500 bibliotecas públicas de todo o país e às escolas das cidades onde a Ripasa tem fábricas e plantio de árvores. Houve também uma exposição de artes plásticas, um espetáculo de dança, patrocínio da orquestra sinfônica e a realização da Trilha Ecológica.

Trata-se de um programa destinado a crianças e jovens, na Fazenda Fortaleza, contribuindo para a formação da consciência ecológica. Os alunos de 5a e 6a séries visitam o local, percorrem 1,5 quilômetro entre floresta plantada e nativa, passando por bosques, a fim de ter contato com a fauna e a flora da região. Essa atividade, inclusive, foi inserida no curriculum escolar de Americana, por iniciativa da Ripasa.

TRABALHO PREVENTIVO

Embora haja convergência nas ações, o ponto de partida de cada empresa que atua nessa linha varia de acordo com o diagnóstico, com magnitude dos problemas ambientais, com a sua própria localização – considerando-se o porte e as características da região em termos de população, grau de urbanização e vocação econômica – e com o "timing" dos resultados desejados.

Há diferenças significativas, por exemplo, no enfoque do trabalho realizado pela Klabin ou por qualquer outro fabricante da Região Sul e de São Paulo, se comparado com a atuação da Jari Celulose S.A., na Amazônia, ou da Cenibra – Celulose Nipo Brasileira, no interior de Minas Gerais.

Da mesma forma, as empresas mais novas, que aproveitaram experiências, inclusive tecnológicas, para evitar, já na instalação da planta, determinados problemas ambientais, atuam, hoje, de forma mais preventiva, reforçando sua imagem perante a comunidade.

É o caso da Bahia Sul, instalada em Mucuri, ao sul da Bahia, há pouco mais de um ano, cuja preocupação, em termos de integração, é resumida em duas frases, por Washington. "Há situações que pretendemos melhorar e outras que desejamos não agravar".

Aproveitando o know-how e a cultura ambientalista fartamente difundida na década de 70, no Brasil, quando as empresas de celulose e papel, em particular, passaram a atuar seguindo o paradigma do desenvolvimento harmonioso, em bases sustentáveis, a Bahia Sul tomou uma série de precauções, antes de iniciar as suas operações.

Seguindo uma política de gestão ambiental pautada pelo equilíbrio e pela responsabilidade, de acordo com os parâmetros delineados pelo GT-7 (Reflorestamento), da ANFPC, para todo o setor de celulose e papel, a Bahia Sul atuou em duas áreas. Além de cuidados técnicos, com a instalação de modernos equipamentos de proteção ambiental e do monitoramento constantes do rio Mocuri, a empresa abriu-se para a comunidade.

Ainda na fase de construção, segundo Washington, a planta foi avaliada e discutida em audiências públicas com as lideranças representativas da comunidade. Portanto, observa, o enfoque do trabalho que a empresa desenvolve hoje, na área de integração, preocupa-se com a criação de estímulos para a formação de recursos humanos, preservação da saúde e convivência com a cultura local, já que muitos funcionários são originários de outras regiões do País.

RESULTADOS POSITIVOS

Uma das primeiras atuações da Bahia Sul foi na área educacional. Por meio de um contrato de prestação de serviços com a rede de ensino Universitário, de São Paulo, a empresa promoveu um programa de reciclagem com 200 professores da região, incluindo várias áreas do conhecimento, além de Pedagogia. Os resultados foram tão positivos, segundo Washington, que o governo do Estado, por intermédio da Secretaria de Educação da Bahia, resolveu seguir o exemplo, fazendo o mesmo em outras escolas. Existem também duas escolas de 1o e 2o graus destinadas a atender principalmente os filhos de funcionários, mas é aberta ao público. A gestão dessas escolas também é feita pelo Universitário.

A Fundação José Silveira, uma instituição privada da região, ficou encarregada pela administração do hospital construído pela Bahia sul, com 25 leitos, além de um centro médico-ambulatorial, destinado a atender os funcionários e seus dependentes. Há também outras ações na área da saúde, como a ajuda prestada a hospitais e postos de atendimento, com vistas a beneficiar a população em geral. Grande parte desse trabalho baseia-se no raciocínio de que empresas modernas, como as do setor de celulose e papel, não podem permanecer passivamente diante de situações tão críticas como a falta de água potável ou de esgoto, por exemplo, como observou Márcio Costa, gerente do Departamento de Controle do Meio Ambiente, da Cenibra, com fábrica no município mineiro de Belo Oriente, com 10 mil habitantes.

O trabalho que a Cenibra vem desenvolvendo, conforme relatou José Geraldo Rivelli Magalhães, gerente de Política e Desenvolvimento Ambiental, inclui a preservação de aves ameaçadas de extinção estímulo à agricultura de subsistência, com preservação do solo, doação de cloro para tratamento de água, intercâmbio com entidades de preservação, remessa de material sobre meio ambiente e realização de palestras nas escolas. Mensalmente, a empresa doa 1500 quilos de hipoclorito de sódio à Companhia de Saneamento do Estado de Minas, além de outros produtos químicos necessários ao tratamento de água em Belo Oriente. Outro serviço prestado à população, segundo informou Márcio Costa, foi a construção de um aterro sanitário modelo, no município de Ipatinga, que recebe de 150 a 200 toneladas/dia de lixo urbano, localizado a 25 quilômetros da fábrica.

FAZENDA MODELO

A Cenibra também realiza, gratuitamente, as análises dos efluentes líquidos gerados no aterro. Ainda em relação ao meio ambiente, a empresa desenvolve uma série de atividades, desde o controle propriamente dito, através de modernos equipamentos e do monitoramento constante das águas do Rio Doce, assim como um ambicioso programa de preservação de aves ameaçadas de extinção. As aves ficarão num Centro de Vivência, instalado numa fazenda modelo, que ocupa parte de uma área de três mil hectares distribuídos entre floresta nativa (mata atlântica protegida), plantio de eucalipto e plantio agropecuário.

O Mutum do Bico Vermelho (Craz Blumenbachii), uma das quatro espécies ameaçadas que a Cenibra quer preservar, foi o primeiro habitante a chegar na Fazenda Macedônia, às margens do Rio Doce, em virtude do convênio com a Sociedade de Pesquisa do Manejo e da Reprodução da Fauna Silvestre. O Macuco (Tinamus Solitarius) será o próximo a chegar. A Jacutinga e o Jaó estarão na fazenda só em 1994.

Por sua própria localização, a Jari Celulose, instalada numa área de 1.682.000 hectares, na Amazônia, tem preocupações ainda mais voltadas à preservação de seus recursos naturais.

Com a ajuda da Embrapa, foram delimitadas seis reservas genéticas, com 600 espécies e 10 mil árvores catalogadas, como informou, no Rio de Janeiro, Fernando Orleans de Bragança, assistente executivo da presidência. A empresa também desenvolve atividades na área de educação e saúde, mas seus maiores problemas são as queimadas e as invasões de terra, como relatou Luiz Cláudio Castro, coordenador de meio ambiente.

Ao contrário de outras empresas do setor, a Jari não enfrenta problemas com as comunidades locais, decorrentes do impacto ambiental, embora realize cuidados também nessa área. O tratamento de resíduos, por exemplo, é feito numa lagoa de estabilização com 200 hectares, em convênio com o Ibama.

Uma das principais atividades desenvolvida pela Coordenadoria de Projetos Comunitários, segundo Castro, um biólogo especialista em ecologia, é o ensino do manejo adequado da terra aos antigos invasores, que acabaram sendo incorporados ao território da empresa, como parte do "passivo nacionalizado". Normalmente, diz Castro, o caboclo amazonense segue a tradição da queimada, para depois preparar a terra onde planta mandioca, cultura tradicional da região. A farinha de mandioca e o peixe formam o cardápio preferido do amazonense, explica o biólogo.

ESFORÇO DIDÁTICO

O esforço didático desenvolvido pela Jari tem conseguido agregar novos elementos à economia primitiva e predatória, que vem sendo praticada há décadas naquela região. Além da introdução de produtos hortigranjeiros, para reforçar a dieta alimentar, evitando gastos com a importação de alimento de outras regiões do país, a empresa conseguiu também reduzir significativamente a utilização do fogo na mata. Na área da saúde, uma das iniciativas foi a construção de um hospital, onde trabalham 28 médicos, administrado pela Fundação Nacional de Saúde, e que atende os quatro mil funcionários da empresa e seus dependentes.

Os investimentos na educação estão voltados tanto ao ensino básico quanto à formação de mão-de-obra. Recentemente, segundo Castro, a empresa realizou um curso para operador básico em celulose, do qual participaram 70 pessoas, dentre os quais 35 da própria empresa. Na educação formal, a Jari praticamente subsidia o ensino secundário, já que a única escola de 2o grau existente em Monte Dourado pertence à Fundação Educacional Jari. A escola é paga, mas os critérios de pagamento são diferenciados de acordo com a renda. No caso dos funcionários, o pagamento é de 3% do valor do salário, por estudante, até o limite máximo de 10% da renda.

Originalmente publicado na revista O Papel, v. 54, n. 10, p. 16-19, out. 1993.