Comunicação Dirigida

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"PRESS RELEASE" – UMA VISÃO CRÍTICA

 

Valentim Lorenzetti

 

RELAÇÕES PÚBLICAS E ASSESSORIA DE IMPRENSA

Apesar do crescimento, diria até vertiginoso, das atividades de Relações Públicas no Brasil, ainda é bastante comum o profissional de Relações Públicas ser confundido com a figura do assessor de imprensa. Assim, muita empresa que só faz assessoria de imprensa, leva o nome de agência de Relações Públicas ou coisa parecida.

Vamos, portanto, esclarecer mais uma vez: assessoria de imprensa é uma das atividades desenvolvidas por uma agência ou departamento de Relações Públicas. Relações com a Imprensa é uma das armas de Relações Públicas, mas sozinha não é Relações Públicas; é Jornalismo.

Relações Públicas é um conjunto de atividades desempenhadas em caráter permanente e organizado. Cabe ao profissional de RP ter uma visão ampla de marketing, comunicação, administração, política. Cabe ao profissional de Relações Públicas abrir novas frentes, criar caminhos que ampliem e facilitem o relacionamento entre pessoas, entre empresas e pessoas, entre a opinião pública e o governo. E vice-versa, porque Relações Públicas é a atividade aberta, livre, uma rua de duas mãos, que muito ouve e muito valoriza todas as opiniões contrárias ou favoráveis.

Num momento de dificuldades como o atual, no mundo todo, Relações Públicas deve ser convocada e deve oferecer-se para propor saídas. Colocar numa grande mesa os cientistas, os políticos, os intelectuais, os militares, os lideres religiosos, os juristas, as autênticas lideranças sindicais operárias e patronais, estimular o debate franco e ficar ouvindo. O mundo está, na realidade, a exigir um grande plano de Relações Públicas.

E a imprensa terá, sem dúvida, um papel importante nesse plano. Tudo poderia começar com um "press release", redigido mais ou menos da seguinte forma:

No dia 10 de agosto próximo, em todas as capitais do mundo, vão reunir-se grupos de empresários, cientistas, políticos, religiosos, intelectuais, operários e militares, para início de um debate amplo sobre a situação atual e encontro de soluções práticas.

Assim, seria o primeiro parágrafo do "press release". Depois viriam mais alguns detalhes do assunto. E, no rodapé do "press release", a identificação da fonte. Acho que não haveria jornalista do mundo inteiro que não se colocaria a campo "caçando" a fonte, a fim de obter maiores informações.

Vejam, este é o "press release". E percebam que ele é apenas a ponta de um grande "iceberg", a ponta de um grande programa de Relações Públicas. Pois, para que chegássemos a esta primeira reunião foi necessário todo um planejamento, muito suor, muita decepção, muito diálogo, muita consulta.

"PRESS RELEASE" EXIGE CONHECIMENTO

Agora vamos voltar para a realidade. Vamos ser bastante críticos. Parece que os veículos de comunicação estão cada vez mais combatendo o "press release". Não é verdade: tanto os profissionais de Relações Públicas quanto os jornalistas profissionais não estão aceitando o "press release" vazio, mal feito. Então, a questão é de qualidade, não de conceito do "press release". Parece que é o conceito que está em jogo, porque se fez tanta porcaria neste país – e se continua fazendo – que se tem a impressão de que é o "press release" que está condenado.

Não, na realidade a condenação é à burrice e à picaretagem. A condenação é àquele profissional entre aspas que manda o "press release" e, no dia seguinte, liga para o editor reclamando a não publicação, dá um jeito de falar com um amigo do amigo do editor, e, assim, começa todo um esquema de pressão.

Numa agência ou num departamento de Relações Públicas, o "press release" deve ser redigido por jornalista profissional. E o jornalista deve colocar seu nome e o nome da empresa a que pertence, no rodapé do "press release", para que os editores possam localizar a fonte com bastante facilidade.

E aí partimos para uma conclusão que a experiência nos tem demonstrado: "press release" hoje é matéria-prima e não produto final. É material que vai para a pauta do editor. Assim agem os grandes veículos de divulgação, partindo do "press release" para ampliar a informação e proporcionar mais detalhes a seu público. Raros são os veículos que usam o "press releases" na íntegra. E as empresas devem saber disso; ninguém pode garantir para o empresário que a notícia vai sair publicada do jeitinho que ele aprovou. Não, quando o empresário aprova um texto, deve estar certo de que está desencadeando um processo de informação que poderá ampliar-se e abranger outros setores afins.

Encarando dessa forma, o "press release" é poderoso auxiliar do jornalista. Fornece pistas, abre caminhos, oferece sugestões para assuntos jornalísticos. O "press release" não deve ser publicado por favor, o jornalista é que deve agradecer por tê-lo recebido. Mas, para isso é preciso que o "press release" contenha informações realmente de caráter jornalístico, de interesse público geral ou de um segmento da opinião pública. E, se encarado dessa forma, podemos até dizer que se faz muito pouco "press releases" no Brasil. Nossa imprensa precisa muito mais de "press releases", precisa tomar contato com muito mais coisa que se faz na iniciativa privada e no governo. E, desenvolvida profissionalmente, a atividade de redação de "press release" deverá, sem dúvida, criar um novo e vasto campo de trabalho para jornalistas profissionais.

PRECONCEITO

Como no Brasil a imprensa começou por um ato de generosidade do Rei D. João VI, as atividades governamentais sempre tiveram tratamento prioritário. Os jornalistas sempre tiveram no governo a sua grande fonte de informação. O governo sempre fez uso do "press release", escrito ou verbal, pois não me parece haver muita diferença entre um texto escrito e o encontro diário do porta-voz governamental com os jornalistas. A diferença é que no caso do porta-voz as perguntas podem ser feitas na hora, e no "press release" profissionalmente redigido, elas só podem ser feitas quando o texto for parar na mão do editor. Mas, mesmo no caso de porta-voz, muitas vezes o repórter deixa de fazer as perguntas adequadas e o editor, horas depois, precisa "se virar" para obter respostas a muitas de suas indagações.

Nos "press releases" vazios não há perguntas a serem feitas. E não há cesto de lixo suficiente para receber todos eles...

Mas, voltando ao assunto, o jornalista sempre parece sentir-se mais seguro ouvindo e entrevistando gente do governo. Criou-se um preconceito de que a iniciativa privada é "coisa comercial", que interessa apenas a publicidade dos veículos. Felizmente, já temos alguns veículos de comunicação muito sérios que se dedicam a ouvir também o empresário privado e que não têm vergonha de citar nome de produtos e de empresas em suas matérias.

Se continuarmos ignorando a iniciativa privada, estaremos contrariando os próprios princípios do capitalismo em que vivemos para prestigiarmos o estatismo. Logo o "press releases" é uma abertura para entrada do jornalista na iniciativa privada, para a iniciativa privada começar a ser ouvida. Em tempos de abertura política, portanto, acho que o "press releases" deve ser arma essencial – um canal que abre a iniciativa privada à imprensa e coloca a imprensa diante do empresário.

Por isto, voltamos a repetir: não somos contra o "press release". Somos contra a droga de "press release", somos contra a pressão sobre a imprensa. Mas somos francamente favoráveis ao "press release", pois vemos nele a matéria-prima essencial para arejamento de idéias e a busca de soluções práticas para os problemas nacionais.

Originalmente publicado no número 3 do jornal O Público, órgão informativo da Associação Brasileira de Relações Públicas – Seção Estadual de São Paulo, em setembro de 1979, página 1.