A ARTE DE APAGAR INCÊNDIOS
Jacqueline
Breitinger
Jornalista
A
Schering do Brasil sentiu, nas últimas semanas, quão infernal pode se tornar a
vida de uma empresa despreparada para lidar com uma crise. O laboratório
alemão foi acusado de permitir que cartelas do anticoncepcional Microvlar
contendo placebo chegassem ao mercado. Pelo menos oito mulheres teriam
engravidado ao usar o produto inócuo. A empresa teve sua fábrica interditada e
tomou uma multa de 3 milhões de reais.
Ninguém
em sã consciência iria sugerir que a Schering colocara de modo premeditado a
venda uma contrafação de seu anticoncepcional, o mais popular do mercado
brasileiro. Acidentes (o vazamento de um navio petroleiro ou a queda de um
avião) acontecem por maiores que sejam as medidas preventivas de segurança
adotadas. Aqui e no mundo inteiro. Não é esse o ponto. O que interessa é que
diante de um problema daquele tamanho, a Schering teve o comportamento de uma
empresa amadora. Ensimesmou-se e demorou demais a reagir. Tornou-se, enfim, um antibenchmark
de como lidar com crises.
A
verdadeira extensão dos danos causados à imagem da Schering só será avaliada
nos próximos meses. Por hora, pode-se tirar lições do episódio. Ninguém
precisa chegar a ponto de chamar os bombeiros para fazer o rescaldo do
incêndio. É possível tomar providências antes que o fogo fique
incontrolável, como mostram os exemplos de boas companhias no mundo inteiro.
A
regra número um dos manuais de gerenciamento de crises é a agilidade. No caso
da Schering, o intervalo entre a denúncia anônima da descoberta de uma cartela
com cápsulas recheadas com uma mistura de lactose e açúcar e a abertura de
inquérito policial foi de 30 dias. A empresa optou por fazer investigações
internas, em vez de informar o fato às autoridades, como a Vigilância
Sanitária, e avisar as consumidoras. Num caso semelhante, a Rhodia Farma foi
alertada por um farmacêutico, em 1993, de que uma cartela do neurolítico
Amplictil fora achada dentro de uma caixa do antialérgico Fenergan. No dia
seguinte, o laboratório soltou um comunicado na televisão advertindo os
consumidores. Contatou a Vigilância Sanitária e determinou o recolhimento do
lote. Não houve vítimas da troca.
Abrir
o jogo logo é outra atitude essencial. "Quanto mais rápido uma crise
começa a ser administrada, mais chances de reduzir seus efeitos", diz
Roberto Parlato, gerente de assuntos institucionais da subsidiária brasileira
da Nestlé, uma empresa com a qual Schering teria muito que aprender. Em 1991, a
Nestlé foi chantageada por um indivíduo que ameaçava envenenar seus produtos.
Mas neutralizou as pressões do chantagista quando divulgou a ameaça. Apesar de
ter registrado uma queda de 18 milhões de dólares em suas vendas nos meses
seguintes, a companhia suíça investiu em marketing e aumentou a segurança das
embalagens. Em 1997, segundo MELHORES E MAIORES, registrou um faturamento de 3,5
bilhões de dólares, quase duas vezes maior do que em 1991. A partir dessa
experiência foi criado um comitê de crises na Nestlé. É formado por
funcionários de diversos departamentos que podem ser localizados sempre que a
luz vermelha acende. Todos são treinados para rapidamente avaliar a extensão
do problema e tomar providências. Podem acionar outros funcionários, o
presidente ou mesmo a matriz, de acordo com a gravidade da crise.
A
rapidez de resposta foi parte fundamental da estratégia da TAM quando um de
seus aviões caiu, em outubro de 1996, após decolar do aeroporto de Congonhas,
em São Paulo, matando 99 pessoas. Menos de três horas depois do acidente, a
empresa já havia convocado uma entrevista coletiva e montado uma estrutura de
atendimento aos familiares das vítimas. A começar pelo presidente da TAM,
Rolim Amaro, seus executivos não deixaram de responder perguntas.
A
escolha do porta-voz também é estratégica. "Dependendo da gravidade do
problema, é o presidente que tem que vir a público explicar a
situação", afirma Monica Medina, da Diferencial Assessoria de Marketing,
do Rio de Janeiro, que faz consultoria em gerenciamento de crises para
multinacionais. Rolim Amaro, que estava no exterior, fez meia-volta e dois dias
depois já estava à frente da operação. Apesar de enfrentar a pior situação
com a qual uma companhia aérea pode deparar, a TAM não perdeu receita e
manteve-se lucrativa. A forma como reagiu ao episódio foi um dos fatores que
levaram a companhia a ser eleita a Empresa do Ano de MELHORES E MAIORES, em
1997.
O
presidente da Schering, Rainer Bitzer, por sua vez, preferiu delegar a
responsabilidade de prestar informações a uma diretora e à sua assessoria de
imprensa (Bitzer só começou a falar sobre o assunto na última semana de
junho, um mês depois da denúncia). A empresa demorou mais 13 dias, depois de
revelada a troca do conteúdo das pílulas, para montar um serviço de
atendimento telefônico para as consumidoras – essa foi uma das primeiras
providências tomadas pela Johnson & Johnson quando sete pessoas que
consumiram o analgésico Tylenol morreram envenenadas por cianureto nos Estados
Unidos, em 1982. O Tylenol era o remédio mais vendido nos Estados Unidos e teve
uma queda imediata de 35% para 8% em sua participação de mercado. A empresa
gastou 150 milhões de dólares em campanhas publicitárias. Mas sobreviveu e o
Tylenol continua sendo comercializado, depois de ter recebido embalagem mais
segura.
Outra
prática que não pode ser deixada de lado é dizer a verdade, por mais
desagradável que seja. Quando o navio Exxon Valdez derramou petróleo no
Alasca, em 1989, a Exxon tentou minimizar o acidente, afirmando que o dano
ambiental era mínimo. As imagens de aves mortas, cobertas de óleo, sendo
recolhidas pelos habitantes da região, foram mais fortes, contudo. A companhia
sofreu desde boicotes de consumidores a ações na justiça.
O
episódio do Microvlar acabou respingando num laboratório homônimo da Schering,
o americano Schering-Plough – apesar da origem comum, na Alemanha do
pré-Segunda Guerra Mundial, hoje são independentes. O Schering-Plough, mais
escolado, respondeu melhor ao problema. Um treinamento-relâmpago foi feito com
os operadores de telemarketing para explicar aos consumidores que se trata de
duas empresas diferentes, sem relação entre si. Os representantes de vendas
foram convocados para contatar os médicos e dirimir dúvidas. Uma campanha
publicitária de 1 milhão de dólares (compatível com o lançamento de um
produto) foi preparada. "Graças a essa ação rápida nossas vendas não
foram afetadas", diz Rubens Marques Pedrosa, diretor do Schering-Plough.

Publicação original: BREITINGER,
Jacqueline. A arte de apagar incêndios. Exame, São Paulo,
v. 32, n. 15, p. 118-119, julho, 1998.