PARA SAIR DO PESADELO
Cristiane Correa
Jornalista
Johnson & Johnson, Coca-Cola, Exxon, Bridgestone/Firestone.
O que corporações globais como essas têm em comum com a brasileira Petrobras?
Todas elas enfrentaram graves crises, que afetaram sua reputação, mancharam
suas marcas e causaram grande prejuízo. Cada uma com sua própria história de
terror, essas empresas tiveram de colocar em prática o que as escolas de
negócios e as agências de relações públicas costumam chamar de
gerenciamento de crise – medidas que têm por objetivo minimizar o impacto
desses pesadelos corporativos.
Talvez o caso mais conhecido de gerenciamento de crise seja o
do analgésico Tylenol, da Johnson & Johnson. Em 1982, um sujeito envenenou
com cianeto alguns comprimidos, que acabaram sendo vendidos na área de Chicago,
nos Estados Unidos. Em apenas três dias, sete pessoas que haviam ingerido o
medicamento morreram. Na época, o Tylenol tinha 35% do mercado americano e
representava para a J&J vendas de 400 milhões de dólares. Mesmo assim, a
empresa decidiu recolher 32 milhões de embalagens que estavam no mercado
americano.
Além de agir rapidamente, os executivos da J&J tomaram
uma atitude de coragem: não esconderam as informações da opinião pública.
James Burke, então CEO da empresa, envolveu-se pessoalmente na solução do
problema. Paralelamente, técnicos da J&J conduziram pesquisas diárias com
consumidores para monitorar a situação. Em oito semanas o analgésico voltava
a ser comercializado. Um ano depois do acidente, o Tylenol já havia recuperado
sua participação no mercado.
A J&J soube lidar com uma situação extrema, mas essa
não costuma ser a regra entre as grandes companhias. Tome-se o exemplo da
Coca-Cola, que tropeçou numa crise em junho de 1999. Na Bélgica, cerca de 100
pessoas passaram mal após tomar o refrigerante. A reação inicial da empresa
foi garantir à população que não havia risco de vida. O.k., mas como
controlar a reação emocional das pessoas? Bem... nisso os executivos da Coca
não pensaram. E o mercado livre que se tornou a União Européia tratou de
espalhar o medo. Governos chegaram a proibir a comercialização do produto.
Estima-se que cerca de 15 milhões de unidades tenham sido retiradas de
circulação. Douglas Ivester, então presidente mundial da companhia, levou uma
semana para tomar um avião e verificar o que estava acontecendo na Europa.
Meses depois estava fora da empresa.
O envolvimento do presidente é um dos aspectos mais
delicados do gerenciamento de crise. Assim como Ivester, da Coca-Cola, o
ex-presidente do conselho de administração da Exxon Lawrence Rawl foi
duramente criticado por seu comportamento no acidente com o petroleiro Exxon
Valdez, ocorrido no Alasca em 1989. O derramamento de 24.000 barris de petróleo
não foi o maior da história, mas o desastre ecológico provocado por ele tomou
proporções colossais. Rawl levou seis dias para se pronunciar.
Um executivo da
empresa chegou a dizer que os custos de limpeza no Alasca seriam repassados aos
consumidores, na forma de aumento do preço da gasolina. Transparência, porém,
não significa superexposição. Para Gustavo Bernhoeft, diretor da unidade
brasileira da multinacional de relações públicas Edelman, a Petrobras vem
cometendo esse erro. "Não se pode personificar a crise, e isso está
acontecendo com o Reichstul", diz.
ACERTOU
A Johnson & Johnson, no caso do envenenamento do Tylenol.
A empresa rapidamente recolheu todo o medicamento que estava à venda nos
Estados Unidos, foi transparente ao informar a opinião pública e organizou
pesquisas diárias para monitorar a reação dos consumidores.
ERROU
A Exxon, no episódio do vazamento de óleo do petroleiro
Exxon Valdez, no Alasca. A princípio, a empresa tentou minimizar os efeitos do
acidente. O presidente do conselho à época só se manifestou seis dias após o
vazamento.
ACERTOU E ERROU
A TAM, na crise provocada pela queda do avião Fokker-100 que
vitimou 99 pessoas, em 1996. Inicialmente, a empresa foi ágil: montou uma
central de atendimento, trouxe os familiares das vítimas para São Paulo, falou
à imprensa 3 horas após o acidente. Mas até hoje só 26 famílias de vítimas
foram indenizadas. As demais brigam na Justiça.
ERRARAM
Bridgestone/Firestone e Ford. Defeitos nos pneus da Ford
Explorer foram apontados como causa da morte de mais de 100 pessoas. A Ford
acusou o fabricante de pneus. Masatochi Ono, CEO da Bridgestone/ Firestone,
culpou os motoristas.

Publicação original: Correia, Cristiane. Para sair do pesadelo.
Exame, São Paulo,
v. 35,
n. 7, p. 44-45, abr. 2001.