O PESADELO DE REICHSTUL
Neily Caixeta
Jornalista
Na quinta-feira, 22 de março, numa tarde de céu limpo e
muita ventania, homens e mulheres caminhavam no calçadão da Avenida
Atlântica, em Macaé, município do litoral norte do Rio de Janeiro. Revestidas
de pedras portuguesas em tons rosados, a calçada e uma ciclovia anexa fazem
parte do conjunto de obras de embelezamento que, graças aos preços altos do
petróleo, vem ajudando a mudar a cara da principal base de operação da
Petrobras na Bacia de Campos. Em frente ao mar, a rotina seguia aparentemente
inalterada na sede do clube Cidade do Sol, uma modesta construção de dois
andares freqüentada pelos petroleiros de Macaé. Com roupões coloridos e
rostos afogueados, crianças corriam pelos corredores depois de uma aula de
natação. Num salão envidraçado, um grupo de jovens oriundos da classe média
petroleira surgida na cidade tentava dar melhor definição a seus músculos.
A única coisa que destoava do ambiente ameno de uma típica
tarde no clube era a inusitada movimentação numa sala ao lado. Guardado por
homens de óculos escuros e rádios nas mãos, o presidente da Petrobras, Henri
Philippe Reichstul, trancafiara-se ali com toda a direção da estatal à espera
do culto ecumênico que seria celebrado nas dependências do clube momentos
depois. O banqueiro que deixou seus negócios em São Paulo há dois anos com a
missão de transformar a Petrobras numa companhia de classe mundial chegara ao
ponto mais negro de sua carreira. Há uma semana, mergulhara no inferno depois
do trágico acidente que redundou na explosão e no naufrágio da plataforma
P-36 no campo de Roncador, a 120 quilômetros da costa, no litoral fluminense.
Era o último de uma série de acidentes ocorridos na
Petrobras desde que Reichstul assumiu sua presidência, em maio de 1999. Desta
vez, porém, a gravidade dos acontecimentos era incomparavelmente maior. Foram
três explosões que mataram 11 funcionários da companhia, deixaram no fundo do
mar um equipamento avaliado em meio bilhão de dólares e trincaram ainda mais a
imagem de uma empresa desgastada com a seqüência de acidentes.
Não bastassem todos os problemas que enfrentava, Reichstul
viu-se às voltas, uma semana depois do acidente, com um fato novo que, no
primeiro momento, parecia forte o suficiente para adernar sua carreira na
Petrobras. Pela manhã, numa conversa com seus diretores, tomara conhecimento de
problemas ocorridos no sistema de ventilação de gases da P-36, problemas esses
que, embora registrados em boletins seguidos três dias antes da explosão, não
chegaram ao seu conhecimento nem ao de qualquer outro membro na cúpula da
empresa.
A estratégia até então bem-sucedida da Petrobras de dar
completa divulgação aos fatos relacionados ao acidente havia sofrido uma
fissura importante. O resultado disso foi que uma situação que já era grave
acabou ganhando contornos mais dramáticos. Além de administrar a comoção
provocada na empresa e fora dela pela tragédia, Reichstul teve de lidar com a
suspeita estampada nas primeiras páginas dos jornais do país de que a
Petrobras talvez pudesse ter feito alguma coisa para evitar o desastre.
Foi envolto nesse clima de desconfiança que ele deixou a
sala, 20 minutos mais tarde, para participar, pela segunda vez no dia, de um
compromisso delicado – enfrentar as viúvas, filhos, pais e amigos dos
petroleiros mortos. Abatido, com o rosto crispado e mais magro do que o habitual
– perdeu 4 quilos desde o início da crise –, a figura esguia de Reichstul,
51 anos, trajando terno e gravata pretos, sobressaía na primeira fileira do
auditório onde se improvisou o culto em homenagem às vítimas. Ao lado da
mulher, Maria Augusta, e de toda a diretoria da empresa, ouviu frases duras.
"O progresso de uma nação não pode ser feito à custa do sangue de seus
trabalhadores", afirmou um dos celebrantes do ato. Por decisão de
Reichstul, a Petrobras bancará os estudos dos filhos das vítimas até a
universidade.
Pela manhã, Reichstul passara pela mesma provação no Forte
General Hermes, do Exército, em Macaé, onde participou de outra homenagem às
vítimas organizada pelo Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense. Enquanto
um coral entoava um trecho da Nona Sinfonia de Beethoven, um funcionário da
Petrobras atirava pétalas de rosas brancas no mar. Foi um momento
particularmente difícil para Reichstul e Maria Augusta, filha do senador Severo
Gomes, uma das vítimas, junto com a mulher, Henriqueta, do acidente de
helicóptero que matou o deputado Ulysses Guimarães nas proximidades de Angra
dos Reis em outubro de 1992.
Os corpos do casal só foram resgatados do mar dias depois da
queda do aparelho. "Todas as civilizações adotam um ritual de despedida
como forma de amenizar a perda de seus entes queridos", disse Reichstul
numa conversa com diretores da empresa dias antes. "Ser privado disso é
uma das maiores dores que se pode impor a alguém." Ele próprio teve sua
cota de drama pessoal. Ex-militante de esquerda nos anos 70, conheceu os porões
do DOI-Codi de São Paulo. Sua irmã Pauline, combatente do grupo Vanguarda
Popular Revolucionária, foi morta pela repressão militar. Em nenhum momento,
porém, ele se referiu em público a suas tragédias pessoais. "Só mesmo
as famílias das vítimas podem avaliar a própria dor", afirma.
Encerrados os rituais de passagem, era hora de tratar de sua
sobrevivência no cargo. No acanhado saguão do aeroporto de Macaé, Reichstul
aguardava o momento de pegar o jatinho de volta ao Rio de Janeiro. No
edifício-sede da empresa, o clima era de consternação. Faixas de luto foram
colocadas na passarela que une o prédio de vidros fumê da Petrobras ao do
BNDES, no lado oposto da Avenida República do Chile, no centro do Rio.
No auge da crise provocada pelo acidente em alto-mar, o clima
ali era o de uma empresa à beira de um ataque de nervos. Diálogos acalorados,
choro, frustração, tentativas de atribuição de culpas e sobressaltos diante
de um simples toque de celular passaram a ser rotina no ambiente de trabalho.
Afora a dor pela morte dos 11 funcionários da empresa, chorava-se ali também
pelo fiasco da P-36.
Não se tratava de uma plataforma qualquer. Era a maior do
mundo, um equipamento que custou meio bilhão de dólares aos cofres da
Petrobras e que desde a sua entrada em operação, há pouco mais de um ano, se
transformara em símbolo da supremacia brasileira na exploração de petróleo
em águas profundas. Luís Carlos Cabral, assessor da presidência encarregado
de comunicar à imprensa o naufrágio da plataforma, foi um dos que não
conseguiram segurar o choro. "Houve um esforço desesperado para
salvá-la", diz Cabral. "Quando a plataforma foi a pique, com toda a
tecnologia ali embutida, parecia que afundava também uma parte dos nossos
sonhos."
Reichstul foi acordado de madrugada com a notícia da
explosão na P-36. Sua primeira providência foi correr para Macaé, onde se
localiza a base das operações da Petrobras na Bacia de Campos. Em seguida,
montou uma operação de guerra inédita nas empresas brasileiras para gerenciar
a crise e manter informada a opinião pública. "Aprendi que a
transparência num momento como esse é fundamental", disse Reichstul a
EXAME, após passar o fim de semana numa fazenda no interior de São Paulo, o
primeiro momento de descanso depois de nove dias de trabalho ininterrupto.
Acionado de madrugada, o representante da Petrobras em
Brasília, João Leal Neto, convocou seus 26 assessores para avisar deputados,
senadores e membros do Tribunal de Contas da União a respeito da tragédia. Os
contatos com a imprensa mobilizaram outra força-tarefa. Além dos 14
jornalistas alocados permanentemente na assessoria de imprensa, integraram-se ao
esforço outros sete profissionais que atuam como assessores diretos da
presidência da Petrobras.
Para ajudar na divulgação dos eventos na imprensa de
língua espanhola, a Petrobras contratou em Buenos Aires o jornalista Ricardo
Sarmiento, fundador do jornal argentino Ámbito Financiero. O canadense George
Hawry Lyshin, editor da revista especializada Brazil Energy, foi convocado para
dar apoio aos jornalistas de língua inglesa. Paralelamente a tudo isso,
emitiram-se comunicados aos acionistas, ao mercado financeiro e ao público
interno da Petrobras.
Especula-se que a permanência de Reichstul no comando da
Petrobras vai depender da maneira como conduzirá a delicada questão de que a
empresa, afinal, sabia mais sobre o acidente do que divulgara a princípio. Uma comissão criada pela empresa para investigar o caso
deve apresentar suas conclusões até o dia 20 de abril. Aparentemente, os
defeitos registrados no equipamento contido na coluna onde ocorreram as
explosões não têm nenhuma relação com o acidente.
De qualquer forma, o objetivo é investigar exaustivamente o
caso, inclusive para determinar se os registros dos defeitos detectados deveriam
ou não ter sido repassados à alta direção da empresa. Num contraponto às
declarações inflamadas do novo ministro das Minas e Energia, senador José
Jorge, que pedia punição para os culpados, Reichstul adotou uma atitude mais
contida. Em vez de afastar, preferiu manter no posto os funcionários envolvidos
no episódio enquanto aguarda os resultados das investigações. "Estava
todo mundo querendo sangue, mas estou fazendo o que tem de ser feito", diz
Reichstul.
No Palácio do Planalto, ele é visto como um profissional
competente que desfruta da confiança do presidente Fernando Henrique. No
entanto, o que vai lhe garantir a continuação no cargo é a capacidade de dar
explicações convincentes a respeito do acidente. Por enquanto, é tido no
mercado como um executivo que ganhou uma sobrevida. "É como um goleiro
muito bom que levou um frango aos 44 minutos do segundo tempo", diz o
advogado e consultor Jean-Paul Prates, diretor da Prates e Carneiro, uma das
primeiras bancas especializadas na área de petróleo no país. "Como não
existe neste momento nenhum cacique político forte o suficiente para pedir sua
cabeça, ele ganhou mais um tempo no cargo. Agora, é ver se é capaz de
recuperar sua imagem."
Poucas vezes se registrou na história das empresas
brasileiras um caso em que o principal executivo permaneceu tão exposto aos
humores da opinião pública. A provação das últimas semanas foi o ápice de
um processo de desgaste iniciado com o megavazamento de óleo na Baía de
Guanabara em janeiro de 2000. Num espaço de seis meses, outros dois desastres
ecológicos envolvendo a empresa ocorreram no Paraná. Somados os três
acidentes, foram despejados no mar e em rios 6,45 milhões de litros de óleo.
Aos desastres ecológicos soma-se o fiasco político em que Reichstul se
envolveu com a malograda tentativa de trocar o nome da empresa de Petrobras para
Petrobrax. Tanto barulho foi justificado com o argumento de que a segunda marca
seria mais sonora aos ouvidos da clientela internacional.
Reichstul encarna hoje um paradoxo. Chamado de desastrado,
relapso e até de pé frio por alguns, é visto em outras esferas como um
executivo talentoso e empreendedor. Um sujeito que tem conseguido desempenhar
com vigor a missão de afiar as garras da Petrobras para enfrentar a
competição que começa a despontar no país com a entrada de novos
concorrentes para explorar e produzir petróleo e gás. Desde que foi alçado à
presidência da empresa, ele acumulou uma lista de feitos notáveis. A começar
pelo fato de ter conseguido exorcizar a aversão ao lucro tão habitual entre as
estatais brasileiras.
No ano passado, a Petrobras obteve o melhor desempenho de
toda a história corporativa do país – um lucro líquido de quase 5 bilhões
de dólares. Esse resultado irá redundar numa distribuição recorde de
dividendos. Acostumada no passado a ignorar a União, a Petrobras deverá
repassar este ano a seu sócio controlador dividendos superiores a meio bilhão
de reais. Na gestão de Reichstul, o valor de mercado da empresa mais do que
triplicou. Passou de 9 bilhões de dólares em janeiro de 1999 para 30 bilhões
em janeiro deste ano. É verdade que a tragédia da P-36 fez desabar o valor dos
papéis da empresa. Só no último dia 15, quando o acidente estava nos
principais noticiários de televisão do mundo, as ADRs comercializadas na Bolsa
de Nova York sofreram uma queda de 6,9% (o primeiro lote dos papéis foi
lançado em Nova York, com a presença de Pelé, em agosto do ano passado). No
acumulado do mês, a baixa foi de 14,41%. No Brasil, o humor do pregão foi
idêntico.
Há outros fatos expressivos na coluna de realizações.
Reichstul é responsável pela profunda metamorfose administrativa que está
virando a empresa de cabeça para baixo. Na segunda etapa do planejamento
estratégico introduzido por ele, a Petrobras foi dividida em 40 unidades de
negócios, que funcionam como células autônomas, com metas e resultados
próprios. O objetivo é descentralizar e agilizar a tomada de decisões,
livrando a estatal daquele ranço de quartel que prevalecia mesmo depois da
retirada do último general que ocupou os imensos salões no 24º andar que
serviam à presidência da companhia. Para se converter até 2010 numa empresa
de energia de classe mundial, o trabalho à frente é monumental. A meta é
investir 32,9 bilhões de dólares nos próximos cinco anos. Até lá, o
faturamento bruto da Petrobras deve chegar a 35 bilhões de dólares, 4 bilhões
dos quais derivados de suas atividades no exterior.
Por que motivo a Petrobras, que pretende ser a maior empresa
de energia do Hemisfério Sul, conseguiu bom trânsito no mercado de capitais
internacional e possui parcerias com 30 companhias petrolíferas internacionais,
passa agora pelo vexame de colecionar acidentes um atrás do outro? De 1999 até
hoje, 59 pessoas morreram em acidentes de trabalho na companhia, uma média de
um óbito a cada 11 dias – número exagerado quaisquer que sejam os
parâmetros.
Há muitas explicações para tantas tragédias. Uma seria a
falta de pessoal qualificado numa empresa que passou dez anos sem realizar
concursos para renovar seus quadros. "Não se vêem jovens nos corredores
da Petrobras", disse Reichstul durante uma audiência convocada pela
Comissão de Infra-Estrutura do Senado, na última terça-feira, 27. Desde o ano
passado, foram contratadas 640 pessoas aprovadas em concursos públicos que
promoveu em todo o Brasil. Nesse departamento, não faltam petardos contra a
terceirização implantada na estatal – apenas 20% dos 30.000 trabalhadores da
Bacia de Campos são funcionários da Petrobras.
A idéia é que os terceirizados não receberiam o mesmo
nível de treinamento do pessoal da companhia. "A terceirização é uma
tendência mundial no setor", diz Reichstul. Outra razão seriam décadas
seguidas de descaso com as áreas de segurança industrial e de meio ambiente.
Empresa fechada, com uma cultura militar herdada de um período em que não se
prestavam contas à sociedade, a Petrobras foi aprendendo aos poucos que era
necessário ser sensível à opinião pública. "Parte desse descaso com as
questões ambientais acabou estourando nas minhas mãos", disse Reichstul.
Seu antecessor no cargo, Joel Mendes Rennó, rejeita a tese de que os acidentes
ocorram hoje porque as instalações da companhia estariam sucateadas.
"Não adianta olhar para trás para justificar os problemas", diz
Rennó. "Quando assumi a empresa, vários dutos e equipamentos eram
antigos, mas nem por isso ocorreram acidentes graves."
Um terceiro motivo que explicaria os acidentes: o afã de
crescer rapidamente para cumprir as metas de alcançar a auto-suficiência na
produção de petróleo em 2005. Antes de entrar em operação, as plataformas
submarinas e as equipes que vão operá-las passam por um período de testes que
varia de seis a nove meses. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, os testes na
P-36, duraram apenas quatro meses. Nem mesmo as mudanças gerenciais
introduzidas por Reichstul na Petrobras deixaram de receber uma parcela de
culpa. Segundo seus críticos, com a redução de níveis hierárquicos e a
criação de unidades de negócios voltadas para uma gestão de resultados,
haveria uma pressão exagerada por um aumento da produtividade na empresa. Para
muitos deles, pode ter sido isso, justamente, o que aconteceu com os
encarregados da P-36, que, mesmo tendo detectado problemas no equipamento,
julgaram melhor não interromper a produção para corrigir a avaria.
De qualquer forma, lamenta-se na Petrobras que a tragédia da
P-36 tenha ocorrido num momento em que nunca foi tão sério como agora o
esforço para prevenir acidentes. "A sensação é de chegar à final de um
campeonato e acabar perdendo nos pênaltis", diz um consultor familiarizado
com a questão. A partir do susto provocado pelo derrame de óleo na Baía de
Guanabara, a Petrobras decidiu criar um projeto ambicioso de prevenção de
acidentes.
Do ano passado para cá, um total de 1,2 bilhão de reais
está investido em ações e programas de treinamento voltados para a questão
ambiental. Batizado de Pegaso (Programa de Excelência em Gestão Ambiental e
Segurança Operacional), é um dos maiores projetos lançados no mundo com o
foco na redução de acidentes numa indústria de alto risco como a
petrolífera. Cerca de 500 pessoas, entre consultores, auditores, professores
universitários e funcionários de grandes multinacionais do setor, participaram
da elaboração de um relatório de 2 660 páginas com recomendações variadas.
"Até agora os resultados não foram compatíveis com os cuidados que
passamos a ter", diz Irany Varella, superintendente de Saúde, Segurança e
Meio Ambiente da Petrobras. "Mas não tenho dúvidas de que com parcerias e
investimentos em treinamento vamos alcançar os resultados desejados."
Por fim, as resistências ao comando de Reichstul seriam, na
visão de alguns, um dos motivos causadores dos problemas de segurança que a
Petrobras vem enfrentando. Passados dois anos desde que assumiu a presidência,
Reichstul teria falhado em sua tentativa de descontaminar uma empresa impregnada
do corporativismo que a caracteriza desde sua criação há 48 anos pelo
presidente Getúlio Vargas. "O grande desafio de Reichstul não é da porta
para fora da empresa, mas sim da porta para dentro", afirma um observador
do setor petrolífero. "Não creio em sabotagem, mas há claramente uma
leniência por parte dos funcionários em aderir às mudanças de cultura que
ele pretende implantar ali."
No entender de quem conhece o ânimo nos corredores da
companhia, essa resistência se concentraria sobretudo nos seus escalões
intermediários. "É ali que o corporativismo está jogando contra",
diz Darcio Crespi, sócio da Heidrick & Struggles, empresa de recrutamento
de executivos de São Paulo. Reichstul, de fato, tem contrariado muitos
interesses. Além de tentar quebrar a influência dos sindicatos na empresa, vem
desbaratando esquemas de grupelhos que ganhavam a rodo nos contratos comerciais
da estatal.
A resistência à nova cultura seria decorrente muito mais de
uma questão pecuniária que de convicções ideológicas. O problema é a
ausência de uma política para premiar resultados. Por ser estatal, a Petrobras
não tem liberdade para praticar uma política de meritocracia adequada.
"Apesar de estabelecer metas e cobrar resultados, Reichstul não dispõe da
contrapartida oferecida pelas empresas privadas a seus funcionários – um
plano de remuneração variável", diz um consultor de empresas de São
Paulo.
Com a alta cúpula as relações são mais fáceis. À
exceção de dois diretores vindos de fora – um dos quais recrutado no mercado
financeiro –, toda a diretoria foi escolhida diretamente dos quadros da
companhia. Apesar de seu limitado conhecimento da área, Reichstul foi capaz de
aprender rápido e ganhar a confiança da elite gerencial da empresa. Entre suas
virtudes mais destacadas figuram a capacidade de saber ouvir, ser ponderado na
hora de tomar decisões e ter senso de direção. Ganhou ainda a confiança de
seus subordinados ao reduzir os níveis hierárquicos e incentivar maior
participação na tomada de decisões.
No entanto, para o diretor da Associação dos Engenheiros da
Petrobras, José Conrado de Souza, a suposta coesão nos quadros diretivos da
Petrobras é fruto de uma situação irreal. Ele credita as boas relações de
Reichstul com os diretores e superintendentes ao generoso aumento de salário
concedido aos escalões superiores logo depois que assumiu o comando da
companhia. "Quem ganhava 5 000 reais passou a receber quatro vezes
mais", diz Souza. "Mas esse pessoal sabe que, se discordar da alta
direção, vai perder as vantagens."
Para Prates, do escritório Prates & Carneiro, a
tragédia com a P-36 deve se prestar a um longo exercício de aprendizado. Por
isso é tão fundamental que as investigações a respeito sejam meticulosas.
Pessoas foram imoladas, dinheiro foi jogado fora e a reputação da maior
empresa brasileira ficou chamuscada no episódio. Não é admissível, portanto,
que se desperdice a chance de compreender o que na verdade aconteceu. O fato de
até agora não terem sido identificados culpados pelo acidente não é algo que
preocupe David Zylberstajn, o presidente da Agência Nacional de Petróleo.
"Muitos se acostumaram a jogar para a platéia com o chute na porta e o
prendo e arrebento", diz Zylberstajn. "Queremos respostas certas, e
elas virão no tempo adequado." Para Reichstul, é mais do que conveniente
que isso ocorra rápido. Caso contrário, sobre sua cabeça ficará pendente a
sombra da dúvida.

Publicação original: CAIXETA, Nely. O pesadelo de Reichstul.
Exame, São
Paulo, v. 35,
n. 7,
p. 40-51, abr. 2001.