COMO SOBREVIVER NA CRISE, SEM CRISE
Cynthia M. Luz
Jornalista
Diretor de desenvolvimento da Ogilvy Adams & Rinehart, de
Nova Iorque, empresa à qual está associada a AAB Ogilvy & Mather
Relações Públicas, desde 1988, John Birch é consultor de Relações
Públicas, especialista em gerenciamento de crises, há mais de 35 anos.
Durante esse período, assessorou empresas como a Union
Carbide, no desastre de Bhopal, na Índia, Unilever, Campeau, Standard Oil e
Manufactures Hanover, o exército e o governo britânicos, nos processes de
independência do Chipre e do Zimbábue, além de viajar por todo o mundo
treinando executivos em 30 países, preparando-os para preservar a reputação
de suas corporações.
Entrevista
Com uma formação militar, de que forma você foi parar na
área de relações públicas, se especializando em crises?
As pessoas acreditam que passar oito anos e meio no exército
é perda de tempo, mas eu estive no melhor serviço militar do mundo e aprendi
muitas coisas úteis para quem trabalha em comunicação. Entre elas,
autodisciplina, escrever de maneira concisa, administrar eficazmente e aprender
a diferença entre tática e estratégia, o que tem a ver com marketing e
relações públicas. Às vezes, o trabalho num serviço militar não é
diferente de fazer Relações Públicas, já que devemos ter respeito às
informações confidenciais, precisamos ser diretos em nossos objetivos e ter
espírito de liderança. E não há melhor jeito de aprender liderança que
quando a vida de seus comandados está em jogo.
Com base em sua experiência profissional, o que é uma
crise?
Crise é diferente de um problema. É um evento
imprevisível, que, potencialmente, provoca prejuízo significativo a uma
organização ou empresa e, logicamente, a seus empregados, produtos,
condições financeiras, serviços e à sua reputação. Entre as incidências
mais comuns estão os problemas ambientais, contaminação de produtos, disputas
trabalhistas, extorsões e incêndios, ataques dos consumidores, descréditos de
produtos, desonestidades dos diretores, além de atos da natureza, como
inundações e terremotos, entre outros.
Qual é a melhor forma de se lidar com crises?
Uma das coisas que várias empresas fazem e que nossa
assessoria aconselha é um processo de preparação, ou seja, é uma boa idéia
fazer uma avaliação de todas as possíveis crises para poder, eventualmente,
enfrentá-las. Devemos estudar os pontos onde nossa empresa é mais vulnerável.
Num instituto de gerenciamento de crises existente em Lousiville, no Kentucky,
existe um estudo, que mostra a incidência de 5.700 problemas causados por falha
de administração e 4.500 por acidentes nos últimos anos, em uma amostragem de
31.500 casos registrados.
Qual é a estratégia a ser seguida para a elaboração desse
plano de emergência?
Construir, passo a passo, o planejamento, montando um time
especializado, formado por profissionais das áreas jurídica, financeiras, de
pessoal, de operações, de marketing, de Relações Públicas, entre as mais
importantes; alocar um espaço físico adequado para a reunião dessa equipe de
modo rápido e eficiente, pois esse local precisa ter todos os equipamentos de
comunicação e demais ferramentas de trabalho para os profissionais que vão
gerenciar o problema, avaliar todos os potenciais, riscos, preparando planos
para cada um deles; elaborar um manual de crises, onde se encontre com
facilidade quais os procedimentos a ser adotados pelas partes responsáveis;
simular situações; e, principalmente, buscar boa vontade, aliança e apoio dos
mais diversos segmentos onde a empresa atua, como governo, associações
comunitárias, funcionários, associações de classe, sindicatos, imprensa,
grupos de interesses especiais, enfim todos que possam dizer que a empresa não
é má só por ter sofrido algum problema. É muito importante que joguemos o
balde, em busca de apoio, e ele volte com algum conteúdo.
De que maneira a propaganda influência ou é influenciada
pela crise?
A propaganda, assim como as demais ferramentas do marketing,
pode auxiliar na formação de uma boa imagem da empresa. Neste caso, em
especial, a propaganda institucional. Por outro lado, se a empresa não estiver
bem, o valor da marca cai bastante, não adiantando, muitas vezes, um bom
trabalho de propaganda para recuperá-lo. Em recente crise enfrentada pela
Pepsi-Cola, por exemplo, foram utilizadas 600 páginas de anúncios
institucionais para comunicar o fim dos problemas, numa estratégia que
reforçou o trabalho da equipe de Relações Públicas.
Como os profissionais de comunicação devem agir diante de
um quadro de crise?
A função de um profissional de Relações Públicas é
defender, proteger e, muitas vezes, reconstruir a reputação de uma
organização ou de sua marca. É necessário que se treine os porta-vozes, que
devem ser pessoas importantes dentro da organização, para se manifestar com um
tom humano e uma legítima preocupação para com os aspectos humanos do caso,
para a adoção de medidas imediatas, para comunicação franca e constante com
a imprensa, com acompanhamento de pesquisas que revelem para que lado pende a
opinião pública. Além disso, as informações devem ser imediatas, pois a
comunicação mundial hoje é muito rápida. Deve-se, também, como medida até
preventiva, saber o que os bancos de dados, em especial os utilizados pela
imprensa, registram acerca da companhia, para evitar que jornalistas coloquem à
população informações erradas baseadas neles.
Na época do acidente da Union Carbide em Bhopal, da Índia,
como foi gerenciar a comunicação da empresa?
Até certo ponto foi complicado, pois não existiam a CNN, o
fax, as linhas telefônicas disponíveis eram escassas, enfim, a comunicação
entre a subsidiária e a matriz, em Conecticut, era muito complicada. A notícia
do acidente só chegou aos Estados Unidos 12 horas depois do ocorrido, já que,
para piorar, Bhopal fica a dez horas de trem de Bombain, Calcutá ou Nova Delhi.
Quais foram os aspectos positivos que poderia destacar?
O mais importante foi a rapidez com que os executivos, em
especial o presidente da companhia agiram. Imediatamente após o comunicado
chegar à matriz, foi convocada uma entrevista coletiva, para relatar a
tragédia. Como não existiam muitas informações, apenas contou-se os fatos
(uma nuvem química havia sido liberada sobre a cidade e, devido ao frio, caíra
em forma de chuva química, matando quase 4 mil pessoas que dormiam fora de suas
casas e ferindo outras 11 mil).
Outro ponto a ser destacado foi a aceitação de
responsabilidade, mesmo que isso não tenha sido acompanhado de admissão de
culpa, já que investigações posteriores mostraram que o incidente só pode
ter sido provocado por sabotagem. A presença do presidente da Union Carbide no
local apenas 40 horas após o incidente, mesmo tendo sido preso e imediatamente
liberado, fez bem para sua imagem pública. A imagem da empresa e o valor da
marca ficaram arranhados, mas todos os procedimentos realizados pela empresa
foram corretos, ainda que a Union Carbide só possuísse metade das ações,
sendo o restante de propriedade do governo ou de companhias ligadas a ele.
Por essa razão, a preocupação da empresa em acompanhar e
auxiliar as investigações e a postura de auxílio, com oferta de US$2 bilhões
para as vítimas (não aceita pelo governo, mas divulgada) foram de extrema
importância, ainda que não tenha conseguido superar a crise em relação ao
governo. Hoje, anos depois, o caso foi reaberto, mas empresa não está sofrendo
conseqüências em nível mundial, porém a unidade foi reduzida, com a
resolução de se fechar a fábrica de baterias do conglomerado.
No Trade Center, um caso mais recente, o que mais lhe chamou
a atenção?
O planejamento de crise do Fiduciary Banck, já previa grupos
terroristas e possuía toda uma estrutura de emergência montada do outro lado
da cidade com todos os equipamentos necessários para seu trabalho. Eles
previram não só o fato do ataque terrorista, mas que esse ataque poderia visar
as telecomunicações do Trade Center e, sendo esses recursos vitais para o
desenvolvimento de seus negócios, tinham para onde ir. A explosão ocorreu na
sexta-feira e eles já estavam instalados e trabalhando no outro escritório na
segunda-feira.
E na crise que a Pepsi-Cola enfrentou no mês de junho? Quais
os aspectos positivos?
O caso poderia ter tomando proporções absurdas, não fosse
rápida intervenção da companhia. Após um casal ter denunciado a existência
de uma seringa hipodérmica dentro de uma lata do refrigerante, uma semana
depois, em 23 Estados da federação, já existiam denúncias semelhantes. A
imprensa pelo fato de a notícia ser vendável, já havia espalhado a
informação para o mundo inteiro, colocando em jogo a marca.
A primeira atitude da empresa foi liderar as investigações
junto com a Food and Drug Association (FDA), órgão encarregado de
supervisionar a qualidade dos remédios e alimentos. A partir dessa
investigação, foram detectadas falhas nessas histórias dos consumidores.
Entre as descobertas, destacaram o fato de a lata, na linha de montagem, ficar
aberta por apenas 9 décimos de segundo, além do aparecimento de fitas, feitas
por sistemas de segurança de supermercados, onde consumidores tentavam
adulterar as latas dentro do próprio estabelecimento. Essas informações foram
passadas para a imprensa e o próprio presidente da organização foi a tevê
para apresentar o resultado das investigações para o público, além de
mostrar um filme da linha de montagem das latas para que a população pudesse
ver o processo. Além disso, cerca de 600 páginas de publicidade foram
publicadas, num esforço para os trabalhos de relações públicas.
Já no Brasil, como encara a crise desencadeada pelos
assassinatos de menores abandonados, na Igreja Candelária, no Rio de Janeiro?
O problema afetará principalmente o turismo, que já sofre
queda. Mas, além da pouca informação que foi repassada pelas autoridades às
entidades internacionais e mesmo às representações brasileiras fora do país,
o problema deve ser cortado pela raiz, ou seja, é necessário que os assassinos
sejam encontrados e punidos e que o crime, em geral, seja diminuído. Um exemplo
de crise semelhante a esse foi muito bem contornado pelo governo do Egito quando
do assassinato de turista por parte de terroristas. As autoridades informaram o
problema e combateram as suas causas, eliminando-as por completo.
Por que o caso Tylenol é considerado um clássico?
Porque o modo como foi administrado é considerado um modelo
a ser seguido até hoje, vários anos após o ocorrido. A primeira providência
da Johnson & Johnson foi comunicar que o medicamento estava sendo
adulterado, com a introdução de veneno em suas embalagens, pedindo que seu uso
fosse suspenso na versão cápsulas. Recolheu todo o estoque de Tylenol dessa
versão existente nos pontos-de-venda e nos hospitais e pronto-socorros,
dando-lhes, ainda, subsídios para o tratamento, caso fosse detectado um caso de
envenenamento. Ofereceu à população a opção da troca das cápsulas por
tabletes, que não podiam sofrer sabotagem, e ofereceu um prêmio em dinheiro a
quem pudesse dar informações acerca do adulterador.
Fora isso, começou uma série de pesquisas para desenvolver
uma embalagem inviolável e só devolveu a versão passível de problemas quando
achou que ela estava segura. A atitude da diretoria da empresa também foi a
mais correta possível, assumindo a responsabilidade da crise procurando
auxiliar as pessoas afetadas e não sonegando informações à imprensa; pelo
contrário, tratando-a como parceira na divulgação dos fatos. Apesar de o
veneno ter atingido seis pessoas mortalmente, a marca não foi tão afetada e a
reputação da empresa não foi riscada.
Por outro lado, pode citar um exemplo de crise mal
gerenciada?
O vazamento de petróleo no Alaska, envolvendo um petroleiro
da Exxon, é um exemplo clássico do que não deve ser feito. A companhia não
se importou em comunicar a verdade, procurando muitas vezes, até ocultá-la;
não foram rápidos em atender o acidente, com seus executivos só se dignando a
ir ao local 23 dias depois da ocorrência e em nenhuma hora houve mais que um
porta-voz dando a versão da empresa. Além do que pararam de falar sobre as
providências que estavam tomando cedo demais, deixando no ar a impressão de
que não haviam dado a devida importância à proporção da tragédia. Isso
tudo é fácil de perceber quando verificamos que este foi o trigésimo pior
acidente com derramamento de petróleo, mas é o primeiro a ser lembrado.

Originalmente publicado na Revista
Propaganda, São Paulo, n.
486, p. 9-12, ago. 1993.