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A Pesquisa de Opinião como Método
de Investigação em Relações Públicas: Caso Aterro do Lago Igapó
Regina
Célia Escudero César, Maria
Amélia Miranda Pirolo,
Ivone
Guerreiro Di Chiara e Nádina
Aparecida Moreno
Professoras
da Universidade Estadual de Londrina
Alcides
Amadeu Júnior, Ana Lígia
Rolim Rodrigues e Juliana Eli
Watanabe
Alunos
INTRODUÇÃO
Existe a necessidade de se ter um apoio científico dirigido à formação
do profissional de Relações Públicas, no que tange ao delineamento de um
modelo teórico com método e técnica específicos para a Pesquisa de Opinião
Pública, pois não há uma estrutura conceitual adequada para esse tipo de
pesquisa em Relações Públicas. A ausência dessa estrutura conceitual
impossibilita o acúmulo de resultados para a formação de um corpo de
conhecimentos. Conseqüentemente, os resultados não podem ser
generalizados, e torna-se difícil utilizá-los em situações práticas.
Neste estudo, optou-se pela metodologia dialética baseia-se no contexto
social onde trabalham e interagem as Relações Públicas, pois, além das
condições objetivas e funcionais, a realidade social é movida igualmente
por condições subjetivas.
O objetivo da pesquisa é descobrir respostas para perguntas através do
emprego de processos científicos. Tais processos foram criados para
aumentar a probabilidade de que a informação obtida seja significativa
para a pergunta proposta e, além disso seja precisa e não viesada (Selltiz
et al, 1975, p. 1).
Se o objeto de uma pesquisa é investigar a opinião pública, a proposta
de encaminhamento que parece mais adequada é a dialética, contando, porém,
com momentos quantitativos e qualitativos conforme o modelo teórico que se
propõe construir nesse trabalho, pois é "...sabido que o crescimento e a
evolução numa determinada área são estimulados por descobertas ou através
de um modelo teórico novo, ainda não testado" (Schleyer, 1982, p. 49).
JUSTIFICATIVA
A revisão de teorias e de práticas do mercado é uma necessidade
constante do ensino de pesquisa de opinião pública. A consistência do
ensino acadêmico origina-se dentro das técnicas instrumentalizadas e de
rituais usuais a partir de uma concepção lógica, o que não deve ser
entendido como uma repetição de respostas, mas como a procura
sistematizada de resultados esclarecedores de um problema com relevância
social.
A opinião pública tem sua raiz no social e, portanto, é socializadora,
pois alimenta-se de suas relações. Propor um tratamento específico e
inovador é o caminho a ser percorrido na formação do profissional de
Relações Públicas e, em especial, neste estudo no que tange à Pesquisa de
Opinião Pública.
Para se levantar a opinião numa dada situação é necessária uma
avaliação histórica e atual dos fatores que envolvem a formação desta
opinião (fase dialética), pois o conhecimento é o resultado de uma postura
reflexiva que agrega valores subjetivos e concretos. No entanto, os
métodos quantitativos representados pelos momentos funcionalistas da
pesquisa são relevantes para dar credibilidade (consistência) a um
trabalho reflexivo, uma vez que o mercado entende a realidade
quantificável.
A contribuição para mudança do social deve estar relacionada aos
valores que o social conhece; o ser humano atingirá a maturidade motora se
passar por todos os passos que o colocam de pé: arrastar, engatinhar e
andar. O conhecimento é apreendido somente se for apresentado por caminhos
que lhe dêem segurança e condição de interação. Portanto, querer conhecer
a opinião de uma comunidade sobre um assunto controverso é lhe dar a
oportunidade de quantificação de seus valores subjetivos.
Uma característica que vale ser referendada na pesquisa de opinião
pública, como técnica, é que ela deve ser um instrumento de trabalho de
Relações Públicas; não um simples instrumento de coleta de dados, mas de
mudança. A importância de um modelo dialético para se pesquisar a opinião
pública está em preparar pesquisadores conscientes de que este é um
processo de transformação social.
RESULTADOS
Pelo resgate bibliográfico concluiu-se, dentre outros pontos, pela
necessidade da adoção da técnica da triangulação, tanto na fase de
levantamento quanto na de análise e interpretação dos dados. Nesta técnica
os dados quali-quantitativos são complementares e retroalimentam o
processo de pesquisa.
Para aplicação destas técnicas e metodologias, tomou-se como objeto de
estudo um episódio concreto ocorrido na cidade de Londrina, no Estado do
Paraná, que envolveu a polêmica em torno de uma doação de terreno público
a particulares, caso este detalhadamente explorado a seguir.
Localização do Caso
No ano de 1996 a imprensa local noticiou um projeto de lei no qual a
Prefeitura de Londrina doava o aterro do Lago Igapó a um grupo econômico
que visava à construção de um empreendimento de lazer no local (shopping).
Este aterro fora criado em anos anteriores em lugar de um antigo lago,
o que provocou uma reação negativa na população. Assim, a notícia de sua
provável doação e construção de um centro comercial promoveu tanto entre
ambientalistas como na comunidade em geral a mobilização de lideranças
diversas.
Técnica de Análise do Caso
A análise de conteúdo deste caso foi realizada por meio da recuperação
e interpretação de uma série de reportagens coletadas junto a imprensa
escrita, nos jornais locais (Folha de Londrina e Jornal de Londrina), no
período de 28 de outubro de 1996 a 10 de dezembro de 1998.
Foram também realizadas entrevistas com pessoas diretamente ligadas com
a polêmica:
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Vereadora Elza Correia, que levantou a questão da ilegalidade da doação
do aterro e se manifestou contrária em todas as votações do projeto.
Escreveu vários artigos para a imprensa, assim como procurou o apoio de
várias entidades e pessoas ligadas ao assunto; |
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Profª. Mira Roxo, diretora da Escola Seta, escola responsável pela
primeira manifestação contra a doação do aterro para a iniciativa
privada, que elaborou um abaixo assinado, o qual foi entregue ao
prefeito pelos próprios alunos; |
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Jornalista Osmani Costa, autor da maioria dos artigos publicados pela
Folha de Londrina, que forneceu importantes dados sobre o
desenvolvimento da mobilização da comunidade. |
Para fins didáticos e para visualizar melhor a Opinião Pública, as
fases da sua formação foram divididas tomando como base o processo
proposto por Andrade (1989) e analisados sob o enfoque qualitativo
apresentado por Triviños (1994), Godoy (1995), Franco (1994). Na
sistematização e operacionalização desta análise seguiu-se a metodologia
proposta por Bardin (1977, p. 160).
A análise de conteúdo é "um conjunto de técnicas de análise das
comunicações, visando, por procedimentos sistemáticos e objetivos de
descrição do conteúdo das mensagens, obter indicadores quantitativos ou
não, que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de
produção/recepção (variáveis inferidas) das mensagens".
Uma das características que define a análise de conteúdo é a busca do
entendimento da comunicação entre os homens, apoiando-se no
(re)conhecimento do conteúdo das mensagens. Não quer saber apenas "o que
se diz", mas "o que se quis dizer" com tal manifestação. Outro elemento
que define a análise de conteúdo é que se trata de "um conjunto de
técnicas" para captar a mensagem transmitida.
Segundo Triviños, na técnica proposta por Bardin há uma ênfase na
avaliação quantitativa dos dados, talvez pela influência positivista do
autor. No caso que serve como objeto deste estudo, entretanto, dar-se-á
maior ênfase à análise qualitativa por esta permitir não somente a análise
do "conteúdo manifesto" dos documentos, como também de seu "conteúdo
latente".
O primeiro pode orientar para conclusões apoiadas em dados
quantitativos, numa visão estática e a nível, no melhor dos casos, de
simples denúncia de realidades negativas para o indivíduo e a sociedade; o
segundo abre perspectivas, sem excluir a informação estatística, muitas
vezes, para descobrir ideologias, tendências etc. das características dos
fenômenos sociais que se analisam e, ao contrário da análise apenas do
conteúdo manifesto, é dinâmico, estrutural e histórico (p. 162).
No princípio da utilização da técnica da análise de conteúdo seu
enfoque metodológico principal era o positivista, através do estudo do
conteúdo manifesto, já a análise do conteúdo latente tem como base
metodológica de interpretação a corrente dialética, que quer perceber a
dinâmica contextual e histórica dos fatos e não apenas a sua
caracterização e sistematização lógica, ou então sua "simples denúncia".
A sistematização dos dados proposta por Bardin, segue, basicamente,
três etapas: pré-análise; descrição analítica e interpretação referencial.
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Pré-análise: organização do material (seleção dos documentos). |
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Descrição analítica: os documentos são analisados profundamente, tomando
como base suas hipóteses e referenciais teóricos. Neste momento é que se
criam os temas de estudo e se pode fazer a sua codificação,
classificação e/ou categorização. |
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Interpretação referencial: é neste momento que, a partir dos dados
empíricos e informações coletadas, se estabelecem relações entre o
objeto de análise e seu contexto mais amplo, chegando, até mesmo, a
reflexões que estabeleçam novos paradigmas nas estruturas e relações
estudadas (p. 161-162). |
É o que ocorreu neste estudo sobre o "aterro do Lago Igapó", quando, a
partir do processo de formação da opinião pública proposto por Andrade,
calcado em referenciais absolutamente positivistas, foi possível perceber
na análise do conteúdo manifesto dos dados, as relações de conflito
existentes, pelas quais as classes com menos acesso ao poder dos meios de
comunicação de massa puderam se articular através de suas lideranças e
ganhar voz e direito de determinar um novo caminho para a relação entre os
interesses políticos e os sociais.
Numa sociedade marcada pela desigualdade entre as forças econômicas e
da opinião pública, este fato é singular, pois a opinião popular nem
sempre consegue ser visualizada como opinião pública, uma vez que para
isto precisa ser legitimada pelos meios de comunicação de Massa., estes
dirigidos por forças antagônicas aos interesses populares.
Daí a fundamental contribuição da análise dialética, que se aprofunda
nas questões em foco a partir do conflito de interesses que as envolve, o
que não é claramente percebido quando o enfoque adotado é o positivista.
Desdobramento do Caso
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Prefeitura de Londrina envia à Comissão de Justiça, Legislação e Redação
da Câmara Municipal projeto de lei autorizando a doação da área do
aterro do Igapó 2, para construção de empreendimento de lazer. |
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Projeto é aprovado na Câmara em primeira discussão, em regime de
urgência. |
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Vereadora Elza Correia (sem partido) vota contra. Destaca que o aterro é
uma área de fundo de vale e questiona a necessidade da urgência na
aprovação do projeto. |
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Promotoria do Meio Ambiente solicita ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP)
estudo para apontar qual seria o impacto ambiental de uma obra no aterro
do Igapó. No mesmo dia, o prefeito Antônio Belinati declara que já havia
empresas interessadas no empreendimento. |
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IAP
entrega laudo sobre o Igapó. No documento, explica que seriam
necessários estudos mais detalhados para uma avaliação precisa sobre os
danos causados por uma obra no aterro. |
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Projeto finalmente é aprovado em segunda discussão na Câmara. Vereadora
Correia é a única a votar contra. |
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Alunos da escola Seta, de Londrina, vão à prefeitura entregar
abaixo-assinado com 390 assinaturas pedindo que a lei não seja
sancionada. |
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Vereadora Elza Correia cobra do Ministério Público medidas cabíveis para
evitar que área do aterro seja doada. Ela é acompanhada por alunos e
professores do Seta e pela Associação de Moradores do Jardim Maringá.
Promotoria solicita novo trabalho ao IAP, questionando se a área do
aterro é fundo de vale e quais as possibilidades de recuperação. |
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Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de
Londrina distribui manifesto repudiando a intenção da prefeitura em doar
a área. |
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Professores e alunos de vários cursos da UEL se reúnem no campus para
programar uma grande manifestação contra a doação. |
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Artigo do jornalista Walmor Macarini, publicado no jornal Folha de
Londrina, informa que a prefeitura já escolheu a empresa que vai receber
a doação do aterro. A empresa seria a InMonte (a mesma empresa que
estaria interessada na obra, segundo adiantou o próprio prefeito
Belinati em junho) e que teria, como sócia, a Construtora Plaenge, de
Londrina. No mesmo dia, imobiliaristas da cidade consultados pelo jornal
Folha de Londrina dizem que o valor da área do Igapó seria pelo menos
três vezes maior do que o valor avaliado pela prefeitura (quase R$ 1
milhão). |
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Prefeito de Londrina acata as reivindicações da população e desiste de
transformar a área do Igapó em empreendimento imobiliário. |
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Após
uma leitura detalhada das reportagens e das entrevistas, as colocações
mais relevantes foram categorizadas e agrupadas em "temas"
pré-estabelecidos. |
De acordo com o Franco (1994) tema é "uma asserção sobre determinado
assunto. Pode ser uma simples sentença (...) um conjunto dela ou um
parágrafo". Cada tema foi analisado quantitativamente, o que serviu de
suporte para posterior análise qualitativa a qual foi realizada, por meio
de inferências entre as fases do processo da formação da opinião pública e
a verificação das transformações sociais ocorridas neste caso.
Análise de Conteúdo
Tema 1 – Interesse político
"No dia
22 de maio de 1998 a Prefeitura de Londrina envia à Comissão de Justiça,
Legislação e Redação da Câmara Municipal e projeto de lei autorizando a
doação da área do aterro do Igapó II, através de licitação para construção
de empreendimento de lazer".
Walmor
Macarini
(Fonte:
Folha de Londrina)
Este processou começou com a decisão do prefeito Antônio Belinati em
transformar a área do aterro do Igapó em um Centro de lazer, alegando que
o terreno não estava cumprindo nenhuma função social e que este
empreendimento seria importante para o desenvolvimento econômico, pois
poderia gerar empregos e impostos para cidade.
O Prefeito afirmou que "não colocaria em risco sua carreira política
por causa da questão do aterro", o que mostrou um interesse político maior
do que a preocupação com o problema em si.
Segundo o depoimento da vereadora Elza Correia, a doação do aterro era
inconstitucional, pois ia contra a Lei Orgânica do Município, e todos
sabiam deste fato quando a lei foi votada. Além disso, acrescentou que, os
poderes do Executivo são limitados e que a desapropriação era apenas de
interesse do Prefeito e de alguns grupos econômicos.
Este fato foi o início de todo um processo que desencadeou a formação
da opinião pública, com o aparecimento de questões de interesse geral o
que gerou uma sensação de mal estar na população. Este primeiro passo,
representou uma tentativa de permitir discussão por meio da controvérsia.
Tema 2 – Meio ambiente
"É
importante para a cidade, não perder um espaço importante de fundo de
vale, o Igapó é a única coisa que resta de área verde, (...) Seria um
grande mal para o meio ambiente".
Osmani
Costa
É nesta fase que surgiu a definição da controvérsia mediante debates
preliminares exploratórios que seriam a segunda etapa do processo da
formação da opinião pública, pois foi o momento em que a população,
segundo o laudo do Instituto Ambiental do Paraná, teve a informação de que
o aterro do lago Igapó realmente era fundo de vale e portanto não poderia
ser transformado em empreendimento. Deveria ser preservado.
A atenção da comunidade foi despertada para o problema, através de
debates públicos, conversas, reportagens e editoriais de jornais. Os
peritos então foram convocados para esclarecer a questão junto à
comunidade apresentando as possíveis soluções. Neste caso, os peritos em
questão correspondiam a:
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Promotora do meio ambiente Maria Lúcia Reichenbach que requereu os
pareceres do IAP, o qual definiu que a área deveria ser preservada e
sugeriu a criação de uma comissão multidisciplinar que discutisse o
reflorestamento do aterro; |
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Efraim Rodrigues, professor do Departamento de Agronomia da Universidade
Estadual de Londrina, responsável por um laudo que comprovou a
impossibilidade de se construir um Shopping no local do aterro; |
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De
posse destas informações, a comunidade passa a ter respaldo para lutar
por uma causa que antes era somente uma hipótese. |
Tema 3 – Interesse público
Com a constatação do interesse público manifesto pode-se notar um
conflito entre o interesse popular e o particular.
O interesse popular estava representado pela união das forças:
Comunidade, Escola SETA; Poder Legislativo, representado pela Vereadora
Elza Correia; Ministério Público, representado pela promotora Maria Lúcia
Reichenbach.
Tema 4 – Mobilização
"A
mobilização conseguiu principalmente a tomada de consciência"
Profª.
Mira Roxo
Com o início da mobilização, encabeçada pela escola Seta de Londrina,
pode-se verificar o momento em que a opinião pública delimitou a
controvérsia, por meio de proposta e alternativas, provindas do debate
público. Esta é a terceira fase do processo de formação da opinião
pública.
Esta manifestação mostrou a importância da comunidade ingressar no
movimento, fazendo propostas e sugestões. É o que defendeu a vereadora
Elza Correia, quando afirmou que o povo deveria manifestar sua opinião
sendo ele o real detentor do poder.
Tema 5 – Força da Opinião Pública
"É uma
prova contundente e clara de que é preciso ouvir a população e o governo
municipal tem que ser participativo. (...) Mostra também que em próximos
embates desta natureza, o processo deve ser inverso: é preciso ouvir antes
de tudo a comunidade."
Vereadora Elza Correia
O Prefeito de Londrina, nesta fase já estava mais flexível e garantiu
que iria acatar a opinião da maioria, prometendo que faria no local o que
a comunidade escolhesse.
Com este depoimento e outros coletados podemos afirmar que a opinião
pública foi ouvida e suas reivindicações atendidas. Foi uma vitória da
democracia. Esta vitória demonstra o consenso a que chegaram as pessoas e
os grupos envolvidos. Aqui temos a última fase do processo de formação da
opinião pública.
Na opinião do jornalista Osmani Costa, "foi uma grande conquista da
comunidade, que meio sem acreditar que tinha força encontrou respaldo em
duas pessoas muito importantes, que foram a vereadora Elza Correia, que
denunciou a negociata que estava sendo tramada pela prefeitura e
iniciativa privada; e a promotora Maria Lúcia Reinchenbach, a qual assumiu
o dever de investigar e abrir inquéritos e processos, indo a fundo nessa
questão verificando a sua legalidade."
Para a população foi uma vitória maior, uma vitória única, uma prova de
que a comunidade ainda tem força para se impor e colocar as coisas como
ela quer.
Discussão dos resultados
Analisando os eventos ocorridos, cronologicamente organizados e
relacionados com as fases do processo de formação da opinião pública,
observa-se o seguinte quadro:

A sociedade civil foi representada e desenvolveu as seguintes ações:
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Escola SETA: elaboração de abaixo assinado, manifesto público de
repúdio à doação.
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Promotoria pública: desencadeou a análise legal da doação.
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Imprensa local: divulgação dos fatos e apoio às ações da sociedade
civil, ministério público e legislativo municipal;
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Universidade Estadual de Londrina: organização de manifesto contrário à
doação e análise ambiental da área.
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Associação de moradores do Jardim Maringá: apoio às manifestações.
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Fazendo uma análise quantitativa pode-se verificar que 114 matérias
foram veiculadas pelos dois principais jornais da cidade (94 na Folha de
Londrina e 20 no Jornal de Londrina), constatando a importância do caso.
CONCLUSÃO
A análise de conteúdo das reportagens e entrevistas realizadas sob a
perspectiva da metodologia dialética facilitou visualizar o
desenvolvimento das etapas do processo da formação da opinião pública, com
base em suas leis:
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Lei da transformação da quantidade em qualidade e vice-versa: onde os
dados quantitativos foram analisados qualitativamente por meio das
reportagens dos jornais locais e entrevistas, a partir dos quais foram
realizadas as inferências de caráter qualitativos.
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Luta dos contrários: visualizada entre o interesse público e o privado.
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A lei da negação: um fato precisa ser negado para ser superado. Esta
negação se caracterizou na apresentação dos laudos técnicos contrariando
os pareceres do Poder Executivo e as decisões do legislativo comprovaram
que a área é fundo de vale, portanto, área de prevenção obrigatória.
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Abriu-se assim, um processo de negação através do constante
questionamento das forças da sociedade civil sobre a evolução dos fatos.
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A visualização desta transformação social só foi possível de ser
observada através da metodologia dialética. Ela permite o aprofundamento
de uma análise numa perspectiva holística, desde a contextualização do
fato, seu acompanhamento histórico, a constatação dos conflitos para a sua
superação, até a conseqüente transformação social.
Dentro da área de Relações Públicas este enfoque contribuiu no sentido
de promover uma renovação no processo de formação da Opinião Pública
proposto por Andrade (1989), e que se baseia numa abordagem positivista e
funcional da Comunicação.
Por meio da dialética foi possível perceber o importante fluxo de
informação na mobilização da Opinião Pública e na sua tomada de
consciência sobre os fatos.

REFERÊNCIAS
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públicas. São Paulo: Loyola, 1989.
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