PROPAGANDA
GOVERNAMENTAL E REDEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL: 1985-1997
Heloiza
Matos
Professora
da Universidade de São Paulo
Este
texto pretende apresentar alguns resultados de uma pesquisa que procurou
investigar como o processo de redemocratização vem interferindo (ou não) na
utilização e no conteúdo dos filmetes das campanhas institucionais
televisivas veiculadas entre dezembro de 1985 e julho de 1997.
A
hipótese da pesquisa foi que os discursos governamentais refletem direta ou
indiretamente (o que se fala e o que se oculta) as falas dos governos. Trata-se
de descobrir onde se encaixa a publicidade institucional gratuita pós-ditadura.
Ela buscou parâmetros ideais estabelecidos pelos arautos da democracia ou
simplesmente deu continuidade aos termos do período militar? Diferenciou-se da
publicidade comercial? Seguiu uma linha própria de desenvolvimento ou
apresentou diferenciações profundas entre um governo e outro?
Dentro
do processo histórico-político que o Brasil viveu desde o retorno dos civis ao
Planalto (planos econômicos, quatro governos civis, diferentes configurações
nos processos políticos, etc.), é difícil apreender em que medida esse
discurso influi ou altera a realidade, mas essa fala, não obstante, apresenta
um imbricamento com a realidade política e social do país. A propaganda
institucional (seja ela de cunho informativo ou marcadamente política-ideológica)
“dialoga” com a realidade e com os cidadãos, exibindo e comunicando a
“marca” de cada período governamental, imagens do papel do Estado, apreensões
do panorama social e das mudanças sociais, planos de ação sobre o respectivo
contexto histórico.
Entre
os objetivos da pesquisa, esteve o de identificar as especificidades do processo
de comunicação governamental visto através das campanhas publicitárias, ou
seja, se ele se limita a difundir informações, se intenta modificar
comportamentos, se transmite uma “ilusão” de participação ou surge como
subproduto do conjunto de políticas governamentais. Também se buscou o
compromisso de classificar e analisar o processo de reprodução do discurso
oficial na publicidade institucional veiculada gratuitamente pelos quatro
governos civis, visando identificar a imagem institucional construída em torno
de cada administração.
Por
que as peças publicitárias de veiculação gratuita foram escolhidas como
expressão da comunicação governamental? Primeiramente, porque elas não são
sazonais, são veiculadas em horários nobres, com audiência garantida por um público
variado em termos de classes sociais. Os filmetes pesquisados podem ser
definidos por série de campanhas ou peças publicitárias institucionais com
duração unitária entre 30 e 90 segundos, produzidas de acordo com as demandas
setoriais, e veiculadas gratuitamente graças a um acordo entre o Governo
Federal e a ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão),
acordo este supostamente pautado por questões de interesse público. Cabe dizer
que apenas a veiculação é gratuita, mas não a produção. Essa publicidade
que convive com aquela de veiculação paga pelos diversos ministérios e
estatais, é normalmente produzida sem tantos requintes e possui o diferencial
de, oficialmente, expressar temas de interesse
público.
Ao
escolher as campanhas institucionais como objeto de análise, reconheceu-se a
necessidade de optar por um segmento da comunicação governamental e os
filmetes têm representatividade como veículo
(televisão) no universo das mídias. O discurso governamental pode ser
identificado na mídia por meio de pronunciamentos oficiais dos presidentes ou
membros do executivo, da propaganda dos partidos (iniciadas em 1996), do Horário
Político Eleitoral (sazonal) e das campanhas institucionais transmitidas em vários
veículos.
Os
filmetes também são representativos devido à sua audiência. Eles entram em
bloco, junto com a programação normal das emissoras de televisão, e
representam a fala governamental dentro desta programação, independentemente
da emissora. Com os filmetes pode-se projetar cenários para as demais mídias,
seja a partir de sua diferenciação, seja pela recorrência a temas comuns
frente a esses outros produtos da mídia. Não se pode afirmar que os filmetes
levam a uma mudança de comportamento do cidadão. Contudo, percebe-se que os
conteúdos sugerem transformações na configuração do mercado, nas
necessidades de informações novas que decorrem de mudanças sociais. Por outro
lado, as instituições públicas vão sofrendo transformações, e isso é
evidenciado nos filmetes.
A
partir do processo de redemocratização (1986), ocorre um distanciamento
acentuado das pesquisas acadêmicas de comunicação política em relação ao
setor público. A maior parte dos estudos nesta área concentra-se nos períodos
de arbítrio, focalizando o Estado Novo, o DIP, a censura durante a ditadura
militar... A reconquista democrática, a volta do sufrágio direto, atraíram os
pesquisadores brasileiros para a discussão das políticas suscitadas pela emergência
das novas tecnologias da comunicação e da informação no processo de
democratização,[1]
e também para os novos papéis da mídia, especialmente a televisão, como
co-produtores do sistema político, além dos estudos sobre os valores da
cultura democrática e do imaginário na construção do cenário de representação
política.[2]
Nesta etapa, a comunicação pública é minimizada como tema de pesquisa, a não
ser no que diz respeito à transformação desta modalidade para o marketing político.
O CENÁRIO DA COMUNICAÇÃO GOVERNAMENTAL
O
cenário da comunicação na denominada sociedade-mundo, ou sociedade global,
vem afetando o campo das relações comunicativas entre o Estado e a sociedade,
tanto no interior do Estado como nas interações que envolvem o governo, o
cidadão, as diversas instituições sociais e os meios de comunicação.
Por
isso, a pesquisa teve de lidar com vários conceitos de comunicação, buscando
ao mesmo tempo estabelecer sua ligação com a realidade dos filmetes estudados.
Optou-se por trabalhar, neste paper, com quatro desses conceitos: o de
comunicação política, o de comunicação governamental, o de comunicação
social e o de comunicação pública.
Embora
a diferenciação entre os conceitos adotados não seja sempre simples, pode-se
contudo chamar a atenção para alguns aspectos importantes. Por exemplo, é
preciso dizer que, dos quatro, o primeiro é o mais amplo e abrangente. Ou seja,
os outros três cabem, de certa forma, dentro dele e nele estão contidos.
A
Comunicação Política é a mais geral porque envolve todas as relações
comunicativas entre o Estado e a sociedade, sejam essas mediatizadas ou não, e,
característica que compartilha com as outras, independentemente do sistema ou
regime político.
A
Comunicação Governamental é mais pontual, e se refere a redes de comunicação
formais inseridas nas organizações públicas, e que têm como tarefa difundir
junto à opinião pública questões ou temas significativos que ocorrem na
esfera governamental – visando o conhecimento e a participação do cidadão.
Seu traço distintivo é a persuasão, principalmente através de mecanismos de
propaganda ideológica.
A
Comunicação Social se propõe, também, a ser persuasiva, embora não pretenda
ser propaganda política. Ela se imbui mais de um caráter social, pedagógico
e, até, religioso (uma vez que essa denominação foi proposta em uma encíclica
papal). Quer convencer, sim, mas por métodos relativamente menos agressivos e
invasivos, portanto, mais sutis.
Vale
dizer que tanto a Comunicação Governamental quanto a Comunicação Social,
enquanto denominação, mostraram-se flexíveis em suas aplicações, isto é,
foram utilizadas em regimes políticos muitas vezes divergentes: na ditadura
Getulista, no regime militar autoritário, e também no início do período da
redemocratização.
A
Comunicação Pública é um conceito recente no Brasil. Ela pressupõe uma
democracia consolidada, onde a interpenetração entre o público e o privado
admite a participação de uma ampla gama de setores sociais organizados, e
independe do caráter estatal de qualquer agente: exigindo sempre uma negociação
entre os atores, a comunicação pública envolve inclusive a esfera privada.
Com
a redemocratização brasileira, a comunicação
política[3]
passa a ser pensada também, paulatinamente, pelos governos civis como produto
da publicidade ou das estratégias de marketing, visando o convencimento, o
impacto junto à opinião pública e a busca de resultados imediatos. Conseqüentemente,
o discurso é reciclado de acordo com as circunstâncias, de acordo com as questões
candentes do momento: não se definindo como processo de reconstrução da
cidadania.
No
Brasil, a comunicação sempre manteve a tendência de ser pensada e se
constituir como comunicação social,
enquanto que, na Europa dos anos 80, começou a ser trabalhado o conceito de comunicação
pública. Este conceito se remete ao processo de comunicação instaurado
em uma esfera pública que engloba Estado, governo e sociedade, espaço de
debate, negociação e tomada de decisões relativas à vida pública nacional.
MIÈGE
(1989) observou que “a comunicação pública parece ser não somente um fator
de mudança para a administração pública, mas também um meio de modificar o
comportamento do público e suas atitudes, e de envolvê-lo em novas tarefas que
exigem sua adesão, a ponto dela aparecer como substituta da confrontação
face-a-face com os cidadãos”.[4]
Aliando
isto à tendência de perda de controle estatal sobre a propriedade da mídia
eletrônica, a comunicação pública foi se adaptando ao formato mercadológico
dos meios de comunicação privados, e sendo entendida, muitas vezes, de uma
maneira mais próxima do marketing político. Utiliza-se das pesquisas para
informar-se sobre a opinião pública e de métodos publicitários para alcançar
resultados imediatos. Prejudica-se assim o aspecto informativo, esclarecedor e
prestador de contas desta comunicação, que (in)formaria o cidadão
preparando-o para a participação na vida pública; e privilegia-se o lado
instrumental, inserido na competição política imediata.
Este
processo estaria realmente difundindo informações de utilidade pública ou
distanciando o cidadão do verdadeiro processo de tomada de decisões, dando-lhe
uma “ilusão” participativa? Se um governo privilegia a comunicação
informativa (no sentido do direito do cidadão à informação), toma o cidadão
como co-responsável pela condução administrativa; se prioriza a comunicação
persuasiva, põe o cidadão sob a tutela do estado em detrimento de sua
liberdade e dos próprios ideais democráticos.
Neste
sentido, a comunicação pública parece estar sendo vista como um discurso
estranho ao conteúdo geral da mídia de massa, que precisa passar por um
processo de decodificação específica. Daí esse discurso ser tomado como algo
“em separado” nas relações comunicativas entre governo e cidadão: uma
oficial, informativa ou persuasiva, constituída pelo discurso do Estado, e
outra incorporada às mídias em geral, entrando no universo das informações
de entretenimento.
ZÉMOR
(1995) considera a questão da comunicação pública em seus aspectos formais,
visando obter uma legitimidade de interesse público. Mesmo reconhecendo a fusão
atual entre mercado e Estado, o autor acredita na possibilidade de estruturar-se
uma prática que possa contribuir para “identificar a utilidade pública,
alimentar o conhecimento cívico, facilitar a ação governamental e garantir o
debate público”.[5]
Esses
vários objetivos pressupõem uma multiplicidade dos atores sociais envolvidos,
dificultando a conceituação da comunicação pública como modalidade da
comunicação política. Se o que se busca é a legitimidade e a
representatividade do poder estatal no sistema político, essa comunicação se
refere àquela travada entre partidos, candidatos, eleitores e mídia, e então
poderia ser considerada como política. Mas se aceitarmos um fluxo contínuo de
comunicações que vai do governo ao cidadão, mas que também faz o caminho de
volta, do cidadão ao governo, teremos de admitir a diversidade de gêneros e
formas de expressão que incluam os aspectos formal, informal, imaginário, e a
questão do limite entre o espaço público e privado.
CUTLIP[vi]
(1976) denomina como sistema público de informação de uma sociedade democrática
o conjunto de mensagens e suportes de comunicação, através dos quais o cidadão
toma conhecimento das atividades do governo e, ao mesmo tempo, comunica ao
governo suas opiniões e necessidades.
Neste
sistema público estão envolvidos o governo da nação, os líderes políticos,
os burocratas, os porta-vozes oficiais, os partidos políticos, as lideranças
sindicais, os grupos de pressão, a mídia, e os vários especialistas em
comunicação, inclusive os jornalistas. Cada um desses atores tem uma função
no processo democrático e a opinião pública emerge como resultado da interação
que se dá no campo do sistema público de informação.
A
visão de CUTLIP, embora defina a priori a ação, os limites e finalidades dos
atores no sistema, oferece a vantagem de pensar a comunicação pública no âmbito
da teoria da comunicação política, ou seja, como um campo onde imagens e
realidades são negociadas visando a legitimação dos diversos poderes.
Quando
se indaga se a comunicação pública tem um papel no processo democrático, é
preciso levar em consideração a evolução histórica do conceito e da prática
da comunicação pública e sua inserção atual.
ELLUL[7]
(1990) preocupa-se em conceituar a propaganda democrática, saindo assim dos
limites mais comuns do estudo desse gênero de atividade, que normalmente
pesquisa a propaganda vinculada ao autoritarismo. Através da análise de vários
aspectos de cada um dos termos (propaganda e democracia), o autor conclui que,
embora a propaganda seja necessária pelo simples fato de ascensão das massas
à cena política, são exatamente as características essenciais da propaganda
que dificultam alguns ideais e práticas democráticos. A condição de eficácia
inerente à propaganda não pode ser adaptada aos fundamentos democráticos de
respeito ao homem e ao cidadão. Essa contraposição entre os dois termos, e
também as categorizações da propaganda realizadas por ELLUL (política e
sociológica; de agitação e de integração; vertical e horizontal; racional e
irracional) estiveram presentes na análise de filmetes empreendida pela
pesquisa.
Em
relação à comunicação governamental investigada, torna-se necessário um
breve histórico da comunicação governamental pós-84.
O
Presidente Sarney, assumindo o poder após vinte anos de regime militar,
subordinou as atividades da comunicação social ao gabinete civil da Presidência,
com a função de coordenar a articulação governo/sociedade, especialmente nos
assuntos relativos à promoção dos direitos do cidadão. O governo recorreu à
publicidade institucional na proporção inversa da queda de sua popularidade
com o insucesso do Plano Cruzado. No total das campanhas veiculadas, poucas se
deram nos anos de 1985/86,[8]
exatamente quando a demanda de informações sobre o novo programa econômico
talvez fosse mais necessária.
Durante
o governo Collor (1990-1992), a utilização do marketing político foi
intensiva desde a campanha eleitoral. O fenômeno da relação entre a
necessidade de esclarecimentos sobre o plano econômico e a popularidade
presidencial se repetiu durante seu governo. O polêmico e antipopular Plano
Collor (1990) foi pouco acompanhado por campanhas institucionais, as campanhas
publicitárias recrudesceram quando a inflação voltou a apresentar um
crescimento.
No
governo Itamar (1993-1994), com o slogan
“Brasil, união de todos” o governo tentou retomar um estilo de
“brasilidade”, apoiando-se na organização da sociedade civil que havia
destituído o presidente anterior para se contrapor ao descrédito da classe política.
A
pesquisa estende-se apenas até os primeiros 18 meses do governo Fernando
Henrique, e exclui o período em que o tema da reeleição poderia influir
diretamente sobre a publicidade. Mesmo o PCI – Plano de Comunicação
Institucional, elaborado em 1997, que visava ditar novos rumos na comunicação
governamental, quase não foi sentido nos filmetes. De qualquer forma, no período
analisado, foi observada uma comunicação “marketizada”,[9]
apoiada na manutenção da imagem do governo ancorada ao fim da inflação e à
nova moeda.
A PUBLICIDADE INSTITUCIONAL DE CADA GESTÃO[10]
Sarney
Se
buscarmos tendências majoritárias no conjunto dos filmetes veiculados durante
a gestão Sarney, saltará aos
olhos a imagem de um Estado paternalista e democrático, que afasta do caminho
os resíduos do autoritarismo para marchar rumo a um futuro de participação
plena e bem estar social. Afirmar a existência de um discurso político-ideológico
planejado e consciente talvez seja um exagero, já que esta tendência da
propaganda[11]
oficial do período se alteraria já na metade do mandato.
O
discurso dos primeiros filmetes, no início da gestão, busca transmitir ao
telespectador a imagem do governo como defensor direto de significativa parcela
da população, garantindo direitos outrora negados ou esquecidos, e
interferindo diretamente na área social, silenciada e abandonada. Nesses
filmetes, constatamos a imagem de um Estado assistencialista, que intervém para
auxiliar a população em sua vida diária, levada em meio ao caos legado pelo
período anterior. Se essa presença providencial do governo é a primeira função
do Estado reconhecível no discurso da publicidade da gestão Sarney, uma
segunda função seria concomitante: a expansão dos direitos de cidadania, a
chancela de reconhecimento da Nova República.
Os
cinco anos de governo Sarney assistiram à veiculação do maior número de
filmetes nas áreas de Justiça e Cidadania, certamente em razão da convocação
da Assembléia Constituinte, mas também em decorrência do passado imediato de
arbitrariedade e repressão. Movimentos sociais organizados expuseram
diretamente, na publicidade governamental, suas vozes e reivindicações.
Durante todo o governo, as atividades do Ministério da Justiça são associadas
à promoção de justiça social,
encarada nos primeiros filmetes como a finalidade essencial da gestão em
andamento.
A
própria imagem do Presidente é associada com órgãos representativos ou
entidades civis. Abre-se espaço para essas vozes se expressarem sem intermediações,
um espaço que o governo considera de interesse público e no qual, pela
primeira e única vez, foi também um espaço de setores organizados da
sociedade civil.
Na
primeira metade do mandato busca-se consolidar uma imagem da administração.
Isto se faz através de um diálogo com o passado recente, com referências
constantes ao período autoritário. O novo
Brasil apresenta-se em construção, superando um tempo de abandono e
doença. A associação passado/doença foi a mais utilizada: além da área da
saúde ser nitidamente privilegiada pelos filmetes, estes veiculam um país em
estado de calamidade pública, doente, que necessita do amparo do governo.
A
insistência na imagem da guerra parece inclusive reavaliar o papel do exército
e da expressão “estado de emergência”. Se há um projeto de administração
difundido neste primeiro momento dos filmetes da era Sarney, este projeto não
é propriamente administrativo, ele está sob a égide da Constituinte: é o da
construção democrática a partir da estaca zero. Sim, a partir do nada, pois
até os filmetes posteriores ao fracasso do Plano Cruzado não há qualquer
referência ao período democrático anterior à ditadura militar (esta referência
a um passado democrático só surgirá em um[12]
filmete isolado).
O
paternalismo visível em alguns momentos estabelece laços de familiaridade com
a sociedade através de inúmeros recursos. Atos de cuidado e alimentação,
desenhos animados (Zé Gotinha), utilização de ídolos infantis (Renato Aragão,
Xuxa). Analisando um dos filmetes, que marca a participação de Xuxa na
campanha contra a paralisia infantil, podemos verificar com quem o governo se
comunica, qual a idéia que faz de seu público receptor e a crescente utilização
de técnicas publicitárias.
Este
recurso às técnicas publicitárias foi relatado por MARCELINO (1986),[13]
integrante da equipe de Comunicação Social do governo Sarney. Ele afirma,
contrariado, que a reforma administrativa, esforço que a equipe de governo (e o
próprio Presidente) consideravam essencial, necessitaria de uma campanha de
esclarecimento junto à opinião pública e ao Congresso. No entanto, segundo o
autor, a partir de um dado momento, a presença de agências de publicidade se
tornaria crescente na Comunicação do Planalto, e o esforço a partir de então
seria o de recuperar a imagem de um governo desgastado pelo fracasso do Plano
Cruzado.
Após
o fracasso nas tentativas em controlar a inflação, a queda de popularidade da
administração e a bancarrota das próprias contas oficiais, fazendo com que o
slogan “Tudo pelo Social” se desmoralizasse junto à opinião pública, a
propaganda governamental mudou de rumo e de tom. As imagens do Estado, de suas
funções, da democracia e da participação da sociedade se alteram
radicalmente. Também se modificou a forma com que o governo se apresenta à
população: o paternalismo protetor, a capacidade de resolução de problemas,
a força e a autoconfiança saem de cena, dando lugar a apelos e titubeios.
Em
primeiro lugar, associa-se a luta pelo pão de cada dia com a luta pela manutenção
dos direitos recém-readquiridos. Como conseqüência, reelabora-se a missão do
cidadão: o engajamento da sociedade na
realidade democrática não mais significa a maior participação na luta pelos
direitos legítimos de cidadania, mas se insere na luta pelo progresso, aqui
definido como a retomada do valor da moeda. O apelo ao diálogo, à
participação constitucional, é substituído pela imagem do povo na rua,
torna-se um apelo emotivo.
O
governo necessita de apoio popular, não é mais o grande seio protetor onde os
problemas se abrigam para de lá saírem solucionados. Faz-se entidade abstrata,
não tem mais capacidade de gerir todas as questões econômicas e sociais.
Lentamente, o Estado parece retirar-se de cena. Mas se o discurso foi alterado
nos últimos anos de governo, não foi substituído por uma plataforma coerente
de idéias. Há a percepção de um certo gigantismo estatal, há um certo
reconhecimento da falência em certas áreas (especialmente da Previdência), e
há o espectro da hiperinflação rondando a estabilidade política, assombrando
os investimentos sociais e, associado a velhos vícios da prática política
brasileira, entorpecendo aquela primeira sensação de festa democrática.
Collor
Durante
o governo Collor, duas temáticas aparentemente contraditórias, marcam a
propaganda do período: a autoridade do
Estado e o império das regras de mercado. Cada frase, imagem, vestimenta
e postura veiculadas nos filmetes são rigorosamente planejadas em função de
duas idéias-chave (autoridade e mercado). Mais: um rótulo envolvendo as
mensagens certifica seu conteúdo de modernidade, contemporaneidade e progresso.
Em cada filmete, a mesma mensagem visa atingir objetivos diversos: afirmação
da autoridade alcançada pelo voto; rejeição da imagem do governo anterior, tíbio
e incapaz; diálogo com focos de oposição; orientação ideológica e
comportamental; exposição de realizações administrativas; veiculação de um
conceito específico de modernidade.
Mesmo
a publicidade de produtos comerciais ligados ao governo (Lubrax, Listel,
Loterias, celulares), muito presentes neste período, não foge à regra. Os
produtos comerciais de alguma forma omitem a responsabilidade administrativa,
levam ao espectador apenas a imagem de modernidade.
Por vezes, descambam para o simples consumo (caso das loterias) mas, em geral,
inserem-se no ambiente competitivo de um mundo globalizado. Os produtos de
utilidade pública (listas telefônicas, telefonia celular) são dirigidos aos
seus públicos específicos. Aliás, a segmentação é uma característica da
propaganda do período. A temática dessa publicidade institucional divide-se em
quatro grandes preocupações, mescladas em cada filmete: as privatizações, o
combate à inflação, as realizações na área social, modernização e
desenvolvimento (normalmente traduzidas por questões de estilo de vida).
O
conjunto de filmetes dedicados ao combate à inflação jamais resvala na questão
do confisco, nem fazem referência ao Plano Collor. Esses filmetes são
elaborados sob um formato especial: o do jornalismo-denúncia. Com uma câmera
oculta, registram-se cenas “rigorosamente verdadeiras”, assim classificadas
pela voz em off que anuncia a matéria
publicitária com a tensão e sobriedade de um trabalho jornalístico
televisivo.
Cada
filmete dirige-se a um público específico. Jovens de classe média que gostam
de andar na moda, donas-de-casa de classe média alta com belas cozinhas, bens
supérfluos e boa fluência, donas-de-casa que vão à feira comprar o que é básico
na alimentação da família, trabalhadores de baixa renda. A linguagem se
altera conforme o público a ser atingido. A campanha veicula um determinado
diagnóstico da inflação, os responsáveis pelo flagelo, os mecanismos de
combate que estão à disposição da sociedade e, subrepticiamente, o papel do
governo nessa luta.
A
concepção de inflação veiculada refere-se unicamente a gastos e consumo
privados como fator de origem. A inflação é comportamental, cultural, nascida
dos hábitos de consumo e perpetuada pelos gananciosos auferidores de lucros
comerciais. O mesmo princípio que motivou queima de papel-moeda nas primeiras
semanas de governo ainda está em vigor: é somente o dinheiro em circulação a
causa do mal inflacionário.
A
figuração utilizada é a da doença: o vírus da inflação precisa ser
combatido. As frases finais dos principais personagens (Eu ganhei da inflação, Eu já estou vacinada, Vacine-se você também
contra o vírus da inflação) reforça a luta de cada indivíduo contra
uma situação doentia, degeneradora. Como as matérias que retratam lutas
individuais de pacientes contra o câncer. O denodo, a resistência mental, a
conscientização sobre a doença e a fé no futuro próspero são destacados
como a única saída possível para a sobrevivência.
Nos
mecanismos antiinflacionários, a nomeação dos culpados: comerciantes,
atravessadores, especuladores e, por que não, publicitários, empresários e o
mercado como um todo. Além desses, consumidores com qualquer estilo de vida que
inclua requintes supérfluos. Se a jovem que sai à procura de uma calça jeans
recomenda a pechincha, a dona-de-casa com uma bela e ampla cozinha vai ao limite
do discurso anticonsumo: não compre centrífugas, esprema laranjas
tradicionalmente. O momento é de não comprar nada além do necessário. Contra
a moda da etiqueta, a moda
do preço.
A
desqualificação atinge os comerciantes, figuras insaciáveis que querem
empurrar a mercadoria a qualquer custo. Desqualifica ainda produtos e produtores
(“marca da etiqueta” e centrífuga boa, mas desnecessária). Para combater a
inflação, é necessário nivelar-se a sociedade por baixo. A ordem é não
consumir supérfluos. Se o cidadão quiser um jet-ski
para se divertir nas férias, é melhor ganhá-lo de presente, mas não tirar o
dinheiro do bolso...
O
que parece claro, no momento em que essa campanha contra a inflação é
deflagrada, é que o leque de inimigos se amplia: não se isola a oposição à
esquerda, incluem-se vários setores sociais. O apoio político é buscado junto
à população, de modo geral. Descarta-se a sociedade civil organizada, a
imprensa, o empresariado nacional, o Congresso Nacional, etc. O governo está só,
com a televisão.
Se
a idéia básica de modernidade no governo Sarney foi a de participação democrática,
durante a curta gestão Collor a idéia do novo
associou-se ao progresso e desenvolvimento material. O atraso denunciado pelo
presidente Sarney era político: havia uma democracia a ser construída. O diálogo
com o telespectador tinha como pauta o Brasil e seus processos internos, a
restauração pacífica de um Estado de direito, democrático e legítimo. A
maior parte das imagens exibia o Brasil interiorano, prescindindo do litoral e
das urbes, conduzindo o olhar do cidadão para a realidade longínqua, mas
interna. Ficava ressaltada, nos filmetes Sarney, a dicotomia rural/urbano, e o
enfoque idílico recaía sobre o “Brasil Grande”.
Uma
imagem de desenvolvimento e progresso é refém de um modelo. Não havia parâmetros
externos na publicidade institucional da administração Sarney, o olhar era
voltado para dentro. Nos anos Collor, padrões de vida primeiro-mundista são
invocados. Algo que se apresente menor do que aquela realidade reluzente não
poderia ser aceito. O Brasil reabriu portos e mentes ao mundo globalizado, a
publicidade mostra que o país deve acertar o passo com os países
desenvolvidos.
Os
filmetes que dão conta do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade
levam ao ápice o discurso instaurador das soberanas regras de mercado. Enquanto
a abertura econômica e a recessão crescente causavam prejuízos e quebras em vários
setores da indústria nacional, o governo responde à grita de empresários com
uma acusação e um aviso: vocês estão habituados ao protecionismo, daqui em
diante quem tiver competência se estabelecerá. Nada de incentivos fiscais, política
industrial nacional, barreiras alfandegárias: o máximo que o governo oferece
é o Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade, plataforma para o produto
nacional adquirir competitividade no mercado global.
Desperdício,
ineficiência e baixa qualidade tornam-se, no filmete, marcas registradas do
produto nacional, agrícola ou manufaturado. Vale notar que essas peças
publicitárias envolvem um tema relativamente complexo: os meandros da produção.
No entanto, termos estritamente administrativos e/ou gerenciais começavam a
ganhar espaço nos veículos de comunicação. Expressões como ISO
9000, terceirização e reengenharia
tornaram-se correntes em jornais, revistas, emissoras de rádio, telejornais e
até na própria propaganda governamental.
Os
telespectadores não precisam conhecer todos os detalhes da realidade para
chegar a uma conclusão sobre onde estão o atraso e a modernidade. O uso de um
termo como “qualidade total” que, mesmo em voga, não possui significado
claro para a maioria dos cidadãos, garante o emblema progressista e atualizado
para o governo federal.
Itamar
O
curto período de mandato e as circunstâncias de sua ascensão não deram à
publicidade do governo Itamar a possibilidade de adquirir feições bem
definidas. A dissociação da imagem da administração do vice com o período
anterior é clara. A “nova era” do Real não surge com clareza. O ideário
político do novo presidente, anunciado pela mídia e por intervenções esporádicas
do próprio Itamar – nacionalismo, interiorização, resistência ao capital
externo – só são distinguíveis nas primeiras peças publicitárias. Por
outro lado, as imagens de um Estado e de uma sociedade em franco processo de
modernização se evaporam.
Alguns
filmetes aproximam-se muito do apelo emocional e nacionalista da série “Força
Brasil”, veiculada durante o governo Sarney. No entanto, dirige-se ao
brasileiro, ao “povo” como entidade, não ao Brasil como uma entidade
externa a essa população. A letra da canção do período Sarney era clara:
“Força Brasil/Me faz vibrar de amor e paixão/Força Brasil/Quero você
feliz/Força Brasil/Estamos todos com você”. Era como uma torcida empurrando
a seleção. A letra da canção do governo Itamar sequer se utiliza da palavra
“Brasil”. Sucedem-se imagens de gente trabalhando (seringueiros, médicos,
comerciantes) e é para essa gente que a lira vibra: “Esta nossa fé/Vem lá
da raiz/O povo é que é/A força desse país”. A primeira é fervorosa,
conclama o sentimento patriótico pela paixão, pelo fervor. A segunda é mais
mansa, veicula um convite à esperança e à fé. Ambas pedem por união e
otimismo – termos recorrentes em situações de crise administrativa.
Ao
contrário da publicidade anterior, os projetos governamentais exibidos em
propaganda referem-se às áreas sociais da administração. Há uma guinada
radical no discurso, se tomarmos por comparação os filmetes do período
Collor. Não se quer a comparação com o exterior, com seus sinais de progresso
e civilização. As campanhas do Pró-Labor,
por exemplo, que buscou incentivar a ida de recém-formados para trabalharem em
cidades pequenas, em todos os seus aspectos de apresentação condenam ideais
que sustentaram Collor no seu auge. Uma chamada para dentro, para o Brasil
interior. É aqui que o Brasil está em construção, com proeminência do
elemento humano e não das máquinas, da atividade febril de construção
urbana. Alguns filmetes aproximam-se muito do apelo emocional e nacionalista do
governo Sarney.
Enquanto
os filmetes da era Collor ora lembravam um videoclipe, com ritmo frenético e
imagens caleidoscópicas, ora reduziam-se à comunicação objetiva e estatística
sobre atos governamentais, os da era Itamar têm uma produção mais simples,
movimentos de câmera mais lentos e despretensiosos. Como se à nacionalização
da temática correspondesse a simplicidade, e à vertente mundializada
correspondesse o frenesi. Saíam de cena as críticas às carroças nacionais,
entrava em campo a exaltação nostálgica dos fusquinhas. Embora lembre o
Brasil veiculado no período Sarney, o Brasil destes filmetes vai aquém: não
é o mesmo “Brasil grande”, continental e exótico, é um “Brasil
caipira” voltado para as esferas municipais e interioranas.
A
campanha de Betinho e suas repercussões influíram diretamente na publicidade
do período. Os temas sociais foram privilegiados, até mesmo como forma de espaçamento
entre uma administração e outra. No entanto, se o fantasma da fome somente
apareceu no governo Collor durante as circunstâncias da seca, no governo Itamar
ele faz parte da política trabalhista, da política agrícola e da política
social, tornando-se uma temática durável.
Fernando Henrique Cardoso
A
publicidade institucional gratuita nos primeiros 18 meses da gestão FHC
utilizou-se, de certa forma, de algumas características da publicidade
veiculada durante o período militar. Em quase nenhum momento os projetos
governamentais discutidos e votados nesse período se deixaram transparecer na mídia
gratuita. Percebe-se claramente que, se há um projeto comunicacional, e
realmente esse conjunto de filmetes forma um todo coerente, esse projeto
partiria de uma determinada concepção da utilidade desse formato publicitário
e de seus objetivos.
Aqui
não se conclama os cidadãos à participação democrática, ou à uma idéia
vaga de “união”. Não se discute projetos administrativos, posições ideológicas,
questões sociais ou a conjuntura econômica. O objeto dos filmetes por vezes são
os mesmos apresentados na publicidade institucional do período Collor. Mas,
mesmos nestas coincidências temáticas, a mensagem é transmitida de forma tão
distinta daquela anterior que, em alguns casos, o conteúdo transforma-se em
algo totalmente diverso.
Os
filmetes deste período são, basicamente: educativos
– campanhas que visam a conscientização, por parte dos cidadãos, de valores
considerados indiscutíveis, “civilizatórios”, que intentam a melhoria da
qualidade da vida em sociedade; e formadores
da imagem de uma sociedade em transformação – os filmetes exibem a
face modernizante do novo governo, argumento presente em toda retórica
governamental, de forma sutil, sem maiores arroubos construtivos como foi na
comunicação do governo Collor, e sem teor político-ideológico como ocorreu
na gestão Sarney e mesmo na de Collor.
O
novo, o progresso ou a modernidade, na comunicação desta gestão, são fatos
consolidados ou em curso, necessitam apenas de algumas mudanças
comportamentais, ajustes técnicos para a melhor convivência com a nova ordem.
É nesse aspecto que esta comunicação se aproxima da do período de arbítrio.
A busca incessante de uma desideologização foi uma marca daquela publicidade,
assim como a temática comportamental foi o caminho para, pretensamente,
abster-se da discussão político-ideológica. Se atentarmos para a maioria dos
filmetes, ela versa sobre posturas do cidadão frente a uma nova realidade.
Também
à semelhança da publicidade da ditadura, não se dá a formação de uma
imagem governamental. Seria impossível apreender diretamente, sem outras fontes
de informação, algo sobre o governo brasileiro nestes filmetes. Eles formam
uma imagem da sociedade, uma visão do país como um todo. O personalismo é
reduzido ao mínimo: o governo simplesmente não surge em meio à realidade
social veiculada. Ainda à semelhança daquela publicidade, esta não é
segmentada: dirige-se à toda a audiência. Não há intenção de dirigir-se a
classes ou setores específicos da sociedade.
Embora
o teor das reformas administrativas e econômicas muitas vezes representaram uma
continuação da gestão Collor (privatizações, política de juros altos,
abertura econômica), a publicidade institucional gratuita não privilegiou
esses temas. E muito menos procurou refutar posições contrárias existentes no
seio da sociedade.[14]
Podemos
concluir que essa espécie de debate não foi considerada de “utilidade pública”,
por isso não devendo ocupar o espaço de veiculação gratuita. No entanto,
essa “desideologização” foi uma das características mais marcantes dos
dois primeiros anos de governo FHC, e não se restringiu somente à área
comunicacional.
As
reformas não precisavam ser defendidas junto à opinião pública pelo canal da
publicidade institucional. A mídia eletrônica apresentava a “urgência”
das reformas propostas pelo Executivo e a presumida inoperância do Congresso em
aprová-las. Apenas parte da imprensa escrita exibia as operações plásticas
sofridas pela Constituição a cada mês. Não se tratavam de princípios políticos
ou econômicos, mas de reformas que urgiam, enfim, tratava-se de um
“trabalho” apresentado como o único possível, dentro do único caminho. Não
é preciso haver debate quando se segue a ordem
natural das coisas. Se só há uma trilha reta, não é preciso
anunciar-se para onde se está indo. A publicidade institucional do governo FHC
pôde então tratar apenas da modernização do comportamento do brasileiro.
Na
publicidade institucional deste período, a marca do novo não se encontra no sistema político (como na gestão
Sarney), não se encontra no Estado ou em sua autoridade (como na gestão
Collor), não se encontra no Brasil unido em torno de questões éticas (período
Itamar). A publicidade institucional do governo FHC exibe uma sociedade que vive
um processo de transformação de hábitos e mentalidades. Isso é o que há de novo
e moderno no Brasil dos filmetes. Não há grandes negações,
grandes aflições representadas na publicidade –como o passado imediato da
ditadura militar, a hiperinflação, um Congresso intransigente na criação de
impostos, a seca no Nordeste, crianças miseráveis nas ruas... Estes temas são
para a imprensa falada e escrita, não fazem parte do imaginário da publicidade
institucional dos dois primeiros anos de FHC.
Os
pontos mais relevantes observados nas campanhas publicitárias do período
selecionadas na amostragem dizem respeito ao “produto Brasil” e ao novo
papel do Estado, agora um parceiro da sociedade organizada na resolução de
problemas sociais. Os problemas brasileiros expostos na publicidade
institucional são eleitos pela atualidade e, muitas vezes, pela opinião pública
internacional. Durante o governo Collor essa influência de uma crítica
globalizada também foi notada, mas os filmetes referiam-se constantemente aos
fatos do momento que ocupavam espaço na imprensa falada e escrita (seca, inflação,
privatizações, reforma administrativa). Durante a administração FHC esses
temas não integram as preocupações publicitárias. Nem mesmo a imagem
governamental é o foco principal dessas campanhas. A sociedade brasileira é
que tem sua imagem mercadológica trabalhada.
Se
a propaganda é uma atividade basicamente adjetiva e a ação do governo
substantiva, como cita Ellul (1990), a publicidade institucional de um governo
democrático deveria conciliar essas duas características. No caso desta gestão,
a publicidade foi, na maioria das ocasiões, fundamentalmente adjetiva,
excluindo a ação governamental e a divulgação de medidas administrativas,
visualizando o país como um produto que necessita aprimorar sua qualidade
final, agregar valores para, assim, tornar-se mais vendável.
CONCLUSÃO
Ainda
à guisa de conclusão, seria interessante notar que essa modalidade de comunicação
governamental pesquisada, justificada pelo “interesse público”, privilegiou
na maior parte do tempo (exceção feita aos dois primeiros anos do governo
Sarney), o uso das estratégias de marketing em detrimento de uma possível
“prestação de contas”, de um possível diálogo, de um canal de informações.
E, à exceção de raros instantes, essa publicidade governamental visou sempre
o convencimento, e não a informação. E o “interesse público” que norteou
essa publicidade limitou-se, no mais das vezes, a estabelecer uma marca da gestão
em andamento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] RAMOS,
Murilo César; “Papel dos Meios de Comunicação na Abertura Democrática”
in: Comunicação e Transição Democrática,
Porto Alegre, Mercado Aberto, 1985. pp. 246-263.
[2] LIMA,
Venício A. de; “Televisão e Política: hipóteses sobre a eleição
presidencial de 1989” in: Revista Comunicação & Política, vol. 9, pp.29-54,
abril-junho de 1990 e Matos, Heloiza (org.) - “Mídia, Eleições e
Democracia”, S.Paulo, Scritta, 1994.
[3] BRANDÃO,
Elisabeth – “Comunicação Pública” - paper preparado para XXI Congresso
Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, setembro, 1998.
[4]
MIÈGE, Bernard – “La Societe Conquise par
la Communication”, PUG, Grenoble, 1989.
[5]
ZÉMOR, Pierre - “La Communication
Publique”, PUF, Paris, 1995.
[6]
CUTLIP, Scott M. - “Relações Públicas no
Governo”, in: Public Relations Rewiew,
University of Georgia, Athens, 1976.
[7] ELLUL,
Jacques - “Propagandes”, Paris, Economica, 1990.
[8] Cf.
dados da pesquisa exploratória realizada no início deste estudo, envolvendo os
períodos Sarney, Collor e Itamar.
[9] BRANDÃO,
Elizabeth, “Comunicação Pública”, XXI Congresso Brasileiro de Ciências
da Comunicação, Recife, 1998.
[10] Agradeço
a colaboração, nesta fase da pesquisa, do doutorando Guilherme Fráguas Nobre,
da ECA/USP, e dos pesquisadores, Maurício Falavigna e José Guimarães.
[11] Quanto
a possíveis distinções entre os termos “publicidade” e “propaganda”,
reproduzimos aqui o comentário de Francisco Gracioso: “O que no Brasil
entendemos como propaganda corresponde, na verdade, ao que chamam de publicidade
em outros países de língua latina. (...) De qualquer forma, para nós o termo
propaganda é sinônimo de publicidade...” – GRACIOSO, Francisco –
“Propaganda Institucional”, São Paulo, Atlas, 1995; pp.19. Nosso texto não
visa insistir nesta distinção clássica entre, por exemplo, propaganda ideológica
e publicidade comercial, já que os termos correntemente se mesclam no Brasil.
[12] A
pesquisa se baseou em uma amostragem de 101 filmetes, número estatisticamente
relevante em um universo de 1200.
[13] MARCELINO,
Gileno – “Governo, Imagem e Sociedade”, Brasília, FUNCEP, 1988.
[14] Vale
lembrar, mais uma vez, que essas considerações restringem-se aos primeiros 18
meses do governo FHC. A partir do terceiro ano de mandato, dois fatores iriam
influir sobre a publicidade institucional. O primeiro refere-se a quando as
empresas que estavam sendo privatizadas despertaram um grande interesse no
capital estrangeiro (setores energéticos, de mineração e telefonia), e não
mais poderiam ser adquiridas majoritariamente por fundos de pensões (por falta
de cacife), e ao momento em que a oposição, pela primeira vez (ao menos no período
concernente a essa pesquisa) lançou uma série de filmetes televisivos atacando
as reformas em nome da soberania nacional. Aqui, tanto o formato como a utilização
da publicidade institucional televisiva se alterou radicalmente (embora não
tenhamos condições, ainda, de saber se a publicidade de veiculação gratuita
acompanhou essa mudança, já que não são divulgados, por parte do governo,
quais os filmetes de veiculação paga e quais são os de “utilidade pública”).
O fato é que o governo reformula toda a sua publicidade, buscando rebater acusações
e elucidar algumas medidas. Enfim, parte para o debate, visando demonstrar à
população seu ponto de vista. Um segundo fator foi a reeleição. Nos
primeiros 18 meses, a publicidade governamental não guarda traços
“eleitoreiros”. Nem mesmo o grande mote da administração, a moeda, é
excessivamente lembrado (com exceção de uma discreta referência no filmete
107). A partir do final do terceiro ano de mandato, os filmetes vão explorar o
bordão “Brasil Real”, exibir projetos governamentais na área social e,
especialmente, divulgar os programas “Comunidade Solidária” e “Brasil em
Ação”.

Trabalho
apresentado no VIII Encontro Anual da Compós – Associação Nacional de Programas de
Pós-Graduação
em Comunicação 1999.