SEGMENTO:
MULHER
Mariângela
Benine Ramos Silva
Cristianne Cordeiro Nascimento Tavares
Professoras
da Universidade Estadual de Londrina
INTRODUÇÃO
As empresas vêm passando por impactos revolucionários. A colocação e
venda do produto no mercado têm grandes desafios. Até bem pouco tempo, a realidade era,
e ainda é, em alguns privilegiados segmentos econômicos, a imposição do produto pelo
fabricante.
O consumidor era apenas uma decorrência passiva do lucro e sucesso da
empresa. Isto ocorria porque os recursos eram fartos, os consumidores ávidos e pouco
exigentes, os governos subsidiavam os produtos que estavam entrando no mercado, que não
eram tão lucrativos, ou os que tinham demanda social ou política. "A história da
empresa moderna representa um quadro bem acabado da evolução de desafios apresentados
aos administradores das organizações, que são profundamente influenciadas pelo
mercado" (Fortes, 1999, p. 61).
Administrar significa decidir sobre produtos e serviços que são
comercializados para se obter resultados. A essência do planejamento estratégico
consiste em perceber as oportunidades e problemas que possam surgir e tentar solucionar.
Constantemente as empresas estão frente a desafios totalmente novos,
diferentes dos habituais, normalmente extrapoláveis, pois a velocidade das mudanças é
mais rápida do que a resposta praticada habitualmente. De acontecimentos repetitivos,
prognosticáveis e previsíveis, que proporcionavam uma rotina na tomada de decisões, a
organização empresarial irá ter à sua frente cenários parcialmente previsíveis,
aumentando o nível e o volume de surpresas, ficando reservado, para os próximos anos, os
maiores índices de turbulência ambiental até então experimentados pelos planejadores,
mesmo aqueles habituados a enfrentar situações e contingências bastante adversas
(Fortes, 1999, p. 64).
Frente a essas mudanças aceleradas, as empresas devem se preparar para
enfrentar o futuro e desenvolver estratégias para acompanhá-las.
Em tempos de concorrência acirrada, as empresas precisam buscar maior
eficiência em suas estratégias e usar todo o seu arsenal de marketing disponível. Do
contrário, correm o risco de desaparecer do mercado.
A segmentação aumenta a chance de eficiência do marketing, ao chegar a uma
resposta de que as pessoas não são iguais. Que pessoas? Homens e mulheres, seres nem
superiores, nem inferiores, apenas diferentes. Apostando nesta diferença se tornou
imprescindível para uma empresa pesquisar "as sutis mutações do mercado"
(Richers, 1996, p.156), já que é o mercado que mais cresce.
As mulheres atualmente ganham mais, e compram mais, apostando nisso surge um
número cada vez maior de produtos e serviços destinados a esse segmento.
Richers (1996, p.158), cita que, "na medida em que a feminilidade se
impõe à sociedade, a mulher conseguirá exercer uma influência crescente sobre seus
pares e dar, inclusive, um novo direcionamento ao mercado. Este se tornará mais suave,
mais voltado a bens e serviços que enfatizam a sensualidade, a harmonia das formas e das
cores, e do funcionalismo que ajuda o consumidor as novas maneiras de expressão."
E é desse fenômeno mercadológico que iremos comentar, de quando e como
vender para mulheres.
SEGMENTAÇÃO DE MERCADO
Como sabemos, "o mercado é soberano, ele define o produto, o serviço e
o preço. Cabe às organizações buscar posição competitiva para atingir seus objetivos
estratégicos. Não existe fórmula. Existe tentativa" (Carvalho, 1998, p.55).
Segundo Kotler (1996, p.257), "segmentação de mercado é o ato de
dividir um mercado em grupos distintos de compradores com diferentes necessidades e
respostas." Lobos (1993, p.269) concorda com a definição de Kotler e acrescenta:
"divisão de mercado em populações de clientes que apresentam certas
características. É impossível prestar serviços igualmente excelentes a
todos os clientes imagináveis; daí a necessidade de segmentar. Para McCarthy e Perreault
(1997), a segmentação é colocada como um processo de agregação de pessoas com
necessidades similares.
Então, a segmentação é um processo que tira do todo heterogêneo e
subdivide-se em mercados menores que tenham características semelhantes. Deixando no
passado o conceito de produtos que servem para tudo, os famosos
Bombril, que de tantas utilidades acabam não servindo para nada.
POR QUE SEGMENTAR?
Para aumentar a eficácia da estratégia mercadológica. Porque os diferentes
públicos têm necessidades e desejos diferentes.
A empresa deve estudar o mercado e escolher os segmentos aos quais pode
servir, com lucro, melhor do que seus concorrentes. Ela não pode satisfazer todos os
consumidores em um dado mercado ou, pelo menos, todos os consumidores da mesma maneira,
cada um tem diferentes tipos de necessidades. O estudo de mercado envolve quatro passos:
 | Mensuração e previsão da demanda: a empresa necessita fazer uma cuidadosa
estimativa do atual e futuro tamanho do mercado e de seus vários segmentos. Para estimar
o tamanho atual do mercado, a empresa deve identificar todos os produtos concorrentes,
estimar suas vendas correntes e determinar se o tamanho do mercado é suficiente.
|
 | Segmentação do mercado: se a previsão para a demanda for boa, a empresa
tem que decidir como entrar no mercado. O profissional de marketing tem que determinar
quais são os segmentos que oferecem as melhores chances para a empresa atingir seus
objetivos. A segmentação do mercado consiste em classificar os conhecimentos em grupos
com diferentes necessidades, características ou comportamentos.
|
 | Definição de mercado: após estudar os segmentos a empresa pode entrar em
um ou mais segmentos de um mercado. Uma pequena empresa por servir apenas a um segmento,
enquanto que uma grande empresa pode oferecer uma variedade de produtos para servir a
todos os segmentos de mercado. Em um mercado novo, a empresa pode inicialmente servir a um
único segmento.
|
 | Posicionamento de mercado: A empresa tendo decidido em quais segmentos
penetrar, ela deve decidir que posição deseja ocupar nestes segmentos. Posicionamento de
mercado significa conseguir que um produto ocupe um lugar claro, distinto e desejável em
relação aos produtos concorrentes na mente dos consumidores-alvo. A empresa pode
diferenciar seu produto pelo estilo ou design, pelos serviços que acompanham o produto,
ou criar uma marca ou imagem da empresa que diferencie sua oferta.
|
Westwood (1996, p.71) afirma que "diferentes clientes têm diferentes
necessidades. Nem todos exigem o mesmo produto e nem todos exigem os mesmos benefícios do
produto. Mesmo em relação a um produto individual, nem todos os clientes o comprarão
pelos mesmos motivos."
Hooley e Saunders (1996, p.214) colocam os benefícios extraídos da
segmentação de mercado da seguinte forma:
 | A segmentação é uma abordagem muito útil para o marketing de uma empresa
menor. Ela possibilita visar mercados adequados às competências da empresa e torna
possível à empresa menor criar, dentro do mercado, um nicho defensável.
|
 | Ela ajuda a identificar lacunas no mercado: isto é, segmentos não atendidos
ou parcialmente atendidos. Estes podem fornecer áreas para o desenvolvimento de novos
produtos ou a extensão da gama de produtos ou serviços existentes.
|
 | Em mercados maduros ou em declínio, será possível identificar segmentos
específicos ainda em crescimento. A concentração nos segmentos em crescimento quando o
mercado geral está em declínio é uma importante estratégia nos estágios finais do
ciclo de vida do produto.
|
 | A segmentação permite ao profissional de marketing adequar melhor o produto
ou serviço às necessidades do mercado-alvo. Desta maneira, pode-se construir uma
posição competitiva mais forte.
|
Nunca é demais enfatizar os perigos de não segmentar o mercado quando os
concorrentes o fazem. As vantagens competitivas assinaladas acima podem ser perdidas para
a concorrência se a empresa deixa de aproveitá-las. Uma empresa que pratique uma
estratégia objetiva e delimitada pode se ver numa situação complicada.
COMO SEGMENTAR
Em um mercado constituído por três compradores, cada comprador pode ser
caracterizado como um tipo de mercado diferente. As questões que se colocam são: vamos
fazer um produto que atenda às necessidades específicas de cada comprador? Vamos
elaborar um produto que atenda de certa forma aos três compradores? Vamos adotar um
produto básico, com modificações específicas para cada comprador-mercado?
As segmentações disponíveis devem levar em conta:
 | as informações disponíveis para caracterização dos públicos
compradores;
|
 | as disponibilidades de recursos para atingir os públicos identificados;
|
 | as características de semelhança;
|
 | retorno ao esforço de marketing, isto é, qual o menor segmento para o qual
compensa preparar um plano de marketing.
|
TIPOS DE SEGMENTAÇÃO
Variáveis são usadas para segmentar mercados consumidores e estas são
classificadas em grupos de consumidores. Dependendo o autor nos traz um número diferente
de variáveis. Kotler (1996, p.241) divide as principais variáveis em:
 | geográfica (região, clima, etc.);
|
 | demográfica (idade, sexo, renda, religião, raça, nacionalidade, etc.);
|
 | psicográfica (classe social, estilo de vida, personalidade);
|
 | comportamental (benefícios, atitudes, grau de lealdade, etc.).
|
McCarthy e Perreault (1997, p.73) estabelecem as variáveis em número menor
e as divide em três: comportamental, geográfica e demográfica. Já Westwood (1997,
p.72) subdivide em um número diferente dos dois autores acima, ficando cinco o número de
variáveis: classe social, demográfica, geográfica, geodemográfica, psicográfica.
Todos os autores citados, concordam com a necessidade de classificar os
usuários finais, e que cada grupo destes comporta uma estratégia mercadológica bem
definida.
Esta rápida abordagem mostra que, tendo-se o mercado devidamente segmentado,
é mais fácil escolher o mercado-alvo e a estratégia adequada.
SEGMENTO: MULHER
A grande "sacada" da segmentação é deixar o mercado segmentar a
si mesmo, pois eles existem independentes dos produtos.
Atualmente os mercados estão cada vez mais fragmentados, e os profissionais
de marketing, estão buscando com maior freqüência, maneiras de identificar os melhores
segmentos de mercado.
Um segmento em que tem aumentado vertiginosamente é o de mulheres
consumidoras, que por natureza já gosta de gastar e agora com um poder aquisitivo maior,
haja fôlego.
Em uma reportagem da Revista Exame, de 8 de abril de 1999, Blecher
coloca muito bem sobre este segmento, onde as mulheres ainda são preteridas nas
propagandas e nos diversos grupos comerciais. Poucas são as empresas que aplicam
estratégias específicas para estas consumidoras compulsivas, o que é um erro, já que
de acordo com pesquisas, a decisão de compra por determinados produtos e marcas gira em
torno de 40 a 65%, dependendo do mercado.
As mulheres passaram a comprar produtos de categorias que antes era domínio
dos homens, mesmo produtos de uso exclusivo do sexo masculino, como cuecas, ternos, são
elas que escolhem para seus parceiros.
Qual a importância de se pesquisar tanto o que elas gostam ou como são
atendidas? A mulher busca nos produtos e serviços oferecidos pelo mercado benefícios
diferentes que o homem, ela é mais detalhista e gosta de ser paparicada por vendedores.
Cabe, às empresas, se quiserem aproveitar deste filão, descobrir o que, como e quando
vender para mulheres.
É o que bancos, como o Itaú, vêm fazendo em relação a esse segmento;
pesquisas relacionadas à qualidade dos serviços oferecidos por eles, o que não é em
vão, tendo em vista de que o contingente feminino cresceu nada menos que 30% nos últimos
tempos. O Banco do Brasil (Cartões de Crédito) mostra que também está preocupado com
este público e segmenta seu produto em menores grupos (teen, campus, class
card e ouro card), e atende o segmento mulher em níveis diferentes de
variações psicográficas e comportamentais. Já a Mercedes-Benz apela para as que
escolhem para seus parceiros e sugere que as leve para um test drive.
Peters (1998, p. 14-18), aconselha as empresas que dirijam suas estratégias
para as mulheres, por ser esse segmento de mercado uma excelente oportunidade comercial
para qualquer empresa.
Nos seus estudos, o autor verificou que as mulheres são as maiores
influenciadoras na decisão de compra. Por exemplo, nas indústrias automobilísticas elas
decidem de forma significativa, ou seja, cerca de 80% de todas as vendas no ramo é da
competência delas.
Ele argumenta que as mulheres são a grande "descoberta" do
século, e que as pesquisas de mercado apontam que as mulheres tomam ou influenciam
significativamente a maioria das decisões de compra, seja de moradia (95% nesse caso),
assistência médica, automóveis ou seja pacotes de viagem e muito mais.
Segundo Peters (1998, p.14-18), as empresas se surpreendem com o resultado
das pesquisas e principalmente com o perfil do segmento. O mesmo autor sugere:
 | "As mulheres são mais inteligentes do que os homens (59% dos cargos de
professoras assistente nas universidades (dados dos EUA), 55% dos bacharelados, 53% dos
mestrados e 40% dos doutorados).
|
 | "As mulheres são melhores gerentes que os homens (num estudo feito com
941 executivos, dos quais 672 homens e 293 mulheres, realizado pela empresa Lawrence Pfaff
& Associates, as mulheres ganharam dos homens, com diferença relevante, em 15 das 20
categorias analisadas, inclusive as mais difíceis, como planejamento, estabelecimento de
padrões e poder decisório).
|
 | "As mulheres são diferentes dos homens (as mulheres são mais
confiantes e destacam as diferenças).
|
 | "As mulheres compram mais e por motivos diferentes dos homens (Popcorn e
Margolis escrevem: Ele simplesmente quer que a transação ocorra. Ela, por outro
lado, está interessada em criar um relacionamento (...). As mulheres criam relações em
todos os lugares aonde vão (...). Tudo se torna uma experiência pessoal)."
|
Exemplificando a utilização desses segmentos de mercado, a cadeia de
Hotéis Westin está indo muito bem e colhendo grandes ganhos. Com pequenos detalhes
como ferros de passar roupa, espelhos de corpo inteiro e oferecer vinho ou entregar
a conta também para as mulheres e não sempre para o homem sentado à mesa
conquistou o público feminino. O executivo Jurgen Bartels percebeu a virada de que hoje
50% dos passageiros que viajam a negócios são mulheres.
Outro exemplo a ser notado é apresentado na revista Womens Sport +
Fitness: os protetores dos órgãos masculinos para a prática de esportes foram
inventados em 1874, enquanto o sutiã reforçado para esportes, apenas em 1977. Venda dos
sutiãs no primeiro ano: 25 mil. Em 1996: 42 milhões.
Peters cita que é necessário "perceber, esta é a jogada. E a
"pegadinha" também. Perceber, em minha opinião, não significa montar uma
campanha em prol das mulheres, mas sim reinventar. E reinventar nada mais é do que
reavaliar toda a empresa recrutamento, contratação, prêmios, promoção,
estrutura, processos, estratégia , visão, liderança e cultura. Menos do que isso não
serve. Ou melhor, não é suficiente para enfrentar a enorme oportunidade que está em sua
frente. A idéia fundamental é: as mulheres são a oportunidade de negócios número-um,
tanto em assistência médica, serviços financeiros, automóveis, educação, lazer,
recreação, esportes, software, produtos para escritório etc. etc. etc."
Fica evidente que o mercado tem buscado atender a este segmento falta só
consciência de como melhor fazê-lo.
CONCLUSÃO
As empresas necessitam de planejamento estratégico para sobreviver no
mercado que se torna cada vez mais competitivo, e a segmentação é uma ótima
alternativa para encontrar mercados-alvos potencialmente atraentes.
O Planejamento Estratégico Corporativo envolve a definição de missão
corporativa, estabelecimento de unidades estratégicas de negócios (UENs), alocação de
recursos a cada UEN e o planejamento de novos negócios, isto é, a empresas podem a
partir desse novo segmento de mercado analisar o ambiente externo, analisar as
oportunidades de mercado, estabelecer o posicionamento de mercado e decidir que posição
ela deseja ocupar neste segmento.
O estudo do mercado baseado em informações advindas do próprio mercado,
dos produtos ou serviços da empresa, da sua segmentação e dos sistemas de informação
utilizados, incluindo a pesquisa de mercado e, principalmente do consumidor, caracteriza
um grupo específico a ser levado em consideração.
E esse "novo segmento" deve ser muito bem explorado pelos
estrategistas de marketing.
O mercado "consumidor feminino", que com o avanço significativo na
vida profissional e com aumento de salários, as mulheres se tornaram o público que cada
vez mais decide e consome em todos os setores, mesmo aqueles que há pouco tempo eram de
exclusividade masculina.
Todos os dias, novos produtos são lançados para este segmento que apesar de
ser constituído de gastadeiras é extremamente exigente. A mulher
consumidora quando entra em uma loja não busca só uma transação comercial, na maioria
das vezes está interessada em criar um relacionamento com a empresa ou com a marca.
Dizer que os desafios que temos pela frente exigem uma forma original
de abordagem é um clichê que, de tão falado, já está ficando insuportável, mas vale
a pena insistir: Não é uma questão de técnicas certas. É muito mais difícil entender
as mulheres.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BLECHER, Nelson. Mulher procura. Exame,
São Paulo.
CARVALHO, Ary de. Não existe fórmula, existe tentativa. Isto É
Dinheiro, São Paulo, n. 33, abr. 1998.
FORTES, Waldyr Gutierrez. Transmarketing: estratégias
avançadas de relações públicas no campo do marketing. São Paulo: Summus, 1999.
HOOLEY, Graham J., SAUNDERS, John. Posicionamento competitivo.
São Paulo: Makron Books, 1996.
KOTLER, Philip. Administração de marketing. 4. ed. São
Paulo: Atlas, 1996.
LOBOS, Júlio. Encantando o cliente. 9. ed. São Paulo:
Instituto da Qualidade, 1993.
McCARTHY, E. Jerome, PERREAULT JR., William D. Marketing
essencial. São Paulo: Atlas, 1997.
PETERS, Tom. O poder das mulheres. Revista HSM Management.
São Paulo, n. 7, ano 2, p.14-18, mar./abr. 1998.
RICHERS, Raimar. Surfando as ondas do mercado. São Paulo:
RR&CA Editora, 1996.
SEMENIK & BAMOSSY. Princípios de marketing. São Paulo:
Makron Books, 1996.
WESTWOOD, John. O plano de marketing. 2 ed. São Paulo:
Makron Books, 1997.
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