Administração

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PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS
Estrutura e Funcionamento

 

Waldyr Gutierrez Fortes

Professor da Universidade Estadual de Londrina

 

INTRODUÇÃO

O modo de produção capitalista instalado no país definiu, há muito tempo, o tipo de empresário clássico que, geralmente, é visto como um homem de empresas multinacionais. No entanto, ao seu lado surge uma nova categoria de empreendedor com grande energia e muita vontade de vencer as adversidades do mercado.

Tradicionalmente, o empresário está às voltas com um impulso empreendedor mas, nos dias atuais, tem-se um grupo de empresários surgido em função do desemprego ou subemprego. Ao fazer qualquer tipo de abordagem sobre os problemas de expansão de uma empresa, deve-se considerar o empresário ou empreendedor que estará à frente dessa organização, podendo ser ele o principal agente motivador dos sucessos ou dos problemas desse autêntico processo de modificação das organizações por eles comandadas.

A tentativa que se apresenta é considerar esta análise sob o ponto de vista da conjugação de fatores ou características pessoais do empresário e do cenário apresentado para o crescimento ou expansão das organizações. Assim, parte-se da análise de alguns aspectos das pequenas e médias empresas e de seus empresários e de como eles podem influenciar a expansão futura.

O pequeno e médio empresário apresenta alguns pontos em comum na sua origem. O novo dirigente pode ter sido um ótimo técnico que tem o domínio de um determinado ramo de atividades e decide colocar esse conhecimento para seu próprio uso; um vendedor com uma performance brilhante que resolve capitalizar individualmente o seu sucesso nas vendas.

Pode, ainda, ser um eterno descontente que não se conforma em ser somente um entre muitos empregados de uma grande empresa, canalizando a sua vontade e empenho criador e sua energia para um negócio privado; e, mesmo, um empresário surgido em função de uma herança.

Ao se tornar empresário, o novo homem passa a se dedicar com afinco às novas funções, com sacrifício de sua vida familiar e pessoal, vendo a empresa como uma obra única, não tendo ninguém ao seu lado para compartilhar o poder, pequeno mas real, centralizando as decisões e ficando despreparado diante de uma situação conjuntural difícil, como por exemplo, uma crise econômica, sendo que a sua dedicação e empenho não são suficientes para encarar e resolver os problemas.

Poderá, também, ficar mais tempo envolvido com o sistema financeiro, público ou privado, tentando resolver problemas de caixa, do que administrando o seu empreendimento. Surgirá, então, mais uma categoria de dirigente: o empresário bem sucedido, pela satisfação de seus desejos pessoais, de uma empresa fora de controle.

Os problemas se agravam quando pode ser verificado que o estilo gerencial adotado pelo novo homem de empresa não assegura o sucesso da mesma. Um bom vendedor não se transforma, necessariamente, em um excepcional homem de Marketing ou um empresário de sucesso.

Esta análise é agravada quando se percebe que o empresário de pequena e média empresa não desenvolve uma consciência crítica da forma de atuação de sua companhia, principalmente em relação às corporações, analisando seus pontos positivos e negativos para deles extrair o seu caminho.

Apesar da relevância das pequenas e médias empresas na estrutura econômica vigente no Brasil, o valor e os problemas dessa modalidade de iniciativa ainda não estão sendo totalmente reconhecidos e equacionados a partir de um entendimento que as possa colocar em seu devido lugar.

Normalmente, as pequenas e médias empresas não são apresentadas como tendo características administrativas próprias, mas somente como uma curiosidade de um universo dominado por grandes companhias.

Os vários fatores presentes nas organizações empresariais e a multiplicidade de tarefas a elas solicitadas levam diversos autores a agrupá-las, classificando-as, na procura de denominadores comuns que auxiliem na difícil tarefa de melhor compreendê-las.

A mais comum classificação das organizações é de acordo com o seu tamanho ou porte, tipificando as empresas em micros, pequenas, médias, grandes e grandes diversificadas. Apesar de ser a mais usual, especialmente no Brasil, por finalidades fiscais e burocráticas, conceituar uma empresa pelo seu tamanho apresenta inúmeras dificuldades pela relatividade dos critérios adotados.

Conceituar uma grande empresa é relativamente fácil, pois a maioria da literatura trata do tema. A definição de pequena e média empresa, que à primeira vista aparenta ser simples, na realidade mostra que existem várias possibilidades.

Geralmente a classificação é em função do número de empregados e a maioria das entidades definidoras estabelece como microempresa, aquela que tem até 10 empregados; pequena, até 100; média, até 500; e grande, acima de 500 empregados. Esta classificação poderia ser aceita, mas se mostra frágil em função da aplicação de mão-de-obra, no sentido do tipo de empreendimento a ser realizado. Por exemplo, uma empresa de construção civil poderá ter muitos empregados e não ter o equivalente em faturamento que a justifique como uma grande empresa.

Outro critério, portanto, é o do faturamento. A classificação estaria ligada ao volume de recursos obtidos durante o período de um ano. Entretanto, esta mesma classificação poderá variar em função dos setores examinados, compreendendo desde a extração e tratamento de minerais, passando pelos diversos tipos de empresas (metalurgia, de transporte, de mobiliário, de papelão, química, alimentar, gráfica etc., por exemplo). Este critério também é relativo e não permite uma generalização.

O tipo de administração e a divisão do capital apresentam outra possibilidade de classificação. Uma empresa pode ser organizada de várias formas, dependendo da maneira como o capital se divide entre os proprietários. As pequenas e médias empresas se organizam na forma de sociedade por cotas, com responsabilidade limitada ou não, ou sob a forma de sociedades anônimas de capital fechado. As grandes empresas organizam-se, geralmente, na forma de sociedades anônimas de capital aberto, com ações livremente negociáveis nas bolsas de valores.

Nas pequenas e médias empresas, a direção é, habitualmente, entregue aos proprietários. Já nas grandes empresas, é freqüente a contratação de administradores profissionais para dirigi-las. Pequenas e médias empresas poderão, também, estar sob o controle do poder público, tendo uma direção por ele indicada.[1]

Além destas tentativas de definições, pode-se observar o “o fato de que um negócio empresarial é considerado pequeno ou médio, de acordo com determinado atributo — para um gênero ou setor da atividade econômica —, com o objetivo de atender uma finalidade específica, poderá também ser concebido como grande, ao se levar em consideração algum outro critério, setor ou objetivo organizacional; e porque o universo que compreende as pequenas e médias empresas é significativamente amplo, em virtude de o país possuir reconhecidas dimensões continentais e, ao mesmo tempo, apresentar intenso e heterogêneo desenvolvimento regional”.[2]

Pelo que foi exposto, verifica-se que existe um grande número de tentativas para se conceituar as pequenas e médias empresas, que consideram o número de funcionários e o critério de faturamento, mas nenhum deles satisfaz plenamente a necessidade de uma caracterização que considere as peculiaridades regionais, os ramos de negócios, o maior ou menor emprego de mão-de-obra e o alcance dessas empresas.

A proposta que se apresenta é um estudo comparativo de diversas características estruturais ou o predomínio de características, para que seja montada a correta definição dos eventuais portes das empresas presentes na economia nacional e, assim, realizar o exame dos problemas de sua expansão.[3]

ESTRUTURAS ORGANIZACIONAIS

As estruturas organizacionais observadas indicam que as pequenas empresas apresentam um organismo burocrático com um único nível hierárquico. Ao crescer, desenvolvem uma estrutura elementar, baseada nas funções de produção, comercialização e administração de pessoal.

O tipo de administração dessas unidades confunde-se com a própria companhia, quando o proprietário (diretor-geral e fundador) exerce uma direção unipessoal e autoritária, coordenando as áreas operacionais e tomando todas as decisões. Para desenvolver-se, implanta uma divisão real do trabalho e inicia a procura por profissionais habilitados para dirigi-la e gerenciá-la.

A origem do capital na pequena empresa está na economia familiar, de empréstimos obtidos por linhas especiais de crédito, ou é proveniente de um dos sócios. A companhia torna-se o meio de vida do proprietário e o nível de reinvestimento é muito baixo, pois a preocupação maior é com a sobrevivência, embora ele comece a pensar em termos de lucro, mais do que a simples remuneração pelo seu trabalho. Quando amplia suas operações, o retorno sobre o investimento é maximizado e o reinvestimento faz parte da rotina de planejamento da organização.

A relação do proprietário com o modo de produção demonstra uma separação rudimentar entre os processos técnicos e as atividades administrativas. A organização, ao apresentar sinais de ampliação, incrementa, por meio de profissionais, as funções de caráter administrativo.

O nível de assessoramento é muito restrito, e os sistemas de controle são pessoais. Para crescer, passa a exigir um assessoramento interno inicial mais sofisticado, ampliando o externo, e os sistemas de decisões operacionais e estratégicas implantados permitem maior delegação, baseando-se em regras previamente consideradas.

As políticas de administração de pessoal são assistemáticas e, com freqüência, paternalistas. Quando há crescimento, estabelecem-se políticas mais coerentes, com ênfase na estabilidade e nos serviços prestados, baseadas em critérios técnicos e nos custos operacionais, tornando-se cada mais impessoais.

ESTRUTURAS OPERACIONAIS

As pequenas empresas apresentam, normalmente, um único produto ou serviço para a comercialização. Sua definição é determinada por questões momentâneas de mercado, não necessitando, no caso dos produtos, de serviços complementares.

A produção é limitada à capacidade de vendas e utiliza processos técnicos simples. O sucesso com um produto ou serviço determina o incremento da produção e o aumento da cobertura do mercado pelo oferecimento de uma linha especial de bens, originando os serviços complementares, as preocupações com a qualidade e com as garantias dadas aos consumidores.

O domínio de uma tecnologia singela, suficiente para a fabricação de um produto, orientada pelo diretor proprietário, pode constituir a única atividade de pesquisa e desenvolvimento praticada na pequena empresa, havendo uma preocupação incipiente quanto à melhoria de produtos e processos.

Quanto à área de abrangência, a pequena companhia atua no seu próprio espaço geográfico e tem pouca participação no momento geral do ramo, utilizando a matéria-prima encontrada nas proximidades da empresa ou aplicando trabalho nas de fácil aquisição e transporte e mesmo em materiais pré-fabricados.

Emprega e distribui, também, produtos ligados a outras companhias, o que determina a sua condição de “satélite” de grupos maiores, embora conserve uma existência própria, procurando cada mais espaços para garantir a sua sobrevivência. Para expandir-se, a empresa estuda as possibilidades de abertura de filiais ou ampliações do raio operativo, participando ativamente do movimento geral do ramo, podendo estar abaixo de uma gigante ou organização líder do setor.

O mercado da pequena empresa é fronteiriço ou limitado, servindo, eventualmente, num âmbito maior mas a um número reduzido de clientes. Os canais de distribuição comportam somente a venda direta ou um percurso reduzido.

Os processos de vendas estão diretamente vinculados ao cargo do empresário ou são supervisionados diretamente por ele. Cresce aquela empresa que amplia o seu mercado, atendendo-o por meio de uma equipe de vendas e, eventualmente, por grupos dedicados exclusivamente a um determinado produto ou serviço.

As escolhas estratégicas da pequena unidade estão conexas às necessidades do proprietário e não especificamente às exigências da empresa. Quando existe a integração entre os objetivos da participação de mercado e a ampliação da linha de produtos ou serviços, a companhia está crescendo. Portanto, o tamanho da empresa tem ligação direta com a capacidade do empresário em administrá-la: uma organização continua pequena porque o seu dirigente não tem desejo ou condições de crescer.

Os resultados da análise de cada uma destas estruturas, permitem determinar a estratégia futura compatível com as capacidades inerentes ao empreendimento de menor porte; ao quantificar os hiatos que existem entre a disponibilidade atual de recursos e uma posição futura mais desejável, fornecem as bases para o plano de obtenção desses meios, escalas de prioridades etc., servindo também para as revisões da estratégica escolhida, necessárias face às mudanças que sofrem as condições internas, bem como o ambiente externo da organização.

Devido às grandes dificuldades de se encontrar um padrão genérico e aceitável  que classifique as empresas de acordo com o porte, principalmente pelas inúmeras possibilidades de combinação de variáveis, o exame das estruturas particulares das pequenas e médias empresas — as quais estabelecem o caráter e a constituição orgânica desse tipo de empreendimento —, evidenciam determinadas características bem marcantes e diferenciadas, tendo o tamanho como uma constante para se verificar as composições de seus recursos organizacionais dirigindo-os ao alcance de todos os envolvidos com a companhia (veja gabarito para determinação do porte da empresa, em anexo).

VANTAGENS ESTRUTURAIS E ORGÂNICAS

Qualquer unidade produtiva razoavelmente organizada defende o melhor aproveitamento de seus recursos humanos e materiais ao alcance das metas para as quais se dirige, atuando num ambiente de forte competitividade e, às vezes, essas capacidades não são totalmente explícitas. As pequenas e médias empresas têm algumas características específicas e sabendo administrá-las, independentemente do tempo de existência da companhia, caracteriza-se melhor o negócio, distinguindo-o dos demais.

O primeiro grupo de vantagens das empresas menores reúne os seguintes elementos:

flexibilidade: adaptam-se facilmente a novas situações e conjunturas;

mobilidade: deslocam-se para linhas inéditas de produtos ou serviços assim que são exigidos pelo mercado;

decisões rápidas: não há perda de tempo em exaustivas reuniões e nem a burocracia atrapalha a tomada de decisões;

contato direto com os clientes: o mercado fronteiriço proporciona uma aproximação com os consumidores, permitindo cumprir com presteza os aspectos de flexibilidade e mobilidade no atendimento diferenciado e constante;

informalidade comportamental: as relações são mais pessoais e familiares, possibilitando mais compreensão e união de esforços;

sentimento de grupo: é uma decorrência da informalidade comportamental, proporcionando mais participação por parte dos empregados nas decisões da companhia;

baixo ponto de equilíbrio: o resultado de lucro é conseguido com maior facilidade, pois os custos fixos são menores e os variáveis têm melhores condições de diminuição;

independência e liberdade de decisão e ações: os objetivos e metas que pretendem alcançar são determinados, definidos e arriscados pelos próprios empresários, não devendo justificativas ou pedidos de licença para nenhum órgão externo;

maior criatividade e iniciativa: são, normalmente, mais audaciosas, criadoras e abertas às novidades;

volume reduzido de investimentos: com os custos fixos menores, há mais capital destinado a pesquisa de novos produtos e tecnologias;

gastos gerais minimizados: as obrigações econômicas decorrentes de gastos administrativos, burocracia e serviços intermediários são menores.

Algumas vantagens das pequenas e médias empresas são de caráter operacional, como estas:

inventividade e experimentação: servem como campo de provas para novas idéias e produtos, novos serviços e materiais, os quais uma grande empresa é incapaz de testar ou não deseja experimentar;

antecipação ao mercado: os pequenos dirigentes não só acompanham como se antecipam ao mercado — concepções inovadoras podem ser postas às prova sem grandes investimentos de capital ou desenvolvimento do mercado de consumo;

atenção aos detalhes: atendem encomendas de produtos diferentes ou variedades de pedidos, como no caso de quantidades reduzidas de um item, com grande diversidade de modelos;

facilidade para alterar planos e programações: seguem com mais facilidade as tendências, especialmente as de mercado, tão logo essas comecem a mostrar sua força;

agilidade perante a concorrência: qualquer movimento dos competidores tem resposta por meio de medidas para reduzir os custos, por exemplo, proporcionando a diminuição dos custos finais dos produtos e/ou serviços;

maior controle da produção: com menos tarefas a programar, modificam os prazos normais do processo produtivo, cumprindo jornadas ampliadas, pela ausência de intrincadas etapas de coordenação exigidas pela produção em massa;

facilidade em alterar a produção: um simples telefonema de um  cliente resulta em providências imediatas, visto que as instruções não percorrem os longos canais de comando de uma grande empresa;

versatilidade: todas as mudanças características desse tipo de empreendimento são realizadas rapidamente e com custos baixos.

Todas estas vantagens das pequenas e médias empresas fazem com que as grandes empresas criem as suas unidades estratégicas de negócios e, mesmo com o crescimento de uma companhia, não podem ser perdidas, mantendo-as independentemente do porte da organização.

Entretanto, apesar deste quadro amplo e animador, não existem somente facilidades. As características das companhias de pequeno porte também são vistas pelo ângulo de suas desvantagens de estruturação e organizacionais.

PROBLEMAS PECULIARES

As desvantagens específicas das empresas menores, tidas como inconveniências, dificultam seus propósitos e suas funções nas áreas administrativas, financeira e tecnológica. Os problemas mais relevantes são os seguintes:

dificuldade de acesso às fontes de crédito: apesar da existência de algumas linhas especiais de crédito, a maioria das instituições financeiras não está preparada para atender esse segmento, exigindo o mesmo tipo de garantia e de nível de renda pedidos às grandes empresas;

escassez de matéria-prima e baixa qualidade: a falta de poder de barganha traz inúmeras restrições à aquisição de insumos necessários à produção, e quando os localiza, podem estar com a qualidade comprometida ou abaixo do nível exigido, acarretando problemas de qualidade dos produtos, diminuindo a competitividade com as empresas maiores;

mentalidade empresarial restrita: os dirigentes de empresas de menor porte apresentam dificuldades para as reivindicações comuns, com atitudes isoladas que inviabilizam qualquer movimento mais uniforme;

indefinição da estrutura organizacional:  o excesso de centralização das decisões e a natural impossibilidade do pequeno empresário administrar todas as áreas de sua empresa, acarretam um elenco de vícios e distorções que não apóiam o sucesso almejado pelo empreendimento;

instabilidade constante: a condição de “satélite” estabelece uma dependência irrestrita no crescimento das grandes empresas, inviabilizando os planos de maior prazo;

falta de especialização: as companhias menores apresentam mudanças constantes de atividades, não aprofundando os seus conhecimentos em um mesmo ramo empresarial;

dificuldade na análise do ambiente externo: o fato gerencial de estar o dirigente restrito ao seu ambiente, não percebendo os aspectos macroeconômicos que o rodeiam, distancia-o da realidade, aprofundando a falta de visão pela necessidade de assegurar a presença de familiares na estrutura da empresa;

sistemas de controle precários: a administração da empresa menor não está preparada para um acompanhamento mais apurado das condições de produção, dos estoques, horas trabalhadas, rendimentos de máquinas etc.;

problemas tecnológicos: a tecnologia aplicada, bem simples em seu conjunto, concorre para o surgimento de problemas variados que o empresário tenta resolver com seus próprios recursos e as soluções nem sempre são as mais adequadas e econômicas, reduzindo, com isso, a eficiência global da empresa;

dificuldades no recrutamento de pessoal: os trabalhadores, em qualquer especialidade, preferem as grandes empresas, em face das vantagens salariais, estabilidade e programas sociais.

As desvantagens das pequenas e médias empresas, por sua vez, são mais facilmente superadas nas unidades estratégicas de negócios, pela sua íntima ligação com a companhia-mãe, mas os valores presentes devem ser sustentados mantendo sempre a flexibilidade, principal característica das companhias de menor porte.

TRÊS CATEGORIAS DE ENQUADRAMENTO

O empresário que toma a iniciativa de criar uma companhia para atuar paralelamente aos grandes empreendimentos deve levar a pequena e média empresa a agir respeitando parâmetros que são assim definidos pelo assessoramento de Relações Públicas:

o lucro existe pela valorização da equipe que trabalha para conseguir esse objetivo, participando e sentindo-se compreendida e ouvida nas decisões administrativas;

o progresso total da empresa tem como base o desenvolvimento de seu pessoal encarado como alguém que acerta, para que haja o incremento de uma mentalidade gerencial;

as novidades não devem passar ao largo do universo das pequenas e médias empresas, com a finalidade de apresentar um produto ou serviço cada vez mais adequado e apropriado às necessidades do consumidor, resistindo a qualquer tipo de controle de qualidade;

a empresa é o somatório de variáveis e como tal é analisada e preparada para receber os impactos do ambiente externo;

as desvantagens de ser pequeno são consideradas com extremo cuidado e a tentativa é suplantar esta contingência com as vantagens de não ser grande;

a simplicidade burocrática constitui um objetivo, não se entendendo como crescimento da empresa o fato de se avolumarem os papéis sujeitos a exame;

nenhum dos subsistemas da empresa deve tornar-se tão imprescindível que, sem ele, a organização caminha para o colapso;

a solidez financeira é determinante para o sucesso da pequena e média empresa, pois a ascensão econômica do empresário somente será efetiva se vier acompanhada pelo progresso da empresa.[4]

A dinâmica empresarial e do mercado pode trazer a idéia do crescimento, baseada na premissa de que as pequenas e médias empresas são um estágio limitado para se alcançar, um dia, o estado de grande empresa.

A administração e os problemas de gerenciamento decorrentes da possibilidade de crescimento tendem a determinar um grande risco, pois “o crescimento resulta em mudanças tanto no tamanho como na forma da organização da empresa. O tamanho de uma empresa provoca impactos sobre os seus empregados, sobre a sociedade e sobre a própria organização empresarial. Existe maior tensão e o processo de despersonalização pode conduzir ao descontentamento dos indivíduos, apesar de estas conseqüências negativas serem parcialmente aliviadas pela presença de grupos informais. Por outro lado, o tamanho provoca impactos sobre a própria empresa, impondo problemas relacionados com controle, coordenação e comunicações”.[5]

Por todos estes motivos e pelo desejo de manter o empreendimento sob controle, o caminho pode ser a permanência na categoria de pequena ou média empresa, mas considerando a diferenciação e o potencial verdadeiro como base estratégica para o sucesso.

Para isto, a organização deve ser analisada detidamente e os resultados podem indicar que a companhia é considerada marginal. “Não possui nenhum traço diferencial, nem vestígio de criatividade, nada que lhe confira uma vantagem competitiva apreciável. A maioria das empresas marginais nunca ultrapassa sua pequena dimensão, permitindo a seu proprietário-gerente viver com certa independência em troca de grande sacrifício e de algumas exigências de trabalho, com freqüência, mais duras do que as que poderia oferecer-lhes um emprego em outra empresa.

“Muitas dessas empresas marginais nascem como resultado de uma intuição simples que leva a pessoa empreendedora a julgar-se capaz de fazer o mesmo que outros, mas de forma melhor. Assim, nos setores onde as barreiras de entrada são pouco importantes (confecções, calçado, móveis, brinquedos de plástico), é fácil encontrar zonas geográficas nas quais se desenvolveu uma certa concentração de pequenas empresas de uma determinada atividade, surgidas de operários que se tornaram independentes e acabaram criando eles mesmos suas próprias firmas”.[6]

São companhias marginais brasileiras os pequenos mercados, serviços rápidos de reparos, bares e restaurantes e outras semelhantes, bem como toda a economia submersa, para as quais não existe nenhuma possibilidade de crescimento na estrutura empresarial existente e praticada no país.

As possibilidades de crescimento passam a existir quando a análise indica que é uma empresa diferente — pequena, mas contendo alguma diferenciação. “Esta vantagem competitiva garante tanto a sobrevivência da empresa como a possibilidade de que seus proprietários ou gerentes consigam um nível de vida confortável. Evidentemente, a capacidade de supervisão eficiente por parte de seus proprietários tem um limite que determina o tamanho da empresa. Claro que a empresa poderia crescer ainda mais, mas isto exige outro estilo e provavelmente uma especialização, transladando-se sua competência específica da confiança na habilidade e capacidade de um profissional excepcional para a confiança na eficácia de determinado método”.[7]

Os exemplos relacionam-se com empresas especializadas, como as abrangidas pelos profissionais liberais — advogados, arquitetos, economistas — e outras áreas que prestam atendimento especializado, personalista e dirigido a uma clientela necessitada de apoio específico que uma grande organização, provavelmente, não poderia proporcionar. Crescer, neste caso, descaracteriza o empreendimento, baseado na diferenciação, confiança e capacidade profissional para atender essa clientela.

Considera-se, ainda, que ao abandonar um determinado segmento, essa empresa diferenciada tem o seu espaço no mercado ocupado por uma nova companhia que irá prestar os mesmos serviços que proporcionaram crescimento à primeira. Esta segunda categoria compreende a grande maioria das pequenas e médias empresas brasileiras estabelecidas há mais de cinco anos.

A terceira categoria abriga as empresas de menor porte com verdadeiro potencial. “Essas organizações descobriram um produto ou serviço capaz de atender uma necessidade ainda não satisfeita, ou realizada de maneira insuficiente ou imperfeita, tendo, como destino, o crescimento verdadeiro. A avidez dos mercados do mundo industrializado permite rápida expansão às empresas que descobriram um novo conceito de produto ou serviço.

“Nos anos 80, a eletrônica relacionada com o microcomputador, as tecnologias associadas ao raio laser, a biotecnologia e a engenharia genética, a robótica, o design e o lançamento para produção apoiados por computador, as novas tecnologias de fabricação de medicamentos,  o diagnóstico por imagens, a transmissão por fibras óticas, e muitas outras tecnologias permitem a formulação de novos produtos com enormes mercados potenciais. A aplicação da ciência em produtos úteis é em grande parte um fenômeno da chamada pequena empresa de alta tecnologia”.[8]

São aquelas empresas que se desenvolvem, basicamente, ao acompanhar as pesquisas tecnológicas das universidades brasileiras. Nesta categoria estão também as organizações que utilizam o sistema de franchising  para  comercializar novas tecnologias ou novos produtos e serviços.

Percebe-se, então, a viabilidade dos pequenos e médios empreendimentos, mesmo que permaneçam como tais. O assessoramento de Relações Públicas deve deixar claro que não há uma necessidade compulsória para o crescimento da organização. “Seria lícita a visão que encara, na pequena empresa atual, a média de amanhã, e a ”grande” no futuro próximo? Tratar-se-ia de um fenômeno geral, inerente ao crescimento econômico, ou apenas casos isolados, ocorridos em ramos específicos? Novamente, evidências empíricas e estudos sobre a história da industrialização brasileira parecem invalidar a tese do crescimento gradual e paulatino das empresas.

“Na maioria dos ramos, a criação e implantação de estabelecimentos industriais foram caracterizados pela presença do grande capital oligopolizado, desde o início, aproveitando os favores e incentivos mediante a política econômica, para impor e fortalecer seu domínio sobre os respectivos mercados”.[9]

Cabe, portanto, às pequenas e médias empresas procurar os caminhos não trilhados pelas grandes corporações, visto que essas concentram os seus esforços na acumulação de capital e tecnologia, muitas vezes não acessível às companhias menores. A alternativa pode parecer muito restrita, mas torna-se crítica para as atividades de outras companhias maiores e nesse caminho avança o pequeno empresário.

Além disso, crescer ou permanecer pequeno “não modifica a natureza de uma empresa ou os princípios da sua administração. Não altera a essência dos problemas básicos da administração de administradores. E não afeta de modo algum a exigência de administrar o trabalho e os trabalhadores”.[10]

A estrutura final de uma organização empresarial está ligada diretamente à evolução do pensamento acadêmico dos pesquisadores que a examinam. A evolução da sociedade contribui para que os seus aspectos determinantes fossem aplicados no modo de pensar dos administradores, adaptando as exigências sociais e culturais na estruturação de suas organizações e estabelecendo os sistemas mais sofisticados de controle, para que o poder capitalista estivesse assegurado pela reprodução desse mesmo capital.

Deste modo, a análise que se efetiva procurará contemplar os aspectos externos e internos que determinam as estruturas das organizações em função dos problemas comuns às pequenas e médias empresas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] DICIONÁRIO de economia.  São Paulo: Abril Cultural, 1985.  p. 138.

[2] CAVALCANTI, Marly, FARAH, Osvaldo Elias, MELLO, Álvaro A. A.  Diagnóstico organizacional: uma metodologia para pequenas e médias empresas.  São Paulo: Loyola, 1981.  p. 15.

[3] Levantamento de dados proveniente das seguintes obras: BETHELEN, Agrícola de Souza.  Política e estratégia de empresas.  Rio de Janeiro: Guanabara Dois, 1981; VIANNA, Marco Aurélio Ferreira.  Planejamento empresarial e alta administração.  In: ADMINISTRAÇÃO de pequenas e médias empresas.  São Paulo: IOB, 1985.  Módulo 1, p. 49; DUARTE, Thereza Regina.  Pequena e média empresa: conceitos, realidades e perspectivas.  Indust. & Produt., Rio de Janeiro, n. 103, p. 67-71, dez. 1976; MANAGEMENT CENTER DO BRASIL.  Modernas técnicas de administração empresarial.  Salvador: EDEB, 1970.  V. 4: Administrando a pequena e média empresa, p. 7 et seq.;  PEQUENA e média empresa: identificação dos problemas básicos.  Indust. & Produt., Rio de Janeiro, n. 63, p. 11-15, ago. 1973.

[4] VIANNA, Marco Aurélio Ferreira.  Planejamento empresarial e alta administração.  In: ADMINISTRAÇÃO de pequenas e médias empresas.  São Paulo: IOB, 1985.  Módulo 1, p. 50 et seq.

[5] CHIAVENATO, Idalberto.  Administração de empresas: uma abordagem contingencial.  São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1982.  p. 196-197.

[6] DOOLEY, Arch Richard, NUENO, Pedro.  A pequena e média empresa.  In: ADMINISTRAÇÃO de empresas: enciclopédia de direção, produção, finanças e marketing.  São Paulo: Nova Cultural, 1986.  V. 1, p. 195.

[7] Id., ibid., p. 196.

[8] Id., ibid., p. 196, 204.

[9] RATTER, Henrique.  Algumas hipóteses sobre as perspectivas de sobrevivência das pequenas e médias empresas.  Revista de Administração de Empresas.  Rio de Janeiro, v. 22, n. 4, p. 73, out./dez. 1982.

[10] DRUCKER, Peter Ferdinand.  A prática de administração de empresas.  São Paulo: Pioneira, 1981. p. 218.