OPINIÃO PÚBLICA E CONTROLE SOCIAL
Harwood L. Childs
Aproximamo-nos do término de nossas considerações sobre os
fundamentos das Relações Públicas, defrontando-nos com um paradoxo. Alegamos
ser Relações Públicas uma expressão que se refere aos aspectos de nosso
comportamento individual e institucional que tem amplas repercussões sociais.
Dissemos que o problema fundamental de Relações Públicas é colocar esses
aspectos em conformidade com o interesse público. E afirmamos que é a opinião
pública que, na última instância, melhor define o que é o interesse
público.
Notamos também que a opinião pública não constitui um
padrão estático e inflexível. Ela própria é o produto final de inúmeras
influências que a dirigem e modelam. Especialmente numa democracia, a opinião
pública está sujeita a uma mente numa democracia, a opinião pública está
sujeita a uma batalha incessante de propagandas concorrentes. Como indivíduos e
organizações, tanto a modelamos quanto a seguimos. Usamo-la como padrão de
comportamento institucional, e simultaneamente tentamos ajustá-las a nossos
desejos.
Nessas circunstâncias, temos diante de nós duas
responsabilidades essenciais. Temos o dever de descobrir os meios para ajustar
os aspectos de nossa conduta individual e institucional que tem amplas
implicações à concepção que a opinião pública tem do interesse público.
Para consegui-lo, temos de permanecer alertas, estudando e analisando nossas
relações com o público e ajustando-as às tendências da opinião pública.
Esse processo de ajustamento pode ser encarado de duas
maneiras distintas. A insatisfação pública quanto à nossa conduta pode
apoiar-se validamente nos fatos. Pode exigir uma modificação substancial de
nossas práticas individuais e institucionais. É próprio de homens de curta
visão imaginar que os desentendimentos são sempre as causas da hostilidade
pública. Tensões intergrupais podem originar-se, como freqüentemente
acontece, de uma apreciação real, ou talvez, mesmo, de uma compreensão
completa dos fatos. A causa de nossas dificuldades pode ser uma compreensão
demasiada e não uma incompreensão. As causas da desconfiança pública podem
não ser imaginárias nem fantasiosas.
Em recente reunião do Fórum de Relações Púbicas da
McGraw-Hill, perguntou-se por que razão as greves mais desastrosas ocorrem em
usinas que supostamente temos melhores programas de Relações Públicas. A
resposta, presumindo-se que esses "melhores programas" são
basicamente de caráter informativo, é que a administração utilizou a
premissa falsa de que as causas de intranqüilidade são imaginárias, e não
reais. Um estudo cuidadoso do comportamento e das práticas institucionais, em
termos de seus efeitos reais sobre os empregados, pode indicar que a fonte de
dificuldade não era a falta de informação ou compreensão por parte dos
empregados, mas sim a conseqüência natural das próprias práticas
institucionais.
Com grande freqüência, entretanto, o processo de
ajustamento requer uma ação de tipo completamente diferente. O desajustamento
pode provir da falta de compreensão exata das verdadeiras implicações do
comportamento institucional. É nesses casos que são valiosos os programas
informativos, como os da General Motors, da Companhia Telefônica e Telegráfica
Norte Americana, da Indústria Siderúrgica Norte Americana e de muitas outras
empresas. Esses programas, quando honesta e inteligentemente executados,
fornecem aos empregados e ao público uma imagem mais clara das atividades e dos
motivos institucionais do que teriam sem eles.
Nunca será demais salientar a necessidade de proceder, em
cada caso, à análise da situação total, a fim de diferenciar as causas reais
das imaginárias.
Nossas responsabilidades, entretanto, não terminam quando
nossas relações com o público são harmonizadas como a opinião pública.
Temos o dever, como cidadãos e membros de uma comunidade nacional, de auxiliar
a fazer da opinião pública aquilo que achamos que ela deve ser. Como disse um
escritor: "O problema fundamental da opinião pública não é descobrir o
que ela é, mas fazer com que ela seja o que deve ser".
A teoria democrática tem afirmações específicas a fazer
sobre o papel da liderança de opinião em uma democracia. Da mesma forma como
os autoritários, os liberais também reconhecem a importância e o poder da
opinião pública – o fato de todos os governos, todas as instituições,
todas as leis, o costume, a moral, os padrões do que é certo ou errado
receberem sua autoridade da opinião pública.
Além disso, liberais e partidários do autoritarismo
percebem igualmente que a opinião pública não tem origem espontânea, sendo
apenas um elo na cadeia interminável de causas e efeitos sociais. A verdadeira
diferença entre o ponto de vista democrático e o autoritário é que, de
acordo com o primeiro, a melhor maneira de aprimorar a qualidade da opinião
púbica é estabelecer uma situação em que haja o máximo de oportunidade para
que sejam apresentados os diferentes pontos de vista, e, de acordo com o
segundo, a melhor maneira de conseguir o esclarecimento popular consiste em dar
a responsabilidade da liderança um pequeno grupo de homens considerados
sábios.
A propaganda – disseminação consciente de idéias e
doutrinas – desempenha, pois, um papel definido, porém distinto, em ambas as
teorias. Os liberais acreditam que o aprimoramento da qualidade da opinião
pública ocorre muito mais facilmente quando as massas se defrontam com uma
multiplicidade de propagandas concorrentes do que quando estão sujeitas a uma
única. Os princípios democráticos, como todos os princípios, só se aplicam,
porém, em certas circunstâncias. Quais são elas?
Chegamos a uma nova etapa da vida da democracia,
caracterizada por uma luta mais ardilosa, mais intensa e mais ominosa para
conseguir o controle da mente dos homens. Dirigentes empresariais e lideres de
grupo, tanto quanto os governos, estão cônscios da importância da opinião
pública. As grandes estão revendo suas políticas de Relações Públicas,
estudando seus públicos e aperfeiçoando seus métodos de lidar com eles.
Associações comerciais e profissionais, sindicatos e grupos de pressão em
geral estão utilizando as práticas existentes e imaginando métodos mais
refinados para conseguir o apoio público. Instituições governamentais
oficiais acentuam a importância não só de refletir, mas também de liderar a
opinião pública.
O que é que nos acontece, entretanto, quando grande número
de grupos, de repente, começa a perceber a importância da opinião pública e
se lança sofregamente à concorrência propagandística dirigida pelos
especialistas? Começa uma corrida, que em nada difere da corrida armamentista
internacional; uma luta pela superioridade de instrumentos de propaganda
agressiva, que pode ser tão desastrosa quanto a luta pela supremacia nos campos
de batalha. O Grupo A moderniza seu trabalho de "Relações
Públicas". O Grupo B segue-o. O Grupo A aumenta suas despesas em anúncios
e publicidade. O Grupo B faz o mesmo. O Grupo A fabrica notícias, encena
demonstrações, produz filmes cinematográficos e compra o tempo de estações
de rádio e televisão. O Grupo B examina tudo isso com atenção e prepara a
resposta. A propaganda gera a propaganda. A competição pelo controle da
opinião pública torna-se intensa. Cada vez maiores quantias são destinadas a
esses fins. E o que resulta daí? Qual deve ser, necessariamente, a sua
conseqüência última, em termos de bem-estar nacional?
A meu ver, a correta função do propagandística é
auxiliar-nos a chegar a conclusões racionais sobre os assuntos importantes de
nossas diretrizes governamentais. Os propagandistas têm uma obrigação para
com seus clientes, é verdade, mas devem também realizar um serviço público,
pois estão relacionados com o interesse público. Em nosso sistema
democrático, eles são responsáveis pela liderança de opinião.
Sua responsabilidade social é tão definida quanto a de um
advogado, e hoje parece ser ainda mais vital. Nessa corrida de propagandas, os
líderes de grupo muitas vezes não se apercebem do fato de que, do ponto de
vista social, o importante não é o sucesso do seu empreendimento, mas sim a
sua contribuição para o esclarecimento do povo norte-americano como um todo. O
verdadeiro sucesso de uma campanha publicitária não pode ser medido em
centímetros de coluna de publicidade jornalística, em quantidades de cartas e
telegramas recebidos, ou em aumento de vendas. O sucesso social da propaganda
deve ter como medida o esclarecimento popular por ela proporcionando. A tese
democrática simplesmente não pode funcionar, a não ser que a concorrência
propagandística corresponda às suas responsabilidades sociais e procurem
esclarecer, em vez de confundir os seus concidadãos.
Os grupos de pressão identificam seus interesses com o
interesse público. Essa identificação não se pode efetivar com um simples
movimento de pena ou um agitar de mão. O público está sempre interessado em
decisões mais sábias e racionais quanto a assuntos de relevância para ele.
Sua competência para decidir sabiamente depende, em grande parte, do grau em
que os grupos de pressão esclarecem o seu espírito, e não da extensão em que
despertam instintos animais. Numa ditadura, em que a responsabilidade pela
liderança da opinião é centralizada e monopolizada por uma suposta elite,
talvez o efeito social dos apelos irracionais não seja tão desastroso. Em uma
democracia, porém, na qual a liderança de opinião é descentralizada e o
próprio indivíduo é levado a escolher, temos de estabelecer e manter os
melhores padrões de concorrência propagandísitica e assumir a
responsabilidade pelo que fazemos. Essa é a primeira condição para que a tese
democrática possa funcionar com sucesso.
Outra condição é a liberdade, a verdadeira liberdade de
propagar idéias e doutrinas independentemente de sua aceitação por nós. A
liberdade perfeita nunca existia, e talvez nunca venha a existir. O problema
consiste em reduzir, tanto quanto possível, os obstáculos artificiais que
impedem essa liberdade. A democracia é sempre um ideal em processo de
realização, nunca um fato completo em si. A liberdade de expressar suas
opiniões está sempre condicionada pela liberdade alheia. Não podemos usar
todos, simultaneamente, uma mesma estação de rádio, ocupar o mesmo púlpito,
ou utilizar o mesmo espaço de jornal. Esses obstáculos podem ser chamados
naturais.
Há também muitas barreiras artificiais que dificultam a
livre expressão da opinião. A liberdade de expressão está limitada não
apenas pela censura formal, mas, também, com relação a muitos, pela
impossibilidade financeira de usarem os modernos instrumentos de comunicação,
especialmente os de influenciação das massas. A teoria democrática pressupõe
que todas as idéias e doutrinas têm substancialmente iguais oportunidades de
serem apresentadas. Mas os públicos de massas só podem ser atingidos
eficientemente através dos instrumentos de influenciação das massas. O
problema está em descobrir o meio de proporcionar iguais oportunidades para o
seu uso em nosso sistema social, político e econômico.
A teoria democrática pressupõe também que a área de
concorrência da propaganda estará subordinada a condições que facilitarão
os processos racionais de pensamento, em vez de obstruí-los. É verdade que as
emoções não podem ficar completamente afastadas desses processos. Os
propagandistas, entretanto, afastam-se da democracia na extensão em que se
apoiam nos apelos emocionais, e não nos racionais. Eis a razão por que o
governo interfere, determinando as regras do jogo. Como exemplos, temos as leis
contra a difamação e a calúnia, e as que exigem a veracidade da propaganda.
Esses "advogados especiais", entretanto, dispõem
agora de tantos instrumentos para despertar as emoções das massas, que a
democracia precisa ir mais além na definição das práticas de propaganda
desleal. Se, para proteger o júri contra os ardis de certos advogados são
indispensáveis aos tribunais regras processuais meticulosas relativas à
apresentação de provas e ao interrogatório das testemunhas, quão maior não
será a necessidade de regras que regulamentem as atividades desses
"advogados especiais" no campo da opinião pública?
O estabelecimento e a aplicação de padrões gerais de
práticas permissíveis são uma ocorrência normal em nosso sistema
democrático. Isso não é censura, pois não se aplica arbitrariamente em
detrimento de certas pessoas ou idéias. Uma certa apreciação do problema já
pode ser observada, quando as emissoras nacionais, por ocasião da campanha
presidencial de 1936, adotaram a política geral de reduzir ao mínimo os
efeitos nocivos dos apelos emocionais. A liberdade de discussão, como
princípio do liberalismo democrático, não implica a ausência de regras para
melhorar a qualidade da discussão.
A competência da opinião pública para funcionar
satisfatoriamente numa democracia depende não apenas da apresentação adequada
das alternativas e da ausência de estímulos emocionais, mas também do tipo e
da quantidade de informações à disposição das massas. A quantidade de
informações que podem ser obtidas hoje em dia é muito grande. As bibliotecas
estão cheias delas. O material de leitura é abundante. Uma grande parte da
população freqüenta as escolas públicas. As ondas sonoras, a tela
cinematográfica e a imprensa proporcionam fontes adicionais de informação. Se
medir a competência da opinião pública em termos de informação que pode ser
obtida, ela parecerá muito maior hoje em dia do que em qualquer época
anterior.
Não é, porém, a quantidade de informação que produz o
esclarecimento público. Ela deve poder ser compreendida pelas massas e
relacionar-se com os problemas específicos em que estão interessadas. Um
simples acréscimo quantitativo pode confundir mais do que esclarecer. A
informação para ser útil, deve ser organizada e apresentada de modo a poder
ser assimilada. Alguns de nossos jornais são gigantescos reservatórios de
informações. Com demasiada freqüência, entretanto, o leitor do New York
Times ou do Herald Tribune põe seu jornal de lado com um sentimento de
irremediável confusão intelectual. Nossos sistemas educacionais procuram
trazer um pouco de ordem ao caso em que se encontram os estudantes, mas nenhuma
metodização curricular ou departamental existe nessa avalancha de fatos com
que se defrontam os adultos.
A suposição de que a qualidade das opiniões melhora, à
proporção que aumentam as oportunidades para a consideração de pontos de
vista alternativos, requer maior exame. A capacidade de pesar satisfatoriamente
os méritos relativos das opiniões em conflito pressupõe condições que
freqüentemente não existem. Como foi anteriormente assinalado, há poucas
regras, se as houver, para o exercício dessa "advocacia especial" no
campo da opinião pública. Não se determina a ocasião das audiências. Não
há ordem no processo, nem regras para apresentação de provas, nem prazos a
cumprir. Os assuntos permanecem indefinidos. Os advogados falam tantas vezes e
tanto tempo quanto querem. Antes de ser decidido um assunto, outros são
incorporados ao processo. Não há nenhuma tentativa de acareação. Quase toda
a argumentação é de iniciativa das partes. Um dos problemas mais angustiantes
do nosso tempo é por ordem nessa discussão. A liberdade de opinião não é um
fim em si; é um meio para chegar a um fim - o esclarecimento da opinião
pública. Ela só pode atingir o seu objetivo na medida em que sejam evitados os
abusos e colocada ordem nesse caos.
As emoções e os sentimentos são geralmente considerados
estorvos para o pensamento lógico. Desempenha, porém, na realidade, importante
papel, tanto na vida do Estado quanto na do indivíduo. Mas que papel? São
poderosos instrumentos de ação, extremamente úteis na transformação das
opiniões em desejos. Confundem-se, freqüentemente, as funções respectivas da
vontade e da emoção. No mundo caótico das propagandas em conflito, há quem
procure, deliberadamente, agravar essa confusão. A predisposição para pensar
com seus sentimentos é, com freqüência, estimulada e reforçada pelo uso de
símbolos - palavras ditas em tom emocional, imagens e apelos dramáticos - em
detrimento da razão.
Para estudar o papel que cabe à opinião pública em uma
democracia, devemos aceitar os fatos, considerando a opinião pública como ela
é. Não se pode pressupor a existência de condições que não existem, nem
considerar que as massas estão informadas, quando elas não estão; que tem
possibilidade de pesar com inteligência os diferentes pontos de vista, quando
elas não têm; que as emoções estão controladas, restringindo-se ao seu
papel apropriado, quando isso não ocorre. Apesar da enorme quantidade das
informações existentes, o cidadão comum nem sempre as recebe. Talvez não
tenha acesso a ela. Talvez não tenha tempo para estudá-la ou capacidade para
entendê-la.
Ninguém dedicou maior atenção a esses assuntos do que
Walter Lippmann. A seu ver, o papel que as teorias democráticas atribuíam, a
princípio, à opinião pública era demasiado idealístico; mesmo nas melhores
circunstâncias o público é incapaz de julgar o mérito de um assunto. O
máximo que consegue fazer, dizer ele, é decidir a qual dos grupos em conflito
diretamente relacionados com o problema ele dará o seu apoio. Cabe aos
cientistas sociais fornecer-lhe alguns critérios simples e objetivos que lhe
permitam chegar a uma decisão.
A análise de Lippmann apresenta muitas dificuldades. Uma
delas é encontrar essa lista de critérios facilmente reconhecíveis. Outra,
aplicar esses critérios a situações específicas e conseguir acordo quanto ao
modo de fazê-lo. Há também o problema de estabelecer uma linha definida entre
quem está dentro e quem está fora do conflito. Em questões relativas a
desemprego, guerra, impostos e outras semelhantes, os interessados constituem,
praticamente, a totalidade da população. Além disso, há o problema de
conseguir que o público abandone o hábito de não considerar os méritos dos
assuntos específicos, colocando-se, simplesmente, a favor de um ou de outro
lado.
Muitas outras sugestões têm sido formuladas para melhorar a
qualidade da opinião das massas. Uma que é oferecida com freqüência e muitas
vezes casualmente é a educação. A educação formal, entretanto, atinge
apenas uma pequena parte da vida dos cidadãos. Raramente lhes fornece, em
técnicas ou em informações, o equipamento necessário para acompanhar as
rápidas transformações das situações sociais. A lacuna existente entre a
ocasião em que se fazem os esforços para educar os jovens e a ocasião em que
eles estão aptos a utilizar efetivamente o que aprenderam é considerável. As
técnicas e informações aprendidas já estão, freqüentemente, ultrapassadas
no próprio dia da colação de grau. A opinião atual das massas, como
decorrência da educação formal, é em grande parte, o produto do que se
ensinava há quinze ou vinte anos.
O ensino público formal pode dar aos estudantes um
conhecimento do desenvolvimento histórico do mundo em que vivem, uma base de
informações sempre úteis na solução dos problemas quotidianos. Pode
dar-lhes, também, uma atitude mental, um método para encarar os problemas, o
que sempre tem valor. O treinamento sobre o uso e o abuso da lógica
auxiliá-los-á a evitar as piores armadilhas da irracionalidade. Submeter-se a
diferentes pontos de vista serve para adquirir um espírito de tolerância e
paciência. A educação formal, entretanto, não pode dar as respostas a muitos
problemas sociais específicos com que se defrontarão os alunos vinte anos
depois.
A democracia está entrando em uma era em que a idéia de
reunião de todos os cidadãos está sendo trazida do âmbito municipal para o
nacional. A conclusão de Platão de que a democracia – no sentido de governo
direto da opinião pública – é impraticável, exceto em comunidades de cinco
ou seis mil pessoas, não considerou o futuro impacto do desenvolvimento
técnico das comunicações sobre o âmbito e a natureza dos contatos humanos. O
rádio possibilita agora dirigirmo-nos, simultaneamente, a quarenta ou
cinqüenta milhões de pessoas, tão eficaz e convenientemente quanto os
oradores de outrora apresentavam seus pontos de vista a aglomerações de alguns
milhares. As dimensões da democracia estenderam-se muito além do alcance
normal da voz humana.
Ao mesmo tempo em que o desenvolvimento técnico aumenta a
extensão do que se ouve e do que se vê, possibilita também às massas
comunicar suas respostas aos governantes quase com a mesma rapidez com que os
governantes comunicam suas idéias a elas. Os dirigentes governamentais já
podem apresentar suas perguntas às massas em um dia e obter as respostas no dia
seguinte. O povo pode hoje ouvir as discussões sobre assuntos públicos, em um
dia, e julgá-las no dia seguinte, tal como fazia nas reuniões das cidades de
outrora.
Um momento de reflexão, entretanto revela que a nação, em
seu conjunto, está mal preparada para uma ação coletiva desse tipo. Não há
nenhuma das salvaguardas que facilitam as discussões e as deliberações
coletivas das reuniões de cidadãos. Na se marca a hora das reuniões, não se
estabelece, sistematicamente, a ordem dos trabalhos, nem as regras dos debates,
nem se formulam cuidadosamente as perguntas. Como se podem melhorar a natureza e
os métodos de discussão pública?
Em primeiro lugar, há necessidade de um centro de recepção
de idéias e opiniões, um reservatório onde os indivíduos e grupos com
idéias brilhantes e novas possam depositar as suas questões. Uma das
principais funções desse centro deve ser ordenar e classificar essas idéias,
eliminar as duplicações, reformular e integrar outras, a fim de que possam ser
apresentadas ao público de modo sistemático. A classificação ordenada
permitiria uma indicação mais significativa dos problemas. O cidadão comum
geralmente não consegue examinar todas as idéias e programas, e separar as de
menor e as de maior importância. É preciso haver uma instituição que faça
isso por ele.
Até certo ponto, os nossos órgãos legislativos servem para
esse fim. Qualquer um tem o direito de trazer-lhes, como petição ou em alguma
outra forma, quaisquer idéias ou planos que tenha. Partidos políticos também
se desincumbem, até certo ponto, dessa função. Infelizmente, entretanto eles
só o fazem periodicamente, e considerações eleitorais forçam-nos,
freqüentemente, a desviar-nos dos assuntos realmente importantes. Por melhor
que funcione nosso mecanismo eleitoral como instrumento selecionador de
candidatos a cargos públicos, ele fracassa totalmente como mecanismo para
definir e apresentar os assuntos públicos.
Se tiver de pedir ao público que expresse suas opiniões
sobre assuntos de interesse nacional é indispensável melhor o método de
seleção, formulação e apresentação das questões. Elas têm de ser
importantes. Devem ser tais que se possa esperar que o cidadão comum tenha uma
opinião a respeito delas. E devem ser formuladas de modo que as respostas
possam significar alguma coisa. Há uma série de entidades privadas que se
dedicam a pesquisar a opinião pública, mas o mecanismo dispendioso empregado
na amostragem da opinião é, com demasiada freqüência, utilizado para
finalidades triviais, ou em forma tal que os resultados obtidos tem pouco ou
nenhum significado prático. Esse mecanismo poderia ser levado a servi ao
interesse público de maneira mais adequada do que agora. Poderia tornar-se
parte integrante e socialmente útil no sistema democrático, em seu conjunto.
Do ponto de vista do cidadão individual, que é sujeito e
objeto da propaganda, uma questão vital é a seguinte: que propaganda aceitar e
seguir? Pode-se selecionar, entre as muitas propagandas concorrentes, as que
são socialmente desejáveis? Há critérios que indiquem as causas que são
boas e as que são más?
Muitos são inclinados a fugir à presente necessidade social
de uma resposta. Como cientista sociais, presumivelmente desprendidos, objetivos
e científicos, descendo os olhos para um mundo de homens e mulheres em luta,
preferimos analisar o comportamento social como o psicólogo e o fisiólogo que
examinam a história da vida ou o comportamento íntimo de ratos e camundongos.
Impermeáveis às conseqüências sociais, recusando ser incomodados com
questões de valores, sem mesmo nos preocuparmos com nosso próprio destino,
contentamo-nos com descrever, analisar, classificar e experimentar.
É indispensável a função do cientista social, daquele
que, socialmente imunizado, segue em busca da verdade. O mundo deve muito aos
que devotam suas vidas à busca de novos fatos e princípios. Mas não lhes deve
tudo. São também dignos de louvor os líderes de opinião, cujas filosofias e
ideologias tem desempenhado importante papel na evolução social. A busca dos
fatos e princípios deve continuar, mas, enquanto isso, a atuação das grandes
massas de homens e mulheres continuará a ser guiada por suas crenças -
crenças em ideais e valores, cuja verdade não pode, em última análise, ser
reduzida a irrecusáveis demonstrações de validade.
Sem dúvida, o melhor antídoto da propaganda é o fato, o
fato comprovado pelos melhores argumentos científicos disponíveis. À maior
parte dos problemas cruciais da sociedade moderna, entretanto, não se pode
responder em termos inequívocos e com base nos fatos. A verdade absoluta,
verificável através da experimentação científica, compreende apenas uma
pequena parte do campo em que devemos agir. Mesmo que fosse possível abolir
todas as formas de propaganda, pela simples razão de não poderem os ideais e
propósitos advogados sujeitarem-se à fria análise do tubo de ensaio de uma
experiência científica, ainda assim seria questionável a sua conveniência.
Até que toda a verdade seja revelada, haverá sempre lugar a fé, fé em algum
ideal, em algum Estado futuro, que parece ser, embora não seja possível
demonstrá-lo, superior ao que temos agora. Assim sendo, o problema fundamental
de qualquer ataque sincero à propaganda é, mais cedo ou mais tarde, o de
responder à questão: que propaganda?
Um momento de reflexão indica não haver padrões rigorosos
e imediatos segundo os quais possam ser diferenciadas as causas boas e más.
Essa conclusão deixa o cidadão, é mais especialmente o professor de ciências
sociais, em uma situação confusa. Pode-se, pois, concluir daí que, não
havendo padrões infalíveis para a verdade, toda e qualquer propaganda é, por
conseguinte, indiferentemente válida? Ou quer isso dizer, talvez, que devemos
renunciar à função de liderança de opinião e retirar-nos ao santuário dos
fatos e princípios demonstráveis?
Como a questão da vida e da morte, a opção, em última
análise, será individual. Podemos retirar-nos círculo interno onde só se
encontram os fatos e princípios cuja veracidade é indiscutível; e podemos
escolher, entre as variadas propagandas, quais as que devem ser seguidas.
Teoricamente, a resposta parece encontrar muitas barreiras filosóficas. O senso
comum e uma visão mais prática e realística da situação sugerem, porém, um
procedimento aceitável.
Sem exigirmos que qualquer causa, para conseguir nosso apoio,
seja considerada válida sem qualquer sombra de dúvida, podemos formular certas
perguntas para base de nossa orientação. Quem está advogando o programa, a
causa ou a plataforma? Quem está de fato, e não apenas na aparência, por
trás de tudo isso? Estão esses verdadeiros líderes de opinião motivados por
interesse sociais ou por interesses individuais? Seu conhecimento do assunto
sobre o qual estão falando é de primeira ou de Segunda mão? Os objetivos e os
meios propostos para atingi-los tem aceitação gera, ou são sujeitos a
críticas consideráveis? Quem se opõe a essa causa específica? Em nossa
estimativa, representam os opositores um grupo mais inteligente e com maior
motivação social do que aqueles que advogam o programa?
Essas questões e outras semelhantes se devidamente
consideradas, retirarão, de saída, o nosso apoio de muitas causas.
Deixar-nos-ão, entretanto, inúmeras outras, cuja utilidade social pode ser
assunto de debate. Embora nunca possamos estar certos de ter escolhido o único
ou o melhor caminho, uma resposta cuidadosa a essas questões resolverá pelo
menos, as principais dificuldades e evitará os erros mais sérios.
A tese democrática considera que, se assegura livre e
restrita competição às propagandas, a melhor, num sentido pragmático do
termo, prevalecerá. Sem tentar formular uma coisa que impeça ou prejudique a
liberdade de todas as propagandas tende a tornar a tese irrealizável. Além
disso, as influências que servem para levantar a competição do nível
emocional para o racional contribuem para o seu benefício. Em última
instância, depois de obtidos todos os fatos e depois de aplicados todos os
princípios pertinentes, o homem tem de apoiar-se na razão, no que de melhor
possa ser encontrado no domínio da inteligência e da prudência. Os perigos
sociais de escolhas insensatas serão reduzidos, em grande parte, pela atuação
de forças que dêem à razão oportunidade de prevalecer sobre a emoção. Não
se pode suprimir a propaganda. Talvez se possa, porém, levantar o nível e os
padrões da competição e, pelo menos, melhorar as probabilidades que a razão
tem de sobreviver. Devemos, pois, procurar evitar propaganda que negligencia a
razão e apela apenas para a emoção.
O propagandista é freqüentemente considerado digno de
crítica em virtude das causas que promove. Recebe, com igual freqüência, o
rótulo de mau em vista dos métodos empregados para conseguir o apoio público.
Os estudiosos da propaganda não tem poupado esforços na busca de provas de
informações deliberadamente deturpadas, de sonegação de fatos, de
adulterações, bem como de outras provas de mentiras dirigidas ao público.
Não há dúvida que existem práticas desse tipo. A mentira pública, porém,
da mesma forma como a mentira privada, não é característica particular dos
tempos modernos. Não é um método necessário e, freqüentemente, também não
é o que costuma ser empregado. Se eliminarmos de nossas considerações o que
podemos chamar mentira inconsciente, isto é, a sincera promoção de ideais e
causas que, posteriormente verificamos não o merecerem, descobriremos,
provavelmente, que a quantidade total de falsificação deliberada é menor do
que supomos.
Na avaliação dos métodos da propaganda devem-se considerar
não apenas os meios, mas também os fins. Da mesma foram como, em nossa
seleção das causas a apoiar, precisamos comparar valores relativos, assim
também, ao formularmos um julgamento sobre os meios empregados pelos
propagandistas, a validade do objetivo visado deve ser pesada juntamente com a
utilidade social da não utilização de certos meios. Aqui, de novo, o senso
comum e a razão devem ser nosso guia, pelo menos na maioria dos casos.
Certamente, se decidirmos que os meios empregados na promoção dos objetivos da
Cruz Vermelha Norte-Americana são aceitáveis, não teremos razão de condenar
os mesmos meios, como meios, quando usados para promover uma causa que
consideramos socialmente reprovável. Com demasiada freqüência, porém,
condenamos os meios utilizados para promover uma causa, simplesmente por não
acreditarmos nessa causa. Considerando a utilidade social de um regime de
tolerância, de concorrência propagandística; e considerando, ainda mais, a
vantagem de um nível de discussão racional tão alto quanto possível, o
problema dos métodos de propaganda utilizados passa a ser o do incentivo às
técnicas que apelam para a razão e da supressão daquelas que são
irracionais.
Que é necessário para uma compreensão inteligente da
propaganda? Em primeiro lugar, é preciso tomar consciência da sua extensão e
caráter; da variedade de filosofias, causas e ideologias que tem tido
importância através da história do mundo. Em segundo lugar, é necessário
compreender os métodos empregados, os vários tipos de raciocínio, de
argumentação e de persuasão cuja eficácia foi comprovada em promoções. Mas
é ainda mais importante estar consciente dos problemas filosóficos envolvidos;
estar consciente de que o problema fundamental é saber que propaganda seguir.
Porque, quando seguimos uma propaganda, devemos fazê-lo conscientemente, se
não quisermos ser tangidos como ovelhas. Não basta sublinhar os truques e
subterfúgios empregados. Não basta chamar a atenção para o mal, como o
concebemos. Sempre que possível, devem-se procurar os fatos. Quando não
puderem ser obtidos, deve haver uma busca interminável da melhor opinião,
qualquer que seja o campo em que estivermos atuando. Em outras palavras, a busca
da verdade deve continuar e, com freqüência a verdade de maior relevância é
simplesmente uma opinião inteligente ou uma crença prudente.
Através deste curso de onze palestras, tentei esclarecer a
conceituação de "opinião pública" e "propaganda",
mostrando as suas correlações com o assunto de Relações Públicas. Outros
conferencistas definiram "Relações Públicas" em termos da prática
atual dos indivíduos instituições. O que tentei fazer foi reunir a
multiplicidade da prática na unidade de um mosaico, a fim de podermos
compreender não só o que estamos fazendo, mas também a razão por que o
estamos fazendo. Convém agora, creio eu, resumir os vários pontos que forma
aqui formulados e explicados.
-
Relações públicas, em seu sentido mais amplo, referem-se
àqueles aspectos do nosso comportamento individual ou institucional que tem
implicações sociais.
-
O problema fundamental de Relações Públicas é por essas
relações em conformidade com o interesse público - um interesse que está
sendo constantemente redefinido pela opinião das massas.
-
Temos não só o dever de sujeitar-nos à opinião pública,
mas também a responsabilidade e a oportunidade de modelá-la e guiá-la.
-
Agindo assim, precisamos estar conscientes do significado
social da propaganda - do papel que lhe cabe na teoria democrática e das
condições essenciais para o seu correto funcionamento.
-
Em última análise, a opinião pública é aquilo que,
coletivamente, fazemos com que ela seja. Só quando procuramos, de todas as
maneiras possíveis, melhorar a sua qualidade, é que nos libertamos dos perigos
do conformismo.

Publicação original: CHILDS, Harwood L.
Opinião pública e controle social.
In:
_____. Relações públicas, propaganda e opinião pública. 2. ed.
Rio
de Janeiro: FGV, 1967. p. 160-176.