FORMAÇÃO DA OPINIÃO
Harwood L. Childs
As tentativas para descobrir índices fidedignos das
tendências da opinião pública e medir o seu estado tem sido acompanhadas de
indagações que perscrutam igualmente a natureza do processo formativo da
opinião pública. Propomo-nos nesta palestra a fazer um levantamento do
progresso obtido por estudos dessa espécie, a chamar a atenção para algumas
das hipóteses aventadas, e a indicar a natureza do problema tal como se nos
apresenta hoje em dia. Na conferência anterior, notamos que entidades
pesquisadoras, tais como o Instituto Americano de Opinião Pública e a revista
Fortune, baseiam suas práticas na suposição de que fatores tais como idade,
sexo, rendimentos e outros desempenham importante papel no processo formativo da
opinião pública. Será válida essa suposição? Estamos, afinal de contas,
realmente informados sobre esse processo?
Em primeiro lugar, cumpre salientar mais uma vez que a
opinião pública é apenas uma coleção de opiniões individuais. Se
conseguirmos descobrir como as opiniões pessoais se formam, saberemos como se
forma a opinião pública. As opiniões são sempre expressões individuais da
atitude. A crença de que há uma mente de grupo, uma entidade dissociada dos
seres humanos individuais, foi totalmente abandonada.
Em segundo lugar, é necessário apresentar de novo a nossa
definição de opinião. É meramente uma expressão, uma única expressão
verbal da atitude. Toma sempre a forma de palavras escritas e orais. Mas todas
as palavras que pronunciamos ou escrevemos constituem expressões de opinião?
Não devemos fazer distinção entre afirmações de fatos e expressões de
opinião?
O Dr. A. LAWRENCE LOWELL acredita que devemos distingui-las e
define opinião como "a aceitação de um entre dois ou mais pontos de
vista contraditórios, qualquer dos quais podendo ser aceito por uma mente
racional como correto". Esta definição da margem a duas questões
complicadas. Que é um fato? E o que é mente racional? Pessoalmente, não vejo
razão válida para restringir o sentido da palavra "opinião" a
expressões verbais da atitude, a pontos de vista "mantidos
racionalmente", por ser difícil definir o que queremos dizer com racional.
Pontos de vista e opiniões irracionais podem ter tanto significado político
quanto os puramente racionais. Penso, entretanto, que vale a pena distinguir
fatos e opiniões, apesar da grande dificuldade que há em fazê-lo.
Mas o que é atitude? O professor Gordon Allport tratou
cuidadosamente dessa questão. Depois de salientar que essas palavras têm uma
vasta gama de acepções, sendo usada pelos escritores com muitos significados
diferentes, formula ele a seguinte definição: "Atitude é um estado
mental e neutro de disposição, organizado através da experiência, exercendo
uma influência diretiva ou dinâmica sobre a resposta do indivíduo a todos os
objetivos e situações com que se relaciona". Neste sentido, o termo
distingue-se de palavras tais como reflexos, hábitos, instintos, desejos,
sentimentos e traços. O professor Thurstone define-a como "soma total de
inclinações e sentimentos, tendências favoráveis ou desfavoráveis,
noções, idéias, receios, ameaças e convicções humanas preconcebidas sobre
qualquer tópico específico". Podemos, pois, de um modo geral, considerar
a atitude como uma disposição, de parte de um indivíduo, para agir ou reagir
de uma determinada maneira, geralmente favorável ou desfavoravelmente, com
relação a um assunto ou objeto específico.
O terceiro ponto que desejo sublinhar é que uma completa
compreensão do processo formativo da opinião pressupõe um conhecimento de
como se formam as atitudes, o que, por seu turno, presume o conhecimento de como
a própria personalidade se desenvolve. O problema não é simples, mas sim
extremamente complexo. Biólogos e psicólogos tem dedicado maior atenção a
essa questão do que qualquer outro grupo de especialistas. Mas esse não é, de
modo algum, um problema que interesse exclusivamente a eles. O próprio fato de
a filosofia política e de a engenharia social e política basearem-se, em
grande parte, nas teorias da personalidade, põe em relevo a importância de
estar em dia com as pesquisas psicológicas. Seja ou não o estudo de Relações
Públicas um simples ramo da psicologia, o importante é conseguir a
informação mais abalizada de que se disponha, para auxiliar a resolver nossos
principais problemas sociais e políticos.
Por que as pessoas expressam as opiniões que expressam? Por
que pessoas supostamente bem informadas e razoavelmente objetivas têm
diferentes opiniões com relação à mesma questão? Por que algumas pessoas
exprimem opiniões, enquanto outras não o fazem? Por que encontramos
considerável acordo em algumas questões, e pouco ou nenhum em outras? A que
podemos atribuir súbitas mudanças de opinião em alguns assuntos e
estabilidade pronunciada em outros? Que fatores são os mais importantes no
processo formativo da opinião? Existem proposições gerais, relativas a esses
assuntos, que sejam válidas?
Pelo menos uma afirmação ou proposição pode ser feita com
segurança: que nossas opiniões são o que são por causa da influência de uma
multiplicidade de fatores. É perigoso aventurarmo-nos além desse ponto.
Tentando explicar porque motivo homens de bom-senso e sem preconceitos chegam a
diferentes opiniões, embora disponham da mesma informação, o Dr. LOWELL
destaca o efeito da atribuição de pesos diferentes às provas apresentadas; os
vários graus de atenção que as pessoas dedicam a um mesmo problema; e a
influência da emoção. Mas por que os homens experimentam diferentes reações
emotivas para com o mesmo assunto ou questão? E por que alguns prestam a ele
maior atenção do que outros? E por que, como decorrência disto, atribuem
pesos diferentes às provas apresentadas?
Walter Lippmann destaca o papel desempenhado pelos
estereótipos no processo formativo da opinião – imagem das coisas criadas em
nossa mente como resultado do que realmente vemos, ouvimos ou sentimos. O que
essas imagens são depende, naturalmente, não só do nosso acesso aos fatos,
mas também do seu impacto sobre nossa personalidade em constante
transformação. E assim, poderíamos continuar percorrendo a literatura, para
buscar explicações, mesmo contraditórias, para o processo de formação da
opinião.
Chegamos, novamente, à afirmação de que só poderá ser
resolvido o problema da determinação das causas de nossas opiniões se
descobrirmos a razão por que somos o que somos. Ninguém tem a resposta
completa. Sabem-se, porém, algumas coisas. Sabe-se que nossas opiniões, bem
como nossas personalidades, são o que são em virtude da interação das
influências da hereditariedade e do ambiente. Os estudiosos da biologia e da
psicologia enumeram e descreveram muitos desses fatores hereditários e
ambientais, especialmente os de natureza orgânica. Os estudiosos da sociologia
e das ciências sociais tem feito o mesmo em relação às influências
ambientais.
Uma pergunta pode ser feita: porque é preciso descrever tão
amplamente a gênese das opiniões? Por que não basta restringir nossas
considerações apenas às influências importantes? Mas, quais são as
importantes? Sem dúvida, o que lemos tem muito a ver com nossas opiniões sobre
certos assuntos. Mas, duas pessoas podem ler o mesmo livro ou jornal e chegar a
pontos de vista diametralmente opostos.
Têm sido feitas várias tentativas para enumerar e
classificar as influências que tornam nossas opiniões o que elas são.
Parte-se, geralmente, da distinção entre fatores hereditários e ambientais.
Daí em diante, há uma variação considerável. No que concerne à
hereditariedade, a noção de que as pessoas têm instintos específicos ao
nascerem tem sido grandemente desacreditada. Talvez cheguemos a este mundo com
certos "reflexos predominantes", como os chama o professor ALLPORT,
mas estudos psicológicos recentes têm salientado a natureza plástica e
maleável de nosso equipamento hereditário. Temos, de fato, algumas
potencialidades, que assumem diferentes formas segundo o ambiente em que se
desenvolvem. As opiniões certamente não são herdadas, nem as atitudes. Os
homens não nascem radicais ou conservadores, e muito menos partidários do New
Deal ou do comunismo. As nascer, eles são apenas um conjunto de potencialidade.
Isto não significa que não se possa predizer, até certo ponto, a cor da pele,
o tipo de cabelos e alguns outros traços. E, todavia, é tão grande a
influência do ambiente, que, mesmo com relação a essas características
físicas, nossas predições podem malograr.
Não se conclui daí que as influências ambientais sejam
decisivas. As potencialidades humanas, mesmo por ocasião do nascimento, variam
de pessoa para pessoa. O ambiente pode servir para reduzir as diferenças em
alguns aspectos e aumentá-las em outros. Defrontamo-nos com um processo
crescente de desenvolvimento, em que os fatores hereditários e ambientais
estão agindo e reagindo uns sobre os outros. Deste processo de interação
surge uma personalidade individual, com certos hábitos, atitudes e traços que
são comuns a muitos, e com outros que são únicos.
No que diz respeito ao ambiente, é costume classificar os
fatores em físicos, biológicos, psicológicos e sociais. Essas categorias
podem dividir-se e subdividir-se indefinidamente. Parece não haver, entretanto,
uma base de subclassificação que seja de aceitação geral. Os fatores
físicos compreendem a geografia, o clima, os recursos minerais, a topografia e
muitos outros aspectos materiais do meio em que vivemos. Sem dúvida, o lugar em
que vivemos e trabalhamos tem muito a ver com nossas opiniões. Mas há muita
coisa que nos falta saber.
Muitos estudiosos têm procurado explicar as
diferenças e também as uniformidades de opinião, em grande parte em termos de
um desses fatores. Nosso ambiente biológico, a presença ou ausência de formas
específicas de vida animal ou vegetal, e as características raciais daqueles
com quem estamos associados muito tem a ver com nossas atitudes e opiniões.
Nosso ambiente psicológico também é importante – as atitudes e opiniões de
nossos companheiros, bem como as idéias que tem e expressam.
Além disso,
devemos tomar em conta os padrões de organização social e de vida
institucional. Nossas opiniões e nossas crenças estão sendo constantemente
afetadas pelo caráter das instituições políticas, sociais, econômicas e
religiosas que nos cercam. Já é frustradora a simples enumeração de todos os
fatores que tornam nossa opinião o que ela é, para não falar do problema da
ponderação de sua relativa influência.
Como foi notado previamente, o Instituto Americano de
Opinião Pública, a revista Fortune e outras entidades pesquisadoras baseiam-se
na teoria de que o sexo, a idade, o lugar de residência, o rendimento e talvez
a raça, a religião e a filiação partidária são as influências mais
importantes que tornam nossas opiniões o que elas são. Fundamentam essa teoria
em sua experiência que parece indicar que uma amostra relativamente pequena,
que, nesses aspectos, seja proporcional à população total, será também
proporcional a ela no que concerne às suas opiniões. Se isto é verdade, está
aí uma descoberta de importância fora do comum. Se, ao saber onde uma pessoa
mora, qual sua idade e sexo, se ganha muito ou pouco, e se pertence a uma certa
raça ou a um determinado partido político, pudermos com isso predizer as suas
opiniões, então muito do mistério que cerca o problema da formação da
opinião desaparecerá. Há, porém, dificuldades que acompanham esta
suposição.
Um exame dos inquéritos realizados pelo Instituto Americano
de Opinião Pública, de outubro de 1935 a maio de 1938, indica uma variação
considerável no grau de concordância das respostas. Em muitas questões, como
foi anteriormente indicado, mais de 85 por cento dos respondentes expressaram a
mesma opinião. Na maioria delas, porém, a concordância foi menor, e em
muitíssimos casos a opinião estava dividida em partes iguais ou quase iguais.
Se, porém, fatores tais como idade, sexo, local de
residência e rendimentos tornam nossas opiniões o que elas são, como é que
poderemos explicar o fato de que pensamos, em muitas questões, de forma
bastante semelhante, apesar dessas diferenças?
Descobrimos, além disso, ao examinar as respostas obtidas,
que em algumas questões a extensão do acordo é muito grande quando se
classificam os questionários por grupos de idade, mas não quando eles são
repartidos tomando por base os rendimentos, o sexo ou outra característica.
Conclui-se daí que a influência desses fatores varia de questão para
questão.
Essas observações indicam a dificuldade existente na
determinação empírica dos fatores importantes e da sua influência relativa.
Em algumas questões, aparentemente nenhum dos fatores empregados pelas
entidades pesquisadoras em suas fórmulas de amostragem era importante. Se não
fosse assim, como poderíamos explicar o alto grau de concordância encontrado
em certas respostas, apesar das diferenças de idade, sexo, rendimentos e
outras? Em outros casos, certos fatores, como rendimentos ou idade, mostravam
ter importância especial, em virtude da unanimidade de opiniões expressas por
aqueles que pertenciam a uma categoria específica.
Outro ponto importante deve ser notado. O alto grau de
correlação existente entre a idade de uma pessoa e as suas opiniões não
estabelece necessariamente uma relação causal. Pode ser que sua idade
determine o que ela lê e ouve, e que o conteúdo de sua leitura e das coisas
ouvidas seja, na verdade, o fator decisivo na determinação das suas opiniões.
Isto não diminui, de modo algum, a importância do alto grau de correlação
existente entre idade e opinião. Mostra, apenas, que alguma influência que
não a idade pode ter isso a causa próxima e imediata das suas opiniões sobre
certos assuntos.
Os fatores próximos que afetam nossas opiniões são, afinal
de contas, os mais importantes na prática. Sem saber quais são eles, estaremos
perdidos ao tentar explicar súbitas e amplas modificações, em ocasiões em
que fatores tais como idade, sexo, rendimento e lugar de residência permanecem
praticamente constantes.
Acho razoável considerarmos que a causa próxima de nossas
opiniões é aquilo que lemos, ouvimos e vemos. A influência desses fatores
pode ser, e provavelmente é, até certo ponto, determinada pelo lugar em que
vivemos, por nossa idade e por nosso grau de prosperidade, o que, por seu turno,
pode ser condicionado por nossa herança biológica, física, social e
psicológica. A esses últimos fatores podemos chamar secundários latentes, em
contraste com os fatores primários, que são ativos. Eles condicionam nossas
personalidades e nos predispõem a agir de maneira específica. Em muitos casos,
entretanto, indicam muito mal quais serão nossas opiniões sobre assuntos
específicos, e não explicam as mudanças amplas e rápidas que se processam
nos estados de opinião pública em ocasiões em que eles, pelo contrário,
permanecem constantes.
Os determinantes imediatos da opinião são os canais de
comunicação, bem como o que vem através deles – idéias, relatórios,
notícias e representações que constituem o nosso mundo de símbolos verbais.
Fixando nossa atenção nos conflitos de idéias e nos grupos que as propagam,
adquiriremos muito melhor compreensão da razão de ser de nossas idéias e
opiniões de que estudando a influência remota do clima, da biologia e da
psicologia humanas, ou mesmo das próprias instituições sociais. Nos limites
estabelecidos por estes bastantes rígidos fatores condicionantes, o processo
formativo da opinião opera-se com a rapidez de um raio.
Têm-se feito algumas experiências para medir a influência
de fatores específicos no processo formativo da opinião. A dimensão desses
fatores varia desde a do anúncio em uma pequena revista até a de
instituições como a imprensa, o rádio ou um grupo de pressão. Os
publicitários desejam saber qual o efeito de um determinado anúncio sobre a
opinião pública. Administradores de empresas desejam medir o sucesso de uma
campanha de Relações Públicas. Políticos desejam saber se, em uma campanha
eleitoral, os jornais são mais eficazes que os programas de rádio.
Falamos com
facilidade sobre a influência deste ou daquele grupo de pressão, mas, em
geral, só temos uma noção muito vaga da extensão dessa influência. Em
muitos casos, não se faz nenhuma tentativa especial para isolar o fator e
determinar a sua influência. Para muitas empresas basta saber que, depois de se
ter gasto um milhão de dólares em anúncios, as suas vendas aumentaram; e,
para os políticos que uma campanha de propaganda resultou na eleição do seu
candidato ao cargo. Eles não se preocupam com a questão da precisa extensão
em que o anúncio ou o veículo especial usado foi responsável pelo resultado.
Produtores cinematográficos julgam a reação do público para com um filme
pela receita da bilheteria; radialista, pelas cartas dos ouvintes; redatores de
jornais, pela sua circulação. Um número infinito de manifestações da
opinião pública pode ser usado como indicadores rudimentares.
Por que é desejável, então, determinar mais exatamente os
efeitos ou a influência de fatores específicos? Entre os motivos, está o
financeiro. Saber quais os fatores mais importantes permite economizar dinheiro.
No mundo dos negócios, envidam-se constantes esforços para testar a
influência de tipos especiais de determinados veículos, as respostas a
diferentes espécies de programas, produtos, serviços, etc. Esse tipo de
conhecimento, porém, não tem apenas valor propagandístico; tem também valor
comercial. Sabendo quais os fatores mais importantes no processo formativo da
opinião, os realizadores de campanhas podem planejá-las com maior certeza dos
resultados.
Em cada problema desta espécie, a experiência começa por
um inquérito para determinar o estado inicial da opinião pública, e termina
por outro, posterior à experiência, para determinar a extensão das
transformações produzidas. Como é possível, porém, manter constantes todos
os outros fatores que afetam as transformações a fim de permitir a avaliação
da influência precisa do fator que nos interessa?
O professor Gosnell tentou uma experiência deste tipo para
determinar o efeito do uso da solicitação de voto, sem vinculação com
filiação partidária, feito por correspondência aos cidadãos residentes em
distritos selecionados de Chicago. Escolheu doze distritos reconhecidamente
típicos, pelo menos quanto às características econômicas e raciais da
população total da cidade. Os eleitores de cada distrito foram divididos em
dois grupos, a fim de não diferirem fundamentalmente com relação a
características raciais, econômicos ou qualquer outro de importância. Um
grupo foi submetido a uma dose maciça desses apelos, enviados pelo correio. O
outro grupo não foi. Desse modo, o efeito das outras influências foi mantido
constante, permitindo assim que quaisquer diferenças surgidas na votação dos
dois grupos pudessem ser, com razão, atribuídas a esses apelos. Por meio deste
método de grupos controlados pode-se avaliar, com algum cuidado, a influência
exata de certos fatores no processo formativo da opinião. O ponto crucial do
problema está na seleção de dois grupos sujeitos exatamente às mesmas
influências com exceção daquela que pretendemos medir.
Um recurso comum para testar a influência relativa de
diferentes fatores no processo formativo da opinião é o método da
classificação. As classificações não indicam necessariamente, relações
causais, nem permitem determinar em todos os casos a influência relativa dos
fatores. Analisando mais uma vez o trabalho dos institutos de pesquisa,
descobrimos que eles separam os questionários recebidos de acordo com a idade,
o sexo, a raça, os rendimentos, a residência e outras classificações. Se
todos os respondentes de um determinado grupo etário manifestam as mesmas
opiniões relativamente aos assuntos selecionados, há fortes razões para supor
que o fator idade tem muito a ver com as expressões de opinião. Se os
questionários indicam uma concordância de cem por cento em cada grupo de
sexto, e apenas 50 por cento de concordância nos grupos de rendimento
semelhante, isto nos leva a concluir que o fator idade é mais importante que o
fator sexto, e que o fator rendimento quase não tem importância.
O fato de o grau de concordância em um determinado assunto
variar tanto, com relação aos diferentes fatores, indica que eles nem sempre
tem o mesmo peso. Além disso, o fato de ser diferente a distribuição
percentual segundo a questão analisada indica que a maneira de formular a
questão altera a influência relativa dos diversos fatores. Essas
classificações, porém, são valiosas, podendo ser usadas para descrever o que
se pode chamar padrão de opinião de um determinado grupo. Como foi
anteriormente indicado, entretanto, a tentativa de estabelecimento de uma
fórmula especifica para a amostragem da opinião pública com base nesses
fatores não tem probabilidade de sucesso. Se, por exemplo, as experiências
indicam ser o sexo um fator determinante na formação da opinião, a sua
utilização simultânea com uma quantidade de fatores insignificantes na
execução de nossa fórmula pode prejudicar, em vez de aprimorar os resultados.
Têm-se usado técnicas de classificação para comparar os
votos masculinos e femininos, para analisar as diferenças de atitudes
políticas da população urbana, de pequenas comunidades e rural, bem como para
estudar a filiação política em função da religião, da nacionalidade, da
raça e de muitos outros fatores. Estudiosos da ciência política têm dado
maior atenção às estatísticas eleitorais do que a qualquer outro tipo de
dados sobre opinião. Essas estatísticas são classificadas por Estados e
municípios e, em muitos casos, por bairro, zona e distrito eleitoral. Com esse
tratamento, elas podem ser usadas na feitura do mapa do comportamento eleitoral
das regiões particulares do país; para comparar as tendências das opiniões
dos votantes com outras tendências; e, distribuídas cronologicamente, como fez
o Dr. Stuart A. Rice, podem ser usadas para determinar a existência e o
caráter dos ciclos de alternação partidária, ou para estudar o que ele
chamou de "amplitude" das oscilações eleitorais na época atual, em
comparação com as épocas anteriores.
Talvez se deve acrescentar uma palavra em relação ao
significado das séries cronológicas. Como afirma o Dr. Rice:
"A invenção e o aperfeiçoamento de métodos
estatísticos precisos para analisar as séries cronológicas tem sido uma das
inovações mais importantes dos últimos anos em toda a extensão da ciência
social. O uso desses métodos tem-se limitado, entretanto, quase que
exclusivamente ao campo da economia. Eles chegaram a ser aí um precioso
auxiliar na descrição das miríades de flutuações nas atividades
empresariais que interessam aos homens práticos. [...] Podem-se mencionar como
exemplo certos estudos, como o da comparação entre a produção e os preços
de vários produtos agrícolas, ou entre os preços das ações e das
obrigações".
O Dr. Rice foi um dos primeiros a aplicar esse tipo de
método ao estudo dos fenômenos políticos e da opinião pública. Seus estudos
mostram que variações de tipo já familiar em economia podem ser encontradas
também em opinião pública, tais como tendências seculares, variações
cíclicas, influências sazonais e modificações fortuitas.
Com relação a um caso, por exemplo, ele procurou descobrir
se as modificações da opinião pública que se refletem nas estatísticas
eleitorais acompanham certas variações econômicas por ele selecionadas. As
modificações percentuais dos votos republicanos poderiam, a seu ver, indicar o
que freqüentemente se chama "pêndulo da política", da mesma forma
como as modificações percentuais nos votos dos pequenos partidos poderiam
fornecer a medida do crescimento ou da redução da dissidência em ambas as
grandes organizações partidárias. Sua conclusão, baseada nas estatísticas
eleitorais de Nova Jersey, é que "os ciclos estão presentes, embora não
pareçam ocorrer com tanta freqüência quanto nos negócios", e considera
que, "os ciclos de alternação partidária observados em Nova Jersey devem
ser atribuídos a um fator ou a fatores de modificação de atitudes sem
ligação estreita com as alterações na prosperidade dos negócios." Quer
essa afirmação seja verdadeira, quer seja falsa, cumpre salientar que as
séries cronológicas da opinião pública são muito úteis na comprovação
das hipóteses formuladas quanto à formação da opinião, e na mensuração da
influência de diferentes fatores nesse processo.
Pode-se citar um outro exemplo da aplicação das séries
cronológicas à análise dos dados relativos à opinião. O Dr. Rice procurou
comprovar a afirmação de que uma tendência da massa do eleitorado no sentido
de favorecer um candidato em detrimento de outros conduz a sua influência mais
longe hoje em dia do que no passado. A questão está em saber se a
"amplitude" da oscilação eleitoral tem aumentado nos últimos cem
anos. Pareceu ao Dr. Rice que "causas mais fundamentais que as indicadas
por fatores contidos na situação política imediata talvez estivessem atuando,
podendo ser parcialmente responsáveis pelas surpreendentes modificações de
atitudes indicadas pelas reviravoltas eleitorais.
Nos últimos cem
anos, os
cidadãos deste país tem entrado em contato cada vez mais íntimo uns com os
outros, expondo-se, por isso mesmo, a receber mais facilmente a influência de
correntes de opinião ou emoção que possam surgir em qualquer parte do
grupo". Entre os fatores que contribuem para esse fenômeno, mencionou ele
a urbanização, das comunicações, dos jornais, do cinema, do rádio e outros.
Posteriormente à data em que ele escreveu, tem sido testemunhas de uma série
de desvios eleitorais bruscos – em 1928, 1932 e 1936. Surge daí uma
interessante questão: saber se os grandes públicos, pelo desenvolvimento que
acabamos de mencionar, estão adquirindo gradativamente o caráter de multidão,
movendo-se em uma ou outra direção cada vez com maior força e intensidade.
Para comprovar essa hipótese, usaram-se várias tabelas de
estatística eleitoral, nas quais se percebe como variam os desvios em direção
ao candidato vencedor. Determinaram-se, então, os índices da "tendência
a desvios bruscos". Era nítida a presença de oscilações cíclicas,
especialmente a partir da Guerra Civil. De 1867 a 1921 registrou-se uma
tendência ascendente, e cinco ciclos completos. Compararam-se esses ciclos com
as tendências dos negócios, e dessa comparação conclui-se haver uma
relação definida entre os ciclos dos negócios e as oscilações das maiorias
políticas. Embora esses dados contenham algumas questões de difícil
solução, afirma o Dr. Rice que"talvez a melhor prova do significado
desses dados esteja na relativa regularidade com que aparecem os ciclos de
desvios bruscos."
Essas ilustrações sugerem apenas algumas das maneiras como
se podem usar as estatísticas eleitorais no estudo do processo formativo da
opinião. Esses algarismos têm considerável valor como indicadores de atitudes
e opiniões, e tem sido usados com maior freqüência do que quaisquer outros.
Tanto são amplos quando se referem a um largo espaço de tempo periodicamente
verificado. São oficiais e fidedignos em toda sua extensão. E têm sido
subdivididos por áreas geográficas. Infelizmente, o sigilo do voto não
permite classificá-los por idade, sexo, raça, preferências religiosas e
outras categorias extremamente úteis para os estudiosos da opinião pública.
Até o advento das entidades pesquisadoras da opinião em âmbito nacional, as
estatísticas eleitorais constituíam os mais importantes dados disponíveis
sobre a opinião. Recentemente, entretanto, essas entidades têm estado
coletando uma série de dados que possibilita o estabelecimento de inúmeras
classificações e correlações. Esses dados podem ser agora usados para
comprovar várias teses relativas ao processo de formação da opinião.
O professor Clark, da Universidade da Pensilvânia, iniciou
recentemente um estudo para determinar quais as correlações existentes entre a
popularidade do Presidente Roosevelt, indicada pelos inquéritos de Gallup e da
revista Fortune, e vários índices econômicos. Embora um alto grau de
correlações será valioso para indicar tendências passadas e talvez mesmo
predizê-las para o futuro.
O professor Clark está primordialmente interessado em quatro
tipos de correlações: 1) o Presidente e a economia agrícola; 2) o Presidente
e a economia industrial; 3) e Presidente e a economia trabalhista; 4) o
Presidente e as despesas federais. Em cada tipo, as tendências da popularidade
do Presidente são comparadas com índices das tendências do setor respectivo
da economia. No campo da economia agrícola, as tendências da popularidade do
Presidente são correlacionadas com as variações do preço do trigo, dos
laticínios e do milho, bem como a sua produção.
No campo da economia
industrial, são utilizados índices tais como o da produção industrial as
cotações do mercado de ações, as taxas de juros e descontos, a construção
de novos edifícios, o custo de vida, os preços de varejo e os preços de
atacado. No campo da economia do trabalho, utilizam-se índices de emprego e
desemprego, receita, greves e lockouts, salários e filiação a sindicatos. No
campo das despesas federais, finalmente, consideram-se os gastos com a
Administração de Projetos de Obras, com Administração de Obras Públicas e
com a assistência social
Notando-se o grau de correlação em cada caso, bem como o
caráter das lacunas, se alguma houver, poder-se-á, obter informação sobre a
influência relativa da política agrícola, industrial, trabalhista e
financeira do Presidente Roosevelt sobre sua popularidade; o caráter provável
de sua política no futuro imediato; as causas das modificações ocorridas em
sua popularidade, e muitas outras coisas.
Os dados relativos à opinião, que estão obtidos pelas
entidades pesquisadoras, abrem um campo totalmente novo para as pesquisas
estatísticas e de opinião púbica. Talvez se tenha dado demasiada importância
às suas atividades de previsão e pouca aos dados que vem sendo por elas
acumulados.
Um recente recurso para determinar a influência relativa dos
fatores determinantes do processo formativo da opinião é a técnica
estatística das correlações parciais, que foi simplificada e chamada método
da análise dos fatores múltiplos. Ele procura obter, por intermédio dos dados
estatísticos disponíveis, o mesmo resultado final a que chegamos pelo método
das experiências controladas. Procura manter constantes pela simples
neutralização estatística dos seus efeitos, os fatores importantes do
processo formativo da opinião, para determinar assim o efeito de um fator
único.
O professor Gosnell aplicou, recentemente, esta técnica ao
estudo da influência da imprensa na opinião pública.
Apresentou seu problema da seguinte maneira: "Há muitas
dificuldades nas tentativas de determinação do papel desempenhado pela
imprensa no processo democrático. Os jornais modelam a opinião pública ou
obedecem a ela? Como se podem separar as diretrizes ocasionais da imprensa das
muitas outras variáveis complexas com elas emaranhadas em complicada
teia?"
Sem tentar explicar as técnicas estatísticas utilizadas,
pode-se resumir o processo empregado da seguinte maneira: importantes jornais em
47 áreas selecionadas da cidade de Chicago. Nessas áreas obtiveram-se os votos
recebidos pelos candidatos em um determinado período nas eleições primárias
ou gerais, e expressaram-se dados em percentagens do voto total. A atitude dos
jornais com relação a cada um desses candidatos, foi determinada pela
estimativa do número de centímetros de coluna com que cada um endossava, em
texto ou ilustração, o candidato referido. Mas oito variáveis foram então
selecionadas, considerando-se cada uma delas como relacionada de algum modo com
os resultados das eleições. Preparou-se, então, para as 47 áreas, uma tabela
mestra expressando cada uma das 21 variáveis em forma percentual (com exceção
da renda média).
Coeficientes da correlação entre o produto e o momento
foram então calculados para todas as possíveis combinações das 21 variáveis
e apresentados em forma simétrica, proporcionando o que é comumente conhecido
como matriz de correlação. A questão era o seguinte: indicam essas
correlações padrões de comportamento que possam ser interpretados à luz das
recomendações dos jornais?
Os métodos de análise de fatores pressupõem a existência
de tendências primárias que devem ser avaliadas em termos das variáveis
dadas. Seu objetivo é descobrir quantos fatores gerais e independentes podem
considerados importantes em toda uma tabela de correlações. Procura reduzir
uma série complicada de relações a um número comparativamente pequeno de
fatores. No problema em questão, descobriu-se que as 210 correlações poderiam
ser explicadas satisfatoriamente em termos de quatro fatores gerais: 1) voto
tradicional republicano nas eleições nacionais; 2) Thompsonismo nas eleições
locais e nas eleições primárias republicanas; 3) voto democrata antilei-seca
nas eleições nacionais e locais; e 4) voto republicano nas eleições
estaduais e locais.
Estes exemplos de atividades recentes no campo da pesquisa
fazem sentir a complexidade do problema da análise do processo evolutivo da
opinião pública. Não basta enumerar e classificar os numerosos fatores que ai
existem. É preciso saber, com maior exatidão, qual a sua influência
especifica e relativa. A opinião pública não é apenas um critério para a
avaliação das nossas Relações Públicas; é também uma força sobre a qual
dispomos de algum controle. Quanto mais inteligente a nossa participação em
seu processo formativo, tanto maior será sua capacidade de exercer suas
funções de controle social.

Publicação original: CHILDS, Harwood L.
Formação da opinião.
In: _____. Relações
públicas, propaganda e opinião pública. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 1967.
p. 77-93.