Opinião Pública

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QUE É INTERESSE PÚBLICO?

 

Harwood L. Childs

 

Tenho tentado, em nossas discussões, justificar estas duas afirmativas: 1) nossas Relações Públicas consistem essencialmente naqueles aspectos do nosso comportamento individual ou institucional que tem relevância social; 2) o problema fundamental de Relações Públicas é ajustar essas relações aos mais amplos aspectos de mudança social, a fim de promover o interesse público.

Minha tese é que nossos problemas de Relações Públicas surgem porque nos falta capacidade ou desejo de assumir, como deveríamos, a responsabilidade social de nossos atos, seja por não reconhecermos suas conseqüências sociais, seja por insistirmos em definir liberdade individual em termos que já estão fora de moda. Nossas dificuldades provêm do fato de não ajustarmos ao interesse público a concepção sobre o que Relações Públicas são ou deixam de ser. Não só nossa visão estreita, mas também nossa relutância em agir, é o que produz lacunas catastróficas no campo das mudanças sociais.

O próprio cientista social deve, atualmente, aceitar uma parte da responsabilidade por este estado de coisas. Ele tem permanecido bastante indiferente às suas próprias responsabilidades sociais como líder em vários setores da vida. Defende incessantemente o caráter "científico", mas muito pouco o caráter "social" das suas atividade. A diferença sensível entre uma ciência social e uma ciência natural está no falto de que uma é social e a outra não. Este truísmo tem sido freqüentemente negligenciado em intermináveis discussões sobre a natureza da ciência e a aplicabilidade os métodos das ciências físicas ao estudo dos fenômenos sociais.

Não é, porém, suficientemente que o cientista social analise o comportamento individual e institucional em termos dos seus efeitos sociais. Ele deve apresentar padrões ou critérios de bem-estar social. E os frutos de sua pesquisa devem ser colocados à disposição da comunidade. Com demasiada freqüência ele descobre princípios ou inventos técnicos unicamente para monopolizá-los e utilizá-los em detrimento de seus concidadãos.

Recentemente a imprensa do país anunciou que um famoso cientista natural da Universidade de Harvard, recusou-se a permitir aos cidadãos de países fascistas o uso de suas descobertas, porque estes poderiam, como seria de supor, utilizá-la não para promover o bem estar público mas para favorecer o egoísmo e o orgulho raciais. Tratava-se de um pesquisador acadêmico de renome mundial, que tinha a coragem de agir baseado no reconhecimento das amplas conseqüências de Relações Públicas do seu trabalho e de insistir em que suas descobertas fossem dedicadas ao que julgava ser o interesse público. O fato de sua atitude ter ido para as manchetes de jornais serve apenas para mostrar como seu gesto se afastava dramaticamente do quotidiano. A atitude que prevalece entre muitos cientistas naturais parece ser a de que sua profissão os liberta de qualquer responsabilidade de tomar em consideração o interesse público no que estão fazendo. E sinto ter de dizer que este ponto de vista é bastante freqüente entre os cientistas sociais. E qual o seu resultado?

Muitas e muitas vezes os laboratórios de pesquisa sociais tem sido desviados para os fins exclusivos de promover os interesses de grupos privados, com pequeno ou nenhum respeito pelos efeitos sociais. Os frutos da pesquisa de publicidade, por exemplo, tem sido colhidos e usados por vendedores de produtos farmacêuticos e por fabricantes de alimentos adulterados com muito maior intensidade que pelos que se dedicam, embora com indiferença, a serviços de utilidade para a sociedade. Em muitos casos, nossos laboratórios psicológicos tem sido prostituídos dedicando-se causas socialmente indesejáveis. E lamento ter de dizer que muitos dos interesses que prevalecem em Relações Públicas baseiam-se freqüentemente em um idealismo que não vai além do desejo de promover alguma causa lucrativa, sem nenhuma consideração quanto a sua utilidade social. Há sempre um interesse escondido na pergunta: como posso modelar a opinião pública? Como posso persuadir as massas a aceitarem minhas idéias, minhas mercadorias, meus serviços? E quem é capaz de indicar um objetivo social, um interesse público em tudo isto?

Mas o que é o interesse público? – perguntarão nossos espertos amigos. Quem tem competência para indicá-lo? A verdade – prossegue a hábil argumentação – é que ninguém sabe em que consiste o interesse público. Mesmo os acadêmicos, os eruditos, os cientistas, a inteligência não chegam a um acordo. Quem sabe, realmente se os impostos são ou não de interesse público? Quem tem competência para dizer se as tarifas cobradas pelas concessões de serviço público são contrárias ao interesse público? E mesmo quem pode provar, sem nenhuma sombra de dúvida, que o comércio de narcóticos e de alimentos adulterados e as panacéias dos charlatães não estarão, no longo prazo, sendo úteis ao interesse público verdadeiro? Com que freqüência temos ouvido dizer que a intemperança pode ser, na verdade, uma benção disfarçada, pois aqueles que usam o álcool em excesso, conforme temos ouvido, é preferível que morram a que sobrevivam. A intemperança serve para eliminar os desajustados; assemelha-se à operação seletiva de um sistema competitivo incontrolado. Não faz este último com que apenas sobrevivam os mais aptos?

O conceito mais idealista de interesse público tem experimentado sensível recuo nos últimos anos, principalmente a partir da Primeira Guerra Mundial. Em um mundo em que as ideologias se multiplicam e os interessem se chocam, os padrões de valores absolutos entraram em desuso. Teorias de relativismo e pragmatismo tentaram dar um certo cunho filosófico à situação, satisfazendo, talvez apenas os próprios filósofos. E em meio às perplexidades e incertezas, os próprios cientistas sociais recolheram-se às quatro paredes dos seus laboratórios e, com um fatalismo e ceticismo monásticos, alegaram nada ter a ver com questões de valores, de responsabilidade social e de interesse público.

O interesse atual por assuntos de Relações Públicas só poderá produzir alguma coisa útil se conseguir unir os cientistas sociais e os administradores em uma preocupação conjunto apara com o bem-estar público. Se um dos lados procurar apenas descobrir mais alguns truques, mais alguns esquemas para atingir objetivos privados, independentemente do interesse público, há poucas justificativas para o empreendimento. Se o outro lado estiver simplesmente visando uma oportunidade de apoio ou financiamento para alguma espécie de prestígio e projeção social, então os resultados serão vãos, os problemas de Relações Públicas, em vez de diminuírem, tornar-se-ão mais agudos e desesperadores. A motivação fundamental para o estudo de Relações Públicas deve ser o desejo de servir o interesse público. Este é, evidentemente, o motivo, inspirador do grande empreendimento que é o Instituto Americano de Relações Públicas.

A minha tese é que o interesse público, no que concerne aos Estados Unidos, é, e somente pode ser, aquilo que o público, a opinião da massa, diz que ele é. Por opinião da massa, entendo as opiniões coletivas do povo norte-americano considerando como um todo.

É claro que a opinião pública é alguma coisa dinâmica e mutável. O ritmo da mudança é afetado por muitas influências, e é maior com relação a alguns assuntos do que a outros. A opinião pública quanto ao valor social de alimentos adulterados e narcóticos é certamente muito mais estável do que no que diz respeito ao uso de bebidas alcoólicas e ao desejo de uma política de neutralidade. Quando considerarmos, mais tarde, a eficácia com que a opinião pública determina o interesse público, o relativo grau de estabilidade da opinião pública com respeito a diferentes assuntos deverá ser considerado. Além disso, é variável o grau de certeza e convicção com que a opinião pública apóia ou reprova os negócios públicos. A concepção que geralmente se tem de interesse púbico é mais clara e mais precisa em alguns setores do que em outros.

A teoria norte-americana de ajustamento social e de interesse público vem-se divorciando gradativamente de outras noções que prevaleceram há algum tempo. A teoria de que a revelação divina através de canais humanos específicos deu a um homem ou a um grupo de homens uma visão prévia monopolista do interesse público tem-se tornado cada vez menos convincente. Descobriram as massas que há menos perigo em aceitar que a divindade revela o interesse público através da mente das massas do que em acreditar que ela revela esse interesse através de indivíduos ou grupos especialmente inspirados.

Houve uma época em que as igrejas pretendiam ser os únicos repositórios do ponto de vista divino quanto à verdadeira natureza do interesse público, mas o impacto persistente das transformações sociais forçou-as a recuar, pelo menos no que tange aos assuntos temporais. A invenção da imprensa no século XV, a Renascença e a Reforma, as explorações geográficas e a revolução industrial iniciaram uma cadeia de acontecimentos que acabaram por solapar a posição da Igreja como única fonte de verdade e revelação. O advento do fascismo e do nacional-socialismo parecia marcar o ressurgimento que estas elites ditatoriais, que se apossaram do poder, tem o cuidado de indicar que a fonte de sua vontade e inspiração é realmente a opinião pública. Os céticos observam, todavia, que às vezes os ditadores são forçados a utilizar o ardiloso argumento de que sua vontade pode ser, em certas ocasiões, uma expressão mais verdadeira da opinião pública do que os votos do eleitorado nas urnas.

Os norte-americanos acostumaram-se às eternas alegações de grupos de interesses especiais, no sentido de que eles, apenas eles, falam em termos de interesse público. Tanto quanto pude observar, entretanto, esses grupos de interesse especiais nunca chegaram a aceitar a pseudodialética escolástica dos fascistas, e tem procurado indicar a diferença entre uma verdadeira opinião pública e uma opinião pública vulgar e ordinária que se expressa nas urnas. Muitas destas alegações têm sido parcial ou totalmente rebatidas. Mas ainda persiste em alguns setores a idéia de que, de um modo ou de outro, as opiniões das massas tem menos probabilidade de ser a expressão do interesse público do que os pronunciamentos dos sábios.

Uma das principais contribuições dos inquéritos nacionais de opinião, tais como os levados a efeito pelo Instituto Americano de Opinião Pública e a revista Fortune, foi a luz que lançaram sobre o assunto da competência das massas, da sensatez do eleitorado ao considerar questões de política nacional. Os resultados desses inquéritos tende, creio eu, a restabelecer a fé nos princípios democráticos, na teoria de que, em geral, em períodos razoavelmente longos, a opinião pública é um guia tão seguro quanto as opiniões de grupos menores e mais seletos. Naturalmente estas experiências não podem, na ausência de padrões objetivos absolutos, assegurar a sabedora das massas. Sugere, entretanto, que as massas não são, de modo algum, tão destituídas de senso comum quanto muitas vezes se supõe.

Talvez nos ajude a compreender um pouco este senso comum que se encontra na mentalidade coletiva das massas um lançar de olhos nos resultados dos inquéritos realizados pelo Instituto Americano. Pode surpreender-nos, talvez, a descoberta do quanto os julgamentos das massas coincidem com os nossos próprios. E, naturalmente, julgamos que nossa concepção do interesse público é sensata. Se o tempo permitisse, seria interessante e proveitoso obter as respostas do nosso próprio grupo a uma série de questões do Instituto Americano e comparar os resultados com o do inquérito nacional. A experiência indica que as divisões de opinião dentro deste grupo são, provavelmente, as mesmas de um público maior. Pelo menos seria improvável que as diferenças fosse, devidas unicamente a um fator de quociente intelectual.

O Instituto Americano de Opinião Pública iniciou seus inquéritos de âmbito nacional em outubro de 1935. Desde essa ocasião o povo deste país tem sido interrogado sobre mais de quinhentos assuntos: sobre questões políticas e econômicas, sobre relações exteriores e sobre uma vasta gama de problemas sociais. Em muitos dos assuntos a divisão de opinião era acentuada, indicando não existir uma preponderância decisiva da opinião de um lado ou de outro. Em tais casos seria arriscado usar a opinião pública como guia para a política nacional. Em outras ocasiões, as questões eram de interesse transitório e não tinham importância duradoura. Muitas vezes tratavam de situações excepcionais, e as respostas eram indubitavelmente influenciadas pelas condições particulares. A falta de estabilidade nessas condições permite supor que mudanças da opinião pública nestes assuntos devem ser freqüentes.

Além disso, algumas eram questões de fato ou pediam que o entrevistado profetizasse o futuro. Por exemplo, a pergunta "Você acha que haverá outra guerra mundial?", formulada em agosto de 1937, simplesmente pretendia testar o gênio profético das massas, e pouca luz lançou sobre as questões de interesse público. De tipo semelhante eram as perguntas: "Você acha que os preços das ações subirão ou baixarão nos próximos seis meses?", "Você ouviu falar no caso de RICHARD WHTINEY em Wall Street?" e "Será que o Partido Republicano morreu?".

Tem, entretanto, importância especial as respostas às perguntas referentes a assuntos de ampla repercussão social, nos quais as massas tomam uma posição nítida, respostas essas que mostram, por exemplo 79% ou mais de assentimento. Indubitavelmente, muitas dessas perguntas podem ter sido, formuladas sem que se obtenham respostas mais categóricas, mas uma análise delas poderá ser útil. O que eu gostaria que vocês tivessem sempre em mente, na consideração dos resultados destes inquéritos, é o seguinte: indicam eles que a opinião das massas é ou não é um guia seguro para a definição do interesse público?

Examinemos, em primeiro lugar, as questões sobre assuntos políticos e econômicos:

  1. Você é favorável a um terceiro período de governo para Roosevelt? (abril de 1938)

    Não – 70%

  2. Você seria favorável à mudança do período de governo do presidente dos Estados Unidos para seis anos sem possibilidade de reeleição? (junho de 1936)

    Não – 74%

  3. Deve o governo federal reduzir agora as suas despesas? (setembro de 1936)

    Sim – 77%

  4. Em sua opinião, o que seria melhor para tirar-nos da depressão: o aumento das despesas governamentais de assistência e obras públicas, ou o auxílio às empresas por meio da redução dos impostos? (abril de 1938)

    Auxílio às empresas – 79%

  5. Deve o governo acabar com a Administração de Projetos de Obras e proporcionar somente auxílio direto ou em dinheiro? (maio de 1937)

    Não – 79%

  6. Você acha que as pessoas em desemprego remunerado em sua comunidade estão recebendo tanto quanto deviam? (abril de 1938)

    Sim – 71%

  7. Você é favorável a uma lei que considere crime um funcionário da seção de auxílio aos desempregados tentar influenciar o voto destes? (maio de 1938)

    Sim – 86%

  8. Deve o governo recensear os desempregados? (maio de 1937)

    Sim – 73%

  9. Sempre que o Congresso quiser emendar a Constituição, deverá a emenda ser proposta ao legislativo dos estados ou diretamente ao povo de cada estado para aprovação? (março de 1937)

    Ao povo diretamente – 82%

  10. Você acha que a administração de Roosevelt deveria tentar impedir a reeleição dos congressistas do Partido Democrata que se opuseram ao plano da Corte Suprema? (setembro de 1937)

    Não – 73%

  11. Empregados e empregadores deveriam ser obrigados por lei a tentar resolver suas disputas antes de recorrerem à greve? (julho de 1937)

    Sim – 89%

  12. Você é favorável a leis regulamentadoras das greves? (julho de 1937)

    Sim - 84%

  13. Você aprova certos grupos de cidadãos, chamados "vigilantes", que se tem introduzido ultimamente pelas áreas das greves? (agosto de 1937)

    Não – 76%

  14. Os sindicatos devem ser obrigados a fundir-se? (maio de 1937)

    Sim – 86%

  15. Você é favorável aos sindicatos? (julho de 1937)

    Sim – 76%

  16. Os funcionários públicos devem sindicalizar-se? (agosto de 1937)

    Não – 74%

  17. Você gostaria que os sindicatos afiliados ao Comitê de Organização Industrial (CIO) e à Federação Operária Norte-Americana (AFL) resolvessem suas desavenças e trabalhassem como uma única organização sindical? (outubro de 1937)

    Sim – 79%

  18. Os cargos públicos, exceto os de confiança, devem ser ocupados por: 1) aqueles que ajudam a por seu partido político no poder, ou 2) aqueles que recebem as melhores notas nos concursos? (março de 1936)

    Concursos – 88%

  19. Você acha que a inflação seria uma boa coisa? (abril de 1937)

    Não – 80%

  20. Você acha que o Voluntariado da Proteção Civil deveria ser tornado permanente? (abril de 1938)

    Sim – 78%

  21. O treinamento militar deve ser parte integrante dos deveres dos voluntários? (agosto de 1938)

    Sim – 75%

  22. Você é favorável às pensões de velhice que o governo paga aos necessitados? (janeiro de 1936)

    Sim – 89%

  23. Você aprova os descontos em folha do seguro social? (janeiro de 1938)

    Sim – 73%

  24. Você acha que um homem solteiro que ganha menos de mil dólares por ano deve pagar imposto de renda? (março de 1938)

    Sim – 73%

  25. Os funcionários federais e estaduais devem ser isentados do imposto de renda? (março de 1938)

    Não – 87%

  26. As pessoas que possuem apólices federais, estaduais ou municipais devem ser obrigadas a pagar imposto sobre a renda auferida por meio destas apólices? (abril de 1938)

    Sim – 74%

  27. Você acredita que o governo deve comprar, possuir e dirigir serviços ferroviários? (fevereiro de 1938)

    Não – 70%

  28. Você aprova a política do Secretário de Estado Hull, que procura um acordo comercial bilateral com a Grã-Bretanha? (março de 1938)

    Não – 87%

  29. Se a Grã-Bretanha reduzir as tarifas sobre as mercadorias americanas, devemos reduzir as tarifas sobre as mercadorias britânicas? (março de 1938)

    Sim – 73%

Nas questões políticas e econômicas mencionadas acima a opinião pública expressou-se com bastante clareza. Sem dúvida, alguns discordarão de opiniões indicadas quanto a assuntos específicos. Mas podemos nós, honestamente, dizer que um programa político e econômico dentro das linhas aprovadas pelas massas poderia ser falso em senso comum ou opor-se nitidamente ao interesse público?

Sem rever em minúcias as perguntas que têm sido formuladas em outros campos, verificamos que, quanto a relações exteriores, 70% da população concorda:

  1. Que, se outras nações concordarem em reduzir suas despesas em armamento, os Estados Unidos deverão fazer o mesmo, na mesma proporção.

  2. Que os Estados Unidos devem construir uma grande esquadra e aumentar sua força aérea.

  3. Que uma marinha maior, como julgava o Presidente Roosevelt, dá-nos mais possibilidade de evitar a guerra.

  4. Que o fabrico e a venda de munições com fins de lucro privado devem ser proibidos.

  5. Que, para declarar guerra, o Congresso deveria requerer a aprovação do povo, por meio de um plebiscito de âmbito nacional.

  6. Que, se nova Guerra Mundial for iniciada na Europa, os Estados Unidos não deverão tomar parte.

  7. Que, em tempo de guerra, todas as nações deveriam concordar em não bombardear os civis das cidades.

  8. Que as colônias tomadas da Alemanha ao término da Guerra Mundial não deverão ser restituídas a ela.

  9. Que o governo dos Estados Unidos deverá continuar mantendo as atuais forças armadas na China, a fim de proteger os cidadãos norte-americanos.

  10. Que, em vista das condições no Oriente, os Estados Unidos, não devem conceder agora a independência às Filipinas.

No campo da política social, descobrirmos que o povo norte-americano acredita enfaticamente:

  1. Que deve ser legalizado o fornecimento de informações sobre o controle da natalidade.

  2. Que o governo deve criar uma agência para informar sobre doenças venéreas e instalar clínicas para o seu tratamento que o congresso deve destinar 25 milhões de dólares para ajudar a combatê-las, e que os Estados devem aprovar legislação exigindo exames médicos quanto a doenças venéreas para todos que solicitem licença para casamento.

  3. Que os criminosos contumazes e os loucos irremediáveis devem ser esterilizados.

  4. Que o Congresso deve aprovar uma lei considerando o linchamento crime de competência federal.

  5. Que as mulheres casadas não devem ganhar dinheiro no comércio ou na indústria, se seus maridos estiverem em condições de sustentá-las.

  6. Que o divórcio deve ser obtido mais facilmente.

  7. Que o governo federal deve ajudar os governos estaduais e locais a proporcionar auxílio médico às parturientes.

  8. Que a concessão de liberdade condicional deve ser mais rigorosa do que atualmente.

  9. Que se deve exigir dos possuidores de arma de fogo o seu registro oficial.

Como afirmou recentemente o professor Paul Cherington: "Temos sido informados pelos magnatas do cinema, pelos autores de novelas radiofônicas, por alguns propagandistas sardônicos e mesmo por alguns jornalistas que estão razoavelmente certos os resultados dos testes de inteligência do exército que indicam uma idade mental média de doze anos". Essa parece ser a opinião predominante entre os que desdenham da inteligência das massas. O Dr. George Gallup, diretor do Instituto Americano de Opinião Pública, tem, porém, alguma coisa a dizer.

"As pesquisas por amostragem realizadas nos últimos anos tem fornecido abundantes provas da sabedora do homem comum. Todos podem examinar essas provas. E acho que aquele que o fizer sairá acreditando, como eu próprio, que, coletivamente, o povo norte-americano possui uma dose notavelmente grande de senso comum. Seus componentes podem não ser intelectualmente brilhantes ou particularmente ilustrados, mas possuem uma qualidade de bom-senso que volta e meia se manifesta ao expressarem suas opiniões sobre os assuntos do dia. Naturalmente seria tolice pretender que as opiniões coletivas do homem comum representam sempre a resposta mais inteligente e mais exata para qualquer pergunta. Mas os resultados de inquéritos por amostragem sobre centenas de assuntos indicam, na minha opinião, que podemos depositar grande fé no julgamento coletivo ou na inteligência do povo".

Outro elemento para a resposta a nossa pergunta inicial é fornecido pela experiência de nossos Estados em legislação direta. O professore Edwin A Cottrell recentemente publicou uma avaliação de "Vinte e Cinco Anos de Legislação Direta na Califórnia", e suas conclusões são muito esclarecedoras. Entre outras coisas, mostra que:

"Estes votos não serviam apenas para o reestudo de uma legislação apressada ou irrefletida, mas eram também excelentes instrumentos de educação. [...] As avaliações das medidas [...] mostram uma atitude decididamente conservadora por parte das massas. [...] Não há prova de ser grande o número das medidas encaradas com parcialidade, seja em sua aplicação, apoio ou oposição. [...] Onde interesses especiais ou escusos se ocultavam por trás das medidas, tanto o legislativo quanto o povo recusavam geralmente, transformar suas propostas em lei. [...] Têm certamente havido um número substancial de medidas apresentadas em cada eleição, e um correspondente interesse em votá-las. [...] Não se justificaram nem, por um lado, o receio de uma legislação demasiado radical, nem pelo outro, o de atitudes ultraconservadoras por parte do povo. Há provas de que o povo está mais ansioso por adotar e cumprir uma legislação aprovada diretamente por ele do que uma surgida pelo método usual de aprovação pelos legisladores. [...] Em verdade, discutem-se e determinam-se medidas mais inteligentemente entre o eleitorado do que normalmente em uma sessão legislativa, com seu sistema obscuro e ineficiente de comitês. [...] A maioria dos editorialistas e dos estudiosos da ciência política concorda que, em todo o período de legislação direta, o povo compreendeu a maior parte das medidas propostas e agiu sensatamente, como um todo, ao tomar as suas decisões. [...] Aqueles que predisseram que a legislação direta levaria o governo às mãos dos jornais estavam longe da verdade. [...] Medidas antagônicas aparecem freqüentemente na mesma urna. Os votos, entretanto, nunca conduziram à adoção de medidas que estivessem em oposição direta. [...] A primitiva acusação de que a legislação direta exacerbaria paixões entre os vários elementos da população não se comprovou."

A experiência de iniciativa popular e plebiscitos, realizada na Califórnia, e os inquéritos por amostragem do Instituto Americano de Opinião Pública tendem a confirmar a profética afirmação de Theodore Roosevelt de que "a maioria do povo cometerá dia a dia menos erros governando-se a si própria do que qualquer grupo mais restrito de homens tentando governar a todos".

Foi com considerável interesse que li recentemente um estudo da propaganda da Guerra Mundial, de autoria do Professor Peterson, que trata principalmente dos esforços feitos pela Grã-Bretanha e pelo aliados com o fito de solapar a política norte-americana de neutralidade durante os anos de 1914-17. É interessante notar que, embora a campanha tenha sido especialmente bem sucedida na obtenção de uma pronta e decidida atitude pró-aliados de parte da grande maioria dos jornais do país, da maioria dos membros do gabinete, incluindo do Presidente Wilson, bem como de parte dos líderes dos negócios e de círculos acadêmicos e políticos, ela foi surpreendentemente ineficaz no que concerne à modificação das atitudes e opiniões das massas. Em 1917 como em 1914, elas continuavam simpáticas aos aliados, mas absolutamente não tinham nenhum entusiasmo por abrir mão da política de neutralidade e entrar na guerra. Seria esta a posição sensata e razoável? Alguns dirão que não. Mas creio que a perspectiva dos anos justifica nossa afirmação de que elas agiram coletivamente com tanta inteligência quanto os seus líderes.

Não desejo insistir muito neste ponto. Sem padrões objetivos fixos para agirmos assim, não podemos proclamar com absoluta segurança que as massas tem sempre agido com sabedoria e inteligência. Nem podemos dizer que elas são igualmente competentes para julgar umas e outras questões que tratam de assuntos muito além da experiência e do interesse comuns do cidadão médio, a opinião das massas importe muito. Mas a evidência nos conduz, sem possibilidade de erro, a conclusão de que, em amplas questões de diretrizes sociais, econômicas e políticas, as opiniões das massas parecem mostrar "um grau notavelmente alto de seno comum".

Há ainda uma razão mais importante para afirmar que o interesse público é aquilo que a opinião pública diz que ele é. Lord Bryce escreveu uma vez que "a excelência do governo popular reside não tanto na sua sabedoria quanto na sua força". E continua, afirmando: "Uma vez introduzido na mentalidade e incorporado nos hábitos da nação, o princípio de que deve prevalecer a vontade da maioria, honestamente aferida, então a nação adquire não apenas estabilidade mas também uma imensa força efetiva. Não há receio de discussão ou agitação. Ela pode utilizar todos os seus recursos para a realização de seus fins coletivos". Ele chama a atenção, entretanto, para dois possíveis perigos: 1º) a dificuldade que há em aferir a vontade da maioria; 2º) a possibilidade de que as minorias não se façam ouvir suficientemente. Acredito que esses perigos, por motivos que serão dados mais tarde, não sejam agora tão reais quanto em 1893, quando ele escreveu.

As definições de interesse público que refletem a opinião coletiva das massas têm também uma força e estabilidade que de longe excedem os julgamentos de minorias restritas. Isto não quer dizer que a opinião pública seja inflexível ou estática. Seus movimentos em assuntos de importância fundamental têm, todavia, a probabilidade de ser mais lentos e previsíveis do que os de grupos menores. É verdade que o advento dos instrumentos de influenciação das massas e as crescentes facilidades de contato humano tendem a apressar o processo das mudanças sociais. Não obstante, a força de simples números pode servir, e de fato serve, para filtrar as impurezas dos desejos egoísticos.

Salientando as virtudes da opinião pública, não deixo de preocupar-me com os seus efeitos. Não podemos, de modo algum, usar padrões absolutos de valores, e a questão está em saber se o julgamento coletivo das massas tem, a longo prazo, probabilidade de ser um melhor guia do que o de um indivíduo ou de uma minoria especialmente selecionada. A competência das massas está, naturalmente, condicionada pelo ambiente e pelas oportunidades que tem de adquirir informação, de ouvir diferentes pontos de vista, de discutir e expressar livremente suas opiniões, e de usar sua faculdade de raciocínio. As condições podem vir a ser tais, que seria absurdo falar da opinião pública como guia seguro para uma política nacional se e quando todas as facilidades e condições para formar opiniões esclarecidas deixarem virtualmente de existir. Isso já aconteceu no passado, em alguns países, e pode ser o caso em ditaduras de hoje em dia.

Temos indicado que nossas Relações Públicas são aqueles aspectos de nosso comportamento institucional ou individual que afetam o público e a comunidade; que o problema fundamental de Relações Públicas é ajustar aqueles aspectos de nosso comportamento que afetam os outros de modo a promover o interesse público: e que interesse público é o que a opinião pública diz que ele é.

Antes de concluir esta fase de nossa discussão, desejo citar um trecho de recente estudo de Relações Públicas. Ele me parece indicar que, mesmo dentro do campo da prática profissional, os estudiosos estão começando a perceber que tem à mão um critério tangível para descobrir o que é o interesse público. Indivíduos ou instituições, já não temos desculpas para nossa negligência em tentar ajustar nossas Relações Públicas ao interesse público por não sabermos em que o interesse público consiste. Nós o sabemos, ou com pequeno esforço podemos descobri-lo. Conforme afirmam os autores desse estudo: "Uma base comum sustenta todas as corretas Relações Públicas. Elas devem aderir, em suas diretrizes básicas, aos padrões de ética pessoal comumente aceitos e ao mais alto conceito de bem-estar público. [...] O supremo juiz dos atos, políticas, serviços, relações e produtos dos grupos e instituições é a opinião pública".

Publicação original: CHILDS, Harwood L.  Que é interesse público.  In: _____. Relações públicas, propaganda e opinião pública.  2. ed.  Rio de Janeiro: FGV, 1967.  p. 27-43.