|
QUE É INTERESSE PÚBLICO?
Harwood L. Childs
Tenho tentado, em nossas discussões, justificar estas duas
afirmativas: 1) nossas Relações Públicas consistem essencialmente naqueles
aspectos do nosso comportamento individual ou institucional que tem relevância
social; 2) o problema fundamental de Relações Públicas é ajustar essas
relações aos mais amplos aspectos de mudança social, a fim de promover o
interesse público.
Minha tese é que nossos problemas de Relações Públicas
surgem porque nos falta capacidade ou desejo de assumir, como deveríamos, a
responsabilidade social de nossos atos, seja por não reconhecermos suas
conseqüências sociais, seja por insistirmos em definir liberdade individual em
termos que já estão fora de moda. Nossas dificuldades provêm do fato de não
ajustarmos ao interesse público a concepção sobre o que Relações Públicas
são ou deixam de ser. Não só nossa visão estreita, mas também nossa
relutância em agir, é o que produz lacunas catastróficas no campo das
mudanças sociais.
O próprio cientista social deve, atualmente, aceitar uma
parte da responsabilidade por este estado de coisas. Ele tem permanecido
bastante indiferente às suas próprias responsabilidades sociais como líder em
vários setores da vida. Defende incessantemente o caráter
"científico", mas muito pouco o caráter "social" das suas
atividade. A diferença sensível entre uma ciência social e uma ciência
natural está no falto de que uma é social e a outra não. Este truísmo tem
sido freqüentemente negligenciado em intermináveis discussões sobre a
natureza da ciência e a aplicabilidade os métodos das ciências físicas ao
estudo dos fenômenos sociais.
Não é, porém, suficientemente que o cientista social
analise o comportamento individual e institucional em termos dos seus efeitos
sociais. Ele deve apresentar padrões ou critérios de bem-estar social. E os
frutos de sua pesquisa devem ser colocados à disposição da comunidade. Com
demasiada freqüência ele descobre princípios ou inventos técnicos unicamente
para monopolizá-los e utilizá-los em detrimento de seus concidadãos.
Recentemente a imprensa do país anunciou que um famoso
cientista natural da Universidade de Harvard, recusou-se a permitir aos
cidadãos de países fascistas o uso de suas descobertas, porque estes poderiam,
como seria de supor, utilizá-la não para promover o bem estar público mas
para favorecer o egoísmo e o orgulho raciais. Tratava-se de um pesquisador
acadêmico de renome mundial, que tinha a coragem de agir baseado no
reconhecimento das amplas conseqüências de Relações Públicas do seu
trabalho e de insistir em que suas descobertas fossem dedicadas ao que julgava
ser o interesse público. O fato de sua atitude ter ido para as manchetes de
jornais serve apenas para mostrar como seu gesto se afastava dramaticamente do
quotidiano. A atitude que prevalece entre muitos cientistas naturais parece ser
a de que sua profissão os liberta de qualquer responsabilidade de tomar em
consideração o interesse público no que estão fazendo. E sinto ter de dizer
que este ponto de vista é bastante freqüente entre os cientistas sociais. E
qual o seu resultado?
Muitas e muitas vezes os laboratórios de pesquisa sociais
tem sido desviados para os fins exclusivos de promover os interesses de grupos
privados, com pequeno ou nenhum respeito pelos efeitos sociais. Os frutos da
pesquisa de publicidade, por exemplo, tem sido colhidos e usados por vendedores
de produtos farmacêuticos e por fabricantes de alimentos adulterados com muito
maior intensidade que pelos que se dedicam, embora com indiferença, a serviços
de utilidade para a sociedade. Em muitos casos, nossos laboratórios
psicológicos tem sido prostituídos dedicando-se causas socialmente
indesejáveis. E lamento ter de dizer que muitos dos interesses que prevalecem
em Relações Públicas baseiam-se freqüentemente em um idealismo que não vai
além do desejo de promover alguma causa lucrativa, sem nenhuma consideração
quanto a sua utilidade social. Há sempre um interesse escondido na pergunta:
como posso modelar a opinião pública? Como posso persuadir as massas a
aceitarem minhas idéias, minhas mercadorias, meus serviços? E quem é capaz de
indicar um objetivo social, um interesse público em tudo isto?
Mas o que é o interesse público? – perguntarão nossos
espertos amigos. Quem tem competência para indicá-lo? A verdade – prossegue
a hábil argumentação – é que ninguém sabe em que consiste o interesse
público. Mesmo os acadêmicos, os eruditos, os cientistas, a inteligência não
chegam a um acordo. Quem sabe, realmente se os impostos são ou não de
interesse público? Quem tem competência para dizer se as tarifas cobradas
pelas concessões de serviço público são contrárias ao interesse público? E
mesmo quem pode provar, sem nenhuma sombra de dúvida, que o comércio de
narcóticos e de alimentos adulterados e as panacéias dos charlatães não
estarão, no longo prazo, sendo úteis ao interesse público verdadeiro? Com que
freqüência temos ouvido dizer que a intemperança pode ser, na verdade, uma
benção disfarçada, pois aqueles que usam o álcool em excesso, conforme temos
ouvido, é preferível que morram a que sobrevivam. A intemperança serve para
eliminar os desajustados; assemelha-se à operação seletiva de um sistema
competitivo incontrolado. Não faz este último com que apenas sobrevivam os
mais aptos?
O conceito mais idealista de interesse público tem
experimentado sensível recuo nos últimos anos, principalmente a partir da
Primeira Guerra Mundial. Em um mundo em que as ideologias se multiplicam e os
interessem se chocam, os padrões de valores absolutos entraram em desuso.
Teorias de relativismo e pragmatismo tentaram dar um certo cunho filosófico à
situação, satisfazendo, talvez apenas os próprios filósofos. E em meio às
perplexidades e incertezas, os próprios cientistas sociais recolheram-se às
quatro paredes dos seus laboratórios e, com um fatalismo e ceticismo
monásticos, alegaram nada ter a ver com questões de valores, de
responsabilidade social e de interesse público.
O interesse atual por assuntos de Relações Públicas só
poderá produzir alguma coisa útil se conseguir unir os cientistas sociais e os
administradores em uma preocupação conjunto apara com o bem-estar público. Se
um dos lados procurar apenas descobrir mais alguns truques, mais alguns esquemas
para atingir objetivos privados, independentemente do interesse público, há
poucas justificativas para o empreendimento. Se o outro lado estiver
simplesmente visando uma oportunidade de apoio ou financiamento para alguma
espécie de prestígio e projeção social, então os resultados serão vãos,
os problemas de Relações Públicas, em vez de diminuírem, tornar-se-ão mais
agudos e desesperadores. A motivação fundamental para o estudo de Relações
Públicas deve ser o desejo de servir o interesse público. Este é,
evidentemente, o motivo, inspirador do grande empreendimento que é o Instituto
Americano de Relações Públicas.
A minha tese é que o interesse público, no que concerne aos
Estados Unidos, é, e somente pode ser, aquilo que o público, a opinião da
massa, diz que ele é. Por opinião da massa, entendo as opiniões coletivas do
povo norte-americano considerando como um todo.
É claro que a opinião pública é alguma coisa dinâmica e
mutável. O ritmo da mudança é afetado por muitas influências, e é maior com
relação a alguns assuntos do que a outros. A opinião pública quanto ao valor
social de alimentos adulterados e narcóticos é certamente muito mais estável
do que no que diz respeito ao uso de bebidas alcoólicas e ao desejo de uma
política de neutralidade. Quando considerarmos, mais tarde, a eficácia com que
a opinião pública determina o interesse público, o relativo grau de
estabilidade da opinião pública com respeito a diferentes assuntos deverá ser
considerado. Além disso, é variável o grau de certeza e convicção com que a
opinião pública apóia ou reprova os negócios públicos. A concepção que
geralmente se tem de interesse púbico é mais clara e mais precisa em alguns
setores do que em outros.
A teoria norte-americana de ajustamento social e de interesse
público vem-se divorciando gradativamente de outras noções que prevaleceram
há algum tempo. A teoria de que a revelação divina através de canais humanos
específicos deu a um homem ou a um grupo de homens uma visão prévia
monopolista do interesse público tem-se tornado cada vez menos convincente.
Descobriram as massas que há menos perigo em aceitar que a divindade revela o
interesse público através da mente das massas do que em acreditar que ela
revela esse interesse através de indivíduos ou grupos especialmente
inspirados.
Houve uma época em que as igrejas pretendiam ser os únicos
repositórios do ponto de vista divino quanto à verdadeira natureza do
interesse público, mas o impacto persistente das transformações sociais
forçou-as a recuar, pelo menos no que tange aos assuntos temporais. A
invenção da imprensa no século XV, a Renascença e a Reforma, as
explorações geográficas e a revolução industrial iniciaram uma cadeia de
acontecimentos que acabaram por solapar a posição da Igreja como única fonte
de verdade e revelação. O advento do fascismo e do nacional-socialismo parecia
marcar o ressurgimento que estas elites ditatoriais, que se apossaram do poder,
tem o cuidado de indicar que a fonte de sua vontade e inspiração é realmente
a opinião pública. Os céticos observam, todavia, que às vezes os ditadores
são forçados a utilizar o ardiloso argumento de que sua vontade pode ser, em
certas ocasiões, uma expressão mais verdadeira da opinião pública do que os
votos do eleitorado nas urnas.
Os norte-americanos acostumaram-se às eternas alegações de
grupos de interesses especiais, no sentido de que eles, apenas eles, falam em
termos de interesse público. Tanto quanto pude observar, entretanto, esses
grupos de interesse especiais nunca chegaram a aceitar a pseudodialética
escolástica dos fascistas, e tem procurado indicar a diferença entre uma
verdadeira opinião pública e uma opinião pública vulgar e ordinária que se
expressa nas urnas. Muitas destas alegações têm sido parcial ou totalmente
rebatidas. Mas ainda persiste em alguns setores a idéia de que, de um modo ou
de outro, as opiniões das massas tem menos probabilidade de ser a expressão do
interesse público do que os pronunciamentos dos sábios.
Uma das principais contribuições dos inquéritos nacionais
de opinião, tais como os levados a efeito pelo Instituto Americano de Opinião
Pública e a revista Fortune, foi a luz que lançaram sobre o assunto da
competência das massas, da sensatez do eleitorado ao considerar questões de
política nacional. Os resultados desses inquéritos tende, creio eu, a
restabelecer a fé nos princípios democráticos, na teoria de que, em geral, em
períodos razoavelmente longos, a opinião pública é um guia tão seguro
quanto as opiniões de grupos menores e mais seletos. Naturalmente estas
experiências não podem, na ausência de padrões objetivos absolutos,
assegurar a sabedora das massas. Sugere, entretanto, que as massas não são, de
modo algum, tão destituídas de senso comum quanto muitas vezes se supõe.
Talvez nos ajude a compreender um pouco este senso comum que
se encontra na mentalidade coletiva das massas um lançar de olhos nos
resultados dos inquéritos realizados pelo Instituto Americano. Pode
surpreender-nos, talvez, a descoberta do quanto os julgamentos das massas
coincidem com os nossos próprios. E, naturalmente, julgamos que nossa
concepção do interesse público é sensata. Se o tempo permitisse, seria
interessante e proveitoso obter as respostas do nosso próprio grupo a uma
série de questões do Instituto Americano e comparar os resultados com o do
inquérito nacional. A experiência indica que as divisões de opinião dentro
deste grupo são, provavelmente, as mesmas de um público maior. Pelo menos
seria improvável que as diferenças fosse, devidas unicamente a um fator de
quociente intelectual.
O Instituto Americano de Opinião Pública iniciou seus
inquéritos de âmbito nacional em outubro de 1935. Desde essa ocasião o povo
deste país tem sido interrogado sobre mais de quinhentos assuntos: sobre
questões políticas e econômicas, sobre relações exteriores e sobre uma
vasta gama de problemas sociais. Em muitos dos assuntos a divisão de opinião
era acentuada, indicando não existir uma preponderância decisiva da opinião
de um lado ou de outro. Em tais casos seria arriscado usar a opinião pública
como guia para a política nacional. Em outras ocasiões, as questões eram de
interesse transitório e não tinham importância duradoura. Muitas vezes
tratavam de situações excepcionais, e as respostas eram indubitavelmente
influenciadas pelas condições particulares. A falta de estabilidade nessas
condições permite supor que mudanças da opinião pública nestes assuntos
devem ser freqüentes.
Além disso, algumas eram questões de fato ou pediam que o
entrevistado profetizasse o futuro. Por exemplo, a pergunta "Você acha que
haverá outra guerra mundial?", formulada em agosto de 1937, simplesmente
pretendia testar o gênio profético das massas, e pouca luz lançou sobre as
questões de interesse público. De tipo semelhante eram as perguntas:
"Você acha que os preços das ações subirão ou baixarão nos próximos
seis meses?", "Você ouviu falar no caso de RICHARD WHTINEY em Wall
Street?" e "Será que o Partido Republicano morreu?".
Tem, entretanto, importância especial as respostas às
perguntas referentes a assuntos de ampla repercussão social, nos quais as
massas tomam uma posição nítida, respostas essas que mostram, por exemplo 79%
ou mais de assentimento. Indubitavelmente, muitas dessas perguntas podem ter
sido, formuladas sem que se obtenham respostas mais categóricas, mas uma
análise delas poderá ser útil. O que eu gostaria que vocês tivessem sempre
em mente, na consideração dos resultados destes inquéritos, é o seguinte:
indicam eles que a opinião das massas é ou não é um guia seguro para a
definição do interesse público?
Examinemos, em primeiro lugar, as questões sobre assuntos
políticos e econômicos:
-
Você é favorável a um terceiro período de governo para
Roosevelt? (abril de 1938)
 |
Não – 70% |
Você seria favorável à mudança do período de governo do
presidente dos Estados Unidos para seis anos sem possibilidade de reeleição?
(junho de 1936)
 |
Não – 74% |
Deve o governo federal reduzir agora as suas despesas?
(setembro de 1936)
 |
Sim – 77% |
Em sua opinião, o que seria melhor para tirar-nos da
depressão: o aumento das despesas governamentais de assistência e obras
públicas, ou o auxílio às empresas por meio da redução dos impostos? (abril
de 1938)
 |
Auxílio às empresas – 79% |
Deve o governo acabar com a Administração de Projetos de
Obras e proporcionar somente auxílio direto ou em dinheiro? (maio de 1937)
 |
Não – 79% |
Você acha que as pessoas em desemprego remunerado em sua
comunidade estão recebendo tanto quanto deviam? (abril de 1938)
 |
Sim – 71% |
Você é favorável a uma lei que considere crime um
funcionário da seção de auxílio aos desempregados tentar influenciar o voto
destes? (maio de 1938)
 |
Sim – 86% |
Deve o governo recensear os desempregados? (maio de 1937)
 |
Sim – 73% |
Sempre que o Congresso quiser emendar a Constituição,
deverá a emenda ser proposta ao legislativo dos estados ou diretamente ao povo
de cada estado para aprovação? (março de 1937)
 |
Ao povo diretamente – 82% |
Você acha que a administração de Roosevelt deveria tentar
impedir a reeleição dos congressistas do Partido Democrata que se opuseram ao
plano da Corte Suprema? (setembro de 1937)
 |
Não – 73% |
Empregados e empregadores deveriam ser obrigados por lei a
tentar resolver suas disputas antes de recorrerem à greve? (julho de 1937)
 |
Sim – 89% |
Você é favorável a leis regulamentadoras das greves?
(julho de 1937)
 |
Sim - 84% |
Você aprova certos grupos de cidadãos, chamados
"vigilantes", que se tem introduzido ultimamente pelas áreas das
greves? (agosto de 1937)
 |
Não – 76% |
Os sindicatos devem ser obrigados a fundir-se? (maio de 1937)
 |
Sim – 86% |
Você é favorável aos sindicatos? (julho de 1937)
 |
Sim – 76% |
Os funcionários públicos devem sindicalizar-se? (agosto de
1937)
 |
Não
– 74% |
Você gostaria que os sindicatos afiliados ao Comitê de
Organização Industrial (CIO) e à Federação Operária Norte-Americana (AFL)
resolvessem suas desavenças e trabalhassem como uma única organização
sindical? (outubro de 1937)
 |
Sim –
79% |
Os cargos públicos, exceto os de confiança, devem ser
ocupados por: 1) aqueles que ajudam a por seu partido político no poder, ou 2)
aqueles que recebem as melhores notas nos concursos? (março de 1936)
 |
Concursos – 88% |
Você acha que a inflação seria uma boa coisa? (abril de
1937)
 |
Não – 80% |
Você acha que o Voluntariado da Proteção Civil deveria ser
tornado permanente? (abril de 1938)
 |
Sim – 78% |
O treinamento militar deve ser parte integrante dos deveres
dos voluntários? (agosto de 1938)
 |
Sim – 75% |
Você é favorável às pensões de velhice que o governo
paga aos necessitados? (janeiro de 1936)
 |
Sim – 89% |
Você aprova os descontos em folha do seguro social? (janeiro
de 1938)
 |
Sim – 73% |
Você acha que um homem solteiro que ganha menos de mil
dólares por ano deve pagar imposto de renda? (março de 1938)
 |
Sim –
73% |
Os funcionários federais e estaduais devem ser isentados do
imposto de renda? (março de 1938)
 |
Não – 87% |
As pessoas que possuem apólices federais, estaduais ou
municipais devem ser obrigadas a pagar imposto sobre a renda auferida por meio
destas apólices? (abril de 1938)
 |
Sim – 74% |
Você acredita que o governo deve comprar, possuir e dirigir
serviços ferroviários? (fevereiro de 1938)
 |
Não – 70% |
Você aprova a política do Secretário de Estado Hull, que
procura um acordo comercial bilateral com a Grã-Bretanha? (março de 1938)
 |
Não – 87% |
Se a Grã-Bretanha reduzir as tarifas sobre as mercadorias
americanas, devemos reduzir as tarifas sobre as mercadorias britânicas? (março
de 1938)
 |
Sim – 73% |
Nas questões políticas e econômicas mencionadas acima a
opinião pública expressou-se com bastante clareza. Sem dúvida, alguns
discordarão de opiniões indicadas quanto a assuntos específicos. Mas podemos
nós, honestamente, dizer que um programa político e econômico dentro das
linhas aprovadas pelas massas poderia ser falso em senso comum ou opor-se
nitidamente ao interesse público?
Sem rever em minúcias as perguntas que têm sido formuladas
em outros campos, verificamos que, quanto a relações exteriores, 70% da
população concorda:
-
Que, se outras nações concordarem em reduzir suas despesas
em armamento, os Estados Unidos deverão fazer o mesmo, na mesma proporção.
-
Que os Estados Unidos devem construir uma grande esquadra e
aumentar sua força aérea.
-
Que uma marinha maior, como julgava o Presidente Roosevelt,
dá-nos mais possibilidade de evitar a guerra.
-
Que o fabrico e a venda de munições com fins de lucro
privado devem ser proibidos.
-
Que, para declarar guerra, o Congresso deveria requerer a
aprovação do povo, por meio de um plebiscito de âmbito nacional.
-
Que, se nova Guerra Mundial for iniciada na Europa, os
Estados Unidos não deverão tomar parte.
-
Que, em tempo de guerra, todas as nações deveriam concordar
em não bombardear os civis das cidades.
-
Que as colônias tomadas da Alemanha ao término da Guerra
Mundial não deverão ser restituídas a ela.
-
Que o governo dos Estados Unidos deverá continuar mantendo
as atuais forças armadas na China, a fim de proteger os cidadãos
norte-americanos.
-
Que, em vista das condições no Oriente, os Estados Unidos,
não devem conceder agora a independência às Filipinas.
No campo da política social, descobrirmos que o povo
norte-americano acredita enfaticamente:
-
Que deve ser legalizado o fornecimento de informações sobre
o controle da natalidade.
-
Que o governo deve criar uma agência para informar sobre
doenças venéreas e instalar clínicas para o seu tratamento que o congresso
deve destinar 25 milhões de dólares para ajudar a combatê-las, e que os
Estados devem aprovar legislação exigindo exames médicos quanto a doenças
venéreas para todos que solicitem licença para casamento.
-
Que os criminosos contumazes e os loucos irremediáveis devem
ser esterilizados.
-
Que o Congresso deve aprovar uma lei considerando o
linchamento crime de competência federal.
-
Que as mulheres casadas não devem ganhar dinheiro no
comércio ou na indústria, se seus maridos estiverem em condições de
sustentá-las.
-
Que o divórcio deve ser obtido mais facilmente.
-
Que o governo federal deve ajudar os governos estaduais e
locais a proporcionar auxílio médico às parturientes.
-
Que a concessão de liberdade condicional deve ser mais
rigorosa do que atualmente.
-
Que se deve exigir dos possuidores de arma de fogo o seu
registro oficial.
Como afirmou recentemente o professor Paul Cherington:
"Temos sido informados pelos magnatas do cinema, pelos autores de novelas
radiofônicas, por alguns propagandistas sardônicos e mesmo por alguns
jornalistas que estão razoavelmente certos os resultados dos testes de
inteligência do exército que indicam uma idade mental média de doze
anos". Essa parece ser a opinião predominante entre os que desdenham da
inteligência das massas. O Dr. George Gallup, diretor do Instituto Americano de
Opinião Pública, tem, porém, alguma coisa a dizer.
"As pesquisas por amostragem realizadas nos últimos
anos tem fornecido abundantes provas da sabedora do homem comum. Todos podem
examinar essas provas. E acho que aquele que o fizer sairá acreditando, como eu
próprio, que, coletivamente, o povo norte-americano possui uma dose
notavelmente grande de senso comum. Seus componentes podem não ser
intelectualmente brilhantes ou particularmente ilustrados, mas possuem uma
qualidade de bom-senso que volta e meia se manifesta ao expressarem suas
opiniões sobre os assuntos do dia. Naturalmente seria tolice pretender que as
opiniões coletivas do homem comum representam sempre a resposta mais
inteligente e mais exata para qualquer pergunta. Mas os resultados de
inquéritos por amostragem sobre centenas de assuntos indicam, na minha
opinião, que podemos depositar grande fé no julgamento coletivo ou na
inteligência do povo".
Outro elemento para a resposta a nossa pergunta inicial é
fornecido pela experiência de nossos Estados em legislação direta. O
professore Edwin A Cottrell recentemente publicou uma avaliação de "Vinte
e Cinco Anos de Legislação Direta na Califórnia", e suas conclusões
são muito esclarecedoras. Entre outras coisas, mostra que:
"Estes votos não serviam apenas para o reestudo de uma
legislação apressada ou irrefletida, mas eram também excelentes instrumentos
de educação. [...] As avaliações das medidas [...] mostram uma atitude
decididamente conservadora por parte das massas. [...] Não há prova de ser
grande o número das medidas encaradas com parcialidade, seja em sua
aplicação, apoio ou oposição. [...] Onde interesses especiais ou escusos se
ocultavam por trás das medidas, tanto o legislativo quanto o povo recusavam
geralmente, transformar suas propostas em lei. [...] Têm certamente havido um
número substancial de medidas apresentadas em cada eleição, e um
correspondente interesse em votá-las. [...] Não se justificaram nem, por um
lado, o receio de uma legislação demasiado radical, nem pelo outro, o de
atitudes ultraconservadoras por parte do povo. Há provas de que o povo está
mais ansioso por adotar e cumprir uma legislação aprovada diretamente por ele
do que uma surgida pelo método usual de aprovação pelos legisladores. [...]
Em verdade, discutem-se e determinam-se medidas mais inteligentemente entre o
eleitorado do que normalmente em uma sessão legislativa, com seu sistema
obscuro e ineficiente de comitês. [...] A maioria dos editorialistas e dos
estudiosos da ciência política concorda que, em todo o período de
legislação direta, o povo compreendeu a maior parte das medidas propostas e
agiu sensatamente, como um todo, ao tomar as suas decisões. [...] Aqueles que
predisseram que a legislação direta levaria o governo às mãos dos jornais
estavam longe da verdade. [...] Medidas antagônicas aparecem freqüentemente na
mesma urna. Os votos, entretanto, nunca conduziram à adoção de medidas que
estivessem em oposição direta. [...] A primitiva acusação de que a
legislação direta exacerbaria paixões entre os vários elementos da
população não se comprovou."
A experiência de iniciativa popular e plebiscitos, realizada
na Califórnia, e os inquéritos por amostragem do Instituto Americano de
Opinião Pública tendem a confirmar a profética afirmação de Theodore
Roosevelt de que "a maioria do povo cometerá dia a dia menos erros
governando-se a si própria do que qualquer grupo mais restrito de homens
tentando governar a todos".
Foi com considerável interesse que li recentemente um estudo
da propaganda da Guerra Mundial, de autoria do Professor Peterson, que trata
principalmente dos esforços feitos pela Grã-Bretanha e pelo aliados com o fito
de solapar a política norte-americana de neutralidade durante os anos de
1914-17. É interessante notar que, embora a campanha tenha sido especialmente
bem sucedida na obtenção de uma pronta e decidida atitude pró-aliados de
parte da grande maioria dos jornais do país, da maioria dos membros do
gabinete, incluindo do Presidente Wilson, bem como de parte dos líderes dos
negócios e de círculos acadêmicos e políticos, ela foi surpreendentemente
ineficaz no que concerne à modificação das atitudes e opiniões das massas.
Em 1917 como em 1914, elas continuavam simpáticas aos aliados, mas
absolutamente não tinham nenhum entusiasmo por abrir mão da política de
neutralidade e entrar na guerra. Seria esta a posição sensata e razoável?
Alguns dirão que não. Mas creio que a perspectiva dos anos justifica nossa
afirmação de que elas agiram coletivamente com tanta inteligência quanto os
seus líderes.
Não desejo insistir muito neste ponto. Sem padrões
objetivos fixos para agirmos assim, não podemos proclamar com absoluta
segurança que as massas tem sempre agido com sabedoria e inteligência. Nem
podemos dizer que elas são igualmente competentes para julgar umas e outras
questões que tratam de assuntos muito além da experiência e do interesse
comuns do cidadão médio, a opinião das massas importe muito. Mas a evidência
nos conduz, sem possibilidade de erro, a conclusão de que, em amplas questões
de diretrizes sociais, econômicas e políticas, as opiniões das massas parecem
mostrar "um grau notavelmente alto de seno comum".
Há ainda uma razão mais importante para afirmar que o
interesse público é aquilo que a opinião pública diz que ele é. Lord Bryce
escreveu uma vez que "a excelência do governo popular reside não tanto na
sua sabedoria quanto na sua força". E continua, afirmando: "Uma vez
introduzido na mentalidade e incorporado nos hábitos da nação, o princípio
de que deve prevalecer a vontade da maioria, honestamente aferida, então a
nação adquire não apenas estabilidade mas também uma imensa força efetiva.
Não há receio de discussão ou agitação. Ela pode utilizar todos os seus
recursos para a realização de seus fins coletivos". Ele chama a
atenção, entretanto, para dois possíveis perigos: 1º) a dificuldade que há
em aferir a vontade da maioria; 2º) a possibilidade de que as minorias não se
façam ouvir suficientemente. Acredito que esses perigos, por motivos que serão
dados mais tarde, não sejam agora tão reais quanto em 1893, quando ele
escreveu.
As definições de interesse público que refletem a opinião
coletiva das massas têm também uma força e estabilidade que de longe excedem
os julgamentos de minorias restritas. Isto não quer dizer que a opinião
pública seja inflexível ou estática. Seus movimentos em assuntos de
importância fundamental têm, todavia, a probabilidade de ser mais lentos e
previsíveis do que os de grupos menores. É verdade que o advento dos
instrumentos de influenciação das massas e as crescentes facilidades de
contato humano tendem a apressar o processo das mudanças sociais. Não
obstante, a força de simples números pode servir, e de fato serve, para
filtrar as impurezas dos desejos egoísticos.
Salientando as virtudes da opinião pública, não deixo de
preocupar-me com os seus efeitos. Não podemos, de modo algum, usar padrões
absolutos de valores, e a questão está em saber se o julgamento coletivo das
massas tem, a longo prazo, probabilidade de ser um melhor guia do que o de um
indivíduo ou de uma minoria especialmente selecionada. A competência das
massas está, naturalmente, condicionada pelo ambiente e pelas oportunidades que
tem de adquirir informação, de ouvir diferentes pontos de vista, de discutir e
expressar livremente suas opiniões, e de usar sua faculdade de raciocínio. As
condições podem vir a ser tais, que seria absurdo falar da opinião pública
como guia seguro para uma política nacional se e quando todas as facilidades e
condições para formar opiniões esclarecidas deixarem virtualmente de existir.
Isso já aconteceu no passado, em alguns países, e pode ser o caso em ditaduras
de hoje em dia.
Temos indicado que nossas Relações Públicas são aqueles
aspectos de nosso comportamento institucional ou individual que afetam o
público e a comunidade; que o problema fundamental de Relações Públicas é
ajustar aqueles aspectos de nosso comportamento que afetam os outros de modo a
promover o interesse público: e que interesse público é o que a opinião
pública diz que ele é.
Antes de concluir esta fase de nossa discussão, desejo citar
um trecho de recente estudo de Relações Públicas. Ele me parece indicar que,
mesmo dentro do campo da prática profissional, os estudiosos estão começando
a perceber que tem à mão um critério tangível para descobrir o que é o
interesse público. Indivíduos ou instituições, já não temos desculpas para
nossa negligência em tentar ajustar nossas Relações Públicas ao interesse
público por não sabermos em que o interesse público consiste. Nós o sabemos,
ou com pequeno esforço podemos descobri-lo. Conforme afirmam os autores desse
estudo: "Uma base comum sustenta todas as corretas Relações Públicas.
Elas devem aderir, em suas diretrizes básicas, aos padrões de ética pessoal
comumente aceitos e ao mais alto conceito de bem-estar público. [...] O supremo
juiz dos atos, políticas, serviços, relações e produtos dos grupos e
instituições é a opinião pública".

Publicação original: CHILDS, Harwood L.
Que é interesse público. In: _____.
Relações
públicas, propaganda e opinião pública. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 1967.
p. 27-43.
|

|