O PROBLEMA FUNDAMENTAL DAS
RELAÇÕES PÚBLICAS
Harwood L. Childs
Nossa última conferência tratou do significado da
expressão Relações Públicas. Definimo-la como os aspectos do nosso
comportamento individual e institucional que tem um significado mais social do
que puramente privado e individual; focalizamos a atenção em algumas das
razões pelas quais este conceito tem-se ampliado nos últimos anos, tanto em
âmbito quanto em importância. Verificamos que uma explanação adequada exigia
a compreensão da atuação de certas forças básicas – sociológicas,
políticas, culturais e econômicas – que contribuem para maior
interdependência social. Voltamo-nos agora para a questão: Qual é, à luz
destas mudanças, o problema fundamental de Relações Públicas?
O problema fundamental de Relações Públicas, a meu ver, é
a reconciliação com o interesse público, ou o ajustamento a ele, dos aspectos
de nossa conduta individual e institucional que tem significado social. Uma das
primeiras tarefas do consultor de Relações Públicas e de estudiosos do
assunto é analisar o comportamento individual e institucional em termos de seus
efeitos sobre a comunidade. E comunidade, para mim, não significa apenas o
grupo facilmente identificável dos acionistas, empregados e consumidores. Estes
são importantes públicos, e as relações que com eles mantemos constituem uma
parte do problema. Mas os efeitos das atividades individuais e institucionais
estendem-se muito além dos limites da família, que é nossa instituição,
até às massas em geral. Esta análise de nossas atividades individuais e
institucionais não pode ser realizada satisfatoriamente, a não ser que
tenhamos uma compreensão adequada dos fundamentos sociológicos, políticos,
econômicos e sociais destas atividades. Sem este conhecimento não é possível
avaliar corretamente as implicações sociais de nosso trabalho.
Nos últimos anos, por exemplo, uma nova atividade apareceu
no cenário norte-americano: a televisão. Quer sejamos fabricantes, quer
sejamos usuários de seus receptores, é claro que a introdução deste novo
meio de comunicação altera o âmbito e a natureza de nossas atividades. Mas de
que forma? Eis um problema de Relações Públicas. Compete ao consultor de
Relações Públicas e aos estudiosos do assunto analisar esses efeitos,
determinar até que ponto a produção e a fabricação de receptores de
televisão afetam os hábitos e interesses não só dos empregados e
empregadores, acionistas e compradores, mas de todos os elementos da
população.
Antes de mais nada, há o problema de Relações Públicas da
própria indústria de televisão e das várias unidades que a compõem. De que
maneira a introdução deste novo instrumento afeta outras indústrias, seus
lucros, suas condições de emprego, seus métodos de condução dos negócios?
Como afeta ela outros grupos da população, tais como fazendeiros, professores,
funcionários públicos e donas de casa? Como sua utilização por uma
repartição pública, um estabelecimento de ensino ou uma empresa privada
afetará as relações dessas entidades com os inúmeros públicos com que
entram em contato? Como alterará as relações desses públicos para conosco e
entre si?
Não só é necessário reconhecer os efeitos, à proporção
que vão ocorrendo, mas é também importante prever que efeitos poderão surgir
no futuro. Além disso, sérias dificuldades podem aparecer antes que se tenha a
oportunidade de controlar ou modificar a prática vigente. O consultor de
Relações Públicas deve estar em posição não só de seguir dia a dia as
constantes modificações da natureza das Relações Públicas mas também de
antever as prováveis tendências e conseqüências. Esta previsão é um dos
seus atributos mas valiosos. Não é algo que caia do céu, como um maná, mas
é o produto de vastos conhecimentos e experiência, uma compreensão real da
evolução social que se processa no mundo moderno.
Inúmeros exemplos podem ilustrar como este conhecimento tem
sido realmente usado por administradores de grande visão a fim de sentirem
antecipadamente os prováveis efeitos sobre Relações Públicas de
modificações específicas de sua política institucional. Só uma apreciação
inteligente dos fundamentos históricos das relações industriais poderia ter
dado a gerência da Big Steel a antevisão das vastas conseqüências da
decisão que tomou, há alguns meses, de modificar sua política de pessoal. A
Indústria Siderúrgica Norte Americana havia reconhecido, desde sua fundação,
em 1901, a importância nacional das notícias sobre as atividades da Big Steel.
Através de sua história, continuou a publicar informações detalhadas
relativas a suas operações. Mas por muito tempo os dirigentes da siderurgia
deixaram de considerar as conseqüências sociais de muitos outros aspectos de
suas práticas institucionais, tais como suas diretrizes básicas, sua política
de pessoal e as conseqüências das transformações sociais fora da indústria.
A assinatura dramática de um acordo com a união sindical em março de 1937,
que veio como um choque para muitos líderes dos negócios, refletiu realmente
uma apreciação excepcional das tendências correntes, uma previsão bastante
desusada no campo dos negócios.
Na literatura de Relações Públicas comentam-se muitos os
esforços da Indústria Siderúrgica Norte Americana a fim de melhorar suas
relações com o público: a nova sala de imprensa no n. 71 da Broadway, com
todas as facilidades concebíveis para proporcionar conforto e conveniência aos
representantes da imprensa, a nova era da cordialidade dos dirigentes, os
programas de visitas dirigidas, o uso de filmes e panfletos para contar a
"história do aço". Estes esforços são bons, no que lhes é
possível realizar. Evidentemente o reconhecimento do panorama evolutivo da
mudança social. Mas o problema do ajustamento dos públicos entre si é muito
mais profundo e necessita um diagnóstico muito mais amplo e detalhado das
tendências da sociedade do que o previsto mesmo pela Big Steel.
Um dos primeiros programas de longo alcance de Relações
Públicas concebidos na história dos negócios norte-americanos foi o da
Companhia Telefônica Bell. Já em 1883 Theodore Vail percebeu, com poucos na
ocasião, as implicações de Relações Públicas das atividades da sua
empresa. Notou, por exemplo, que o trabalhou dos seus telefonistas, homens na
maioria, carecia da paciência e do tato necessários para enfrentar
satisfatoriamente os aborrecidos problemas que surgiam junto ao quadro
telefônico no lidar com os assinantes. Substituiu imediatamente os telefonistas
homens por mulheres.
Outro reconhecimento das conseqüências públicas dos
negócios ocorreu em 1908, com a inauguração de uma campanha nacional de
propaganda. Muito antes de terem as empresas fornecedoras de gás, luz e força
sentido a crescente antipatia das massas para com as práticas institucionais no
ramo as telefônicas conseguiram que suas empresas fossem consideradas pelo
público como uma categoria à parte. Ataques às concessões, particularmente
à extinta Associação Nacional de Luz Elétrica, que culminaram com
inquéritos governamentais, deixaram o ramo telefônico virtualmente intocado.
Não cabe aqui descrever em detalhe o mecanismo das
atividades de Relações Públicas executadas pela Companhia Telefônica e
Telegráfica Norte- Americana. Muitas delas foram desde então imitadas por
outras empresas. Considerável progresso tem ocorrido nos setores da
eletricidade, alimentação, indústrias, bancos, varejos, petróleo, aviação,
automóveis, cinema, rádio, cervejaria e outros. As relações com a imprensa
melhoraram; a reportagem foi modernizada; o filme e o rádio passaram a ser
usados; em alguns casos, os contatos com o público foram aprimorados coma a
utilização de visitas dirigidas, comitês consultivos etc.; empregados têm
sido treinados a "falar sorrindo", a propriedade de ações tem sido
ampliada; tem aumentado as verbas de publicidade; tem sido adotados programas
visando ao bem-estar coletivo.
Foi por causa destes esforços, bons em si, que Relações
Públicas chegaram a ser definidas unicamente em termos de publicidade. Contar a
sua história é certamente uma importante inovação. Minha única objeção é
não ser ela suficientemente profunda. Ela não toma nem pode tomar em conta as
deficiências do processo social causadoras do problema rela. A base para uma
política esclarecida de Relações Públicas é, e só pode ser, uma completa
compreensão das forças que fazem estas relações serem o que são, uma
análise cuidadosa das conseqüências sociais de práticas específicas. Uma
orientação de Relações Públicas para ser válida, deve basear-se em um
amplo conhecimento do passado e das tendências e relações existentes no campo
das mudanças sociais. Deve começar com a história da vida do indivíduo e da
organização e, mais longe ainda, deve começar pela história do povo
norte-americano: seus antecedentes econômicos, políticos e sociais.
É evidente que o ajustamento entre as relações pessoais e
institucionais, que têm um significado público e social, e as tendências
sociais fundamentais ainda não ocorreu em muitas esferas dos assuntos humanos.
Exemplos de desajustamentos encontramos no campo das relações internacionais.
O governo, tanto como grupos e instituições não oficiais, tem seus problemas
de Relações Públicas. Os atos executados pelas repartições públicas, como
os dos indivíduos, tem hoje conseqüências mais amplas do que outrora. A
liberdade de cada país agir de acordo com sua vontade, sem atenção às
conseqüências sociais em geral, de âmbito mundial, das suas atividades, tem
diminuído gradativamente. Mesmo os poderes ditatoriais, lentamente, talvez com
demasiada lentidão, chegarão a compreender que são parte integrante de uma
comunidade internacional e que simplesmente não podem seguir uma política de
completo isolamento do resto do mundo. Eles parecem sentir o impacto das
mudanças ocorridas no campo das comunicações sobre as relações
internacionais. Eles percebem a importância da propaganda e a necessidade de
levar em conta a opinião das massas através do mundo. Não obstante, parecem
ignorar outras mudanças, outras forças igualmente importantes – econômicas,
sociais e políticas – persistentemente limitando o âmbito da autonomia
estatal.
Mas as ditaduras não são as únicas a não levarem em conta
as modificações que estão ocorrendo nas Relações Públicas governamentais.
As democracias, e os Estados Unidos em particular, durante os anos que se
seguiram à Primeira Guerra Mundial, tentaram, como o avestruz, evitar as
conseqüências de atividades que estavam afetando os povos de todo o mundo.
Nossa não participação na Liga das Nações, o atraso de nossa adesão à
Corte Internacional, nossa política de tarifas, nossa política comercial,
nossas leis de imigração refletiam um velho espírito de nacionalismo,
originário de uma era em que as dimensões da liberdade nacional eram muito
maiores. Uma das nossas mais lamentáveis falhas como nação, creio eu, é a
tendência de agir, pelo processo legislativo e por outras formas, sem
considerar cuidadosamente o significado social e mundial de nossas ações.
Dizemos: ora, que diferença faz o efeito que este ato tem
sobre os povos do Extremo Oriente, da América do Sul ou da Europa Central? Anos
atrás, poderia não ter muita significação. Mas a interdependência das
nações e dos Estados é muito diferente hoje do que era outrora. Nossas
dificuldades internacionais só poderão ser resolvidas se tentarmos colocar
nossas Relações Públicas mais de acordo com o interesse público
internacional, ao invés de baseá-las em considerações puramente nacionais.
Não estou recomendando uma política externa para os Estados Unidos. O que estou
tentando fazer é chamar a atenção para a importância de ajustar nossa
política externa à atuação de forças sociais, econômicas e políticas que
estão definitivamente afetando nossas relações com outras nações.
Um outro exemplo notável de desajustamento ocorre no campo
das relações trabalhistas. Se eu tivesse de indicar uma razão básica para as
dificuldades ai existentes, eu diria que elas se devem primordialmente ao fato
de ambos os lados deixarem de tomar em consideração as mudanças sociais que
afetaram materialmente as implicações de suas atividades. A administração,
por exemplo, introduziu novas máquinas, fabricou novos produtos, introduziu
novos sistemas de economia de trabalhos alterou processos tecnológicos,
freqüentemente sem o devido cuidado para com os efeitos remotos e cumulativos
destas alterações. A administração limita suas atividades de pesquisa ao
campo técnico, focaliza sua atenção unicamente nos fatores materiais
existentes e não fornece maquinaria para um amplo e contínuo estudo das
conseqüências das atividades empresariais sobre as relações sociais em
geral.
Desde o início do século XX, e mesmo antes, nossos
estabelecimentos de ensino superior têm devotado cada vez mais atenção ao
estudo das ciências sociais; a um exame da sociologia, da psicologia social, da
ciência política e da economia. Infelizmente, todavia, estes resultados não
tem sido colocados à disposição das empresas de nossa sociedade, na devida
extensão. Onde se tem feito algum esforço para aproveitar este trabalho, como
nas tentativas de aplicação de princípios de psicologia e psicologia social
à publicidade, o objetivo tem sido sempre o interesse de uma determinada
empresa privada, seus lucros, o aumento do âmbito de sua liberdade, e não um
ajustamento de suas atividades às suas crescentes responsabilidades sociais.
Quantas empresas têm hoje em dia um departamento de Relações Públicas dentro
de suas organização, uma divisão de ciências sociais capaz de analisar e
interpretar para elas não apenas o significado do balanço de suas operações,
mas também as conseqüências sociais do que estão fazendo? Elementos da
administração têm introduzido novas máquinas e processos, mas terão tentado
medir seus efeitos sobre as condições dos empregados, suas atitudes mentais,
seus padrões de vida, ou ainda o efeito dessas alterações sobre os seus
competidores, seus consumidores e sobre o todo o sistema econômico em geral?
Os problemas industriais surgem, segundo os estudiosos de
sociologia, em virtude de atrasos culturais, em virtude do ritmo variável com
que se realizam os diferentes aspectos das mudanças sociais. Cada mudança no
comportamento pessoal e institucional tem amplas repercussões e tende a
desorganizar os sistemas econômicos e outros, a não ser que essa mudança seja
evidentemente sincronizada com outras mudanças. Indo-se em direção a um alvo,
seja ele econômico ou militar, é indispensável que todas as unidades avancem
aproximadamente no mesmo ritmo, ou, então, corre-se risco de desastre.
Usando-se analogia com o caso militar, pode-se dizer que as dificuldades dos
negócios norte-americanos surgiram porque algumas divisões avançaram muito
mais rapidamente do que as outras, a ponto de perderem contato com as unidades
vizinhas e desorganizarem o avanço geral. Isto é verdade não apenas para as
unidades individuais dentro do sistema econômico, mas também com relação à
economia nacional como um todo. Ela perdeu contato com as forças aliadas da
evolução social, cultural e econômica, e tentou ganhar a guerra sozinha.
No campo das relações trabalhistas, o progresso do setor
técnico foi muito mais rápido que o progresso do setor sociológico. Não tem
havido aí um estado-maior capaz de sincronizar e dirigir as operações numa
frente geral de grandes dimensões. Tem-se feito muito pouco caso da direção e
do ritmo da mudança das atitudes dos empregados, de suas esperanças e
expectativas; dos efeitos causados por uma ampla educação popular, pelo
progresso nas comunicações e nos transportes; dos efeitos fundamentais
ocasionados pela Guerra Mundial; do aparecimento de novas filosofias; das crises
e da depressão. Na verdade, lemos sobre tudo isso, mas raramente aplicamos o
nosso conhecimento no campo de nossas atividades. Sabemos que houve uma guerra
mundial. Sabemos alguma coisa sobre a devastação que ela deixou. E todavia
deixamos de tomar em consideração as muitas transformações fundamentais que
daí decorreram. Ainda falamos sobre a volta à normalidade e ao sistema de vida
norte-americano tradicional, como se o seu curso tivesse sido fixado em 1914.
Zelosamente tentamos retomá-lo onde o tínhamos deixado em 1917, e insistimos
nas mesmas velhas liberdades, sem ligar para todas estas alterações
fundamentais ocorridas desde então nas vidas e atitudes dos povos através do
mundo.
Eu gostaria de citar apenas mais um exemplo do que quero
dizer com problema de Relações Públicas. Estamos todos cientes da atenção
que hoje se presta ao que chamamos medicina socializada. Durante décadas os
países tem aprovado leis e regulamentos destinados a promover a saúde de seus
cidadãos. Eles refletem grandemente a alteração de condições ocasionada
pelo nascimento de cidades, pela introdução de novos tipos de emprego e, mais
particularmente, pela devolução das atitudes para com a responsabilidade da
comunidade em assuntos de saúde. Mas recentemente temos testemunhado a
expansão de vários tipos de planos de seguro social, de velhice e de
hospitalização. Atingiu-se agora o ponto em que a profissão médica esta’
na defensiva.
O Dr. Rock Sleyster, presidente da Associação Médica
Norte- Americana, em uma palestra perante a 173ª Convenção Anual da Sociedade
Médica de Nova Jersey em 6 de junho de 1939, disse:
"Os médios do país estão sendo atacados e ameaçados
com uma regularidade que pressupões método e finalidade por uma tempestade de
propaganda em favor da medicina socializada. Espalhou-se a notícia de que
devemos ser investigados, esfolados, flagelados e talvez excomungados... Deus
nos ajude, pois nós também ousamos divergir dos sábios, chamamos a atenção
para suas inexatidões, recusamos seguir a boiada concordando com suas doutrinas
revolucionárias e antiamericanas. Ninguém dá crédito a uma profissão que
proporcionou um milhão de dólares diários de serviços gratuitos e mais
alguns milhões muito abaixo do custo. Que saldo comparável tem a oferecer os
provedores de outras necessidades da vida?"
E assim a Associação Médica descobre que tem um problema
de Relações Públicas! Mas qual a natureza deste problema, e como surgiu ele?
Se a nossa análise precedente é correta, o problema surgiu por terem ocorrido
mudanças sociais mais rapidamente em alguns setores de nossa vida social do que
em outros; por não ter a profissão médica, como um todo, seguido como devido
cuidado as conseqüências sociais do seu trabalho, seu impacto e sua
correlação com atividades de outros setores. A profissão médica não é a
vítima de um grupo malevolente de pessoas com espantosos esquemas de reforma
social. Suas dificuldades são grandemente devidas à sua própria cegueira para
com as forças sociais, econômicas e culturais que vêm atuando desde muito
tempo. Há muito que ela deveria estar prestando atenção a essas forças.
Deveria ter previsto as tendências sociais. Deveria ter tentado evoluir com
estas mudanças.
Isto não quer dizer que todos os aspectos da evolução
social sejam necessariamente desejáveis. Sugere-se, porém, que uma política
esclarecida de Relações Públicas deve prevê-las e têm possibilidades de
tomas as medidas convenientes com grande antecipação. Os esforços frenéticos
para preservar as liberdades anteriores parecem agora um pouco fora de época.
É sempre um processo exasperador e freqüentemente doloroso tentar acompanhar a
sua época. Nenhum consultor de Relações Públicas pode agitar uma varinha
mágica e subitamente fazer retroceder a vaga de forças sociais que avança. Os
problemas de Relações Públicas da profissão médica vêm crescendo há anos,
como um câncer.
Em todos os campos – nas relações internacionais,
relações trabalhistas, medicina e através de toda nossa economia nacional –
podemos observar tendências similares; lutas em busca do progresso, sem uma
compreensão suficiente do progresso que está realmente ocorrendo. Uma
política de Relações Públicas encarada unicamente em termos de propaganda,
de manipulação de símbolos e palavras, é certamente uma política de curta
visão. Nenhuma quantidade de publicidade pode realmente opor-se à atuação de
forças básicas, socializadas. O método de controle deve resultar de uma
análise contínua, investigadora destas forças fundamentais. No grosso de
nossa população prevalece o espanto. Temos apertado botões, ligado
comutadores, instalado máquinas e aberto comportas sem uma completa
compreensão das leis da biologia, psicologia e sociologia. E se alguns julgaram
entendê-las, suas vozes queixosas foram silenciadas pelo avanço da multidão
desejosa de ligar mais comutadores e apertar mais botões.
Tenho afirmado que o problema básico de Relações
Públicas, a meu ver, é reconciliar com o interesse público, ou ajustar a ele,
os aspectos de nosso comportamento individual ou institucional que tem um
significado público. Este princípio aplica-se independentemente do tamanho da
unidade. O ponto de partida para a formulação de uma política de Relações
Públicas é uma análise cuidadosa de nosso comportamento pessoal e
institucional à luz da mudança social em geral. Sem conhecer as tendências
básicas econômicas, culturais, políticas e sociais de nossa época, não
podemos perceber, e muito menos prever, as conseqüências públicas do que
estamos fazendo. É o descompasso entre as tendências sociais que faz surgirem
os nossos problemas, e a procura de respostas deve ser uma procura das razões
de ser desse descompasso, de sua localização e do que pode ser feito para
sincronizar o movimento social. As atividades de produção e distribuição de
mercadorias e serviços devem ser estudadas em relação à situação total, ao
ambiente total em que operam. Os dirigentes de empresas não podem devotar toda
ou maior parte de suas energias unicamente a considerações tecnológicas.
Devem erguer seus olhos para o nível dos horizontes mais amplos. O consultor de
Relações Públicas deve ser algo mais do que um divulgador, um jornalista ou
um estático. Deve ser um cientista social capaz de aconselhar a administração
relativamente ao ambiente em que está operando.

Publicação original: CHILDS, Harwood
L. O problema fundamental das Relações
Públicas. In: _____. Relações públicas, propaganda e opinião pública.
2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 1967. p. 16-26.