OS MOICANOS DAS RELAÇÕES PÚBLICAS NO BRASIL
Antônio da
Silva Leite
CONRERP Nº
0016 – 2ª Região
Retornando dos Estados Unidos, em fins de 1955, após
ter desenvolvido lá atividades jornalísticas num diário ítalo-americano de
Boston, comecei a trabalhar na antiga Light (hoje, Eletropaulo), no
Departamento de Relações Públicas, como Encarregado de Serviço no setor
então criado e denominado "Assuntos de Comunicação e Relações Públicas –
Interior" (ACRP-I) com os públicos da empresa, localizada no interior do
Estado de São Paulo, mais precisamente nos vales do Rio Tietê, do Rio
Paraíba e nas regiões de Jundiaí e Sorocaba, uma área abrangendo 58
municípios.
Além dos contatos com os Gerentes das Agências da Light,
minha tarefa principal consistia em criar e manter bom relacionamento
entre a Light e prefeitos, vereadores, diretores de indústrias de grande
porte, jornais e rádios. Era, também, minha tarefa preparar textos
redacionais sobre assuntos de interesse da Light ou relacionados com a
política energética nacional, para serem publicados nos jornais da citada
área. Cabia-me, também, "copidescar" e aprovar os "scripts" de programas
"radiofônicos", mantidos pela Light nas emissoras locais, bem como liberar
verbas de publicidade à mídia, na base de 70% sobre o montante de gastos
de energia elétrica de cada veículo.
Dentre as numerosas sugestões por mim feitas, após as
visitas oficiais às 58 Agências da Light, cumpre-me destacar duas bem
relevantes.
Na primeira, eu recomendava a extinção do sistema de
atendimento ao público através de guichês (tipo "caixa de banco do velho
oeste norte-americano"), em se tratando de assuntos técnicos ou de
esclarecimentos sobre contas de energia elétrica. Eu propunha que
funcionários, treinados para fornecer toda sorte de esclarecimentos e
instalados em mesinhas apropriadas, atendessem os usuários, recebidos e
acomodados em cadeiras confortáveis. A sugestão foi considerada, então,
"ousada" demais pela alta direção lighteana, ultraconservadora e submissa
fiel às tradições burocráticas britânicas (a empresa tinha suas raízes
fincadas no Canadá inglês).
A segunda sugestão – que, igualmente, "escandalizou" os
altos escalões da Light – propunha se acabar com as quilométricas filas de
usuários, nos guichês das agências, para pagar as contas de energia
elétrica. Eu recomendava que tais pagamentos passassem a ser feitos nos
bancos, mediante convênio entre a Light e a rede bancária paulista.
Tais idéias "inovadoras" (bem como inúmeras outras,
visando à melhoria dos serviços prestados pela empresa ao seu público
externo) acabaram sendo endossadas, há seu tempo, pelo então nosso chefe,
Dr. Ubirajara Martins, o qual me obrigou a ler numerosos livros e
monografias (em português e inglês) sobre Relações Públicas, antes de me
promover para Supervisor do ACRP-I, do seu Departamento.
Ubirajara Martins (um dos criadores do famoso refrão de
festa de aniversário: "Como é que é?! Meia-hora... Rá... Tchim... Bum...")
tinha sido assessor direto de Eduardo Pinheiro Lobo, de quem apreendera os
princípios fundamentais das Relações Públicas norte-americanas, adaptados
por este ao "modus vivendi" da nossa sociedade. Enquanto Pinheiro Lobo foi
o introdutor dessa atividade no Brasil, através da Light, Ubirajara
Martins foi o mais entusiasta dos 27 articuladores do movimento, que
resultou na fundação e consolidação da Associação Brasileira de Relações
Públicas – ABRP, na qual ingressei, a seu pedido e como "Sócio Titular",
aos 13 de maio de 1959.
A brilhante atuação de Ubirajara Martins, à frente do
Departamento de Relações Públicas da Light, por décadas, seguindo as
pegadas de Pinheiro Lobo, marcou época na evolução dessa atividade no país
e serviu de modelo para os demais departamentos homônimos de grandes
empresas nacionais e multinacionais, sediadas não só em São Paulo, como
também no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre.
Dr. Ubirajara nos reunia a todos, a cada 3 meses, e nos
transmitia ensinamentos sobre estratégia de Relações Públicas, numa época
em que não havia o menor sinal ou se tinha a mínima idéia que tal
atividade viesse a assumir a importância e o alcance táticos, de que goza
hoje na conjuntura sócio-econômica da nação. É bom lembrar que, naqueles
tempos, Relações Públicas eram consideradas como disfarçada "picaretagem",
a ponto de um jornalista americano, Carl Byoir, afirmar que "Relações
Públicas são aquela atividade que a pessoa, que a pratica, acredita que
elas sejam!".
Por me sentir "um dos últimos moicanos" das primitivas
Relações Públicas no Brasil, considero Ubirajara Martins como o primeiro
Mestre da Profissão em nosso país, fiel e exemplar aluno do pioneiro
Eduardo Pinheiro Lobo, consagrado hoje como o "Pai das Relações Públicas
nacionais".