Memória

Anterior Voltar Próxima

 

HISTÓRIA E DESAFIOS DAS RELAÇÕES PÚBLICAS
NO BRASIL

 

Carlos Eduardo Mestieri

 

Antes de tudo muito obrigado pela oportunidade que me é dada de contar uma história, que começou há quarenta anos. A minha história profissional que quase se confunde com a história das Relações Públicas em nosso país.

Embora tenha sido lido o meu curriculum é interessante mostrar como fomos sendo, pela vida, encaminhados para a profissão de Relações Públicas. Em 1957 ingressei na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade de São Paulo, onde fui contemporâneo deste meu amigo aqui presente, Ruy Altenfelder. Na época os estudantes universitários de uma maneira geral e os de Direito em particular, desenvolviam uma intensa atividade política, através dos Centros Acadêmicos.

Participei intensamente das atividades do Centro Acadêmico 22 de Agosto, presidido por Mario Garnero e juntos fundamos, naquela Faculdade o INES – Instituto Nacional de Estudos Superiores.

Neste Instituto tivemos a oportunidade de realizar uma série de Seminários com as mais eminentes figuras da Política Brasileira, sobre os mais importantes temas políticos e econômicos, sempre tendo por meta a Integração Nacional. Debatendo a necessidade de um desenvolvimento nacional uniforme, privilegiando todas as unidades da Federação.

Esta atividade, portanto me levou a conviver com as mais ilustres personalidades do mundo político e empresarial brasileiros e internacionais.

Ainda como ilustração a Faculdade de Direito era o caminho para atingir o meu primeiro objetivo profissional – a carreira Diplomática. Sonho esse deixado para trás durante o transcorrer da vida universitária.

Terminada a Faculdade, como todo o recém formado, juntamente com outro amigo Agnaldo Vieira Serra, abrimos nossa banca em meados de 1962. Ao mesmo tempo desligava-me das minhas funções na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.

Montado Nosso escritório de advocacia, no entanto, não chegamos a desenvolvê-lo, pois meu sócio foi convidado a assumir a diretoria de uma empresa e ao mesmo tempo me apresentou José Carlos Fonseca Ferreira.

Neste ponto, em 1963. começa realmente a vida a me encaminhar para as Relações Públicas, de forma profissional.

Mas, antes de prosseguir, deixe-me fazer um parêntesis. Relações Públicas é arte de harmonizar as expectativas entre uma organização e seus diversos públicos. Para isso, trabalha com a técnica de segmentação da opinião pública. Não trabalha com mensagens massificadas. Alguns perguntarão por quê? Porque cada grupo cultural e cada faixa etária têm a sua necessidade e suas expectativas. Portanto temos que dirigir nossas mensagens de forma e conteúdo específicos, dirigido para cada público que queremos atingir.

Nesta nossa reunião tive um grande desafio – contar uma história, de uma profissão, de uma vida, para pessoas pertencentes aos mais diversos segmentos da opinião pública. Assim, tenho à minha frente, estudantes, empresários, colegas, amigos e familiares. Cada um conhecendo um pouco sobre mim e sobre o que vou contar. Logo, minha palestra tinha que atingir a todos. E procurei não ser tão minucioso quanto uma história precisa ser, nem tão didático quanto esperariam alguns e tampouco cansativo para aqueles que pela primeira vez estão em contato, em maior profundidade, com o tema.

Feita essa ressalva, voltemos ao tema.

Estamos em 1963, José Carlos Fonseca Ferreira e José Rolim Valença haviam recém fundado a AAB, UMA EMPRESA DE RELAÇÕES PÚBLICAS e realizado um estudo para uma indústria farmacêutica. Utilizando já àquela época as técnicas de Auditoria de Opinião Pública, chegaram à conclusão que os problemas de imagem enfrentados pela empresa, entre os seus diversos públicos, governo, imprensa, médicos e estudantes, não era um problema particular da empresa, mas sim do setor como um todo.

Surge daí a recomendação da criação de uma Associação para que as atividades de Relações Públicas CONSTANTES DE UM PROGRAMA INTEGRADO DE COMUNICAÇÃO, pudessem ser desenvolvidas em nome do setor tendo, portanto, seus custos diluídos. Daí, resultou a ABIF – Associação Brasileira da Industria Farmacêutica, para a qual a AAB realizaria um trabalho por quase 15 anos.

Ora essa recomendação e o ambicioso trabalho a ser desenvolvido necessitava de um grupo de pessoas com capacidade de desenvolver as atividades junto aos públicos Governo, Educacional, Imprensa, e outros.

Rolim vinha de passagens pelos Departamentos de Relações Públicas da Ford, onde conheceu José Carlos e da J. Walter Thompson. Rolim traz para compor a equipe Vera Giangrande para o Departamento de Relações Educacionais e Antônio De Salvo para o Departamento de Relações com a Imprensa.

A José Carlos coube descobrir quem desenvolveria o trabalho de relacionamento da indústria com o público governamental, especificamente o Legislativo Federal.

Pelas minhas qualificações já expostas no início desta palestra, a escolha recaiu sobre mim. A AAB, onde permaneci por 13 anos, foi minha Escola, minha Universidade, meu Laboratório, somada às técnicas de Lobby apreendidas na então maior empresa mundial de Relações Públicas – a Hill and Knowlton.

Lobby não era a denominação utilizada no Brasil. Embora nos Estados Unidos. as grandes agências de relações públicas fossem as responsaveis pelo desenvolvimento dessa atividade, no Brasil além de relações publicas ser ainda uma atividade embrionária, o lobby era realizado quase que exclusivamente pelos escritórios de advocacia. Adotamos então termo Relações Governamentais.

Estamos pois em 1963. O que eram as relações públicas no Brasil, mais especificamente em São Paulo e no Rio de Janeiro? Destacavam-se os departamentos internos das grandes empresas multinacionais, entre elas apenas a título de exemplo, a Esso, no Rio de Janeiro e a Light e a Nestlê, em São Paulo além das indústrias automobilísticas.

Empresas ou agências de relações públicas a ABB em são Paulo e outra no Rio de Janeiro.

A ABRP – Associação Brasileira de Relações Públicas, criada em julho de 1954, era a única entidade da classe, formada por bacharéis oriundos das mais variadas formações universitárias (sociólogos, advogados, jornalistas), Muitos com especialização ou treinamento no exterior. todos trabalhando em empresas multinacionais.

Para fazer parte desse clube exclusivo, dessa elite intelectual, a primeira condição era ter uma formação universitária, exercer uma atividade enquadrada entre as desenvolvidas por relações públicas e só depois de ser entrevistado por diretores da ABRP ser aprovado como sócio titular. Tudo nos moldes da Public Relations Society of América (PRSA) onde, até hoje, para ser reconhecido realmente como profissional de relações públicas o candidato é submetido a um exame de “Acredited”.

O curso de inicialização nas técnicas de RP, em São Paulo, era ministrado pelo IDORT – Instituto de Organização Racional do Trabalho, célula mater da criação posterior dos cursos universitários brasileiros, por Theobaldo de Souza Andrade.

No fim da década de 60 fatos significativos determinaram o desenvolvimento e a implantação de Relações Públicas no Brasil, a criação oficial da ECA – Escola de Comunicação e Artes da USP – Universidade de São Paulo, a famigerada regulamentação da profissão pela lei 5377, de 11 de dezembro de 1967 e suas regulamentações posteriores que resultaram na criação do Conselho Federal e dos Conselhos Regionais de Relações Publicas já no início dos anos 70.

Mas ainda em 1967 ocorreram grandes eventos internacionais de Relações Públicas e, no Rio de Janeiro, o IV Congresso Mundial de Relações Públicas. É ainda, o ano da criação da ABERJE, na época denominada Associação Brasileira dos editores de revistas e jornais de Empresas.

Os jornais de empresa, os “house organs” eram uma das atividades mais desenvolvidas pelos Departamentos Internos de Relações Públicas e a porta de entrada das novas Assessorias Externas de Relações Públicas nas grandes empresas multinacionais.

Se de um lado, a atividade se consolidava, de outro, fatos importantes mostravam os desafios enfrentados pelos pioneiros, nessa década, no Brasil. A resistência dos jornalistas em aceitar os relações públicas como artífices do estabelecimento do relacionamento entre a imprensa e os empresários E, ao mesmo tempo, a grande dificuldade em contratar jornalistas para trabalharem nos departamentos e nas Assessorias de RP. Nessa época ser jornalista significava prioritariamente ser repórter, trabalhar em jornais ou revistas impressos, ou no rádio. O jornalismo televisivo era representado apenas pelo Repórter Esso, da pioneira TV Tupi. Assim esse preconceito com a atividade de relações públicas era um grande desafio a ser transposto.

Um outro grande desafio para a comunicação empresarial eram As dificuldades na área das telecomunicações - Ter telefone ou telex era privilégio de uns poucos. Além disso não funcionavam. isto impedia os contatos com o Rio de Janeiro e Brasília, exigindo, na maioria das vezes, o deslocamento dos profissionais de rp para aquelas cidades, para o levantamento de qualquer informação ou a realização de contatos com as autoridades. Muitas empresas, nessa época, iniciavam a implantação de escritórios Relações Governamentais, na nova Capital Federal.

Outro desafio para os Relações Públicas foi o movimento “nacionalista” para não dizer “estatizante” que se acirrou com a renúncia de Jânio Quadros, culminando com a revolução de 1964 que por sua vez levou, em 1968, à promulgação do “AI5” que determinou o fechamento do Congresso, a censura à imprensa e a toda manifestação cultural, ÀS prisões políticas, ÀS cassações de mandatos e ao fechamento dos centros acadêmicos e ao afastamento de professores e cientistas.

Mas não estou aqui para fazer o relato histórico da política brasileira, mas para mostrar como esta resultou em desafios para o desenvolvimento de uma atividade que pressupõe como básico o regime democrático, a liberdade de expressão e, que por mais estranho que pareça, cresceu em pleno regime militar ditatorial.

As relações governamentais, normalmente desenvolvidas com o Legislativo, apresentam um novo desafio para os profissionais da comunicação, pois passam a ser estabelecidas com o Executivo (um poder normalmente mais fechado do que o Legislativo) e com organismos militares de onde eram escolhidos os Presidentes da República e muitos Ministros dos ministérios civis, além serem os principais influenciadores das normas e legislações de um período de exceção.

A Escola Superior de Guerra, por exemplo, era o celeiro das lideranças militares, empresariais e políticas E, portanto, um dos principais públicos a serem alcançados pelos profissionais de Relações Governamentais levando e trazendo informações, ou seja, criando uma pavimentação de mão dupla como é normalmente definida a atividade de relações públicas.

Mas toda moeda tem duas faces. Na década de 70, se o noticiário político era rigorosamente censurado, por outro lado, inicia-se um grande desenvolvimento do jornalismo econômico. As notícias sobre as empresas, sobre o mercado financeiro e de capitais, passam a ocupar grande parte dos jornais e a atividade de relações com a imprensa vai ter um crescimento vertiginoso nas décadas seguintes.

Com a criação dos primeiros cursos universitários de relações públicas e com a reserva de mercado de relações públicas para os formandos inicia-se o conflito entre os diplomados e os empíricos, como éramos nós, os pioneiros, os precursores, chamados pelos novos profissionais oriundos das Escolas de comunicação. A conseqüência foi o enfraquecimento da profissão, com a perda de grandes valores que por não poderem justificar seu registro nos Conselhos começam a ser privados de exercerem a profissão com a denominação de Relações Públicas como é em todo o mundo. Resultado - passam a exercê-la com outras designações.

A década de 1970 é portanto o marco do que se passou a denominar Comunicação Corporativa.

Com o boom das Bolsas de Valores brasileiras, as relações com os acionistas são a nova demanda do mercado, com a abertura do capital das empresas, o conseqüente lançamento de ações, a produção dos relatórios anuais, as convenções de acionistas.

O regime ditatorial impedindo a formação de líderes políticos faz surgir as lideranças empresariais. grandes campanhas são desenvolvidas para eleições das diretorias das Associações de Classe, das federações das indústrias e do comércio, para os clubes de serviços e até para os clubes esportivos. com isso Essas lideranças vão ganhando força. e novas lideranças passam ser trabalhadas pelas relações públicas.

Do lado do Governo Militar, para impedir ou contra-atacar a sua imagem ditatorial, é criada a AERP – Assessoria Especial de Relações Públicas, sob o comando do General Otávio Costa, vendendo a imagem de Brasil Grande, Brasil Pra Frente, Ame ou Deixe-o, em campanhas produzidas por agências de propaganda. Na verdade não um trabalho de comunicação mas sim, uma verdadeira fábrica de slogans.

Em pleno regime ditatorial, e como já foi dito, o desenvolvimento da imprensa econômica, surgem no setor da comunicação as primeiras agências denominadas de Assessoria de Imprensa. ou seja empresas dedicadas exclusivamente ao relacionamento com público imprensa. E novo mercado se abre para os jornalistas, na década de 80, o de assessor de imprensa.

No entanto, as relações públicas como profissão, ao invés de se solidificar, vão dando lugar ao Marketing e às Assessorias de Imprensa em função de uma legislação enaltecida por alguns, que hoje se penitenciam, mas que não viam a mão ditatorial impedindo seu desenvolvimento e eliminando de seus quadros os “não bacharéis em comunicação social” e por conseguinte “não registrados nos Conselhos.

Tendo saído da AAB, em 1975, fui buscar Vera Giangrande para juntos criarmos a INFORM. A Nova agência cresceu vertiginosamente chegando a se tornar em 1989 na maior empresa de Comunicação Empresarial, do Brasil. E, nos seus quase 30 anos de existência ter prestado seus serviços a cerca de duas centenas das mais expressivas empresas dos vários setores da economia, em todas as áreas da comunicação e interagindo com todos os segmentos da opinião pública que gravitam ao redor daS empresas e da entidades de uma maneira geral.

No início da década de 80 as empresas de Relações Públicas, não passavam de uma dezena. Mesmo assim criamos a ABERP – Associação Brasileira das Empresas de Relações Públicas, que estabeleceu normas de procedimento das empresas de RP, o Código de Ética da Categoria, orientou os novos empresários do setor quanto às formas de remuneração.

Na mesma época, surge a ANECI reunindo as Assessorias de Imprensa e solidificando a separação de dois grupos voltados ambos para a Comunicação Empresarial. Como vêem o enfraquecimento de áreas afins. De outra parte a criação dos Conselhos Regionais de RP esvaziam a ABRP e a ABERJE surge como a grande aglutinadora de toda área da Comunicação e transformando-se em Associação Brasileira da Comunicação empresarial. Hoje, tendo em todo o brasil mais de 30 mil associados, entre executivos, departamentos internos e assessorias.

Tendo se iniciado, nessa década, um processo de abertura política, o país foi mudando bem como a Comunicação Corporativa apesar dos desafios do próprio setor, revendo suas estratégias, atualizando suas técnicas, mas enfrentando o maior dos desafios os planos econômicos trimestrais dos governos brasileiros, na tentativa de derrubar a inflação.

Vera e eu, sempre acreditamos na importância dos organismos associativos e na sua importância para o desenvolvimento e representação das classes profissionais e empresariais. e por essa razão foi intensa nossa participação em todas as Associações representativas do setor. mas Nosso objetivo sempre foi a integração, a unificação e a harmonização de todas as áreas: Relações Públicas, Imprensa, Eventos, Marketing Institucional, Projetos Culturais e outros. pois quanto mais forte um setor, mais representativo se torna.

Compusemos as diretorias de todas as entidades nacionais e de algumas internacionais.

Das 10 empresas Relações Públicas pioneiras, entre as quais apenas duas internacionais, a década de 90 fez surgir milhares de empresas de Comunicação Corporativa em todo o Brasil. E vimos, em meados da década, com a estabilidade política e econômica a vinda ao Brasil de todas as grandes multinacionais de relações públicas. E as empresas que até pouco tempo ofereciam apenas assessoria de imprensa passam a contratar profissionais de Relações Públicas e oferecer serviços de Relações Públicas, Assessoria de Imprensa, Propaganda Institucional, Marketing Esportivo, Cultural, Endomarketing, enfim em outras palavras projetos integrados de comunicação, realizando todas as atividades, buscando estabelecer o melhor relacionamento das empresas e organizações de modo geral com todos os segmentos da opinião que influenciam direta ou indiretamente suas ações.

E, ao mesmo tempo em que a comunicação passa a ser, realmente, um dos pilares da moderna administração, temos um novo e grande desafio para todos nós profissionais: a globalização da informação resultante do desenvolvimento da tecnologia, principalmente na última década. e, para mim, a mais intrigante, fantástica e ainda pouco explorada, mas o maior desafio da comunicação - a INTERNET.

Que outros mais desafios ainda virão? Apesar desses 40 anos de experiência, apesar de ultrapassar todas as crises brasileiras, apesar de ser dos poucos profissionais, com minha idade, ainda em plena atividade na área, só posso humildemente parafraseando Sócrates, responder: ”só sei que nada sei”.

Muito obrigado pela presença e pela atenção.