HISTÓRIA E DESAFIOS DAS RELAÇÕES PÚBLICAS
NO
BRASIL
Antes de tudo muito obrigado pela oportunidade que me é dada de
contar uma história, que começou há quarenta anos. A minha história
profissional que quase se confunde com a história das Relações Públicas em
nosso país.
Embora tenha sido lido o meu curriculum é interessante mostrar
como fomos sendo, pela vida, encaminhados para a profissão de Relações
Públicas. Em 1957 ingressei na Faculdade de Direito da Pontifícia
Universidade de São Paulo, onde fui contemporâneo deste meu amigo aqui
presente, Ruy Altenfelder. Na época os estudantes universitários de uma
maneira geral e os de Direito em particular, desenvolviam uma intensa
atividade política, através dos Centros Acadêmicos.
Participei intensamente das atividades do Centro Acadêmico 22 de
Agosto, presidido por Mario Garnero e juntos fundamos, naquela Faculdade o
INES – Instituto Nacional de Estudos Superiores.
Neste Instituto tivemos a oportunidade de realizar uma série de
Seminários com as mais eminentes figuras da Política Brasileira, sobre os
mais importantes temas políticos e econômicos, sempre tendo por meta a
Integração Nacional. Debatendo a necessidade de um desenvolvimento
nacional uniforme, privilegiando todas as unidades da
Federação.
Esta atividade, portanto me levou a conviver com as mais ilustres
personalidades do mundo político e empresarial brasileiros e
internacionais.
Ainda como ilustração a Faculdade de Direito era o caminho para
atingir o meu primeiro objetivo profissional – a carreira Diplomática.
Sonho esse deixado para trás durante o transcorrer da vida
universitária.
Terminada a Faculdade, como todo o recém formado, juntamente com
outro amigo Agnaldo Vieira Serra, abrimos nossa banca em meados de 1962.
Ao mesmo tempo desligava-me das minhas funções na Assembléia Legislativa
do Estado de São Paulo.
Montado Nosso escritório de advocacia, no entanto, não chegamos a
desenvolvê-lo, pois meu sócio foi convidado a assumir a diretoria de uma
empresa e ao mesmo tempo me apresentou José Carlos Fonseca Ferreira.
Neste ponto, em 1963. começa realmente a vida a me encaminhar para
as Relações Públicas, de forma profissional.
Mas, antes de prosseguir, deixe-me fazer um
parêntesis. Relações Públicas é arte de harmonizar as expectativas entre
uma organização e seus diversos públicos. Para isso, trabalha com a
técnica de segmentação da opinião pública. Não trabalha com mensagens
massificadas. Alguns perguntarão por quê? Porque cada grupo cultural e
cada faixa etária têm a sua necessidade e suas expectativas. Portanto
temos que dirigir nossas mensagens de forma e conteúdo específicos,
dirigido para cada público que queremos atingir.
Nesta nossa reunião tive um grande desafio – contar
uma história, de uma profissão, de uma vida, para pessoas pertencentes aos
mais diversos segmentos da opinião pública. Assim, tenho à minha frente,
estudantes, empresários, colegas, amigos e familiares. Cada um conhecendo
um pouco sobre mim e sobre o que vou contar. Logo, minha palestra tinha
que atingir a todos. E procurei não ser tão minucioso quanto uma história
precisa ser, nem tão didático quanto esperariam alguns e tampouco
cansativo para aqueles que pela primeira vez estão em contato, em maior
profundidade, com o tema.
Feita essa ressalva, voltemos ao tema.
Estamos em 1963, José Carlos Fonseca Ferreira e José Rolim Valença
haviam recém fundado a AAB, UMA EMPRESA DE RELAÇÕES PÚBLICAS e realizado
um estudo para uma indústria farmacêutica. Utilizando já àquela época as
técnicas de Auditoria de Opinião Pública, chegaram à conclusão que os
problemas de imagem enfrentados pela empresa, entre os seus diversos
públicos, governo, imprensa, médicos e estudantes, não era um problema
particular da empresa, mas sim do setor como um todo.
Surge daí a recomendação da criação de uma Associação para que as
atividades de Relações Públicas CONSTANTES DE UM PROGRAMA INTEGRADO DE
COMUNICAÇÃO, pudessem ser desenvolvidas em nome do setor tendo, portanto,
seus custos diluídos. Daí, resultou a ABIF – Associação Brasileira da
Industria Farmacêutica, para a qual a AAB realizaria um trabalho por quase
15 anos.
Ora essa recomendação e o ambicioso trabalho a ser desenvolvido
necessitava de um grupo de pessoas com capacidade de desenvolver as
atividades junto aos públicos Governo, Educacional, Imprensa, e
outros.
Rolim vinha de passagens pelos Departamentos de Relações Públicas
da Ford, onde conheceu José Carlos e da J. Walter Thompson. Rolim traz
para compor a equipe Vera Giangrande para o Departamento de Relações
Educacionais e Antônio De Salvo para o Departamento de Relações com a
Imprensa.
A José Carlos coube descobrir quem desenvolveria o trabalho de
relacionamento da indústria com o público governamental, especificamente o
Legislativo Federal.
Pelas minhas qualificações já expostas no início desta palestra, a
escolha recaiu sobre mim. A AAB, onde permaneci por 13 anos, foi minha
Escola, minha Universidade, meu Laboratório, somada às técnicas de Lobby
apreendidas na então maior empresa mundial de Relações Públicas – a Hill
and Knowlton.
Lobby não era a denominação utilizada no Brasil. Embora nos Estados
Unidos. as grandes agências de relações públicas fossem as responsaveis
pelo desenvolvimento dessa atividade, no Brasil além de relações publicas
ser ainda uma atividade embrionária, o lobby era realizado quase que
exclusivamente pelos escritórios de advocacia. Adotamos então termo
Relações Governamentais.
Estamos pois em 1963. O que eram as relações públicas no
Brasil, mais especificamente em São Paulo e no Rio de Janeiro?
Destacavam-se os departamentos internos das grandes empresas
multinacionais, entre elas apenas a título de exemplo, a Esso, no Rio de
Janeiro e a Light e a Nestlê, em São Paulo além das indústrias
automobilísticas.
Empresas ou agências de relações públicas a ABB em são Paulo e
outra no Rio de Janeiro.
A ABRP – Associação Brasileira de Relações Públicas, criada em
julho de 1954, era a única entidade da classe, formada por bacharéis
oriundos das mais variadas formações universitárias (sociólogos,
advogados, jornalistas), Muitos com especialização ou treinamento no
exterior. todos trabalhando em empresas multinacionais.
Para fazer parte desse clube exclusivo, dessa elite intelectual, a
primeira condição era ter uma formação universitária, exercer uma
atividade enquadrada entre as desenvolvidas por relações públicas e só
depois de ser entrevistado por diretores da ABRP ser aprovado como sócio
titular. Tudo nos moldes da Public Relations Society of América (PRSA)
onde, até hoje, para ser reconhecido realmente como profissional de
relações públicas o candidato é submetido a um exame de
“Acredited”.
O curso de inicialização nas técnicas de RP, em São Paulo, era
ministrado pelo IDORT – Instituto de Organização Racional do Trabalho,
célula mater da criação posterior dos cursos universitários brasileiros,
por Theobaldo de Souza Andrade.
No fim da década de 60 fatos significativos determinaram o
desenvolvimento e a implantação de Relações Públicas no Brasil, a criação
oficial da ECA – Escola de Comunicação e Artes da USP – Universidade de
São Paulo, a famigerada regulamentação da profissão pela lei 5377, de 11
de dezembro de 1967 e suas regulamentações posteriores que resultaram na
criação do Conselho Federal e dos Conselhos Regionais de Relações Publicas
já no início dos anos 70.
Mas ainda em 1967 ocorreram grandes eventos internacionais de
Relações Públicas e, no Rio de Janeiro, o IV Congresso Mundial de Relações
Públicas. É ainda, o ano da criação da ABERJE, na época denominada
Associação Brasileira dos editores de revistas e jornais de Empresas.
Os jornais de empresa, os “house organs” eram uma das atividades
mais desenvolvidas pelos Departamentos Internos de Relações Públicas e a
porta de entrada das novas Assessorias Externas de Relações Públicas nas
grandes empresas multinacionais.
Se de um lado, a atividade se consolidava, de outro, fatos
importantes mostravam os desafios enfrentados pelos pioneiros, nessa
década, no Brasil. A resistência dos jornalistas em aceitar os relações
públicas como artífices do estabelecimento do relacionamento entre a
imprensa e os empresários E, ao mesmo tempo, a grande dificuldade em
contratar jornalistas para trabalharem nos departamentos e nas Assessorias
de RP. Nessa época ser jornalista significava prioritariamente ser
repórter, trabalhar em jornais ou revistas impressos, ou no rádio. O
jornalismo televisivo era representado apenas pelo Repórter Esso, da
pioneira TV Tupi. Assim esse preconceito com a atividade de relações
públicas era um grande desafio a ser transposto.
Um outro grande desafio para a comunicação empresarial eram As
dificuldades na área das telecomunicações - Ter telefone ou telex era
privilégio de uns poucos. Além disso não funcionavam. isto impedia os
contatos com o Rio de Janeiro e Brasília, exigindo, na maioria das vezes,
o deslocamento dos profissionais de rp para aquelas cidades, para o
levantamento de qualquer informação ou a realização de contatos com as
autoridades. Muitas empresas, nessa época, iniciavam a implantação de
escritórios Relações Governamentais, na nova Capital Federal.
Outro desafio para os Relações Públicas foi o movimento
“nacionalista” para não dizer “estatizante” que se acirrou com a renúncia
de Jânio Quadros, culminando com a revolução de 1964 que por sua vez
levou, em 1968, à promulgação do “AI5” que determinou o fechamento do
Congresso, a censura à imprensa e a toda manifestação cultural, ÀS prisões
políticas, ÀS cassações de mandatos e ao fechamento dos centros acadêmicos
e ao afastamento de professores e cientistas.
Mas não estou aqui para fazer o relato histórico da política
brasileira, mas para mostrar como esta resultou em desafios para o
desenvolvimento de uma atividade que pressupõe como básico o regime
democrático, a liberdade de expressão e, que por mais estranho que pareça,
cresceu em pleno regime militar ditatorial.
As relações governamentais, normalmente desenvolvidas com o
Legislativo, apresentam um novo desafio para os profissionais da
comunicação, pois passam a ser estabelecidas com o Executivo (um poder
normalmente mais fechado do que o Legislativo) e com organismos militares
de onde eram escolhidos os Presidentes da República e muitos Ministros dos
ministérios civis, além serem os principais influenciadores das normas e
legislações de um período de exceção.
A Escola Superior de Guerra, por exemplo, era o celeiro das
lideranças militares, empresariais e políticas E, portanto, um dos
principais públicos a serem alcançados pelos profissionais de Relações
Governamentais levando e trazendo informações, ou seja, criando uma
pavimentação de mão dupla como é normalmente definida a atividade de
relações públicas.
Mas toda moeda tem duas faces. Na década de 70, se o
noticiário político era rigorosamente censurado, por outro lado, inicia-se
um grande desenvolvimento do jornalismo econômico. As notícias sobre as
empresas, sobre o mercado financeiro e de capitais, passam a ocupar grande
parte dos jornais e a atividade de relações com a imprensa vai ter um
crescimento vertiginoso nas décadas seguintes.
Com a criação dos primeiros cursos universitários de relações
públicas e com a reserva de mercado de relações públicas para os formandos
inicia-se o conflito entre os diplomados e os empíricos, como éramos nós,
os pioneiros, os precursores, chamados pelos novos profissionais oriundos
das Escolas de comunicação. A conseqüência foi o enfraquecimento da
profissão, com a perda de grandes valores que por não poderem justificar
seu registro nos Conselhos começam a ser privados de exercerem a profissão
com a denominação de Relações Públicas como é em todo o mundo. Resultado -
passam a exercê-la com outras designações.
A década de 1970 é
portanto o marco do que se passou a denominar Comunicação Corporativa.
Com o boom das Bolsas de Valores brasileiras, as relações com os
acionistas são a nova demanda do mercado, com a abertura do capital das
empresas, o conseqüente lançamento de ações, a produção dos relatórios
anuais, as convenções de acionistas.
O regime ditatorial impedindo a formação de líderes
políticos faz surgir as lideranças empresariais. grandes campanhas são
desenvolvidas para eleições das diretorias das Associações de Classe, das
federações das indústrias e do comércio, para os clubes de serviços e até para os clubes
esportivos. com isso Essas lideranças vão ganhando força. e novas
lideranças passam ser trabalhadas pelas relações públicas.
Do lado do Governo Militar, para impedir ou contra-atacar a sua
imagem ditatorial, é criada a AERP – Assessoria Especial de Relações
Públicas, sob o comando do General Otávio Costa, vendendo a imagem de
Brasil Grande, Brasil Pra Frente, Ame ou Deixe-o, em campanhas produzidas
por agências de propaganda. Na verdade não um trabalho de comunicação mas
sim, uma verdadeira fábrica de slogans.
Em pleno regime ditatorial, e como já foi dito, o desenvolvimento
da imprensa econômica, surgem no setor da comunicação as primeiras
agências denominadas de Assessoria de Imprensa. ou seja empresas dedicadas
exclusivamente ao relacionamento com público imprensa. E novo mercado se
abre para os jornalistas, na década de 80, o de assessor de
imprensa.
No entanto, as relações públicas como profissão, ao invés de se
solidificar, vão dando lugar ao Marketing e às Assessorias de Imprensa em
função de uma legislação enaltecida por alguns, que hoje se penitenciam,
mas que não viam a mão ditatorial impedindo seu desenvolvimento e
eliminando de seus quadros os “não bacharéis em comunicação social” e por
conseguinte “não registrados nos Conselhos.
Tendo saído da AAB, em 1975, fui buscar Vera Giangrande para juntos
criarmos a INFORM. A Nova agência cresceu vertiginosamente chegando a se
tornar em 1989 na maior empresa de Comunicação Empresarial, do Brasil. E,
nos seus quase 30 anos de existência ter prestado seus serviços a cerca de
duas centenas das mais expressivas empresas dos vários setores da
economia, em todas as áreas da comunicação e interagindo com todos os
segmentos da opinião pública que gravitam ao redor daS empresas e da
entidades de uma maneira geral.
No início da década de 80 as empresas de Relações Públicas, não
passavam de uma dezena. Mesmo assim criamos a ABERP – Associação
Brasileira das Empresas de Relações Públicas, que estabeleceu normas de
procedimento das empresas de RP, o Código de Ética da Categoria, orientou
os novos empresários do setor quanto às formas de remuneração.
Na mesma época, surge a ANECI reunindo as Assessorias de Imprensa e
solidificando a separação de dois grupos voltados ambos para a Comunicação
Empresarial. Como vêem o enfraquecimento de áreas afins. De outra parte a
criação dos Conselhos Regionais de RP esvaziam a ABRP e a ABERJE surge
como a grande aglutinadora de toda área da Comunicação e transformando-se
em Associação Brasileira da Comunicação empresarial. Hoje, tendo em todo o
brasil mais de 30 mil associados, entre executivos, departamentos internos
e assessorias.
Tendo se iniciado, nessa década, um processo de
abertura política, o país foi mudando bem como a Comunicação Corporativa
apesar dos desafios do próprio setor, revendo suas estratégias,
atualizando suas técnicas, mas enfrentando o maior dos desafios os planos
econômicos trimestrais dos governos brasileiros, na tentativa de derrubar
a inflação.
Vera e eu, sempre acreditamos na importância dos organismos
associativos e na sua importância para o desenvolvimento e representação
das classes profissionais e empresariais. e por essa razão foi intensa
nossa participação em todas as Associações representativas do setor. mas
Nosso objetivo sempre foi a integração, a unificação e a harmonização de
todas as áreas: Relações Públicas, Imprensa, Eventos, Marketing
Institucional, Projetos Culturais e outros. pois quanto mais forte um
setor, mais representativo se torna.
Compusemos as diretorias de todas as entidades nacionais e de
algumas internacionais.
Das 10 empresas Relações Públicas
pioneiras, entre as quais apenas duas internacionais, a década de 90 fez
surgir milhares de empresas de Comunicação Corporativa em todo o Brasil. E
vimos, em meados da década, com a estabilidade política e econômica a
vinda ao Brasil de todas as grandes multinacionais de relações públicas. E
as empresas que até pouco tempo ofereciam apenas assessoria de imprensa
passam a contratar profissionais de Relações Públicas e oferecer serviços
de Relações Públicas, Assessoria de Imprensa, Propaganda Institucional,
Marketing Esportivo, Cultural, Endomarketing, enfim em outras palavras
projetos integrados de comunicação, realizando todas as atividades,
buscando estabelecer o melhor relacionamento das empresas e organizações
de modo geral com todos os segmentos da opinião que influenciam direta ou
indiretamente suas ações.
E, ao mesmo tempo em que a comunicação passa a ser, realmente, um
dos pilares da moderna administração, temos um novo e grande desafio para
todos nós profissionais: a globalização da informação resultante do
desenvolvimento da tecnologia, principalmente na última década. e, para
mim, a mais intrigante, fantástica e ainda pouco explorada, mas o maior
desafio da comunicação - a INTERNET.
Que outros mais desafios ainda virão? Apesar desses 40 anos de
experiência, apesar de ultrapassar todas as crises
brasileiras, apesar de ser dos poucos profissionais, com minha idade,
ainda em plena atividade na área, só posso humildemente parafraseando
Sócrates, responder: ”só sei que nada sei”.
Muito obrigado pela presença e pela atenção.