RELAÇÕES PÚBLICAS: A ARTE E A CIÊNCIA DE NEGOCIAR COM
PESSOAS
Romildo Fernandes
Profissional
de Relações Públicas
Debatendo idéias, recentemente, durante um dos freqüentes
encontros com Mario Ernesto Humberg, presidente de uma das mais destacadas
consultorias de comunicação em São Paulo, sobre o estágio atual da atividade
de Relações Públicas, dizia-me ele, entre outros fatos pertinentes à nossa
área, que muitas vezes ficava impressionado com as perspectivas da evolução
da atividade no país, ajudando a fazer face às rápidas mudanças sociais,
políticas, econômicas e tecnológicas.
Compartilhando com ele dessa mesma certeza, passei,
incontinenti, a refletir se não seria oportuno traçarmos a trajetória já
percorrida pelas Relações Públicas, ilustrando-a por meio de um rápido
panorama sobre os eventos mais marcantes, o seu surgimento e desenvolvimento no
Brasil, seu significado, como entendê-las e os benefícios por elas propiciados
ao longo desses quase cem anos no Brasil.
Historicamente, tudo começou no início deste século, com o
surgimento, em São Paulo, do primeiro Departamento de Relações Públicas,
instituído pela São Paulo Light – Serviços de Eletricidade. Nos anos que se
seguiram, outras grandes empresas estrangeiras que aqui se instalavam traziam,
também, em seus organogramas, serviços de Relações Públicas nos moldes da
pioneira Light.
Nas décadas seguintes, alguns poucos intuitivos, embalados
por alvissareiros comentários feitos por pessoas que voltavam do exterior,
interessaram-se mais e mais por essa nova e fascinante profissão,
pesquisando-a, lendo e estudando tudo que lhes caísse às mãos. Para aqueles
que dominassem o inglês, já se dispunha de uma boa bibliografia sobre o
assunto, de autores como Herbert Bahus (Public Relations at Work), Edward
Bernays (Public Relations), Verne Burnet (Solving Public Relations
Problems), Allen Center (Public Relations Ideas in Action), Samuel
Crother (Public Opinion, Private Business and Public Relations), H.L.
Childs (An Introduction to Public Opinion), Glenn e Denny Griswold (Your
Public Relations), Herman S. Hettinger (Financial Public Relations for
the Business Corporation), Philip Lesly (Public Relations Handbook),
Louis Lundborg (Public Relations in the Local Community).
Em português já eram publicados artigos e opúsculos de
autores nacionais, como Paulo Poppe Figueiredo (Relações com o Público
– 1950), Francisco Gomes de Matos (Treinamento e Formação de Pessoas para
Relações Públicas – 1958), Murilo Mendes (Relações Públicas –
1956), João Firmiano da Silva (As Comunicações nas Relações Públicas
– 1958), May Nunes de Souza (Relações Públicas na França – 1956; Os
Serviços de Relações com o Público no Comércio e na Indústria –
1949; Relações Públicas Governamentais no Reino Unido – 1956; Aspectos
de Relações Públicas no Governo – 1960), Ney Peixoto do Vale (Normas
e Padrões para o Trabalho de Relações Públicas – 1958) e artigos
publicados semanalmente na revista PN do Rio de Janeiro, a partir de
novembro de 1955.
Em 1961, surgiria, em português,
Relações Públicas: Princípios
Casos e Problemas, de Bertrand R. Canfield, e, em 1964, A Técnica da
Comunicação Humana, de J. R. Whitaker Penteado, ambas editadas pela
Pioneira.
Em 1949, a Universidade de São Paulo dava início à
instrução de Relações Públicas, sob a coordenação de May Nunes de Souza,
que viria a tornar-se uma das mais legítimas expressões dessa atividade em
nosso país. Paralelamente, só nos Estados Unidos mais de 100 universidades e
outras instituições consagravam milhões de dólares e horas de trabalho para
o estudo e incremento dessa atividade.
Em 1951 surgia a primeira empresa genuinamente brasileira, a
Companhia Nacional de Relações Públicas e Propaganda S.A., para atender,
exclusivamente, às demais empresas de um dinâmico grupo econômico-financeiro,
da qual ela mesma fazia parte, e foi fundada por dois ainda jovens ex-bolsistas
de Relações Públicas nos Estados Unidos. Eram eles Jorge Ignácio Penteado da
Silva Telles e este articulista.
Em julho de 1953, assistíamos a uma série de três
conferências proferidas pelo Prof. Eric Carlson, que aqui veio em missão das
Nações Unidas. Essas conferências foram feitas na Escola Brasileira de
Administração Pública, da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e em
São Paulo, sob os auspícios do IDORT. Foi, no estágio em que nos
encontrávamos, um momento marcante: o conferencista, muito formal, bem ao
estilo da época, passou, para todos os que o assistiam, uma clara visão das
Relações Públicas, conseguindo, mesmo, descomplicá-la.
Em 1954 surgia a ABRP – Associação Brasileira de
Relações Públicas, constituída, inicialmente, por uma dúzia de
intelectuais, estudiosos e profissionais liberais, dentre eles: May Nunes de
Souza (diretora de RP da Metal Leve), Ubirajara Martins (diretor de RP da Light),
Nelson Marcondes do Amaral (advogado), Hugo Barbieri (diretor de RP da Esso),
Ignácio P. da Silva Telles (professor), Mario da Silva Brito (escritor), Murilo
Mendes (professor) e outros.
A profissão, nessa altura, já é amplamente debatida,
surgindo uma nova compreensão sobre ela, a de que as pessoas são o mais
importante ingrediente no sucesso de qualquer negócio, governo ou
instituição.
Participava-se de seminários e congressos internacionais:
nesses encontros, o mais importante era conhecer profissionais de outros países
e, também, fazermo-nos conhecidos, iniciando-se, dessa forma, um auspicioso
intercâmbio de idéias, experiências e sucessos.
No dia 4 de maio de 1972, pelo Decreto Federal nº 68.582, é
regulamentada a profissão, criando-se o Conselho Regional de Profissionais de
Relações Públicas – CONRERP.
As relações com seres humanos passavam a ser mais
importantes em todos os segmentos da sociedade, sendo óbvio que a informação
valiosa a respeito de pessoas e métodos de influência sobre sua opinião
seriam concentradas num corpo de sabedoria. Eu gosto de chamar este corpo de
sabedoria de Relações Públicas.
Generalizando, então, Relações Públicas envolve
relações com toda gente. Relações Públicas são a responsabilidade
primária de toda atividade humana, quer seja em negócios ou governo.
Passaram-se cinco décadas, já estamos no ano 2000, e
atividade de Relações Públicas cresceu e continua evoluindo, impondo aos seus
profissionais uma capacitação cada vez mais abrangente. Surgem novas
gerações de talentosos profissionais, frutos da globalização e identificados
com os vertiginosos novos processos de comunicação, agora tudo em tempo real e
virtual. E a mídia interativa e a cibernética.
Mas nos bastidores de toda essa extraordinária tecnologia,
da era da informática, sempre haverá o homem, o profissional. É ele que
inventa e cria os sistemas e processos mais ágeis de comunicação, é ele que
estabelece estratégias, objetivos e cenários, na busca incessante de
resultados. Ele é gente, que precisa de gente, para saber como falar com gente.
Julgo que este fato deveria merecer do empresariado
brasileiro uma adequada reflexão, particularmente aqueles que ainda não
souberam como discernir e recorrer aos meios e instrumentos técnicos
disponíveis que podem ser de extrema valia, um valioso suporte e ordenamento de
idéias para um melhor e mais racional atingimento de seus objetivos.
Não estou querendo afirmar que a ausência de uma
consultoria ou assessoria de Relações Públicas, que pudesse instalar e
disciplinar um processo adequado de comunicação, em vias de mão dupla, tenha
sido até agora literalmente ignorado pelo empresariado brasileiro. O que ocorre
é que as empresas nacionais que souberam se organizar melhor, incorporando
profissionais capazes na administração de todos os seus setores, incluindo,
necessariamente, o de Relações Públicas, certamente se privilegiaram,
conquistando resultados mais positivos do que aquelas que tiveram a timidez ou
não souberam se organizar no tempo.
Não que as Relações Públicas prometam milagres ou a
mágica solução de todos os eventuais problemas de uma instituição, mas
contribuem, e muito, para torná-la realisticamente transparente perante seus
vários públicos, tanto interno quanto externo. Relações Públicas podem
ajudar as empresas a ajustarem-se, cada vez mais, aos desafios do presente e do
futuro.
Falar o que representou a atividade de Relações Públicas
nas décadas passadas e o que ela ainda nos reserva para esta década que
encerra o milênio parece-me fazer a história repetir-se, pois esta mesma
indagação já me ocorrera em relação aos anos 50, 60, 70 e 80. Ao início de
cada nova década, nós, profissionais dessa atividade, questionamo-nos: o que
devemos fazer, além do que já havíamos feito, para as Relações Públicas
serem mais eficientes e conceituadas? O que mais realizar para que esta
atividade conquiste a credibilidade merecida? Como fazer as entidades públicas
e empresas privadas discernirem corretamente suas metas, objetivos, estratégias
e diálogos com seus públicos, através das Relações Públicas?
Creio, com a maturidade já atingida por esta atividade em
nosso país, ter chegado o momento de atuar cada vez mais junto ao empresário
moderno, conscientizando-o sobre os benefícios que as técnicas de Relações
Públicas podem operar perante os seus empregados, relações comunitárias,
problemas ambientais e legislação.
Sente-se, cada vez mais, a necessidade de um volume maior de
informações que possam ajudar na solução dos crescentes problemas sociais,
políticos e econômicos com que se defrontam os altos executivos no seu
dia-a-dia.
Tal tese, pela sua importância, já era defendida nos fins
dos anos 70, por John W. Hill, então fundador da maior empresa de Relações
Públicas do mundo, o qual, em uma de suas últimas aparições públicas, em
Boston, durante o VII Congresso Mundial de Relações Públicas, afirmou:
"Previsão é um negócio arriscado, mas estou tentado a prever o futuro
das Relações Públicas. A pergunta importante é se as Relações Públicas
terão êxito ou não para enfrentar todos os desafios e obrigações do
passado. E como elas enfrentarão o futuro". Procurando a resposta para
esse dilema, Hill chegou à conclusão de que existe uma necessidade urgente de
sentarmos a avaliarmos nossos trabalhos, suas dimensões, funções e
potencialidades, afirmando ainda que as Relações Públicas haviam chegado a um
ponto crucial em seu desenvolvimento.
O problema, dizia Hill, existe porque a
"ferramenta" mais importante das Relações Públicas – a
comunicação – é mal utilizada por muitos dos que participam desta
atividade. Hill, entretanto, não estava criticando as comunicações, estava
apenas procurando colocá-las numa perspectiva correta – num balanço com
outras mais importantes, como a consultoria, pesquisas e planejamento.
E dizia por que isso devia ser feito. Porque não apenas nos
Estados Unidos, mas em muitos outros países, os líderes de qualquer
instituição, privada ou pública, estão solicitando, urgentemente, conselhos.
Eles não querem ser aconselhados sobre como contar sua
história. Querem, isto sim, conselhos sobre como resolver problemas urgentes de
relações com seus públicos a cada dia de trabalho. O líder de qualquer
organização é hoje torturado por pressões sociais, legais e governamentais,
de proporções nunca antes havidas. Ele precisa desesperadamente de conselhos
baseados em sólida pesquisa.
Teríamos pessoal capacitado em Relações Públicas para
avaliar os numerosos fatores sociológicos, econômicos, políticos,
psicológicos e outros, a respeito de relações externas da empresa e chegar-se
a uma resposta prática para aconselhar os executivos?
Creio que a resposta é a seguinte: não, nós não temos
pessoal capaz e suficiente. Entretanto, os problemas sociais de muitas
organizações, especialmente de negócios, multiplicam-se dia-a-dia.
Considerando esse aspecto, as Relações Públicas assumem um
novo colorido, um novo peso e novas possibilidades. Projetos, performances e
comunicações devem ser sincronizados e unidos. O departamento de Relações
Públicas deve ser organizado, estruturado e dirigido por especialistas nas
áreas de imprensa, comunicação, pesquisa, relações com acionistas e
financeiras, promoção de produtos, comunicação com empregados e, de maior
importância, relações com o governo.
Ao responsável do departamento, não importa como ele seja
chamado, o que importa é que ele participará de discussões de alto nível
sobre problemas que afetam o público. E ele vai ter de informar e explicar as
decisões da diretoria ao público e trazer os pontos de vista e as esperanças
do público aos dirigentes.
Para atingir um nível cada vez mais amplo, o profissional de
Relações Públicas do futuro sairá das universidades treinado, além dos
cursos normais (como ocorre ainda hoje), também em ciências sociais, economia,
direito comercial, pesquisa de comportamento humano e outras disciplinas
pertinentes.
A demanda de profissionais competentes, como consultores e
pessoal treinado em serviços especiais, cresce rapidamente. O número de homens
e mulheres talentosas em Relações Públicas e de boa formação vem crescendo
de ano a ano, certamente dobrando durante a última década.
Com perspectivas de maior controle pelo governo, a
importância das relações entre negócios e governo também amplia-se cada vez
mais. E a necessidade de competência nessa área vai crescer também.
Em razão da crescente complexidade de nossa sociedade, o
aprimoramento a educação e a também crescente sofisticação dos
empresários, profissionais de Relações Públicas participarão ativamente,
ajudando empresas e outras instituições a desenvolverem sua política.
Juntando-se tudo isto, estará constituída a oportunidade e
o desafio para que as Relações Públicas preencham suas expectativas e seu
potencial, indicando-nos sempre novos caminhos para a almejada crescente
prosperidade de nossas instituições.

Originalmente publicado pela ABERJE.