A TRAJETÓRIA COMUNICACIONAL DE CÂNDIDO TEOBALDO DE SOUZA
ANDRADE NAS
RELAÇÕES PÚBLICAS
Mirtes Vitoriano Torres
Professora
da Universidade Federal de Alagoas
INTRODUÇÃO
Apresentar o perfil do Prof. Dr. Cândido Teobaldo de Souza
Andrade, revela não só uma documentação da trajetória comunicacional do
pioneiro na formação de profissionais e pesquisadores das Relações Públicas
no Brasil, mas, é também uma forma de homenageá-lo, destacando sua atuação
na construção dessa área de conhecimento.
Considerando que, por trás do conhecimento divulgado, há
sujeitos que o produzem, percebe-se ser necessário não só divulgar os
trabalhos científicos, mas também seus autores, os cientistas. As
universidades brasileiras, em sua maior parte, não possuem em sua estrutura
institucional uma forma eficaz de comunicação científica, no sentido de
reconhecer, compreender, interpretar e estudar a contribuição individual dos
seus pesquisadores.
Sendo assim, surgiu a idéia de pesquisar e destacar a
trajetória comunicacional de pesquisadores importantes na área das Relações
Públicas. A princípio concentrei meus estudos no resgate da Memória do
Eduardo Pinheiro Lobo, pioneiro da difusão das técnicas de Relações
Públicas no Brasil. Deste trabalho, resultou meu projeto de Conclusão de Curso
de Comunicação Social na Universidade Federal de Alagoas, que
conseqüentemente, reuniu fortes subsídios para uma continuidade da pesquisa.
Esta vem sendo desenvolvida hoje no Programa de
Pós-Graduação da Universidade Metodista de São Paulo, sob a orientação do
Prof. Dr. José Marques de Melo. Como parte integrante dos estudos de mestrado,
esta idéia, aprimorada na Disciplina História do Pensamento Comunicacional,
possibilitou concentrar-me no estudo da trajetória do Prof. Teobaldo.
Tal projeto, tomou corpo evidenciando que o Prof. Cândido
Teobaldo de Andrade é o que melhor representa de forma peculiar as Relações
Públicas no Brasil. Paulistano, nascido em 1º de Julho de 1919, filho de
Guilherme de Andrade e Maria Francisca de Souza. Casado com Nylza de Souza
Andrade, tem dois filhos (Therezinha de Andrade Leal e Luiz Carlos de Souza) e
três netos (Thaís, Renata e Luiz Guilherme).
Fundador do Curso de Relações Públicas da Escola de
Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Fez parte da
equipe dos pioneiros que, naquela Instituição, construíram este novo campo de
conhecimento, já adquirindo o grau de doutor. Torna-se ainda Livre-Docente e
professor titular da ECA/USP.
No decorrer de sua vida profissional, ocupou inúmeras
funções e cargos, com destaque o de Consultor Jurídico da Secretaria do
Governo do Estado de São Paulo. Na carreira acadêmica, formou inúmero
profissional de Relações Públicas e pesquisador científicos, na ECA/USP,
entre 1976 e 1993.
É autor de sete livros de Relações Públicas, hoje
revisados e ampliados. Participou ativamente de várias entidades associativas,
nacionais e internacionais nesta área. Além de escritor, ex-combatente da FEB.
Foi jornalista e advogado. Desenvolveu atividades docentes no Curso de
Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo
entre o período de 1978 a 1986. Entre outros cargos, é conselheiro permanente
da Confederação Interamericana de Relações Públicas.
DESENVOLVIMENTO
Paulistano, o Prof. Teobaldo iniciou seus estudos nesta
cidade em companhia das suas tias, que introduziram os primeiros conhecimentos
em sua formação escolar. Formado em Educação Física, em 14 de Março de
1940, tornou-se professor de Educação Física da Escola Superior de Educação
Física, atual Faculdade de Educação Física da USP. Ainda muito jovem, seguiu
como voluntário para a Guerra. Ao regressar da Itália, tendo deixado no
primeiro ano a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, retornou à
Faculdade e, por Decreto Federal, cursou dois anos em 6 meses, e,
posteriormente, bacharelou-se em Direito, em 14 de Maio de 1949.
No mesmo ano, desenvolveu atividades de técnico desportivo
(Bola ao Cesto e Futebol) da Escola Superior de Educação Física, atual
faculdade de Educação Física da USP, em 22 de Dezembro de 1949.
Dentre as inúmeras funções e cargos que exerceu, merece
destaque o de encarregado do setor de Relações Públicas do Departamento
Estadual de Administração, em São Paulo, entre os anos de 1956 e 1959.
Em 1956 era Consultor Jurídico da Secretaria do Governo do
Estado de São Paulo, durante a administração Jânio Quadros. Deram-lhe a
incumbência de presidir um processo administrativo contra um colega, redator do
serviço público que, à noite, era redator do jornal O Dia. Esse
redator, diariamente, na sua coluna, desancava o governo Jânio Quadros. O
governador não fez por menos: mandou abrir processo contra o funcionário,
alegando incompatibilidade para o exercício do cargo. Teobaldo, no seu parecer,
mostrou que havia compatibilidade.
Claro que o seu parecer desagradou o governador. Em pouco
tempo foi transferido da Secretaria do Governo para o Departamento Estadual de
Administração. Lá chegando, nesse mesmo ano, iniciou sua trajetória a
serviço das Relações Públicas. Pesquisou e estudou os primeiros livros
americanos de Relações Públicas os escritores Nielander e Miller, começando
a interessar-se pela atividade e estruturando os primeiros cursos de Relações
Públicas.
Acabou por fundar o Departamento de Relações Públicas do
DEA, tendo em seguida colaborado na elaboração da minuta da portaria que
criava os departamentos de Relações Públicas em todos os setores mais
importantes da administração estadual. Daí por.diante, atirou-se de corpo e
alma à atividade de Relações Públicas, até se transformar na grande
autoridade que é hoje.
Sua perseverança continuaria a ser demonstrada na carreira
acadêmica. O Prof. Cândido Teobaldo de Souza Andrade desenvolveu um dos
primeiros trabalhos acadêmicos sobre o assunto: a monografia Relações
Públicas no Governo Estadual, publicada em 1962, quando já exercia o cargo de
consultor jurídico da Secretaria do Governo de São Paulo.
No entanto, o ano de 1967 é marcado pelo auge do grande
entusiasmo do Prof. Cândido Teobaldo de Souza Andrade que participava da
Associação Brasileira de Relações Públicas. Esta participação inicial
contribuiu para a fundação de inúmeras Seções Estaduais da Associação,
exercendo, desta maneira, o destacado papel junto aos órgãos Internacionais de
Relações Públicas.
Foi o primeiro a conquistar na USP o grau universitário de
Doutor em Comunicação (Relações Públicas), na ECA/USP, em 25 de Abril de
1973, com a tese Relações Públicas e o Interesse Público. A
banca era composta por: Prof. Dr. Rolando Morel Pinto (Orientador), Prof. Dr.
Egon Schaden, Prof. Dr. Modesto Farina, Prof. Dr. Teófilo Queiroz, Profª.
Drª. Francisca Cavalli. Em 1978, conquistou o grau de livre-docente em
Relações Públicas Governamentais na ECA/USP, com a tese Relações
Públicas na Administração Direta e Indireta e o grau de professor titular
na ECA/USP em 15 de Março de 1985.
Segundo o seu percurso literário, destacam-se as obras:
Para Entender Relações Públicas, Edições Loyola, São
Paulo, 1993, 4ª edição.
Procura sintetizar os principais conceitos da atividade,
explicando o que eram e faziam as Relações Públicas. Define o processo
de Relações Públicas em várias atuações, os erros mais freqüentes, o
treinamento e formação para as Relações Públicas. Aborda os veículos de
comunicação dirigida, conduzindo a comunicação para determinados tipos de
públicos ou seções de um público.
Psicossociologia das Relações Públicas, Edições Loyola,
São Paulo, 1989, 2ª edição.
Aborda questões direcionadas aos aspectos das organizações
modernas no mundo atual, despertando desde já, a responsabilidade social de
empresas e entidades, diante do comportamento coletivo, apresentando o conceito
de público e opinião pública, ferramentas fundamentais para as Relações
Públicas, servem para reafirmar o conceito fundamental, construir uma
identidade positiva e produtiva junto à opinião pública e à sociedade de
modo geral diante da comunicação com os diferentes públicos.
Dicionário Profissional de Relações Públicas e
Comunicação e Glossário de Termos Anglo-Americanos, Summus Editorial, São
Paulo, 1995, 2ª edição.
Este dicionário é apresentado em toda a América Latina,
com uma vastidão de conhecimentos e de ampla bibliografia. Em função dos
termos ingleses utilizados, este dicionário foi editado juntamente com um
vocabulário técnico de termos anglo-americanos utilizados em Relações
Públicas e Comunicação.
Panorama Histórico de Relações Públicas, São Paulo,
1972.
Neste livro, apresenta a origem da expressão
"Relações Públicas" surgida em 1882, nos países europeus e
América Latina. No Brasil examina a atuação pioneira dos profissionais de
Relações Públicas, expondo que o Brasil foi o primeiro país, no mundo, a
regulamentar a profissão de Relações Públicas, através da Lei n. 5.377 de
11 de Dezembro de 1967.
Curso de Relações Públicas, Editora Atlas, São Paulo,
1994, 5ª edição.
Neste livro, o autor apresenta uma linguagem clara e bem
estruturada, o conteúdo das mais variadas questões relativas às Relações
Públicas. Analisa o Público e a Opinião Pública, a imprensa que determina o
aparecimento do público, desde sua formação até a Opinião Pública nos dias
de hoje.
Examina o público e suas relações com o público de modo
geral, o público interno, a imprensa, a comunidade, escolas, público misto,
concorrentes, poderes públicos, como também decorre as principais funções e
estruturas dos serviços de Relações Públicas. Nesta obra, insere o conceito
de Relator Público para designar a atividade de Relações Públicas, bem como
apresenta as qualificações de um relator público.
Outras obras:
"Soldados Sem Botas" – Contos – Editora Biblos
- São Paulo – 1966.
"Le Destin des Relations Publiques" – Francois L.
de Martigny – Montreal – 1977 (Co-Autor).
"Administração de Relações Públicas no
Governo" – Edições Loyola – São Paulo – 1982.
"Como Administrar Reuniões" – Edições Loyola
– S. Paulo – 1995 – 2ª edição.
Com um espírito criador, revelou-se um homem de posição
contrária à de muitos dos seus colegas, com relação a alguns tópicos. Em
entrevista à autora, abordou, por exemplo, a questão da designação do
profissional.
"...Acho um absurdo a expressão ‘fulano de tal é
Relações Públicas’. Acho que deve ser usada a expressão ‘relator
público’, de uso corrente nos países latino-americanos..."
Outro ponto de que discorda, é o enquadramento da atividade
de Relações Públicas na Comunicação. Concorda que Relações Públicas tem
muito de Comunicação. Mas observa que elas envolvem tanto a filosofia básica
de uma empresa, que engradamento correto deve ser na Administração e não na
Comunicação.
Em suma, por todos estes fatores, e muitos outros, trata-se
uma contribuição que a pessoa do Prof. Cândido Teobaldo de Souza Andrade fez
em prol do ensino, da pesquisa e principalmente da institucionalização das
Relações Públicas no Brasil e na América Latina.
CONCLUSÃO
"... Homem que não admite a problemática e sim a
'solucionática'..." Esta afirmativa bem define a pessoa do Prof. Teobaldo,
como gosta de ser chamado. Portanto, reverenciar sua contribuição nos coloca
em contato com outras grandes personalidades que incentivaram e ainda incentivam
a profissão das Relações Públicas.
Sendo assim, o Prof. Teobaldo em seu livro
Para Entender Relações Públicas, (crê-se que este tenha sido o primeiro
livro de Relações Públicas publicado na América do Sul e no Brasil em 1963),
merece destaque o fato de que, o autor nos coloca diante da expressão
comunicação dirigida, da necessidade de selecionar de conduzir e selecionar a
comunicação para determinados tipos de público. Ao contrário dos veículos
de comunicação de massa, eles não têm geralmente, grande alcance e não são
muito dispendiosos. Supõe-se que em 1963, na inserção da expressão
comunicação dirigida, trazendo aos dias de hoje, podemos nos referir ao
marketing individualizado, o marketing one-to-one ou marketing pessoal?
De certo que, no lançamento de um de seus livros mais
importantes, naquela época, a televisão era o mais novo veículo de
comunicação que combina a palavra escrita, oral, efeitos sonoros, imagens
fixas ou em movimento. A TV, constituía ainda uma tarefa de principiantes. E o
autor ainda sugere: "...é preciso que os homens de Relações Públicas se
preparem devidamente para a aplicação, desse novo veículo em suas
comunicações, procurando desde já, a exata reação dos telespectadores
frente aos programas que vem sendo apresentados..." (p. 157)
Mas, a contribuição do Prof. Teobaldo é inegavelmente
importante, no sentido de sistematizar a atividade de Relações Públicas.
Assim, conclui-se que a atividade de Relações Públicas, é uma atividade
efetivamente abrangente, capaz de provocar mudanças onde são desenvolvidas,
melhorando seus planejamentos na direção do interesse e do bem comum.
Tratando-se da basicamente da essência de Relações
Públicas, é evidente que a mudança nas tecnologias, nos modos e nos meios de
se por em prática as ações de Relações.Públicas, conspiram para uma
releitura da atividade de Relações Públicas. Sendo que o cuidado com o
público, presente nas obras do Prof. Teobaldo, estará sempre presente e sem
isto não estará sendo feita uma prática de Relações Públicas.
A sua presença na área de Relações Públicas, transmite o
significado e importância presente nos profissionais de Relações Públicas e
estudiosos de uma área consolidada pelo entusiasmo, perseverança e
principalmente competência profissional do Prof. Teobaldo, que como poucos
soube harmonizar os interesses de uma categoria que adquiriu e ainda está por
adquirir ,no decorrer desta trajetória, uma consolidação teórica para a
formação do profissional de Relações Públicas. Com a união de esforços
neste sentido, será possível efetivar o avanço neste campo, sem desmerecer o
estágio já alcançado.
Neste sentindo, demonstrar que com sabedoria e obediência
aos princípios éticos da profissão, aliado ao legado de grandes pesquisadores
e difusores de uma área de conhecimento, nós, profissionais de Relações
Públicas, reafirmamos e adquirimos uma visão panorâmica da nossa história,
que hoje, avança aceleradamente para o futuro.
Fato este, já confirmado numa publicação da Revista
Propaganda (n. 233,
p. 31, dez. 1975),
em que o Prof. Teobaldo acha o Brasil muito adiantado no setor de Relações
Públicas. "...Somos o vice-campeão. Só perdemos para os Estados
Unidos..."
Acha que há, contudo, alguns senões. Dentre eles, falta de
teoria específica para a situação brasileira. Falta a conscientização, por
muitos profissionais, de que são mais assessores da empresa que meros
executantes da comunicação. Falta mais pesquisa e mais avaliação de
resultados.

BIBLIOGRAFIA
CODIC, Yves Francois. A ciência da informação. Brasília,
DF: Briquet de Lemos/ Livros, 1996.
PERUZZO, Cicília. Manual para elaboração e
apresentação de relatório de qualificação, dissertação de Mestrado e tese
de Doutorado em Comunicação Social. UMESP, São Bernardo do Campo, 1999.
MELO, José Marques de Melo et all. Pensamento
Comunicacional Brasileiro: o grupo de São Bernardo (1987–1998). UMESP,
São Bernardo do Campo, 1999.
KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Vinte anos de Ciências
da Comunicação no Brasil : Avaliação e Perspectivas. Org. Maria
Immacolata Vassalo Lopes. UNISANTA, São Paulo, 1999.
KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Universidade e
Comunicação na edificação da sociedade. São Paulo: Loyola, 1992.

Comunicação apresentada ao GT de Relações Públicas,
da INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação,
no XXIII
Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado de 2 a 6 de
setembro de 2000 na Universidade do Amazonas, Manaus – AM