OS 20
ANOS DE REGULAMENTAÇÃO
Relações Públicas tem quarenta anos de Brasil. De acordo com Antonio de
Salvo, que sabe das coisas e é presidente da Associação Brasileira das Empresas de
Relações Públicas, a atividade de bem se entender com o público foi introduzida no
Brasil pela Light, empresa que sempre enfrentou uma "barra" muito pesada. Desses
40 anos cujo histórico está requerendo um bom memorialista os registros
mais definidos e mais importantes dizem respeito aos últimos 20 anos, relativos ao
período em que a profissão está regulamentada.
E ninguém melhor do que Vera Giangrande, memória viva de tudo o que
aconteceu no Brasil com Relações Públicas principalmente nos últimos 20 anos, para
levantar esse histórico, para falar de gente pioneira, para falar dos planos, dos sonhos
e do quanto Relações Públicas conquistou e evoluiu a partir do momento em que se tornou
uma profissão regulamentada.
PUNHADO DE BRAVOS
"Vou tentar" começa Vera Giangrande "ser
fiel ao espírito da retrospectiva, caminhando com o tempo. E vou me permitir fazer
algumas considerações que, a cada passo, sejam oportunas.
"Os primeiros anos de regulamentação foram de intensa atividade para
aqueles poucos que batalhavam na profissão. Se o nosso grupo profissional ainda é
pequeno hoje, imagine como era reduzido em 1967, quando a profissão foi regulamentada.
Esse punhado de profissionais lutou bastante. Primeiro, eles se dedicaram a
obter a regulamentação e, quando obtida, tiveram de se empenhar na organização da
estrutura básica".
"O primeiro passo" prossegue Vera "foi organizar
os Conselhos. O segundo passo, registrar os profissionais que já estavam em atividade,
após analisar a documentação solicitada, o que não era fácil. Fui presidente de
Conselho Regional e lembro muito bem as horas que passei examinando detidamente
documentos, para ser justa e honesta com os colegas que solicitavam registro".
Mas esse "punhado de colegas" hoje injustamente esquecido,
como lamenta Vera ainda tinha muito trabalho pela frente. "Eles levaram ao
redor de cinco anos entre a organização dos Conselhos, registro dos profissionais que
atuavam na área e, principalmente aqui o grande trabalho e o grande mérito dessa
gente a criação do currículo básico para formação dos futuros profissionais.
E mais ainda: a busca e o encontramento, se posso dizer assim, de
professores".
Perguntamos, então, a Vera se lembrava os nomes desses pioneiros.
"Claro que lembro. Gente muito boa e muito querida. Um deles é o Granjean dos Santos
Pinto, falecido recentemente. Outro, que está em atividade e é muito conhecido, o
professor Cândido Teobaldo de Souza Andrade, que dedicou noites e noites, junto com um
grupo formidável, à criação desse currículo básico. Depois lembramos a Maria Stella
Thomazi e outros colegas que nem quero ficar citando porque receio esquecer alguém, o que
seria injusto".
AS ESCOLAS
Veio em seguida a luta para a abertura das escolas. E, naturalmente também
foram analisadas as escolas que tinham credenciais para ensinar Relações Públicas. Os
cursos pioneiros foram das escolas oficiais: USP, Federal do Rio, a Escola Superior de
Estudos de Relações Públicas do Recife, e Universidade Brasília. Depois, vieram as
escolas particulares, destacando-se a Fundação Álvares Penteado, dentre as primeiras.
Mas, como foram elaborados os currículos e em que se fundamentaram?
"Já havia toda uma área de pesquisa e estudo na USP e na Fundação Getúlio
Vargas. Aí temos de voltar um pouco no tempo e encontrar a pioneira dos pioneiros
a May Nunes de Souza Rubião. Ela começou a fazer pesquisas sobre a área de Relações
Públicas na USP e, por via dela, esses estudos também se iniciaram na Fundação
Getúlio Vargas, ainda em 1948 ou 1950. Ela era menina e já se dedicava ao assunto",
responde Vera Giangrande. May é hoje assessora do empresário José Mindlin da Metal
Leve. Na época, May atuava na ABRP, o núcleo inicial que conseguiu o reconhecimento da
profissão, via regulamentação.
Vera conclui "Todos esses estudos foram de inestimável apoio para a
elaboração dos currículos. Não esquecendo também que foram analisados os currículos
de outras escolas de Relações Públicas fora do Brasil. E mais: na Praia Vermelha, no
Rio de Janeiro, já se dera um curso de Relações Públicas, de nível universitário, no
início da década de 1940. Resumindo não partimos do zero na elaboração dos
currículos. Já havia uma boa e bem estruturada base".
ABERTURA POSSÍVEL
Abordando, ainda, o ensino de Relações Públicas, Vera comenta que "em
que pese o fato da profissão não ser regulamentada por lei nos Estados Unidos e na
Europa, geralmente quem a ela se dedica faz os estudos, numa faculdade específica".
Nesse ponto, Vera, a quem tanto se deve a regulamentação da atividade no
Brasil, não foge de abordar um tema polêmico. "Internacionalmente, há muito debate
quanto à conveniência de se regulamentar ou não a profissão. O principal temor, quando
se discute a regulamentação, é de fechar as portas desta profissão a pessoas que
teriam muito a dar. Concordo um pouco com os colegas que têm esse temor, porque,
realmente, isso ocorre. O que acaba acontecendo é que pessoas que teriam uma verdadeira
vocação não podem contribuir".
Como resolver o impasse? Vera acha que essas pessoas poderiam fazer um curso
em tempo mais curto. "Faço parte da Comissão do Ensino da Comunicação do MEC e
nós temos discutido o assunto. Tenho sentido a comissão muito favorável à abertura das
profissões ligadas à área de Comunicação, como Jornalismo, Relações Públicas,
Propaganda e outras, a pessoas que não pertencem à área, pessoas de formação
universitária que sentem, em certo momento da sua vida profissional, que teriam uma
verdadeira vocação para a Comunicação.
"Estamos analisando a possibilidade de sugerir ao MEC currículos de um
pós-graduado lato sensu que poderia, talvez, ser dado no espaço de um ano, para essas
pessoas. Elas aprenderiam, então, aquela parte da profissão que não aprenderam ainda.
Também, para isso, estamos examinando o currículo de vários cursos, semelhantes
existentes principalmente na Europa. Resumindo, a preocupação maior é de não fechar as
portas da profissão a pessoas realmente vocacionadas e que já possuam uma boa educação
universitária".
EXPLOSÃO UNIVERSITÁRIA
Como houve uma longa digressão, pedimos a Vera para voltar ao histórico e
falar mais um pouco do problema de "buscar e encontrar" professores de
Relações Públicas, que ocorreu no começo da regulamentação.
"Na verdade, essa busca continua até hoje. Por quê? Porque não se
formam professores rapidamente. Daí aquela repetida queixa de que o ensino universitário
no Brasil é fraco. Acontece, porém, que essa situação e aí eu entro com as
minhas críticas é fruto da demagogia desenfreada do governo de exceção que
tivemos. Ocorreu, ao mesmo tempo, uma coincidência histórica: tivemos uma abertura
excessiva de escolas de nível superior."
Vera faz questão de frisar que "não é elitista" ("não acho
que se deva escamotear ao povo o direito a uma educação superior"), mas existe a
obrigação de se dar educação superior a nível condizente. "Ao se permitir a
abertura geométrica e violenta de escolas de nível superior, é preciso ter professores
para um empreendimento de tão grande porte. E bons professores não se formam em cinco ou
dez anos, não no número necessário para cobrir as muitas escolas que foram abertas
nesse período.
"Para que se tenha melhor idéia fico estarrecida quando lembro
isso basta ver que, em 1963, tínhamos quarenta e duas escolas de Medicina em todo
o país; sete anos depois, em 1970, esse número subiu para quase oitenta. Algumas escolas
deviam estar ensinando mal. Em 1967, não tínhamos nenhuma escola de Relações
Públicas; oito anos depois, em 1975, tínhamos vinte. Alguma tinha que estar ensinando
mal. O mesmo fenômeno ocorreu com as escolas de jornalismo. A culpa da má qualidade do
ensino é de quem? De quem hoje é professor? Não. A culpa é da velocidade do
processo".
"Um professor" insiste Vera "se faz com calma e
se faz pagando bem. E dando a essa pessoa, homem ou mulher, a oportunidade de estudar, de
ler, de se aprimorar para poder ensinar adequadamente. Mas isso não pode acontecer com a
explosão das escolas". Nesse ponto, Vera lembra uma conhecida piada que parece ter
algum sentido: quem sabe nada está fazendo, quem sabe mais ou menos está ensinando e
quem não sabe está escrevendo...
MUDANÇA
Mas, na visão de Vera, nos dias de hoje o horizonte não é tão sombrio, a
situação começa a mudar. "Alguém, como eu, que saio, pelo menos oito, nove vezes
por ano, desde escritório e vou dar palestras em universidades pelo Brasil afora ou
participar de encontros, cursos, semanas e congressos, começo a ver professores já
preparados, começo a ver gente que está escrevendo bem, começo a ver bons livros sendo
publicados sobre a profissão, saindo do bê-a-bá e tratando Relações Públicas de
maneira mais profunda. Então, acredito que, daqui a dez anos, teremos toda uma outra
situação".
Naturalmente, tudo vai depender do novo enfoque que o ensino no Brasil está
reclamando. "Para começar, o professor é muito mal pago, em todos os níveis."
PROSELITISMO
Depois de estruturar a regulamentação, de criar currículos, escolas e
professores, os profissionais de Relações Públicas mais antigos passaram a proselitar
os empresários para que compreendessem a atividade. "Para entender o que podíamos
trazer de bom para eles, como podíamos colaborar na gestão dos seus negócios, fazendo,
inclusive, que gozassem de melhor imagem".
"Mas, além de todos os problemas, o governo tem travado, embora
indiretamente, o desenvolvimento das Relações Públicas em nosso país". A crítica
de Vera parte da constatação de que o Estado brasileiro intervém demais na vida
econômica, na gestão dos negócios. Em razão disso, os negócios sofrem constantes
oscilações e uma seqüência de pressões muitas vezes em direções contrárias.
Essa situação obriga o empresário, que quer pensar a longo prazo, a
trabalhar no curto prazo. "Se, além disso, juntarmos o fato de que uma das
características do brasileiro é ser imediatista, fica fácil compreender por que
Relações Públicas está sendo a última área a ser cogitada pelo empresário
brasileiro. Porque se ele não consegue planejar a médio e a longo prazo, como vai
comprar uma atividade que só funciona a médio e a longo prazo?"
Por isso, Relações Públicas é muitas vezes solicitada para uma
"ação de bombeiro" (quando surge um problema grave de Relações Públicas na
empresa) ou para uma "ação eventual". Essas ações eventuais podem ser a
inauguração de uma fábrica, o lançamento de um produto inusitado etc. "Aí, nós
temos uma boa oportunidade de fazer proselitismo, porque estamos dentro da empresa."
Vera diz que sempre aceita convites dessa natureza. Aproveita o ensejo para
"vender" Relações Públicas como uma atividade de natureza permanente.
Ainda há empresários que têm um conceito equivocado de Relações
Públicas. Recentemente, por exemplo, Vera foi chamada por uma firma que queria ampliar o
seu quadro de clientes. Solicitou "um trabalho de Relações Públicas",
oferecendo comissão no lugar de honorários... "Evidentemente, uma confusão com o
trabalho de promoção de vendas".
FALTA DIVULGAÇÃO
Vera, no entanto, não chega a se magoar com essas confusões. E acha que os
próprios profissionais de Relações Públicas são em grande parte, responsáveis por
esses equívocos. "Nós divulgamos pouco o que seja a nossa atividade. Nós falamos
muito para nós mesmos".
Entre outras idéias, Vera tem, repetidas vezes, dado a seguinte sugestão:
comecemos a falar com os empresários. "Deveríamos estar permanentemente numa ADVB
falando aos vendedores sobre o tipo de trabalho que o profissional de Relações Públicas
pode fazer para apoiar as vendas. Ou na Fiesp e Ciesp falando com os empresários. E nas
Câmaras de Comércio."
A propósito destaca e elogia o trabalho realizado de maneira profissional
por Sérgio Muniz de Souza, quando estava na Câmara Americana de Comércio e fazia, uma
vez por ano, um seminário sobre Relações Públicas. E, ainda hoje, Sérgio faz todos os
anos uma palestra sobre a matéria para os colegas do Rotary Club que ele freqüenta.
A criação do Prêmio Opinião Pública foi um grande passo nessa direção.
"Por isso, tenho dado todo o apoio a esses prêmios. De tudo o que temos feito nesses
20 anos, o Opinião Pública é o que traz maior retorno junto a classe empresarial, seja
pela cobertura de imprensa que recebemos, seja pela presença de alguns empresários na
entrega do prêmio, seja pela divulgação do fato no meio empresarial".
ONDE ESTÃO OS JOVENS?
Voltando ao histórico, Vera Giangrande destaca a entrada nos últimos dez
anos dos jovens, dos recém-formados, na profissão. "E, por incrível que pareça,
eles não entendem e questionam a necessidade de se registrarem como profissionais para
exercer a profissão. O engenheiro não questiona a necessidade do seu registro no CREA, o
arquiteto idem, o administrador de empresas, o advogado na OAB, mas nossos colegas
questionam. E perguntam por que se vão registrar se nunca viram nada que o Conselho faz.
Ora, como eles podem ver se o Catálogo Brasileiro de Profissionais de Relações
Públicas e outras publicações da área só são enviadas a quem está registrado?
Ficamos, então num círculo vicioso".
Desse modo, Vera Giangrande vê que hoje ainda existem duas grandes missões:
proselitar o jovem e o empresário e o jovem profissional sobre as vantagens dele cumprir
a lei, de se registrar, de exercer legalmente a profissão. "Esta foi reconhecida e
ele continua a exercê-la ilegalmente. E depois reclama que a profissão não é
conhecida, mas ele não se soma a nós, não nos dá força. Pelos meus cálculos, temos,
pelo menos, ao redor de 22 mil pessoas, entre antigos e novos profissionais. No entanto,
apenas 10 mil são registrados, ou seja, menos da metade. A classe continua então com uma
representação fraca".
Sumarizando os 20 anos, Vera Giangrande afirma que tudo o que foi obtido se
fez à custa de sacrifícios pessoais de um punhado de colegas. "É a classe continua
fraca porque ainda não entendeu que só cerrando fileiras é que podemos ser
fortes".

Originalmente publicado no Catálogo Brasileiro de Profissionais de Relações
Públicas, São Paulo, v. 9, p. 112-114, 1987, editado pelo CONRERP 2ª Região
São Paulo/Paraná