Memória

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NA TRINCHEIRA DA COMUNICAÇÃO

 

Nara Damante

Jornalista

 

Um dos mais notáveis profissionais de Relações Públicas do mundo, Harold Burson, fundador e presidente mundial da consultoria de comunicação Burson-Marsteller, foi eleito "personalidade de Relações Públicas mais influente do século XX", em um ranking de 100 profissionais eleitos pela revista norte-americana PR Week. Na ativa aos 78 anos de idade, ele acumula mais de 50 anos de experiência em comunicação empresarial e é o titular de uma empresa com 74 escritórios no mundo, espalhados por 35 países, e 2,2 mil funcionários. No Brasil, a agência existe há 22 anos.

Burson lançou e executou várias tendências na área de comunicação, sendo que a principal delas é a introdução do conceito de "marketing integrado". Ele criou o termo décadas antes do termo ser inventado. Seu trabalho como consultor abrange desde empresas privadas como chefes de Estado, ministros e outras figuras públicas mundiais. Seu honorário para assessoramento pessoal está avaliado em US$ 5 mil por dia.

Ele também é membro de diversas organizações de Relações Públicas, culturais e ONGs, dentre elas a Comissão Nacional de Belas Artes, o Conselho Nacional de Educação Econômica, a ONG ambientalista World Wildlife Fund e a comissão consultiva de Relações Públicas da United States Information Agency.

A Burson-Marsteller começou com escritórios em Nova York e Chicago e tem entre seus clientes mundiais Philip Morris, Merril Lynch, Coca-Cola, DuPont e McDonald’s. Burson iniciou sua carreira em 1941, como jornalista num diário de Memphis, no Tennessee (EUA). Ele então recebeu uma proposta para ajudar uma grande empresa de engenharia e construção civil com seu trabalho de Relações Públicas.

Nesta época, Burson tinha apenas 20 anos e era recém-formado e o trabalho teve que ser interrompido em decorrência da Segunda Guerra Mundial, em que foi combatente na Europa de 1941 a 1943. Quando voltou, tinha em mente a abertura de um escritório de comunicação. Foi a seu antigo patrão e pediu a conta de Relações Públicas da empresa para que ele pudesse desenvolvê-la a partir de seu escritório. Começava assim a Burson.

Em 1952, o publicitário Bill Marsteller tinha uma agência de publicidade em Chicago e Pittsburgh e precisava de uma pequena empresa de comunicação para trabalhar para o seu cliente Rockfeller International. Para captar clientes, procurou uma associação com a Burson, nascendo a Burson-Marsteller, que passou a operar a partir de 1953. Reza a lenda que Harold disse a Bill que ele poderia ficar com 51% das ações da nova empresa se seu nome aparecesse em primeiro na logomarca. Quem conhece Bill Marsteller afirma que foi provavelmente a primeira vez na vida que o nome dele veio em segundo plano.

Em 1961, a Burson-Marsteller abriu escritório na Europa em decorrência da necessidade das empresas americanas que estavam ingressando nesse novo mercado. Aos poucos, a Burson também passou a captar contas de empresas locais. Quando a agência chegou a Geneva (Suíça), a Burson já era a 25ª maior agência de Relações Públicas nos Estados Unidos, tornando-se a única agência de Relações Públicas americana a se tornar internacional depois da Hill & Knowlton, que também já estava na Europa.

Em 1970, a Burson chegou ao 10º lugar no ranking, quando ganhou a conta da General Motors, posição que sendo alavancada gradativamente até atingir a liderança no mundo e ser considerada a maior empresa de Relações Públicas do mundo.

ENTREVISTA

Comunicação Empresarial – O que é ser um profissional completo de Relações Públicas num mundo que vive um processo de mudanças provocado pela comunicação global viabilizada principalmente pela Internet?

Harold Burson – Esta é uma ótima época para estar em Relações Públicas. A melhor da minha carreira de 50 anos. Uma razão é que o comércio pela Internet – o chamado comércio eletrônico – é muito dependente de Relações Públicas. A necessidade de uma empresa de comércio eletrônico é criar identidade imediata. Embora a publicidade seja um veículo disponível para o e-business, as empresas do setor estão em busca de todos os sistemas existentes de comunicação. Hoje é quase automático que a primeira consultoria contratada por uma empresa "ponto com" seja uma agência de Relações Públicas. O e-commerce não é apenas uma nova e abundante fonte de negócios, ele também revigorou as aspirações das empresas tradicionais em matéria de Relações Públicas.

CE – Quais são suas principais teorias sobre Relações Públicas? Elas tiveram que ser adaptadas em algum momento?

Burson – Embora as táticas e os sistemas de comunicação de idéias à disposição dos profissionais de Relações Públicas tenham mudado dramaticamente nos últimos anos – passando da mídia impressa para a eletrônica e, agora, chegando à Internet – a metodologia básica de Relações Públicas permaneceu constante. O propósito final de uma iniciativa de Relações Públicas é motivar as pessoas a fazer uma ação específica. Isto é obtido influenciando-se as atitudes ou opiniões do público-alvo. Atitudes e opiniões podem ser influenciadas de três maneiras: 1) podem ser mudadas; 2) podem ser reforçadas; 3) podem ser criadas quando não existam. Dizer e fazer tudo isso – isso é Relações Públicas. Tem sido assim desde que o Ser Humano começou a interagir com seu semelhante.

CE – Em que época o senhor lançou o conceito de marketing integrado? Originalmente, qual era a idéia? Como ele é encarado hoje? Quem deveria ter o domínio sobre ele: o profissional de marketing, de publicidade, de Relações Públicas ou o jornalista?

Burson – Não tenho certeza de que Bill Marsteller e eu tenhamos introduzido o conceito de marketing integrado, embora a agência de publicidade Marsteller e a firma de Relações Públicas Burson-Marsteller estivessem entre seus proponentes iniciais. Desenvolvemos o conceito em 1953 e o chamamos de "comunicação total". Nossa proposição era simples e foi adotada logo no início por nossos clientes business-to-business da época: modelem as suas formas de comunicação para falar com uma voz única e façam-nas - publicidade, promoção de vendas e Relações Públicas - trabalhar unidas e de maneira coordenada. É interessante verificar como outros reinventaram o conceito ao longo dos anos.

CE – No Brasil, é freqüente as agências de propaganda utilizarem o termo "marketing integrado" e vender esse conceito ao cliente, muitas vezes se sobrepondo e decidindo a linha de comunicação geral da empresa. Essa é uma tendência mundial?

Burson – Infelizmente, a "comunicação integrada" tornou-se uma ferramenta de venda e uma realidade – no Brasil e em outras partes do mundo. Uma dificuldade que tanto as agências de publicidade quanto as empresas de Relações Públicas enfrentam é que a maioria dos clientes não está organizada para implementar um programa integrado. Freqüentemente, as funções de publicidade, promoção de vendas e Relações Públicas são separadas e há pouca coordenação interna. Quando este é o caso, é quase impossível uma agência externa fazer valer um compromisso com comunicação integrada.

CE – De alguma forma, a experiência como engenheiro de combate na Segunda Guerra Mundial contribuiu para seu trabalho em Relações Públicas?

Burson – Uma das grandes lições que tive foi resultado de minha convivência com pessoas de formações diversas. Gente que talvez não tivesse conhecido tão bem se não tivesse convivido com elas em situação de combate. Isto me deu uma perspectiva nova sobre a natureza e o comportamento humanos sob uma ampla variedade de condições. O exército dos Estados Unidos é conhecido por ser um grande "nivelador social" e considero-me privilegiado por ter feito parte desse processo. Após o final da guerra na Europa, eu trabalhei na Rede das Forças Armadas como correspondente de rádio e cobri o julgamento principal de Nuremberg. Trabalhei com alguns dos mais importantes repórteres do mundo durante cinco meses e fiz amizades com jornalistas que continuam até hoje.

CE – Qual o melhor treinamento para um bom profissional de comunicação do novo milênio? Quais são os atributos exigidos?

Burson – Um debate substancioso está em curso sobre a formação e o desenvolvimento dos profissionais de Relações Públicas do futuro. Também se discute o futuro do ensino de jornalismo. Acredito que profissionais de Relações Públicas do amanhã devem ser proficientes não apenas como comunicadores mas também em uma ou mais áreas específicas que requeiram conhecimento especializado, tais como negócios, tecnologia ou ciência. Cada vez mais, os profissionais de Relações Públicas devem conhecer o negócio do seu empregador ou seu cliente. Eles devem estar preparados para participar das decisões básicas de negócio que tenham impacto sobre o público. E devem estar informados sobre fatores políticos, culturais e sociais.

CE – O que deve nortear a comunicação de uma empresa no atual momento de intensa competitividade, grandes parcerias internacionais e globalização?

Burson – A credibilidade é talvez o atributo mais importante que uma empresa ou entidade não-lucrativa podem colocar sobre a mesa. A transparência é cada vez mais importante à medida que o público e grupos de interesse exigem o direito de saber o que está ocorrendo em instituições que interagem com o público.

CE – Quais são os argumentos que o senhor usaria para convencer um empresário brasileiro a optar por uma agência externa de comunicação em detrimento de uma estrutura interna?

Burson – Eu nunca tentaria convencer um empresário, brasileiro ou de outra nacionalidade, a escolher entre uma agência externa de comunicação ou uma estrutura interna. Um serviço interno constitui, eu creio, um pré-requisito para um relacionamento produtivo com uma agência, seja de publicidade ou de Relações Públicas. O ideal é ter os dois serviços e combiná-los para que eles interajam, ou seja, ter uma forte equipe interna gerenciadora e a ajuda externa necessária para complementá-la.

CE – Como manter o mesmo conceito de trabalho da Burson nos vários países onde ela atua? Quais são os princípios que regem a política de trabalho da empresa?

Burson – Está anexa uma declaração recentemente elaborada que resume a filosofia de negócio da Burson-Marsteller. Uma razão que explica o fato de termos sido capazes de produzir resultados uniformes em todo o mundo é que criamos uma cultura única nos 35 países em que atuamos. Nossos programas de treinamento, intercâmbio de conhecimento e nossa infra-estrutura, bem como a circunstância de que nosso crescimento tem sido quase totalmente orgânico (geralmente desprezamos o crescimento geográfico pela aquisição de outras empresas), contribuem para nossa cultura de âmbito mundial.

CE – O que representa para o senhor, aos 78 anos de idade e 36 de carreira em comunicação, ser eleito personalidade de Relações Públicas mais influente do século 20?

Burson – É claro que ser colocado no topo da lista do século foi uma surpresa. Atribuo minha seleção ao esforço coletivo de centenas de colegas da Burson-Marsteller de muitas nacionalidades em mais de 50 escritórios que mantemos em cinco continentes. O profissionalismo e a excelência deles deram polimento ao meu nome. Sou eternamente grato à confiança e ao compromisso deles em relação a mim e à companhia que traz meu nome.

Originalmente publicado na revista Comunicação Empresarial, São Paulo, n. 34, p. 13-17,
primeiro trimestre 2000.