Memória

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A VIDA E A OBRA DE EDUARDO PINHEIRO LOBO

 

José Grandjean dos Santos Pinto

 

Um ponto de destaque do programa do IV Congresso Brasileiro de Relações Públicas foi a homenagem que se prestou a Eduardo Pinheiro Lobo (ver fotografia), pioneiro das Relações Públicas no Brasil, por ter sido o primeiro chefe do mais antigo setor especializado nessa atividade, de que se tem conhecimento em nosso país.

E uma das razões que influíram na escolha de Alagoas para sede do evento foi a de que o homenageado era alagoano, nascido na cidade de Penedo em 2 de dezembro de 1876.

Essa cidade foi incluída no programa, com uma palestra sobre "A Vida e a Obra de Eduardo Pinheiro Lobo", a cargo de José Grandjean dos Santos Pinto, convidado para proferi-la por ter sido um dos auxiliares do homenageado nos últimos quatro anos de sua atuação à testa do referido órgão.

Grandejean – que é hoje o Presidente do Conselho Regional de Profissionais de Relações Públicas, região São Paulo-Paraná-Mato Grosso – deu aos congressistas, com seu testemunho, os traços característicos da personalidade de Eduardo Pinheiro Lobo, desde os biográficos até a citação de fatos e aspectos de sua vida.

Também em Penedo foi oficializada a denominação de "Rua Eduardo Pinheiro Lobo", dada a uma de suas vias públicas, como tributo de gratidão da cidade ao seu filho ilustre, o "Pai das Relações Públicas no Brasil".

No que tange ao pioneirismo da Light no campo das Relações Públicas, reproduzimos o texto original do "Aviso Geral" de 30 de janeiro de 1914, criando o Departamento de Relações Públicas da empresa. O documento – que pode ser considerado como "a certidão de nascimento das Relações Públicas no Brasil", está redigido em inglês como era usual na época por se tratar de uma companhia canadense, e é assinado por W. G. MacConnel, então assistente do Superintendente Geral daquela companhia.

 

São Paulo, January 30th, 1914.

GENERAL NOTICE

Beginning with February 1st, there will be established in this Company a new department know as "Relações Públicas", which will have immediate charge of the Company’s business with the State and Municipal authorities, school tickets and such other business as may be hereafter assigned to it.

Dr. Eduardo Pinheiro Lobo is hereby appointed Chief of this Department.

Yours truly.

ASST. GENERAL MANAGER

 

Uma olhada para traz mostra o vazio do campo dessa atividade, entre nós, àquela época. Nos próprios Estados Unidos nada se fazia e em princípios do século 20 o relacionamento das grandes empresas e a opinião pública americana se exercia num verdadeiro "estado de guerra", coroado com a famosa expressão do milionário Vanderbilt "the public be dammed" – o público que se dane. Esses fatos ocorriam início do século 20 e, no entanto, Eduardo Pinheiro Lobo chefiava desde 1914 o primeiro serviço de Relações Públicas no Brasil, traçando-lhe diretrizes fundamentais que sobreviveram até hoje ao lado das novas técnicas e cientifismo introduzidos na atividade das modernas Relações Públicas.

Por tudo isso, a Light é pioneira e ele, Eduardo Pinheiro Lobo, um paradigma há pouco consagrado, durante a realização do II Congresso Brasileiro de Relações Públicas (empreendido em São Paulo, em 1974), o "Pai das Relações Públicas no Brasil".

A FIGURA E A OBRA DE EDUARDO PINHEIRO LOBO

Sinto-me muito feliz e, ao mesmo tempo, emocionado pela oportunidade que me é oferecida, de reviver, neste evento – o IV Congresso Brasileiro de Relações Públicas – uma figura impar de cidadão que, na trajetória da sua vida, pelo carinho dispensado aos que com ele conviveram, pela visão demonstrada ao enfrentar e solucionar problemas, pela capacidade e dedicação ao trabalho, pela retidão do seu caráter, pelo acerto de suas decisões, tornou-se respeitado e admirado.

As novas gerações compreendem, felizmente, que os conhecimentos técnicos e científicos de que hoje dispõem, são frutos do trabalho e da pesquisa de criaturas humanas dotadas de excepcional inteligência, que, no passado, muito deram de si em prol do progresso, da cultura, da civilização, proporcionando melhores condições de vida aos habitantes do nosso planeta.

Reverenciar a sua memória é um dever que se impõe àqueles que usufruem seus ensinamentos.

É portanto, justa a homenagem que se presta a Eduardo Pinheiro Lobo, em sua cidade natal, no ano do centenário do seu nascimento.

É, ainda, merecido atribuir-se a ele o título de "Pai das Relações Públicas no Brasil", por ter sido o pioneiro dessa atividade profissional em nosso país, implantando, na direção do primeiro Departamento de Relações Públicas de que se tem conhecimento, diretrizes fundamentais que sobrevivem até hoje, ao lado das novas técnicas.

Eduardo Pinheiro Lobo nasceu nesta cidade de Penedo, em 2 de dezembro de 1876 – 16 anos antes de se ter usado no mundo, pela primeira vez, a expressão "Public Relations", conforme pesquisas realizadas nos Estados Unidos.

Após os estudos primários, com apenas nove anos de idade, foi enviado para o Rio de Janeiro a fim de cursar o Colégio Militar, carreira que pretendiam fosse por ele seguida.

No entanto, por volta de 1896, motivos relacionados com a Revolta da Armada, encabeçada por Custódio de Mello, contra o Governo de Floriano Peixoto, fizeram com que o jovem Eduardo Pinheiro Lobo, então com 19 anos de idade, interrompesse a carreira e seguisse para Inglaterra, a fim de estudar engenharia.

Completados os estudos, retornou ao Brasil, passando a residir em São Paulo, onde constituiu família, casando-se com Dona Ema Schwob. O casal teve os filhos Jose Marcos Eduardo, Hilda Maria Francisca, Rodolfo Gabino, Ema Suzana, Olga Sara e Edgard.

Este último, há pouco tempo falecido, foi médico pediatra de grande valor e dedicação à profissão. Tive o privilégio de com ele conviver durante muitos anos, por ter sido o médico de meus filhos.

Viúvo aos 40 anos de idade, Eduardo Pinheiro Lobo assumiu, então, todas as responsabilidades da família, dedicando-se a ela com desvelo, paralelamente com sua atividade na empresa.

Seu "hobby" era tirar fotografias. Ele mesmo gostava de fazer a revelação dos filmes e as cópias, possuindo em sua casa um pequeno laboratório, mas as suas preocupações e o grande volume de trabalho que lhe era atribuído, fizeram-no abandonar cedo essa atividade.

Ao radicar-se na cidade de São Paulo, trabalhou inicialmente em uma indústria – a Fábrica Penteado –, depois na Companhia de Gás de São Paulo, e, em 1906, ingressou na "The São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited", empresa canadense que, no início do século, havia sido constituída e tinha concessão dos transportes coletivos em bondes elétricos e do fornecimento de energia elétrica na cidade de São Paulo.

Se recaiu em mim a escolha para, nesta oportunidade, falar sobre a vida e a obra do homenageado, o foi, certamente, pelo fato de haver eu trabalhado, no últimos anos de sua existência, sob sua competente direção, sob sua sábia direção.

No início de 1914, a direção da Light, sentindo a necessidade de um setor especializado para cuidar do seu relacionamento com os órgãos da imprensa e com os poderes concedentes, criou, por meio de um "Aviso Interno", baixado em 30 de janeiro daquele ano, o Departamento de Relações Públicas, com aquelas funções específicas, e outras que mais tarde viessem a lhe ser atribuídas.

A chefia do referido departamento – o qual, de acordo com o citado aviso, se tornaria efetivo a partir de 1º de fevereiro de 1914, foi confiada a Eduardo Pinheiro Lobo, que já vinha prestando serviços à empresa em outro setor, e se revelara capaz de imprimir as diretrizes que se tinha em vista para o novo órgão

Circunstância curiosa é a de que, no aviso em questão, embora redigido em inglês, como era usual, na época, por se tratar de uma companhia canadense, as palavras "Relações Públicas" apareciam em português, entre aspas, admitindo-se que tenha sido essa a primeira vez que tal expressão foi escrita, num documento, em outro idioma que não o inglês.

Existem razões para supor que a nomeação do Dr. Eduardo Pinheiro Lobo para este posto, e mesmo a criação do Departamento de Relações Públicas, tenha sido uma surpresa.

Essa suposição encontra justificativa em uma notícia publicada no jornal A Gazeta, de São Paulo, em 2 de fevereiro de 1914, que dizia: "Ouvimos que se darão proximamente várias modificações na direção da Light em São Paulo. Ao que nos disseram, o Dr. Eduardo Pinheiro Lobo, atual superintendente da Luz e Força, será nomeado vice-presidente da companhia, sendo substituído naquele cargo pelo Sr. Raink, chefe da Light em Sorocaba".

Tal nota, observe-se, foi divulgada no dia seguinte àquele em que o Departamento de Relações Públicas da Light iniciara suas atividades.

A instalação do Departamento de Relações Públicas ocorreu numa ocasião em que a empresa atravessava período difícil, porque o aumento da demanda de energia elétrica absorvia a capacidade de geração de suas duas usinas, uma hidráulica e outra a vapor.

A seca, durante o ano de 1914, fora rigorosa e estava a Light no fim dos seus recursos hidráulicos, quando conseguia receber energia de uma usina construída na cidade de Sorocaba, no interior do Estado de São Paulo.

O reservatório de regularização, alimentador da usina hidrelétrica de Parnaíba, no rioTietê, esta desde o último trimestre de 1913 com o nível muito baixo.

O suprimento recebido de Sorocaba constituiu um alívio, normalizando a situação, mas, até então, qual teria sido a opinião do público a respeito?

Pesquisas realizadas em recortes de jornais da época não revelaram a existência de publicações em que a empresa aparecesse como culpada pela situação, que se sabia ser causada pela prolongada estiagem, reduzindo a vazão do rio onde se situava a principal usina do sistema elétrico.

Isso revela, sem dúvida, ter sido desenvolvido um bom trabalho de Relações Públicas, na manutenção de um relacionamento eficaz com a imprensa, objetivando o esclarecimento da opinião pública.

Não dispondo de informações que me permitam apresentar muitos exemplos dos resultados das Relações Públicas da empresa, ao tempo de Eduardo Pinheiro Lobo, mas é certo que a Light sempre desfrutou de elevado prestígio e conceito, e sabe-se que isso só é possível conseguir com uma administração meritória, apoiada por um eficiente serviço de Relações Públicas, bem planejado e bem executado.

Minha entrada na empresa ocorreu muitos anos após a instalação do Departamento de Relações Públicas, mas, circunstâncias e fatos, embora não para mim testemunhados, revelam a eficiência do trabalho executado sob a orientação de Eduardo Pinheiro Lobo, desde a I Guerra Mundial, quando a implantação de indústrias e o crescimento demográfico da área servida pela empresa tornaram aconselhável pensar-se na obtenção de novas fontes de produção de energia elétrica.

As concessões para aproveitamento de cursos de água, dadas a uma empresa estrangeira, não teriam sido bem recebidas pela opinião pública se não tivessem sido precedidas de esclarecimento quanto à sua conveniência e oportunidade, demonstrando que elas viriam ao encontro dos interesses do país, em geral, e da região, em particular.

Foi aí que deve ter entrado em ação a clarividência e o descortino de Eduardo Pinheiro Lobo, nos contatos com os órgãos governamentais, nas áreas administrativa e legislativa, e no esclarecimento da imprensa, dando realce a projetos que visavam acompanhar o ritmo de desenvolvimento que se vislumbrava.

Como resultado, foram dadas, sem grandes problemas, concessões para execução das obras hidroelétricas da Serra do Mar, num empreendimento arrojado para a época, que constituiu, sem dúvida, um dos fatores do progresso da região, sobretudo nos setor industrial.

Desejo, agora, narrar alguns aspectos dos contatos que tive com Eduardo Pinheiro Lobo, aqueles que ficaram gravados, até hoje, em minha memória e que revelam, de certa forma, sua personalidade.

Conheci-o quinze anos depois da criação do Departamento de Relações Públicas. Foi em março de 1929. Muito jovem ainda, estivera eu no setor do pessoal da Light, então chamado "Seção de Empregos", encaminhado por antigo funcionário, amigo de minha família, para candidatar-me a um emprego naquela empresa.

Após um rápido exame de habilitação, fui recomendado, por meio de um bilhete do Chefe do Pessoal, a Eduardo Pinheiro Lobo. Este – lembro-me ainda – recebeu-me cordialmente e foram estas, mais ou menos, as suas palavras, depois de ler o bilhete: "Moço, eu não tenho vaga, mas mesmo assim você pode começar amanhã. Seu ordenado será de 200 mil réis. Esteja aqui às 8 horas".

Naquele tempo, 200 mil réis era um grande ordenado para um jovem de 16 anos. Representava cinco vezes o salário de outros rapazes da mesma idade, na mesma empresa e no mesmo departamento, na função de mensageiro.

Duas recomendações foram a mim feitas, de início, por Eduardo Pinheiro Lobo, as quais tive sempre em mente e serviram como norma de comportamento no trabalho: "Temos aqui apenas horário de entrada. Para saídas é preciso antes terminar o serviço do dia. E o que se fica sabendo aqui dentro não é para contar lá fora".

Não quis ele, evidentemente, com esta última recomendação, dar a entender que, existissem segredos inconfessáveis, mas aconselhar, ao jovem que então penetrava no ambiente de trabalho, uma discrição que deveria ser o apanágio de quem, no trato diário com variada correspondência, tomaria conhecimento dos mais diversos assuntos.

A advertência sobre o horário teve o sentido de uma profunda lição de disciplina e o mérito de incutir na mente do novo funcionário o senso da responsabilidade pelo trabalho que lhe seria confiado.

Minha convivência com Eduardo Pinheiro Lobo durou apenas cerca de quatro anos, até o dia 23 de janeiro de 1933, quando a moléstia que o afligia, motivou o seu afastamento do trabalho, para um repouso e tratamento em Poços de Caldas, estância hidromineral do Estado de Minas Gerais. Mas seu mal era incurável, e ele retornou a São Paulo alguns dias antes de sua morte, ocorrida em 15 de fevereiro de 1933.

Esses quatro anos foram, no entanto, suficientes para que eu pudesse avaliar o quanto ele tinha de humano, de bom, de compreensivo, de justo, a par da energia e da severidade com que comandava sua equipe de trabalho.

O relato de um antigo funcionário, ainda hoje militando na empresa, revela um gesto de Eduardo Pinheiro Lobo que mostra sua boa alma e a disposição que tinha para ajudar quem a ele recorresse.

Esse funcionário estava em dificuldade financeira. Sua esposa havia dado à luz uma menina. Solicitou um adiantamento de salário, mas o regulamento da empresa, rígido, não permitia que se o concedesse a um empregado com apenas cerca de cinco meses de serviço.

Eduardo Pinheiro Lobo pediu a ele que aguardasse e, pouco depois, entregou ao funcionário 500 mil réis, dizendo: – "É um presente da Light para sua filhinha!" Teria sido da Light ou dele? Não sei.

Outro fato semelhante foi narrado por um ex-funcionário, que necessitou também de adiantamento de salário, mas não teve coragem de enfrentar a austeridade do chefe e formular o pedido verbalmente. Tentou por outro caminho, preenchendo um vale de caixa, que foi colocado no meio da correspondência destinada à sua mesa. Eduardo Pinheiro Lobo, ao encontrar o papel, chamou-o e perguntou: – "O que é isto?" Tímido, confessou o empregado seu acanhamento e expôs o motivo da necessidade, que era justo. Dr. Lobo aprovou o vale e disse: "Quando você tiver algum problema, não tenha receio. Venha falar comigo".

O que acabo de lhes narrar, além de fixar a imagem de uma personalidade inesquecível, cujos exemplos e cujos ensinamentos hoje nos servem de norma, lembra-nos quão oportuna é a afirmação contida num recente artigo de jornal, de que "não devemos esquecer a lição fundamental de que é no passado que o presente vai assentar as suas raízes e de que é sobre o edifício construído hoje que se poderão alicerçar as bases do que se almeja para o amanhã".

Sigamos, pois, na nossa atuação como profissionais de Relações Públicas, o caminho traçado por Eduardo Pinheiro Lobo, assim como seus magníficos exemplos, legados que dele recebemos e que devemos fortalecer e valorizar para que as gerações futuras possam também aproveitá-los.

Penedo pode, portanto, orgulhar-se de ter sido o berço desse brasileiro insigne, cuja vida é lembrada, cuja obra é enaltecida, numa feliz iniciativa da Associação Brasileira de Relações Públicas.

A Rua Eduardo Pinheiro Lobo, denominação que hoje se torna oficial, estará aí para demonstrar a gratidão da cidade ao seu filho ilustre – o "Pai das Relações Públicas no Brasil".

Originalmente publicado no periódico Relações Públicas em Revista, n. 55, p. 24-27, set. 1976.