COMUNICAÇÃO
É CULTURA. CULTURA É COMUNICAÇÃO.
Marlene Regina Marchiori
Professora
da Universidade Estadual de Londrina
As empresas brasileiras despertaram, nos últimos anos, para a modernização
de suas estruturas. Uma revolução não muito silenciosa vem ocorrendo e conceitos como
qualidade total, tecnologia, atendimento personalizado, flexibilidade, modernização e
humanização, estão na ordem do dia. Todos estes conceitos estão voltados para uma
finalidade, levar as empresas à eficácia com o aumento da produtividade, melhoria do
relacionamento interpessoal e incremento da competitividade no mercado.
Mas todos estes esforços de modernização acabam esbarrando em um problema
difícil de ser transposto como mudar a mentalidade dos funcionários, gerências e
administradores levando efetivamente as empresas ao sucesso.
A experiência em empresas tem demonstrado que o profissional de
comunicação não deve apenas produzir informação/comunicação via boletins,
malas-diretas, prospectos...; deve, sim, ir mais a fundo, modificando significativamente a
organização no sentido de realmente obter o comprometimento dos indivíduos, trabalhando
de forma estratégica.
Conhecer, sentir e acompanhar a dinâmica organizacional ambiente
interno e externo é uma necessidade que se impõe sob o aspecto da atualização
permanente. E, sobretudo, é uma questão de sobrevivência, posicionando a organização
no mercado. Afinal, as organizações necessitam do comprometimento dos indivíduos para
sua produtividade. Nessa mesma linha de raciocínio, profissionais da comunicação buscam
caminhos para esta concretização.
A organização está mudando. Está mudando em razão da necessidade de
poder ser mais competitiva, mais pró-ativa, tendendo a um maior nível de comunicação
informal do que formal, em função da necessidade das pessoas interagirem, sentirem-se
mais próximas uma das outras.
Mudanças contínuas e agilidade de adequação fazem parte dos cenários
hoje enfrentados pela organização. Fundamentalmente, em todo processo organizacional,
são as pessoas que pensam, imaginam, criam e detalham situações para melhor atingir
seus objetivos e, em conseqüência, os da própria organização. Desta forma, o
"tratamento" oferecido aos funcionários, assim como o estabelecimento das
relações com grupos pertencentes aos ambientes de tarefa e geral da organização, devem
ser compreendidos, demonstrando de que forma afetam o processo de formação do conceito
da empresa.
A natureza da resposta organizacional parece ter relação direta com o
nível de conscientização que a organização desenvolve. Neste processo, as temáticas
cultura organizacional e comunicação são fortes componentes para o
início do desenvolvimento empresarial.
Toda organização tem um conjunto de comportamentos, saberes e saber-fazer
característicos de um grupo humano entendidos por alguns autores, como cultura
organizacional; desta forma, os comportamentos pertinentes a uma determinada organização
são adquiridos por meio de um processo de aprendizagem e transmitidos ao conjunto de seus
membros. Isto necessariamente envolve comunicação. Por isso, a comunicação deve ser
básica entre os grupos para que se estabeleça e maximize a coordenação e cooperação.
Este conceito se faz presente na organização a partir do momento em que o participante
de cada grupo se convence de que juntos resolvem problemas e produzem resultados.
A comunicação se dará não mais por meio de algo que se diz, mas pela
qualidade das relações que serão estabelecidas, assim como pela credibilidade que cada
indivíduo manifestará para com a organização.
Para Marchiori, "a cultura se forma através dos grupos e da
personalidade da organização. Os grupos se relacionam, desenvolvendo formas de agir e
ser que vão sendo incorporadas por este grupo. A partir do momento que o grupo passa a
agir automaticamente a cultura está enraizada e incorporada", explica. A
comunicação é a fase fundamental neste processo, já que, segundo Marchiori,
"você só forma uma cultura a partir do momento em que as pessoas se relacionam e,
se elas se relacionam, elas estão se comunicando, a comunicação baseia-se na
compreensão", conclui.
A organização que deseja garantir sua efetividade deve ir além de um
sistema altamente tecnificado e produtivo, dirigindo seu esforço para o conhecimento das
pessoas, seus comportamentos, formas de agir e ser. Portanto, toda organização deve
desenvolver um espírito crítico e ações efetivas junto ao público interno, para que
este possa representá-la da melhor forma possível, uma vez que toda organização é
desenvolvida e estimulada pelos indivíduos. Neste sentido, a empresa é tratada como
arranjos que podem encorajar o desenvolvimento de culturas, somente por meio da
comunicação.
Fica claro, que uma cultura se modifica apenas se os indivíduos desejarem a
mudança.
O estudo da cultura organizacional surge como uma maneira de se conhecer, de
forma mais profunda e abrangente, a complexidade da organização, para daí
desenvolver-se planos, programas e projetos efetivos de comunicação, integrados ao
planejamento estratégico da comunicação organizacional.
É, a partir da análise da cultura organizacional que os profissionais de
comunicação buscam as ferramentas para "falar' no mesmo nível de expectativa do
público interno. Segundo Marchiori, "gerou atitude, você comunicou; não gerou
você simplesmente informou. A comunicação só se efetiva a partir do momento em que o
público interno entenda, deseje, aceite, participe e desempenhe um comportamento que gere
a mudança proposta pela organização. A comunicação, portanto, exige credibilidade e
comprometimento, tendo o poder de criar valores, impulsionando a organização para
frente".
Quando em uma organização as pessoas dispõem das mesmas informações e
compreendem que são parte integrante da vida organizacional, que possuem valores comuns e
que compartilham dos mesmos interesses, os resultados fluem. O reconhecimento de valores
compartilhados proporciona aos indivíduos uma linguagem comum com a qual todos podem
colaborar.
O sucesso de uma organização depende das habilidades de comunicação entre
todos os funcionários. A organização que "ouve" seus funcionários como um
caminho para mostrar suporte e aceitação, que entende e detecta as diferenças de
percepção entre os indivíduos, ocasiona um ambiente mais aberto e este ambiente faz com
que os funcionários tenham maior satisfação e produtividade na empresa.
A organização deve inovar, buscando alternativas que direcione suas
atitudes corretamente. Segundo Marchiori, "inovar não é somente a otimização dos
processos organizacionais. Uma organização inovadora é aquela que reflete um
comportamento organizacional que demonstre efetivamente a habilidade da empresa em querer
inovar".
Portanto, comunicação e cultura são fundamentais e devem ser vistas como o
"ajuste" para todo o sistema organizacional. Desta forma, a conquista da
credibilidade é o caminho para a comunicação eficaz, sendo preciso observar se os
funcionários estão apenas informados da mensagem ou realmente comprometidos com ela,
demonstrando esse compromisso por meio de comportamentos que contribuam efetivamente para
o resultado final, determinado pela organização.
A busca da participação consciente dos indivíduos, por meio de
grupos de trabalho cooperativos, no esforço para a realização de objetivos comuns,
humanos e organizacionais, deve ser a nova mentalidade dos profissionais que trabalham com
a comunicação estratégica, criando e modificando valores, identificando os padrões
culturais, refletindo a cultura organizacional e agindo sobre os sistemas de
comunicação. Com certeza, é este o novo caminho para o desenvolvimento da sustentação
da complexidade da organização.

Auditoria da Cultura Organizacional
|
Fatores a
serem levantados para o desvendar da
Cultura Organizacional
antecedentes
históricos
socialização de novos membros
políticas de recursos humanos
processo de comunicação
organização do processo de trabalho
aspectos gerais
relações grupais |

Originalmente publicado na revista Comunicação Empresarial,
São Paulo, n. 31, segundo trimestre 1999.