RELAÇÕES PÚBLICAS NOS
MOVIMENTOS POPULARES
Cicília M. Krohling
Peruzzo
Professora da
Universidade Federal do Espírito Santo
CONTRADIÇÕES E MUDANÇAS
Para falar de Relações
Públicas nos movimentos populares vou antes situar, mesmo que de modo
sucinto, o contexto onde serão compreendidas. Vou falar de Brasil de
setembro de 1988, antes da promulgação da nova Constituição.
Nossos pais têm grandes
potencialidades e riquezas. Nele temos manifestações de prosperidade, de
elevado desenvolvimento tecnológico e industrial, mas também de muito
atraso tecnológico e muita miséria no campo social. Enfim, os contrários
juntos: somos a 8ª, economia capitalista mundial e a 56a, em qualidade de
vida.
Da população
economicamente ativa enquanto os 1% mais ricos consomem 14,4% da renda
nacional, os 50% mais pobres consomem 13% da renda nacional.
O salário mínimo no Brasil hoje é de aproximadamente 59 dólares, o mais
baixo de sua historia e da América Latina. São cerca de 18 milhões de
trabalhadores que recebem um salário mínimo mensal, quantia declaradamente
insuficiente para suprir as necessidades essenciais à vida do trabalhador
e de sua família. Sem contar os desempregados e subempregados.
De fato a carência é
generalizada. Falta desde alimentação, moradia, até educação e acesso a
atividades culturais e de lazer. Os trabalhadores vêm sendo empobrecidos e
são as maiorias da população. Isso sem contradição com a menor parcela da
população que desfruta das benesses da riqueza e do acesso à escolaridade
de alto nível.
São antagonismos que
têm a ver com as relações sociais desiguais inerentes ao próprio modo de
produção capitalista e com a dinâmica internacional do capital que
controla a tecnologia, os recursos financeiros, setores da produção e do
comércio.
Como os interesses são
divergentes, as classes se organizam para preservar seus próprios
interesses. Nesse processo, a burguesia constitui sua estrutura de poder
alicerçada na propriedade privada, na cultura burguesa e na estrutura de
poder político. Mas, não tem dado conta de corresponder aos interesses de
todas as classes. No conflito tem prevalecido o interesse de facções das
classes dominante. A burguesia vem tomando medidas mais para se proteger e
não para resolver os problemas na sociedade. Em 1964 dá o golpe, depois
reprime, mata, exila, muda o texto da lei, censura, informatiza a
produção, permite uma “democracia restrita”, a concentração da terra e da
renda, adia eleições diretas para presidente, não moraliza a aplicação dos
recursos públicos, não faz a reforma agrária etc. Não ataca os problemas
estruturais, adia-os. Distribui leite ensacado sem possibilitar a criação
da vaca leiteira.
Em meio a tudo isso e a
outras nuances das condições concretas de existência de grande parte da
população brasileira o desencanto foi crescendo e a reação popular
florescendo.
Para a defesa de seus
interesses, setores das classes subalternas, que por muitos anos foram
impedidos de exercer os direitos de cidadania, passam a se organizar,
denunciar, resistir e reivindicar. Vão se constituindo no Brasil inteiro,
nas décadas de setenta e oitenta, milhares de novos movimentos e
organizações populares. São movimentos por saúde, por transporte coletivo,
associação de moradores, pastorais sociais, federações de associações de
moradores, centros de educação popular, oposições sindicais e muitos
outros. E não surgem tão somente devido à deterioração das condições de
vida.
Surgem tanto pelas
condições objetivas de espoliação das classes subalternas quanto pelo
crescimento da compreensão popular das condições imediatas de existência,
compreensões da necessidade de articulação coletivas para se ter força nas
reivindicações, pelo momento político mais amplo de abertura e pelo
respaldo encontrado na sociedade civil por parte de instituições
desfrutadoras de credibilidade social.
Os novos movimentos
populares surgidos na história recente do Brasil são criação da sociedade
civil. São embriões de contracriação popular:
-
forjam a cidadania,
ou seja, vem alterando o cotidiano uma vez começando a participar
politicamente, e ainda alteram a própria forma de participação mediante
a gestão popular dos núcleos administrativos e das assembléias como
fórum de decisões;
-
criam novos valores
como a noção de democracia de igualdade e de direitos coletivos;
-
vêm constituindo
novas estruturas sociais, ou seja, núcleos de socialização (exemplo:
clube de mães), núcleos culturais (exemplo: grupo de cultura negra),
núcleos econômicos (exemplo: cooperativas de produtores), núcleos
administrativos (exemplo: associação de moradores) e núcleos políticos
(exemplo: conselho popular).
Tudo isso indica um
movimento profundo de mudança por dentro da sociedade. Põe em cheque a
estrutura da sociedade e a situação conjuntural. É claro que essas
manifestações das classes trabalhadoras não são monolíticas no conjunto da
sociedade, mas se dão na relação de luta de classe. Como tais se
contrapõem aos mecanismos da estrutura de poder controlada pela burguesia.
RELAÇÕES PÚBLICAS
POPULARES
É no movimento de
contra-criação popular, nessa sociedade em mudança, que Relações Públicas
Populares e as demais especialidades da comunicação social podem servir
aos interesses das classes trabalhadoras.
Nessa perspectiva as
Relações Públicas são novas, na contramão. Não basta transpor para o
popular as relações publicas que sobejamente a burguesia desenvolveu. Há
que alterá-las, modificá-las e recriá-las.
No campo popular, para
poderem ser instrumento de libertação serão alicerçadas por novos
fundamentos. A concepção de mundo que as orientam reconhece a sociedade
como contraditória e a necessidade de transformá-la construindo outra
nova, igualitária. Seu objetivo geral passa a ser contribuir para a
conquista das reivindicações concretas das classes trabalhadoras e para a
constituição de nova hegemonia na sociedade.
Muda também a
metodologia, inserida na concepção libertadora de educação, vai favorecer
a conscientização, a ação coletiva a organização, a autonomia e um
conteúdo político novo. Isso implica não se cair no paternalismo, praticar
a democracia, respeitar a dinâmica interna dos movimentos e organizações
populares com seus limites, suas necessidades e interesses. Implica
democratização do saber técnico e favorecer a ação partilhada e não
individualizada. Implica estar também o técnico aberto a aprender.
INTERDISCIPLINARIDADE
As Relações Públicas
Populares se realizam no processo de ação concreta dos movimentos
populares e imbricadas com outras áreas da comunicação e do conhecimento.
No campo popular é muito difícil isolar as atividades de comunicação em
relações púbicas, em jornalismo etc. Aqui se fala e se pratica
comunicação. É muito difícil também separar comunicação de serviço social,
de sociologia, de política etc. essas coisas se constituem reciprocamente.
Não se sobrepõem umas às outras, mas se complementam, embora conservem
suas especificidades. Nos movimentos populares há espaço para todas as
áreas do conhecimento que tem o seu que fazer numa ação conjugada.
De fato o real não se
constitui fragmentariamente. É uma totalidade. Mesmo as partes são
totalidades. Por vezes, nós é que somos educados a ver o real de forma
fragmentária.
ATIVIDADES POSSÍVEIS
As Relações Públicas na
contramão têm várias possibilidades de contribuir no processo de
consciência, organização, ação e articulação das classes subalternas, seja
em oposições sindicais, sindicatos de trabalhadores, centrais sindicais,
associações de moradores, associações de favelados, clubes de mães,
comissões de direitos à moradia, pastoral operária, pastoral da terra,
centros de defesa de direitos humanos, institutos de assessoria e educação
popular, movimento negro, movimento feminista, movimento dos sem-terra,
movimento ecológico, partidos políticos de esquerda etc.
Nesse contexto suas técnicas podem
favorecer:
-
o levantamento do
conjunto da situação enquanto subsídios para a ação de comunicação a ser
implementada;
-
a obtenção de
informações para os movimentos populares e sua efetiva democratização
dentro dos mesmos;
-
o incremento da
comunicação e articulação no próprio movimento e dele para com os outros
movimentos correlatos;
-
o estabelecimento e
cultivo de relacionamento adequado com os organismos da sociedade civil:
meios de comunicação de massa, igrejas, entidades de assessoria,
associações etc., bem como com especialistas como engenheiros,
jornalistas e pedagogos;
-
o estabelecimento e
cultivo de relacionamento adequado com os partidos políticos, assembléia
legislativa, câmara de vereadores, órgãos do poder executivo e do poder
judiciário;
-
o planejamento do
processo de comunicação;
-
a produção de faixas,
cartazes, jornais murais, boletins, programas radiofônicos, releases,
correspondência, seqüência de slides, vídeo etc.;
-
a organização de
eventos culturais, educativos e de lazer, como exposições artísticas,
peças teatrais, cursos, seminários, torneios, festas, gincanas;
-
a preparação e
aplicação de pesquisas de opinião;
-
a escolha de meios
adequados para encaminhamento das reivindicações aos órgãos competentes;
-
a preparação de
programas que favorecem a mobilização popular;
-
a preparação de
reuniões entrevistas coletivas;
-
a documentação das
experiências para registro histórico da história das classes
subalternas.
Essas são algumas das
possibilidades do emprego de técnicas de Relações Públicas no campo
popular. É claro que sempre de acordo com os objetivos, necessidades e
interesses de cada organização ou movimento popular e num trabalho
conjugado com as demais especialidades do saber.
As técnicas de
comunicação nem sempre têm sido suficientes e adequadamente aplicadas
pelas organizações das classes subalternas.
Além de, por vezes, se
explorar pouco a comunicação, ela tem sido feita de forma demasiadamente
amodorística. Em geral as ações de comunicação são tópicas e sem
preocupação com a continuidade ou cultivo de processos comunicativos, seja
ao nível da mobilização ou do relacionamento na sociedade. No entanto,
parece que já existe um despertar para a necessidade da competência e não
somente boa vontade e muita garra.
Os objetivos globais
das Relações Públicas ao participarem das batalhas dos setores organizados
das classes subalternas estão no patamar dos próprios objetivos dessas
classes, quais sejam:
-
a satisfação das
necessidades imediatas ao nível do acesso à riqueza da sociedade, seja a
melhoria nas condições de moradia, a instalação do posto médico, a
melhoria salarial etc.;
-
a conquista da
cidadania: participação política efetiva e na riqueza da sociedade;
-
a constituição de
identidade cultural ou hegemonia no conjunto da sociedade.
Tais objetivos confluem
ao nível das especificidades. Por exemplo, nos sindicatos de
trabalhadores, perpassando as atividades cotidianas, podem ser desde a
melhoria das relações com os públicos externos, como a imprensa, a
produção de vídeos, preparação de eventos, publicações, campanhas e a
promoção de relacionamento maior dos trabalhadores com o seu sindicato.
CONQUISTA DE ALIADOS
Uma das contribuições
das Relações Públicas Populares que vou destacar é sua potencialidade em
auxiliar na conquista de aliados.
Por serem parte do
processo de contra-criação das classes subalternas, os movimentos
populares não participam com poder decisório e nem tem domínio dos grandes
meios disponíveis capazes de promover a educação pública, de legislar, de
administrar, de influenciar a opinião pública etc.
Sendo assim, necessitam
ir conquistando apoio e espaços para poderem constituir seu poder ou
hegemonia na sociedade. Esse apoio pode significar acesso a informações,
não-pancadaria no ato público, melhoria no atendimento do posto médico,
prestação de serviço como assessoria técnica especializada, cobertura
jornalística séria, esclarecimentos levados até as cúpulas decisórias, e
com isso a facilitação de audiências públicas e negociações etc.
Conforme as situações
específicas, os aliados podem ser movimentos populares correlatos,
organizações da sociedade civil ou pessoas individualmente, como
profissionais especializados em direito, medicina, jornalismo, ciência
política.
CAMPOS DE AÇÃO
Relações Públicas na
perspectiva popular são possíveis em três campos.
O primeiro campo de
atuação é o trabalho engajado em movimentos e organizações populares
enquanto membro e/ou assessoria que coloca seus conhecimentos a serviço,
sem vínculo empregatício.
O segundo é o trabalho
profissional em organizações de sociedade civil pautadas com os interesses
dos trabalhadores: sindicatos, centros de defesa de direitos humanos,
instituto de assessoria e educação popular etc.
E o terceiro campo de
atuação é no trabalho profissional cotidiano, seja em empresa privada,
órgãos públicos ou qualquer outra instituição da sociedade civil e
política, ocupando espaços abertos pelas contradições, contribuindo com
ações concretas que auxiliem a luta das classes subalternas. Isso requer o
conhecimento dos limites e exige maturidade e clareza política.
Aí é possível facilitar
o acesso a informações, favorecer a participação, não praticar o
paternalismo, incentivar a organização, incrementar programas educativos
(exemplos: em relação ao meio ambiente, ao trânsito, à saúde, aos direitos
do consumidor, aos direitos do contribuinte), melhorar o atendimento ao
público, interferir para que reivindicações sejam atendidas, fazer ver aos
patrões que os grevistas são trabalhadores em busca de melhores condições
de vida, e várias outras possibilidades que se colocam conforme as
especificidades de cada instituição.
Relações Públicas
Populares dizem respeito à questão da apropriação pela classe trabalhadora
de instrumentos que possam auxiliá-la no processo de conquista de sua
cidadania em plenitude. É questão de compromisso político, de relação
orgânica com a classe trabalhadora. É questão de compromisso filosófico
com a capacidade e crescimento integral do homem e da espécie humana.

NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SUPLICY, E. M. Brasil
campeão de desigualdade. Folha de S. Paulo, 1 jul. 1987, p. A 22.

Originalmente publicado na Revista Brasileira de Comunicação,
São Paulo, n. 60, p. 107-112, 1989.