AS
RELAÇÕES PÚBLICAS FRENTE AO DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO
Regina Escudero
César
Professora
da Universidade Estadual de Londrina
A teoria das Relações Públicas é fortemente influenciada por conceitos
metodológicos positivistas e funcionais. Desde suas primeiras elaborações, busca-se
legitimar e preservar o sistema vigente, seja estando ao lado de fortes estruturas
empresariais isoladamente, seja dentro do contexto macro-social.
Hoje a "preocupação social" anunciada por todo lado do país,
força o profissional de Relações Públicas a adotar posturas diferentes daquelas
praticadas por Ivy Lee, que é considerado o primeiro profissional de relacionamento com
os públicos pela literatura da área, e que no trato com a opinião pública foi
irresponsável e desumano.
É conhecido por todos estudiosos o "final feliz" dado por Lee a um
triste capítulo da história desta profissão. Desviou-se a atenção da Opinião
Pública com doações de Rockfeller a casas assistenciais e outros fins também
filantrópicos, ficando as marcas da violência contra os funcionários e o impasse criado
pela greve sem nenhuma solução. As demissões foram em massa, sem que tal agravante
social fosse sequer questionado pela Opinião Pública, uma vez que esta se encontrava
criticamente adormecida pelas mensagens e atos "generosos" de Rockefeller.
Hoje esta opção ideológica das Relações Públicas pelo capital tenta ser
escamoteada em seus princípios teóricos. Historicamente, a sua teoria teve como base de
sustentação o funcionalismo, estreitamente vinculado com o desenvolvimento capitalista.
Entretanto, devido às recentes exigências de posturas sociais mais engajadas do
profissional, este posicionamento tem se tornado menos explícito, formulando-se
"discursos" voltados à qualidade de vida do homem em sua comunidade.
Entretanto, tal postura é marcada por uma fragilidade profunda em seus
métodos e metodologia. Na análise que fizemos sobre este conteúdo, pode ser constatado
que apesar dos "discursos" sobre o problema social, não se analisa e nem são
feitas reflexões sobre as formas de intervenção que efetivamente o profissional pode
adotar na sociedade para colaborar na sua transformação.
A força das Relações Públicas é ainda pautada na criação de imagens
por intermédio da promoção de eventos e apoios institucionais a determinadas campanhas,
até mesmo sociais. O que se questiona nestes apoios é sua capacidade de reverter o
quadro social e criar, verdadeiramente, públicos capazes de corresponder às belas
"definições" de Relações Públicas:
"A presença da controvérsia, a oportunidade de discussão e o
aparecimento de uma decisão ou opinião coletiva marcam as características do
agrupamento coletivo chamado púbico [...], público são pessoas ou grupos organizados de
pessoas, sem dependência de contatos físicos, encarando uma controvérsia, com idéias
divididas quanto à solução ou medidas a serem tomadas frente a ela; com oportunidade
para discuti-la, acompanhando e participando do debate por intermédio dos veículos de
comunicação ou da interação pessoal" (Andrade, 1983, p.17-18).
Por esta razão, acredito ser essencial à participação do profissional na
sociedade, que haja uma renovação em seu conteúdo teórico, assumindo um novo paradigma
metodológico e ideológico, capaz de colaborar com o desenvolvimento comunitário.
É nítida a existência de compromissos fortes com a preservação da
situação social existente. Entretanto, há uma prática que, aqui e acolá, vem
subvertendo esta visão fragmentada da sociedade. É justamente aí que se encontra uma
demonstração clara de que a prática social, marcada pelo dinamismo, acabou por superar
a teoria, estagnada no tempo e por isto incapaz de criar um novo espaço social. Trata-se
de caso raro dentro da relação teoria e prática, pela qual, em geral, a primeira é
vanguarda em relação à segunda.
"Até mais ou menos dez anos Relações Públicas eram concebidas
teoricamente e praticadas majoritariamente como um instrumental a serviço do capital, dos
governos e da hegemonia das classes dominantes. Mas, a sociedade é dinâmica e,
acompanhando as mudanças que vêm ocorrendo no interior da sociedade brasileira, às
Relações Públicas também chegou a vez de deixarem se mudar. Hoje, teoricamente,
teórica e praticamente, é possível falar de Relações Públicas populares, ou
comunitárias, orgânicas às classes subalternas. Ou seja, de um trabalho de Relações
Públicas comprometido com os interesses dos segmentos sociais subalternos organizados, ou
num sentido mais amplo com o interesse público" (PERUZZO, 1993, p. 125).
Porém, o alicerce teórico desta prática ainda está por ser criado e que
aí reside importante espaço ao intelectual realmente comprometido com a qualidade de
vida da sua comunidade.
CONFLITO X CONTROVÉRSIA
A sociedade é tratada de maneira inabalável e administrável pela teoria
das Relações Públicas. Andrade, que é um dos autores com maior influência sobre a
formação dos profissionais brasileiros, a situa como responsável pela criação do
agrupamento coletivo público em meio a uma situação controvertida. Há, de sua parte,
uma homogeneização das atitudes das pessoas frente a uma situação de conflito, como se
os atos diante de tal situação pudessem ser previsíveis. A sociedade, assim, é
entendida como se fosse uma engrenagem facilmente controlada por intermédio das ações
em prol da "compreensão mútua".
O fator controverso é visto dentro desta teoria como válvula impulsionadora
para a criação de um novo ambiente social, fruto de sua "mágica" atuação na
"administração da controvérsia".
O conflito social existente na sociedade aparece como pano de fundo, sendo
esta questão pouco ou nada problematizada. Quando o fazem, seguem uma abordagem puramente
funcionalista, cuja ideologia serve de apoio e sustento à manutenção do status quo.
Em síntese, a sociedade é vista de forma fragmentada e funcional, onde os seus elementos
existem para manter o todo social coeso e harmônico.
Ao contrário, a teoria dialética que fundamenta a nova proposta de
Relações Públicas Comunitárias, parte da análise do conflito para buscar em suas
raízes sociais, culturais e econômicas as razões e formas de superá-lo, mediante um
processo constante de criação de novas possibilidades de relacionamento social.
A dialética vê na relação de conflito o ponto de partida para a
renovação social, uma vez que do confronto entre as partes contrárias, faz emergir uma
nova realidade, e que será novamente superada, num vaivém constante, tal como é a
dinâmica social.
A relação de conflito entre as classes dominante e dominada presente em
nosso dia-a-dia é pouco ou nada questionada pela teoria clássica das Relações
Públicas, que a situa à margem da controvérsia. A maioria das produções científicas
existentes constitui-se em relatos de casos práticos, o que dificulta sua extrapolação
a outras realidades. São fórmulas prontas que só cabem dentro de padrões determinados.
Não há no relato destes casos uma "problematização" prévia da realidade,
somente a demonstração das técnicas utilizadas para a criação do case.
Se houvesse uma abordagem teórica que fundamentasse a exposição do caso,
seria possível uma leitura mais crítica por parte do profissional, pois a teoria
transcende a prática e possibilita sua transformação, sendo a prática a adaptação da
teoria a situações específicas. Por último, caberá ao intelectual optar pela forma de
intervir no contexto, seja para legitimá-lo ou para transformá-lo.
PAPEL DAS RELAÇÕES PÚBLICAS NO DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO
A comunicação comunitária é uma disciplina que vem sendo estudada e
explorada pelos pesquisadores da área no Brasil desde meados dos anos 80. É recente,
portanto, sua existência científica. Entretanto, já é madura como prática em favor da
cidadania da população oprimida e de seus movimentos sociais.
Nos anos 70, marcados pela grande repressão política, a comunicação
comunitária esteve presente articulando estes grupos e criando meios alternativos de
comunicação como os populares. Encabeçada por intelectuais orgânicos às classes com
menores condições de organização e comprometidos com as transformações sociais e
políticas, esta prática comunitária auxiliou os movimentos sociais, dando-lhes nova
forma e contorno na sua relação com a sociedade e na sua resistência às forças
opressoras.
No entanto, em meio a tanta censura e pelo profundo envolvimento com a
dinâmica destes movimentos, poucas foram as experiências registradas que poderiam nos
servir de memória e referência histórica. Para Regina Festa, estudiosa da comunicação
alternativa e popular, os anos 70 foram um processo de aprendizagem recíproco e
dialético entre os intelectuais orgânicos às classes dominadas e seus participantes,
apesar de todo o "verticalismo" que persistiu em muitas experiências. Segundo a
autora, foi uma época em que "muito se falou, mas pouco se ouviu".
Nos anos 80 e 90, então, é que são expressos os estudos existentes neste
sentido, dentre os quais a dissertação de mestrado defendida por nós no Instituto
Metodista de Ensino Superior, "Relações Públicas Comunitárias : uma exigência da
sociedade civil brasileira", sendo ela a base de sustentação deste estudo.
Nesta pesquisa propomos o engajamento do profissional de Relações Públicas
na dinâmica social e a reformulação do enfoque teórico que orienta sua atuação, a
fim de acompanhar as exigências e transformações ocorridas na sociedade civil
brasileira.
O que se deseja é um processo que determine a "conquista da
cidadania". A comunicação é um processo de troca entre emissores e receptores, a
fim de que as informações sejam repassadas de forma acessível às partes envolvidas no
processo. Sem comunicação social as informações não têm seu valor de troca e nem
beneficiam na melhoria da qualidade de vida do cidadão. Não têm, portanto, seu valor
social. Uma vez que a comunicação é troca, o saber não pode restringir-se a um só
pólo do processo, há que existir o intercâmbio de informações e o crescimento mútuo.
As Relações Públicas Comunitárias apontam para a necessidade de uma
revolução na práxis deste profissional, ou seja, algo que signifique o seu engajamento
na realidade, buscando a superação de seus conflitos através da comunicação.
A proposta é, essencialmente, alertar para que o profissional de Relações
Públicas deixe de lado sua opção academicista de formação de públicos e passe a
perceber criticamente as características socioculturais e econômicas que formam a base
das estruturas dos diferentes grupos.
Mais do que uma atividade desenvolvida em bairros periféricos, no sentido
popular do termo, as Relações Públicas Comunitárias representam uma proposta
metodológica pela qual o profissional passa a conceber a sociedade sob a ótica
dialética, procurando a sua transformação.
Longe de propor uma revolução ou "luta armada", as Relações
Públicas Comunitárias buscam o estabelecimento de canais mais verdadeiros de
integração, para que o público seja realmente cidadão da comunicação. É
fundamental, neste sentido, que o profissional de Relações Públicas perceba-se como
sujeito da história a serviço do coletivo, e não como agente de criação de projetos
para atender a fins individuais.
Neste sentido, as Relações Públicas Comunitárias buscam na sociologia
dialética as raízes de seu conhecimento e canaliza suas técnicas para criar espaços de
comunicação livres, democráticos e que atendam a necessidades coletivas.
Vale lembrar que durante o período pós 64, este desenvolvimento
comunitário ficou situado em ações assistencialistas de profissionais de diferentes
áreas, que tinham em comum a salvaguarda de suas atividades pela política governamental.
Os movimentos que buscavam legitimamente o fortalecimento da cidadania foram reprimidos
pelo regime vigente.
Neste período, o governo sente a necessidade de conquistar a
"simpatia" das classes subordinadas, acionando programas dito populares, mas
politicamente "inócuos". Sob esta perspectiva, são implementados
"programas comunitários", como o Banco Nacional de Habitação BNH; o
Projeto Rondon; o Movimento Brasileiro de Alfabetização MOBRAL; os Centros Rurais
Universitários de Treinamento de Ação Comunitária CRUTACs.
Eram programas que adotavam como estratégia o desenvolvimento de trabalhos
comunitários que faziam as populações "carentes" acreditarem que seus
problemas estavam sendo resolvidos. Era o que acontecia, por exemplo, com as casas
populares, que, de longe, não atendiam às necessidades e direitos de um cidadão. Por
meio desta prática do governo, foi possível a ele, além de situar as classes dominadas
como o público consumidor de sua política nacional, ganhar seu apoio logístico.
De forma geral, pode-se concluir que o desenvolvimento comunitário no Brasil
tem representado "um instrumento ideológico de caráter acrítico, porquanto não
questiona nem contesta as estruturas do poder, mas, contrariamente, opera como caudatário
dessas estruturas, ratificando-as, reproduzindo-as e fortalecendo-as no bojo de cada bloco
histórico vigente no Brasil" (AMMANN, 1985, p. 161).
Após estas constatações, Ammann questiona sobre qual será o "devir
do desenvolvimento comunitário no Brasil", sublinhando a necessidade de uma
"renovação de valores" entre intelectuais, pautada em novos métodos e
metodologias.
Haguette (1997) situa neste contexto histórico a pesquisa e o planejamento
participativo, sendo cooptados pelos governos autoritários da América Latina para o
desenvolvimento de suas propostas políticas e sociais. Enquanto de um lado
apresentavam-se as propostas de educação libertadora de Paulo Freire, de outro lado
via-se a captação destas idéias para fins nada libertadores.
"O estilo participativo de pesquisa e planejamento, entretanto, não
representava o monopólio desta corrente libertadora, já que era amplamente praticado na
América Latina por governos autoritários que, ao incorporar as populações no processo
de investigação, visaram também ao seu controle através de ações paliativas e
assistencialistas e, conseqüentemente, a manutenção e permanência do status quo,
ou seja, das estruturas básicas de dominação" (HAGUETTE, 1997, p. 110).
Sem esta total inversão na sua prática social, será impossível ao
intelectual acompanhar os novos rumos da sociedade que hoje abre brechas importantes e
possíveis de serem ocupadas pelos intelectuais preocupados com o estabelecimento de uma
sociedade mais humana e digna da existência do homem dentro dela, enquanto cidadão.
A abertura de brechas significa que é dada ao profissional a possibilidade
de no meio do caos se estabelecer o amor. Significa que se pode mergulhar profundamente na
sociedade, preservando a sua opção ideológica e seus objetivos profissionais, desde que
estes estejam verdadeiramente arraigados à formação ética do profissional. Com isto
afirmamos que as mudanças só são possíveis dentro do mundo, e não fora dele. Por este
motivo consideramos que a ocupação de brechas é um passo fundamental para a
transformação de uma sociedade como a que vivemos, marcada por contrastes e conflitos
entre os homens.
O conceito de comunidade, concebido pelos sociólogos funcionalistas,
mostra-a como uma realidade distante do todo social. Já sobre a dimensão dialética, a
comunidade é situada em meio ao caos social e é nele que se trabalha a fim de
superá-lo.
Para os funcionalistas, uma comunidade é marcada pela harmonia entre os
homens e pela busca do bem comum. Tal conceito, entretanto, esta longe da realidade. Pois,
como não existe comunidade que subsista econômica e socialmente sem um vínculo direto
com a sociedade na qual estão inseridas, somente atividades assistencialistas, que não
revelam a natureza do problema, são compatíveis com esta concepção. É por este prisma
que são justificadas as ações em prol da reprodução das relações de poder
existentes na sociedade.
Desta forma, as Relações Públicas Comunitárias defendidas por nós
significam uma mudança de paradigma pelo profissional, e não seu deslocamento para uma
realidade que se supõe "menos contaminada". Propõe o estabelecimento de
princípios que realmente criem canais efetivos de comunicação e valorização do homem
como cidadão.
NA BUSCA DE NOVOS PARADIGMAS PARA AS FUNÇÕES DE RELAÇÕES PÚBLICAS
Acreditamos que uma renovação metodológica das Relações Públicas, deva
ser iniciada pela revisão de seu quadro de "funções básicas", definidas pela
Comissión Interamericana para la Enzeñanza de las Relações Públicas CIPERP
no IV Congresso Mundial de Relações Públicas realizado em outubro de 1967, no
Rio de Janeiro: assessoria, pesquisa, planejamento, execução (comunicação) e
avaliação.
Estas funções foram concebidas e vêm até hoje sendo praticadas pela
maioria dos profissionais, seguindo a concepção funcionalista. A partir do momento em
que se propõe uma reflexão sobre esta sua base metodológica é conseqüência natural
que também sejam reinterpretadas suas funções.
Para iniciar esta reflexão, fazemos uma análise da função
"pesquisa", pois a partir dela e por meio dela pode-se criar um relacionamento
diferenciado e mais alinhado com a prática das Relações Públicas Comunitárias na
forma como propomos.
Quando a pesquisa segue um referencial autenticamente dialético, ela, por si
só, desencadeia um processo de conscientização sobre a problemática social da
comunidade, uma vez que envolve seus membros nesta discussão. A partir da
"problematização" da realidade, definem-se políticas de ação, num
verdadeiro processo de planejamento participativo, onde há a distribuição das
responsabilidades pela ação planejada entre seus participantes.
Neste sentido, o "planejamento" é um ato que se constrói a partir
da experiência de todos os envolvidos no seu processo, não pode ser formulado entre
quatro paredes, pois valoriza o conhecimento específico e a interpretação que cada um
dos participantes faz sobre a mesma realidade.
Tanto na sua fase de elaboração, quanto de execução, há a necessidade
constante de pesquisar e avaliar seu desenvolvimento adotando métodos de pesquisa
participante. Segundo Whitaker Ferreira, somente por meio desta participação é
possível formular um planejamento que acompanhe as mudanças sociais. A atividade do
"pensar" sobre o planejamento não se dá desvinculada de sua prática. Não
há, também aqui, um ser que planeja e um outro que executa: "Todos que estão
implicados na ação devem participar do planejamento, cada um com seus conhecimentos
específicos, tirados dos conhecimentos já disponíveis por aí, ou diretamente da
experiência prática" (FERREIRA, 1987, p. 26).
O mesmo ocorre com a função "execução" (comunicação), que
aparece como necessidade do grupo quando se conscientiza de sua problemática por
intermédio do processo pesquisa-ação. A comunicação é sentida pelo grupo como um
importante instrumento de sensibilização da opinião pública sobre a problemática da
comunidade, no processo de "conquista de aliados". Esta conquista ocorre às
vezes pela ótica da unidade de contrários ou então pelo envolvimento de pessoas
sensibilizadas com a causa comunitária.
Já a função "assessoria" é aqui revista pela própria ótica da
participação do profissional dentro do grupo, que deixa de ser seu cliente para se
tornar seu companheiro de grupo, tão responsável quanto o profissional pelo
desenvolvimento comunitário. Portanto, a revisão metodológica desta função é um dos
pressupostos fundamentais para a consecução da mudança que sustentamos até aqui.
Ela requer uma inversão do papel do intelectual no desenvolvimento
comunitário, que deve assumir-se como sendo realmente um agente externo da comunidade,
mas que esteja atuando dentro de uma ótica de participação que não exclua nenhum de
seus membros do processo decisório. Pelo contrário, que promova a abertura de canais
competentes de participação. Neste caso, as técnicas do profissional são
disponibilizadas para que o próprio grupo possa crescer no processo de desenvolvimento
comunitário.
"Trata-se de outra forma de intervir na realidade, ou seja, uma forma
que passa por dois momentos cruciais: pela autocrítica, que sabe corajosamente reconhecer
suas tendências impositivas, e pelo diálogo aberto com os interessados, já não são
mais vistos como objeto, clientela, alvo" (DEMO, 1988, p. 21).
E, por último, a função "avaliação" que, de novo é uma forma
de pesquisa, ou melhor, uma de suas fases, dentro do processo total do ato de pesquisar.
Em síntese, a pesquisa inicia-se com o levantamento de dados
("problematização" da realidade) e passa pela assessoria quando procura ouvir
a comunidade sobre sua problemática, possibilitando que seja desencadeado um processo de
conscientização da mesma. Assim, pode-se definir uma política de ação (planejamento)
em torno da realidade pesquisada.
Todo este processo se viabiliza somente pela comunicação, como um meio de
interação entre seus participantes e um objetivo descoberto por eles, na medida em que a
necessidade de sensibilização da opinião pública geralmente surge tanto para tornar o
movimento forte e legítimo, quanto para facilitar no processo de "conquista dos
aliados".
Ressaltamos, entretanto, que como em qualquer outro processo, o de pesquisa
não pode se conceber cronologicamente e nem de forma previsível, mas diante das
circunstâncias e informações advindas durante o seu desenvolvimento. A realidade só
pode ser concebida e tratada objetivamente pelas ciências naturais, empíricas. O objeto
das ciências sociais é o conflito, dentro de um contexto histórico determinado, e este
não é previsível e nem tampouco controlável .
PLANEJAMENTO EM RELAÇÕES PÚBLICAS COMUNITÁRIAS
Consideramos que no relacionamento comunitário tem de haver por parte dos
pólos interlocutores um interesse em superar o conflito. Caso contrário, não se
estabelecem compromissos e a atividade passa a ser puramente assistencialista.
Não importa ao trabalho o saber técnico do profissional, mas o momento em
que tal saber é compartilhado com o público, a fim de prepará-lo para a superação de
tal conflito, técnica e criticamente.
A atuação comunitária requer constante avaliação entre as partes
envolvidas. Assim, é interessante que a atividade seja sempre de equipe ou, caso isto
não se torne possível, que se discuta o desenrolar de seu desenvolvimento com outros
profissionais, para que não haja uma ação voltada a atender expectativas pessoais.
Basicamente o trabalho percorre as seguintes etapas:
É fundamental frisar que não se trata de um roteiro, mas de constatações
feitas a partir de nossa experiência em trabalhos comunitários. Nem sempre as atividades
se dão nesta ordem , pois não há uma relação linear nas Relações Públicas
Comunitárias.
O prioritário é o conhecimento da realidade e o respeito às suas
características. Valendo-se destes princípios, as ações são desencadeadas
naturalmente, num processo fecundo de comunicação horizontal.
Em nossa experiência comunitária, o início é sempre marcado pela
conquista da confiança do grupo. Efetivamente somos diferentes do grupo, pois acumulamos
o saber, uma história de vida que segue outros referenciais. Nem melhores e nem piores,
apenas diferentes. A consciência desta diferença é essencial nesta etapa. Temos que nos
assumir como diferentes, sem máscaras e sem preconceitos. Quando estas máscaras caem, o
saber é compartilhado.
Comunicação é esta troca entre pólos distintos na busca da comunhão dos
saberes. É o ato de compartilhar a informação a fim de transformar uma situação.
A convivência com o meio e seus integrantes é sempre fundamental para
adquirirmos um diagnóstico amplo da realidade. E neste momento que a
problematizamos, percebemos o movimento social, os grupos, subgrupos, lideranças, jogos
de interesses, diferenças políticas e os aspectos sociais, culturais e econômicos da
comunidade.
O grupo é aos poucos conhecido dentro de uma perspectiva horizontal
(contextualizando-o) e vertical (buscando as raízes dos problemas e sua história). Sob
esta visão dialética, conseguimos perceber o movimento social, em sua relação de causa
e efeito.
Assim, quando falamos na "caracterização dos públicos
envolvidos", não queremos apenas defini-los em segmentos de públicos externo,
interno e misto, pois entendemos a comunidade como um público que deve ser visto na sua
inter-relação, em seu contexto mais amplo.
As características fundamentais do público, que são o acesso à
informação e a discussão racional das controvérsias, devem ser rediscutidas no âmbito
das Relações Públicas Comunitárias.
É certo que o acesso à informação está hoje muito mais facilitado. Já
não podemos cair na separação simplista entre massa e público.
Nas comunidades periféricas em que atuamos, os grupos tinham em comum a
busca pela informação necessária à solução de seus problemas e conflitos.
Entretanto, esbarravam num ponto importante que se interpõe em qualquer situação do
direito social à informação: o fator econômico e suas implicações.
O que se vê não é a diferença entre massa e público, mas entre os que
têm mais e os que têm menos. Aos que têm menos, resta somente o direito de
"conquistar" a sua informação. E aos que têm mais, é necessário fazer
campanhas de mobilização ou então de sensibilização às causas coletivas.
O sentimento coletivo é cada vez mais escasso dentro de suas mentes. O
"indivíduo", este sim, é bem informado.
Um exemplo interessante, e que mostra a informação como uma conquista do
grupo aconteceu em uma comunidade periférica da Região Sul de Londrina, Estado do
Paraná, Bairro União da Vitória, onde trabalhamos durante algum tempo.
Trata-se de uma comunidade bastante marginalizada pelos moradores desta
cidade em virtude de seu nascimento e formação. Originária de um assentamento de
sem-terra, aos poucos essa comunidade foi se transformando num bairro, ou melhor, num
aglomerado de casas que, até há pouco tempo, não possuía nem nome de rua e nem
números nas casas. Por este aspecto, foi sendo desenvolvido um estigma entre a
população de Londrina que, aos poucos, desencadeou uma série de fatos sociais que
colocaram o "União da Vitória" na marginalidade econômica, cultural e social.
Os seus moradores não conseguiam encontrar emprego na cidade e, aos poucos,
o tráfico de drogas passou a ser uma opção de fonte de renda de boa parcela dos
habitantes. Este rótulo, de traficante, foi estendido para todos os moradores do bairro,
que foram totalmente excluídos dos direito comuns de relacionamento social. A
informação passada sobre eles pelos meios de comunicação da cidade estava sempre
comprometida com este estigma social. Procurar um emprego e falar que morava na rua sem
nome do "União da Vitória" era então verdadeiro ato de heroísmo.
Em razão destes fatores, e até como meio de sobrevivência, a comunidade
decidiu se articular num grupo e criar seu próprio veículo de comunicação, o Boca
no Mundo. Nele era mostrada à cidade de Londrina a realidade dos fatos que estavam
por de trás deste rótulo.
O jornal, com uma tiragem de 2.100 exemplares, era elaborado e distribuído
pelos próprios moradores às famílias do bairro, atingindo cerca de 12.000 moradores e
ainda enviado pelos Correios às lideranças da cidade. Nossa participação se dava na
coordenação e treinamento da equipe de comunicação criada por eles, por meio de um
projeto de extensão universitária da Universidade Estadual de Londrina. Devido a esse
vínculo institucional, recebemos uma ajuda financeira e operacional que arcou com os
custos do jornal.
Foi um veículo de curta duração, mas foi expressivo na história daquele
bairro, pois desencadeou a resolução de um processo que vinha sendo há muito tempo
"empurrado" pelo poder público da cidade. A linha de transporte coletivo que
servia a região não circulava no interior do bairro, sendo que a concessionária do
serviço que detinha o monopólio no setor não apresentava razões plausíveis para
tanto. Os usuários tinham que se locomover até uma rodovia de tráfego intenso e
perigoso para poderem utilizar a linha de ônibus que ligava a região ao centro da
cidade.
Por muito tempo, a população tentou articular vias de reivindicação tanto
junto à empresa como à prefeitura. As tentativas sempre resultaram frustradas até que,
com matérias de ampla repercussão no Boca no Mundo em edições extras também
destinadas à população da cidade, abriu-se um canal de negociação entre as partes e,
finalmente, definiu-se pela criação de uma linha especial de transporte coletivo que
servisse o bairro de uma forma completa, ou seja, com a circulação dos veículos no seu
interior.
Por este exemplo podemos perceber a motivação para um trabalho coletivo e
que envolve de fato a formação de públicos em Relações Públicas quando os grupos em
questão são os excluídos do direito dito social à informação dentro de sociedades
"democráticas" como a brasileira.
No próximo tópico, vamos analisar a possibilidade das Relações Públicas
Comunitárias num contexto onde historicamente as Relações Públicas nasceram para
"atenuar" as desigualdades e colocar "panos quentes" nos conflitos
sociais.
AS RELAÇÕES PÚBLICAS COMUNITÁRIAS NO CONTEXTO EMPRESARIAL
Quando a empresa resolve interagir com seu meio social, adotando uma
política de portas "realmente" abertas, o profissional tem que tirar de sua
bagagem de conhecimento os vícios de um trabalho que não pode se "contaminar"
com o modo de ver o mundo de seu público-alvo.
Um aspecto que deve ser flexibilizado, conforme a característica e
evolução dos trabalhos, é o cronograma para o desenvolvimento de atividades que
envolvam as comunidades. O trabalho comunitário é lento e muitas vezes desanimador se
tomarmos por base o imediatismo exigido pelo contexto empresarial.
Por isto, trabalhar com as Relações Públicas em um complexo empresarial
tem sido tarefa cada vez mais difícil quando buscamos dar a esta atividade a sua
motivação principal: o público como coletivo, e não como peça de apoio a campanhas de
marketing na conquista de clientes-alvo. As Relações Públicas têm que ser colocadas a
serviço da criação de um ambiente coletivo de públicos em torno da empresa. Somente
assim será possível a aproximação entre empresa e cliente que tanto se procura. O
indivíduo não quer ser tratado como objeto de marketing, mas como sujeito de sua
realidade.
Nesta perspectiva, é importante resgatar os princípios humanos e éticos de
nossa profissão. Ou seja, é fundamental colocar em nossa atividade a idéia da
comunicação como ato de "compartilhar".
Ou seja, a ansiedade natural que temos de "realizar" e
"produzir" projetos que tenham repercussão para a imagem da empresa, tem que
ser substituída pela visão de programas de média e longa duração. O compromisso
social requer do profissional uma nova postura, pela qual não prevaleçam os objetivos do
marketing social, mas das Relações Públicas.
Por vezes, faz-se necessário ir ao caos social para poder se envolver com a
real dimensão da problemática de seu público-alvo, para então poder assumir
compromissos com a criação de um ambiente mais digno de vida social.
Como exemplo de um trabalho institucional nesta dimensão, citamos o que foi
desenvolvido pela Xerox do Brasil com o Projeto Fábrica da Esperança e também com o
Projeto Olímpico, desenvolvido na USP, em São Paulo e no morro da Mangueira, no Rio de
Janeiro, voltados à formação profissional e esportiva de crianças que vivem à margem
da sociedade, desprovidas das condições mínimas de crescimento intelectual, econômico
e social.
O Projeto Olímpico Mangueira-Xerox, criado em 1987, e USP-Xerox, criado em
1992, levam às crianças e adolescentes, pela prática de esportes, oportunidades de vida
antes totalmente fora de seu alcance.
O Projeto Fábrica de Esperança é desenvolvido em Acari, uma das mais
miseráveis comunidades do Rio de Janeiro. É nesse ambiente de caos social que o projeto
é desenvolvido pela Gerência de Assuntos Corporativos e Relações com a Comunidade.
Montado pela Xerox em uma fábrica desativada, esse complexo, aos poucos, torna-se um
grande centro social, abrangendo escolinhas de esporte, creche, serviços de atendimento
médico e odontológico, salas de aulas, oficinas, teatro e centro de convenções. Já a
partir de 1994, a Xerox estabeleceu ali dois projetos, batizados Fábrica 1 e Fábrica 2.
Com programas voltados às faixas etárias distintas, oferecem oportunidade de
profissionalização e direcionamento para o mercado de trabalho.
Em todos os projetos há uma estreita parceria entre empresa e comunidade,
dividindo responsabilidades no seu gerenciamento e busca de auto-sustentação.
Seguindo este mesmo objetivo de aliar ao conceito da empresa um real
compromisso com o desenvolvimento comunitário, citamos ainda o Projeto Futuro
desenvolvido pela Fundação Rezende Barbosa, da Usina Macaraí e Grupo Nova América,
localizados na cidade de Tarumã, no Estado de São Paulo.
O projeto nasceu como fruto de uma política estratégica de Recursos Humanos
e Comunicação Empresarial, procurando desvincular do conceito da usina o estigma
decorrente das ações dos usineiros do nordeste do país, muitas vezes objeto de
especulação e questionamento da comunidade por falta de um maior envolvimento da empresa
com ações de fato comunitárias, e não as de cunho assistencialistas com doações a
creches e orfanatos que não exigem maiores compromissos por parte das empresas.
As atividades desenvolvidas pelo Projeto Futuro deram à Usina Macaraí e ao
Grupo Nova América o título de "Empresa Amiga da Criança", concedido pela
Fundação Abrinq Pelos Direitos da Criança.
O projeto visa desenvolver crianças e jovens na faixa etária entre 7 e 18
anos. Iniciado na Usina Macaraí em 1987, o Projeto Futuro atinge, hoje, as demais
unidades do Grupo Nova América. Integra atividades sociais, culturais, recreativas e de
formação profissional, aproximando e integrando os participantes do ambiente das
empresas que pertencem às comunidades de Frutal do Campo, Tarumã, Assis e Macaraí,
comportando, exclusivamente, crianças e jovens regularmente matriculados na rede oficial
de ensino.
Além das atividades específicas de cada subprojeto Horta, Banda,
Teatro, Coral e Menor Aprendiz o Projeto Futuro oferece uniforme, lanche, material
escolar, assistência médica, assistência psicológica, medicamentos, orientação
vocacional, palestras temáticas e oportunidades de emprego por meio de seleções
internas nas empresas do Grupo Nova América.
A tônica dessas atividades é também buscar caminhos e alternativas de
convivência social por meio da abertura de canais de comunicação e de outras
estratégias de Relações Públicas que ampliem os espaços de participação
comunitária interna e externamente.
Diferente de uma atividade empresarial de Relações Públicas, neste caso a
ação profissional é definida pela base que sustenta seus trabalhos: os públicos. A
prioridade é estabelecida no relacionamento empresa/públicos. O objetivo primeiro é
atender ás necessidades emergentes deste processo, de maneira interativa, buscando a
transformação e, quem sabe, a superação da realidade. A empresa que adota como
política tal interação social acaba por ganhar um novo paradigma sociocultural que
define suas ações.
Imagino que alguns leitores estejam se perguntando: por que a empresa faria
isto? A resposta é: por uma questão de sobrevivência. Como diz Pedro Demo (1998), não
se trata de boa ação ou assistencialismo, mas de uma postura comprometida com o real
crescimento da sociedade, porque dele depende a empresa.
Apesar de não existir uma fórmula para o desenvolvimento desta prática
profissional, já listamos alguns passos que consideramos básicos.
Iniciamos pelo "reconhecimento do conflito" e sua
"problematização" pela função pesquisa, pela qual se faz a
"caracterização dos públicos envolvidos" (análise dialética, feita na
perspectiva vertical e horizontal) e, por último, comentamos sobre o "levantamento
das prioridades dos públicos", com o qual a empresa se adapta e negocia os
diferentes interesses.
Já a etapa da "conquista dos aliados" e "consulta a
especialistas", consideramos ser uma constante na atividade do profissional que busca
o desenvolvimento comunitário. Fazemos isto quando convencemos a diretoria sobre a
importância deste trabalho, quando ganhamos a confiança da comunidade, quando procuramos
a participação/envolvimento de outras entidades e pessoas dentro da atividade, enfim,
quando ampliamos nosso campo de ação e tornamos a atividade de Relações Públicas um
efetivo trabalho de relacionamento público.
Por último, as "estratégias de ação" e sua constante
"avaliação". As funções assessoria, comunicação, planejamento e pesquisa
estão presentes neste momento, conhecendo as necessidades de nosso cliente, agora
formando uma parceria entre empresa e comunidade, elaborando e planejando as ações e
programas comunitários, sendo permanente a avaliação deste processo.
Consideramos que o alicerce do trabalho comunitário é a participação
comprometida do profissional com seus públicos, seja em uma comunidade ou empresa. Não
se trata, então, de novas técnicas, mas de uma mudança de postura profissional. É
contemplar a realidade numa nova ótica, na qual o ser social é, antes de tudo, ser
humano e busca sua dignidade.
Enfim, o "passo a passo", a "receita" tão desejada por
todos nós não é possível de ser dada para a atuação do profissional na perspectiva
das Relações Públicas Comunitárias, até porque não se trata de uma habilitação ou
especialidade das Relações Públicas, mas de uma mudança de postura metodológica, de
referencial para conhecer e atuar na sociedade. Vai além de um marketing institucional,
porque não quer somente os benefícios da imagem da empresa, mas quer abrir verdadeiros
canais de comunicação entre a organização e seus públicos, sem restrições:
acionistas, consumidores, imprensa, fornecedores, e, porque não, comunidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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desenvolvimento de comunidade no Brasil. 5. ed. São Paulo: Cortez, 1985.
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Dissertação (Mestrado em Comunicação) Instituto Metodista de Ensino Superior.
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