ÉTICA E CIDADANIA
Vera Giangrande
Agradeço aos organizadores deste 3º Congresso, o convite para
vir hoje falar com vocês, oferecendo-me esta oportunidade de rever alguns caros
amigos, além de trocarmos idéias sobre um tema tão palpitante como é o da Ética.
É sempre uma temeridade falar-se em ética quando não se é um
intelectual reconhecido, mas sim apenas um profissional, como é o meu caso.
Caminho perigoso e cheio de ciladas espera ao não douto
quando se atreve a simplificar um tema sujeito a questionamentos, e elucubrações
filosóficas e, pior, com o olhar e as palavras inocentes de quem acredita
firmemente em alguns postulados básicos.
A partir dos anos sessenta, quase todos nós começamos – e
continuamos até hoje – nossas palestras ou apresentações com a célebre
constatação de que vivemos tempos de mudança.
Há aproximadamente cinco anos, assisti uma palestra
deliciosamente instigante, como sempre, do José Rolim Valença. Ele historiava,
com charme, os inventos dos homens no último século e a velocidade cada vez
maior não só com que esses inventos eram colocados à nossa disposição, como a
velocidade com que se sucediam.
Jean Paul Jacob, gerente de pesquisa da IBM, em trânsito por
aqui no mês passado, disse – em entrevista à revista República – que
hoje, entre o aparecimento de uma idéia e sua implementação comercial não se
passam mais do que 6 a 10 meses.
Portanto, aqui está, de novo o refrão: vivemos tempos de
mudanças.
E como o homem sempre se prepara para a mudança?
Quando ele acredita, sabe que as roupagens podem e devem
mudar, evoluir; a linguagem, as ferramentas, os meios, os tempos – como na
música – o ritmo e a velocidade; não importa o quanto mudem, o que não muda, não
pode fazê-lo, é a essência. E é nisso que eu acredito. Por isso me parece tão
simples falar de ética, apesar de não ser – ah! bem que eu gostaria – apesar de
não ser uma filósofa.
E qual é a essência da ética? Dizem alguns pensadores que a
ética não pode ser considerada de modo imutável porque é sujeito da época na
qual a analisamos; da realidade cultural, social, religiosa ou não, do povo, da
civilização na qual a contemplamos. Que o que seria ético num determinado
momento da humanidade ou latitude geográfica, não o seria em outro.
No entanto, quando vamos ao encontro dos pensadores, sejam
gregos em seus jardins perfumados, sejam os medievais em seus quase claustros,
sejam os contemporâneos digitando suas idéias em tempo real, e os ouvimos falar
de ética ela nos surge sempre jovem, com o mesmo porte e serenidade.
Não devemos pois, nos confundir, colocando no mesmo nível de
discussão costumes, culturas, hábitos ou rituais e a ética.
E afinal, vivemos todos uma nova época desde que em 1948 a
ONU adotou a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Sejamos simples e diretos. Segundo o Novo Dicionário Aurélio,
1986, Ética é o "estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana
suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente
a determinada sociedade, seja de modo absoluto" e, em seguida, a anotação:
"compare com moral".
Vamos, portanto, ainda no Aurélio, à moral: "Conjunto de
regras de conduta consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer
tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada". E mais: "O conjunto das
nossas faculdades morais; brio, vergonha". Bastante claro, não é mesmo?
Seguindo o conselho de um dos pensadores brasileiros que mais
admiro, o professor Olavo de Carvalho, não devemos "jamais raciocinar pelo valor
nominal das palavras" e continua ele, "tente usar as palavras baseando-se em
definições obtidas do conjunto da realidade".
E é aí, no conjunto da realidade, que ocorrem e ocorrem a
todos nós, que trabalhamos com a comunicação empresarial, os dilemas éticos.
Em vários momentos de nossa vida profissional encontramo-nos
naquela estreita e perigosa faixa cinzenta entre o absolutamente claro e o
sombrio.
A atitude que nos é proposta, a comunicação que nos é
solicitada na realidade não é ilegal na completa acepção do termo, ou imoral,
porém, também não é absolutamente clara, ou escamoteia uma parte da informação,
ou até não é exatamente justa para com a outra parte.
Nesse momento cabe-nos um questionamento quanto a nós mesmos.
Como nos sentimos com isso? Como vemos nossa atitude sob o ponto de vista legal?
E o moral?
E finalmente é muito interessante que nos perguntemos como
nos sentiríamos se nossa atitude fosse tema de debate público. Por exemplo no
"Fantástico", ou no "Roda Viva" da TV Cultura.
Bill Emmott, diretor de redação do The Economist,
considera ser dever da revista fornecer ao leitor toda a informação para que ele
possa formar sua opinião própria.
A revista também vem preconizando que empresa nenhuma poderá
sobreviver com sucesso se apenas se restringir a fazer o produto certo ao preço
certo, sem uma identidade socialmente aceitável, perceptível.
Nos Estados Unidos há cinco anos foi criada a Business for
Social Responsibility, entidade que já reúne 1.400 empresas. A BSR congrega
empresas que acreditam que o comportamento social responsável pode gerar sucesso
econômico. O presidente da BSR, Robert Dunn, diz que o conceito é novo mas o
progresso é extraordinário e que hoje a reputação se transformou no principal
patrimônio das corporações.
No Brasil, em 1998, foi criado o Instituto Ethos com a mesma
filosofia. O que define este assim dito comportamento social é tomar decisões
que gerem lucro e riqueza para as empresas, mas que também beneficiem as
pessoas, a comunidade e o meio ambiente.
E mais: que sua missão é ajudar as empresas a conseguir
vantagens competitivas mantendo alto seu respeito pelas pessoas, comunidades,
meio ambiente e por valores éticos.
Nós, profissionais da área da comunicação – há muitos anos,
felizmente – balizadores claros para nortear nossas atitudes, decisões e postura
pessoal tanto quanto profissional.
Os profissionais de Relações Públicas têm seu Código de Ética
e Conduta Profissional, os Assessores de Imprensa outro tanto, os Publicitários,
o Conar. O Código de Defesa do Consumidor brasileiro, que completa 10 anos de
sua redação, contempla a comunicação e a propaganda em três de seus artigos.
Estamos, portanto, bem servidos quanto à explicitação dos caminhos que devemos
escolher.
Então, porque ocorrem os dilemas éticos?
Porque podemos desejar apresentar a empresa sob uma ótica
mais favorável. Porque somos pressionados por participantes da empresa a
mascarar uma determinada situação. Porque a empresa, sob qualquer tipo de
pressão, toma atitudes emocionais colocando-nos diante do fato já concretizado.
Porque diante de uma fatalidade, a primeira preocupação é
livrar a empresa de acusações.
Hoje, que estou ombudsman, representando os consumidores
clientes das lojas Pão de Açúcar, tenho como dever cotejar o relato do cliente
que se queixa com o relato do outro lado. E a cada dia fica mais transparente
quando um dos lados escamoteia ou distorce os fatos para que estes lhe sejam
mais favoráveis. Da mesma forma preciso estar sempre alerta para, sob
determinadas situações, por vezes estressantes, não pender a favor da empresa,
por conhecer sua preocupação com os serviços que dispensa e os produtos que
vende.
Quando lidamos com assuntos nos quais muitas vezes não há
certezas absolutas os fatos somente não são suficientes para proteger a
reputação de uma empresa. É necessária uma nova linguagem empresarial que
reflita respeito, integridade, compreensão e simpatia, combinada com medidas
práticas e um firme compromisso com uma conduta ética.
Considero que nós, especialistas em comunicação temos, além de nossa obrigação
moral diante de nossos códigos, mais uma: a missão de praticarmos e motivar
outros para a prática da cidadania.
Não nos passa despercebida a repulsa cada vez maior às
posturas indignas de alguns políticos e de alguns empresários. Esta repulsa já
foi muito menor. Hoje ela permeia quase todos os substratos sociais. Parece-me
ter chegado, portanto, o momento de nos colocarmos também a serviço de uma
sociedade melhor para todos.
Especificamente em nosso caso, comunicadores empresariais,
faço minhas as palavras do companheiro de IPRA, a Associação Internacional de
Relações Públicas, o Jacques Coup de Fréjac, quando pede que nos tornemos
educadores, facilitadores, tradutores e orientadores.
Educadores no ajudar as pessoas a entenderem todos os ângulos
e conseqüências antes de tomarem uma decisão.
Facilitadores para neste mundo de crescente complexidade,
tornar as coisas mais simples e compreensíveis.
Tradutores no uso da palavra mais adequada e mais clara, para
que a informação não se distorça.
Orientadores aconselhando a tolerância para assegurar uma
maior participação.
Ou seja, dedicarmo-nos a que haja neste novo mundo
tecnológico, muito mais compreensão e participação de todos, numa verdadeira
conquista da cidadania.

Texto extraído do pronunciamento de Vera
Giangrande durante a cerimônia de entrega do "Prêmio Personalidade da
Comunicação", durante o 3º Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial,
Assessoria de Imprensa e Relações Públicas (6 e 7 de abril de 2000), a última
homenagem pública recebida em vida.