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ÉTICA DA IMPRENSA, ÉTICA DA EMPRESA
Miguel Jorge
Jornalista
Uma empresa com consciência democrática, que entende sua
responsabilidade social, tem transparência e abertura no diálogo com a
sociedade.
O público está cada vez mais consciente de que as empresas,
por sua importância na vida cotidiana de todos nós, são parceiras legítimas
de quaisquer outras instituições no livre jogo de troca de informações,
essencial para uma democracia.
Parece óbvio, mas seria importante ressaltar a
participação decisiva das empresas no desenvolvimento de um país, como fonte
geradora de riquezas, de emprego e de renda, e por seu peso na vida social e
cultural da comunidade.
Por tudo isso, e, mesmo que as excluíssemos, as empresas
têm o direito e o dever de divulgar suas informações, seus pontos de vista,
suas atividades e suas reivindicações, até por um princípio democrático.
Uma empresa moderna relaciona-se, durante 24 horas por dia,
com seus vários públicos, de empregados a consumidores, passando por
fornecedores, distribuidores, Congresso, governos etc.
Com todos, ela interage. Para todos, precisa continuamente
prestar informações corretas, honestas e verdadeiras.
No sentido mais amplo dessa prestação de informações,
pode-se dizer que o relacionamento com a imprensa é a ação mais aberta e
democrática da corporação. Na realidade, ao decidir-se por este contato com a
mídia, ela está informando e prestando contas a toda a sociedade.
No momento em que se resolve que a empresa deve falar com a
opinião pública, é preciso aprender e repensar se a corporação está pronta
para assumir essa enorme responsabilidade, com todos os riscos que ela acarreta.
Uma empresa com consciência democrática, que entende sua
responsabilidade social e age de acordo com a mesma, considera-se perfeitamente
ética. Por isso, pode ser transparente e aberta, condições indispensáveis
para dialogar com a sociedade.
No Brasil, nos últimos anos, principalmente a partir da
década de 80, a maioria das empresas vem mudando profundamente seu modo de ser
e de se relacionar com a comunidade.
Antes, sua maior preocupação era apenas mostrar um balanço
com os melhores resultados possíveis. Quase sempre, suas explicações não
passavam das reuniões de acionistas – estes, também na maioria das vezes,
pouco preocupados sobre a atuação da empresa da qual participavam, mesmo no
caso de haver dezenas, centenas, de minoritários.
Mas, no mundo todo, têm ocorrido mudanças radicais e
profundas. Hoje, e cada vez mais, exige-se que as corporações assumam
responsabilidades sociais tão mais amplas que seria impensável compará-las
com o que ocorria poucos anos atrás. Uma agradável surpresa: quase sempre,
essas exigências partem agora dos próprios acionistas, que obrigam o respeito
ao consumidor, a proteção ao meio ambiente, o apoio e participação em
programas sociais, ajudando os governos a combaterem a miséria e as
desigualdades sociais.
Os empregados também esperam essas posturas das empresas
para as quais trabalham, os consumidores exigem-nas das empresas das quais
compram produtos e serviços. Os fornecedores, os distribuidores e os outros
públicos com os quais ela se relaciona não ficam atrás, cada qual com sua
quota de exigência.
De meros participantes de uma relação difusa, geralmente
unilateral, os funcionários, fornecedores, clientes e a comunidade sentem-se
hoje verdadeiros sócios do negócio, contribuindo para o crescimento das
corporações e compartilhando seus resultados. São protagonistas totalmente
diferentes dos simples e comuns consumidores do passado, dos trabalhadores de Tempos
Modernos, de Carlitos, dos fornecedores que só entregavam peças nas
unidades industriais.
Isso é o que faz com que, além de produtos e serviços com
qualidade e preços justos, as corporações tenham que apresentar valores
éticos definidos e claros, e estabelecidos com transparência, à vista de
todos, para que por todos possam ser cobrados.
Cada vez mais, o lucro e o sucesso de uma empresa não
dependerão apenas de suas competências essenciais, de tecnologias avançadas,
de novas e modernas formas de gestão e da confiança dos acionistas.
A diferença entre o prejuízo e o lucro, entre o sucesso e o
fracasso de uma empresa, pode estar muito mais relacionada com a maneira pela
qual ela se comporta socialmente, por suas posturas éticas no mercado, por seu
relacionamento com a mídia e a opinião pública.
Antes, se é que, em algum lugar, apareciam palavras como
responsabilidade social, princípios éticos ou cidadania corporativa, estas
eram consideradas e entendidas como utopia, coisa de poetas ou apenas conceitos
abstratos, totalmente desligados das razões para o sucesso de um negócio.
Paternalismo, em lugar de relações corretas e honestas com os trabalhadores;
de assistencialismo, ao invés de participação em ações junto à comunidade:
filantropia e não envolvimento em causas sociais, essas eram as ações das
antigas corporações – e que, para elas, sempre representavam custos e não
investimentos.
CIDADANIA CORPORATIVA
Hoje, traduz-se responsabilidade social ou cidadania
corporativa como coerência ética nas ações e relações com os diferentes
públicos e com a sociedade de um modo geral.
De linguagem de "poetas" e "sonhadores",
esses conceitos também passaram a fazer parte das razões para o sucesso nos
negócios ou de uma marca. Por outro lado, não praticá-los pode significar
perdas financeiras e grandes prejuízos para a imagem das empresas.
Para avaliar a força desses novos conceitos, citaria alguns
dados.
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Já são filiadas ao Business for Social Responsability,
entidade criada na Califórnia para difundir os conceitos de responsabilidade
social das empresas, 1,5 mil companhias, que faturam juntas mais de US$ 1,2
trilhão. No Brasil, o Instituto Ethos, criado com os mesmos objetivos,
apresenta um impressionante crescimento no número de associados. |
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Pesquisa da Universidade de Harvard revela que empresas
socialmente responsáveis têm alcançado uma taxa de crescimento quatro vezes
maior que as empresas preocupadas apenas com seus resultados financeiros. |
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Levantamento do Business for Social Responsability com 2,1
mil estudantes americanos de MBA constatou que as empresas-cidadãs atraem
melhores profissionais, principalmente entre os mais jovens e high-potential,
mesmo oferecendo salários menores. |
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Também não pára de crescer o número de afiliados de outra
grande entidade internacional, o Council on Economy Priorities Accreditation
Agency. A entidade reúne empresas, universidades e organizações
não-governamentais com o objetivo de difundir a responsabilidade social entre
empresas de todo o mundo. |
O aparecimento dessas entidades, e de uma nova cultura,
decorrem da idéia, já citada anteriormente, de que não basta à empresa
produzir, vender produtos, prestar serviços e, eventualmente, fazer uma ou
outra obra de caridade, se possível com isenção de impostos. Além da
pressão da sociedade, como resultado direto e inevitável do avanço dos
regimes democráticos em todo o mundo, as empresas tomaram consciência de que a
responsabilidade social deve fazer parte das estratégias das corporações. É
evidente que, nessa avaliação, fica claro que essa nova postura é um fator
importante para sua perenidade e, cada vez mais, de sua maior competitividade.
Progressivamente, o mercado internacional se fechará para
empresas e produtos que agridem o meio ambiente. Da mesma forma, não terão
acesso ao mercado internacional empresas que explorem mão-de-obra infantil,
direta ou indiretamente, em qualquer ponto de sua cadeia produtiva.
Há pouco tempo, todas as montadoras do país, entre elas a
Volkswagen, sentaram-se com a Fundação Abrinq para estudar formas de acabar
com o trabalho infantil nas carvoarias, que produzem o carvão vegetal,
matéria-prima que alimenta os fornos das fábricas de ferro-gusa e aço,
eventualmente usados em certas peças de veículos. No início da reunião, tão
logo soube do problema, a empresa manifestou-se. Primeiro, tornaria todas as
medidas junto a seus fornecedores para coibir completamente a compra de peças
de fornecedores que trabalhassem com mão-de-obra infantil. Segundo, apoiaria as
ações da Fundação Abrinq contra o trabalho das crianças.
A empresa agiu com rapidez: enviou carta a todos seus
funcionários, alertando-os, enquanto instruía sua área de Compras para
verificar constantemente o cumprimento do compromisso. Ao mesmo tempo, passou a
contribuir financeiramente para que, em Mato Grosso do Sul, um determinado
número de famílias recebesse um pagamento para suas crianças trocarem as
carvoarias pela escola. Foi seguida por outras.
Ou seja: não basta às empresas dizerem que não usam
mão-de-obra infantil. Elas têm que ir além, exigindo essa mesma postura de
seus fornecedores. E fazer mais ainda: em seu campo de atuação, têm que
participar dos esforços da sociedade para contribuir para eliminar as mazelas
sociais que ainda nos afligem.
Em casos semelhantes, as empresas éticas abstêm-se da
divulgação dessas iniciativas. A Volkswagen, por exemplo, que tem um plano de
saúde autogerido, sempre manteve programas de atendimento e tratamento de
funcionários aidéticos, que recebem acompanhamento psicológico e trabalham
normalmente. Ou que seus funcionários alcoólatras recebem tratamento e
acompanhamento especiais, inclusive em oficinas abrigadas, onde iniciam seu
processo de reinserção na sociedade.
Por decisão da empresa, essas ações não foram e não
serão divulgadas.
No entanto, parece que ações socialmente responsáveis,
pouco conhecidas da opinião pública, incorporam valores à marca e aos
produtos, de maneira automática. Essas iniciativas trazem reputação, respeito
social, clientes fiéis e, como conseqüência, melhor retorno financeiro.
RESPONSABILIDADE SOCIAL
Empresas socialmente responsáveis oferecem oportunidades
iguais para todos, protegem o meio ambiente, têm programas voltados para a
comunidade, ocupam-se da educação e qualificação de seus empregados,
preocupam-se com a qualidade de vida dos brasileiros e defendem a promoção dos
Direitos Humanos.
Que ninguém duvide que a postura ética da empresa está
claramente refletida na sua comunicação. Se está envolvida em processos de
corrupção ou suborno, se explora mão-de-obra infantil, se degrada o meio
ambiente ou se não respeita os direitos de seus empregados, nunca poderá ter
uma boa relação com a mídia e a opinião pública. Pode montar uma enorme
estrutura e manter generosas verbas para publicidade, mas sua tendência será,
sempre, a de camuflar, de distorcer, de mentir e de esconder fatos da
população. Mesmo que ofereça um bom produto, do que duvidamos, mais cedo ou
mais tarde será repudiada pela sociedade, com prejuízos de toda a ordem, de
financeiros aos de imagem.
Nenhuma comunicação empresarial será capaz de produzir uma
boa imagem de uma empresa desonesta, corrupta, poluidora e que considera seus
empregados apenas peças de máquinas. No mínimo, porque ela estará sempre na
alça de mira da imprensa.
Claro, não há empresas 100% éticas, assim como não há
pessoas 100% éticas o tempo todo e em toda e qualquer situação. Empresas são
feitas por pessoas e, eventualmente, por mais cuidado que se tenha, podem surgir
problemas.
Nesse caso, como agir? É preciso desenvolver sistemas, com
regras claras, simples e do conhecimento de todos, que permitam identificar e
excluir os não-éticos, é preciso constantes fiscalizações e
autopoliciamento. Punir um funcionário acusado de assédio sexual, qualquer que
seja seu nível, evita problemas e impede que germine um caldo de cultura de
discriminação dentro da empresa.
No relacionamento com a imprensa e a opinião pública, em
particular, a ética empresarial exige transparência, coerência e compromisso
com a veracidade de qualquer informação transmitida.
Nesse particular, parênteses: em países como o nosso, que
ainda passam pelo difícil e, às vezes, doloroso processo de consolidação da
democracia, exigem-se nova cultura, novos valores e novas posturas.
Nos recentes anos dos governos autoritários, a imprensa e a
opinião pública não tinham acesso às informações mais elementares das
empresas estatais, como investimentos, lucros, prejuízos, custo real das obras,
acordos assinados etc.
Escondiam-se as informações, na maioria das vezes,
simplesmente pela arrogância de seus autoritários dirigentes. Em certos casos,
dados mantiveram-se secretos porque, por critérios muito particulares, esses
mesmos dirigentes resolviam considerá-los de "segurança nacional".
Contaminadas pela censura oficial, muitas empresas privadas
sentiam-se também no direito de não expor suas atividades com transparência
ou até, de escondê-las. Hoje, além de ser parte importante da estratégia
empresarial, a postura transparente das empresas ao questionamento faz parte de
um processo de abertura política que avança a cada dia.
EMPRESA X IMPRENSA
Na mesma esteira da evolução, a imprensa brasileira usa
cada vez mais os instrumentos democráticos à sua disposição e faz valer de
forma sempre crescente seu direito à liberdade de informar. Ao mesmo tempo, tem
hoje uma visão muito mais clara e realista do importante papel que as empresas
representam para o país.
Dia a dia, o relacionamento imprensa-empresa, através de
porta-vozes, de assessorias de comunicação ou de outros meios, torna-se mais
maduro. Gradativamente, reduzem-se as fontes de conflitos que sempre
prejudicaram essas relações.
Certamente, imprensa e empresas têm interesses diversos, o
que não significa que haja uma ética para cada uma.
Como se disse, nada é mais legítimo que o direito das
empresas de divulgar suas idéias e seus pontos de vista à sociedade, mesmo
porque elas fazem parte dessa mesma sociedade.
Mas a imprensa, além da versão da empresa, quer o acesso a
fontes que só atingirão legitimidade na medida da honestidade, da previsão e
da relevância das informações que prestam.
Em outras palavras, as empresas precisam da imprensa para
divulgar seus produtos ou serviços, suas conquistas ou assuntos de seu
interesse, porque isso é legítimo. Também porque a sociedade tem necessidade
dessas informações.
Por exemplo, interessa ao público saber que um fabricante
investe milhões para aperfeiçoar dispositivos de segurança ou itens de
conforto de um carro. Também interessa saber dos investimentos de uma empresa
na preservação de uma reserva de mata nativa e num programa de alfabetização
ou de eliminação do trabalho infantil.
Erra a imprensa quando, a priori, encara essas iniciativas
como simples estratégias de marketing, assim como erram as empresas que tomam
iniciativas desse tipo pensando apenas em marketing.
Uma mesma ética deve nortear a missão da imprensa ou da
empresa: aquela baseada na verdade e em valores universais, o que parece
simples, mas não é – pelo menos, no que se refere à verdade. Como escreveu
Hobbes, em seu O Leviatã, "o verdadeiro e o falso são atributos da
fala, e não das coisas".
Há dois anos, pressionada pelas cíclicas da economia
brasileira, a Volkswagen estava com grande capacidade ociosa e excedente de
empregados. Depois de difíceis negociações com os sindicatos, a companhia
decidiu remanejar empregados da produção para serviços gerais, como
alternativa à demissão em massa, aplicada por muitas outras empresas. Fez-se
aqui, com dificuldades, o que empresas japonesas, em momentos semelhantes, de
crise de vendas, usam há décadas e que sempre apareceram na imprensa
brasileira como exemplo de respeito aos trabalhadores, que não perdem seu
emprego nem sua dignidade.
Para surpresa geral, um dos maiores jornais de São Paulo
abriu um título em três colunas, alto de página: Volkswagen transforma
metalúrgico em jardineiro. O que, a princípio, seria uma notícia positiva
– a empresa evitou a demissão em massa de empregados – transformou-se em
notícia negativa.
Certamente, os empregados não demitidos, suas famílias e a
sociedade como um todo, não deram ouvidos nem a Hobbes nem ao jornalista –
preferiram a verdade das coisas à da fala.
Para concluir, um possível resumo seria esse: a verdade e a
ética, nos limites do possível, devem ser a matéria-prima tanto da imprensa
quanto das empresas. São exatamente elas que darão credibilidade às
atividades de uma e outra.

Originalmente publicado na revista Comunicação
Empresarial, n. 32, terceiro
trimestre 1999.
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