A ÉTICA COMUNICACIONAL NA INTERNET
Dênis de Moraes
Professor
da Universidade Federal Fluminense
O CÉREBRO PLANETÁRIO
As agudas mutações culturais que
incidem sobre o nosso ser-estar na dobra do milênio requerem uma análise abrangente de
questões relacionadas à ética comunicacional. Já não vivemos ao alcance apenas do
rádio, da televisão, do jornal, da publicidade, do cinema e do vídeo. A era dos fluxos
hipervelozes de informação reconfigura irreversivelmente o campo mediático. A força
invisível dos circuitos integrados on-line ultrapassa toda e qualquer fronteira, numa
rotação incessante.
A veiculação imediata e abundante não
somente delineia modos singulares de produção e consumo de dados, imagens e sons, como
propicia um realinhamento nas relações dos indivíduos com os aparelhos de enunciação.
As máquinas de infoentretenimento reinventam-se como organismos de difusão simbólica,
seja em decorrência da brusca aceleração tecnológica, ou pela possibilidade de se
ajustar a vias de mão dupla no tráfego de mensagens.
Neste quadro de deslocamentos e rupturas, o
fenômeno Internet precipita mudanças de paradigmas que podem ser absorvidas em sintonia
com a idéia de humanização da sociedade. Na órbita da mega-rede digital, flutuam
instrumentos privilegiados de inteligência coletiva, capazes de, gradual e
processualmente, fomentar uma ética por interações, assentada em princípios de
diálogo, de cooperação, de negociação e de participação.
A imagem clássica dos aparelhos de
divulgação no topo da pirâmide e dos receptores confinados na base está se rompendo
com a arquitetura dos espaços de comunicação na Internet. Os sistemas computrônicos
dinamizam os traçados e entrecruzam fluxos seqüenciais e intercorrentes da ciberesfera.
A inteligência coletiva que se expressa nas atividades extensivas e
multidimensionais das comunidades de usuários reorganiza, a todo instante e
interativamente, as massas de informação disponíveis on-line, para usufruto público,
por meio de conexões transversais e simultâneas.
A nova ambiência favorece o reconhecimento
mútuo dos indivíduos e dos grupos envolvidos na comunicação, definida como processo de
objetivação partilhada da consciência humana em contextos comuns. É a inteligência
coletiva, desterritorializada e descentralizada, que se contrapõe à cultura
verticalizada à qual tivemos que nos habituar.
Nas artérias labirínticas da Internet, os
usuários têm a chance de assumir-se como atores comunicantes, ou, se preferirmos a bela
metáfora de Jöel de Rosnay, como "neurônios de um cérebro planetário"[1], que nunca pára de produzir, de
pensar, de analisar e de combinar. Cada ator inscreve sua identidade na rede à medida que
elabora sua presença no trabalho de seleção e de articulação com as áreas de
sentidos, que se concretiza nos encadeamentos do hipertexto.
Na malha hipertextual, os sites afiguram-se
como um viveiro imensurável de infomídias interativas. Eles estocam, processam,
distribuem e atualizam dados e imagens oriundos de múltiplos campos do conhecimento.
Efetivam-se como pontos de visibilidade para interseções comunicacionais, sem
correspondências com as estruturas autoritárias das mídias convencionais. De fato, a
pragmática da Internet desfaz a polaridade entre um centro emissor ativo e receptores
passivos. Os dispositivos e interfaces tecnológicos instituem o que Henry Bakis
classifica de "espaço de transação", cujo conteúdo técnico, em constante
refinamento, proporciona comunicações intermitentes, precisas e ultra-rápidas, numa
interação entre todos e todos, e não mais entre um e todos.[2]
No ciberespaço, cada um é potencialmente
emissor e receptor num espaço qualitativamente diferenciado, não-fixo e disposto pelos
usuários. Não é por seus nomes, posições geográficas ou sociais que as pessoas se
reúnem virtualmente, mas de acordo com blocos de interesses, numa paisagem comum de
sentido e de saber.[3] Sob tal
prisma, a Internet seria o berço universal de infomídias, claramente diferenciadas dos
macro-sistemas mediáticos pelos seguintes quesitos:
Ao menos até agora, não há centros
diretivos ou comandos decisórios na World Wide Web.
A comunicação na Internet é fundada numa
reciprocidade com dimensão comunitária (o telefone é recíproco, mas individual, não
permite uma visão do que se passa no conjunto da rede). As emissoras de televisão e de
rádio são pólos de onde as informações partem e são distribuídas. Mesmo levando-se
em conta o despontar de engrenagens interativas, existe uma separação nítida entre os
núcleos emissores e os destinatários, isolados uns dos outros. Na Internet, há a
possibilidade substantiva de participação dos receptores, inclusive, em coletividades
desterritorializadas.
Inexistem, na Web, grades de programação ou
rotas preestabelecidas até os materiais informativos. O usuário escolhe e consome
informações nos horários, nas freqüências e nos ângulos de abordagem de sua
preferência. Enquanto a televisão, o rádio e o jornal nos trazem as notícias que
selecionam conforme suas próprias diretrizes, as redes computadorizadas impelem-nos a ir
atrás das informações dispersas pelos hemisférios, com a prerrogativa de definirmos
por conta própria a que mídia, programas de buscas ou bases de dados devemos recorrer.
As relações entre as incontáveis fontes
informativas e os usuários na Internet são geograficamente móveis, interrompidas,
retomadas e atualizadas. Não existe equivalência: a ação pode ser contínua, apesar da
duração descontínua, como na comunicação por secretária eletrônica ou correio
eletrônico. A fruição depende do agenciamento de entradas e de saídas, embora os
fluxos sejam ininterruptos e deslocalizados.
O ciberespaço disponibiliza, em qualquer
espaço-tempo, variadas atividades e expressões de vida. A cibercultura mundializa
visões díspares e modos de organização social contrastantes, sem favorecer pensamentos
únicos. Congrega forças, ímpetos e desejos contraditórios, com a peculiaridade
fundamental apontada por Pierre Lévy de universalizar sem totalizar. Na
direção aqui proposta, a totalidade tem a ver com a descontextualização dos discursos,
que possibilita o domínio dos significados, o anseio pelo todo, a tentativa de instaurar
em cada lugar unidades de sentido idênticas. A noção de totalidade busca bloquear a
pluralidade de contextos e a multiplicidade de segmentos que neles deveriam intervir.
Já o ciberespaço configura-se como um
universal indeterminado, sem controles e hierarquias aparentes, sem local nem tempo
claramente assinaláveis. Conceituando totalidade como "unidade estabilizada de
sentido", Lévy a ela contrapõe a vitalidade da cibercultura, que "inventa uma
forma de suscitar uma presença virtual da humanidade diante de si mesma, diversa da
imposição de uma unidade de sentido".
O monolitismo semântico rompe-se na medida
em que a universalidade do ciberespaço possibilita a interconexão dos seres humanos, por
integração efetiva à inteligência coletiva não-massiva e não-totalizável, em um
meio ubíquo, paradoxalmente operado por uma tecnologia real. O filósofo francês acentua
que a cibercultura, ao preservar a universalidade dissolvendo a totalidade, corresponde ao
momento em que nossa espécie, pela globalização econômica e pelo adensamento das redes
de comunicação e transporte, tende a formar uma única comunidade mundial, ainda que
desigual e conflituosa. Esta megacomunidade, conquanto tenha forte dose de globalismos,
universaliza-se por contato e interação, e não por homogeneização.[4]
Descobrimos um estiramento na noção de
totalidade: no ciberuniverso, as partes são fragmentos não-totalizáveis, isto é,
não-sujeitas a um todo uniformizador de linguagens e concentrador de poderes, que anula
inevitáveis disparidades de interpretação. As relações entre as partes reinventam-se,
em densidade e em extensão, sem que umas subjuguem as demais. A imanência mítica e
autoritária do todo conhece a variável da tensão.
O ciberespaço funda uma ecologia
comunicacional: todos dividem um colossal hipertexto, formado por interconexões
generalizadas. Trata-se de um conjunto vivo de significações, no qual tudo está em
contato com tudo: os hiperdocumentos entre si, as pessoas entre si e os hiperdocumentos
com as pessoas. A universalidade aparta-se do espírito de totalização e se constrói
tanto por contato como por condições de comunicação recontextualizadas (no sentido de
que há um contexto universal no âmbito cibernético, inteiramente diverso dos contextos
não-virtuais e propício a modalidades comunicacionais não-totalizantes e
participativas). Cabe à capacidade cognitiva dos indivíduos determinar como se vão
rearticular as conexões globais. A cada nó, incorporam-se novos usuários, os quais se
convertem em produtores e emissores de informações a serem consumidas sem barreiras
geográficas, sem fusos horários.
A imagem da Internet como um mega-sistema em
cíclica mutação e saudável desordem justifica a sua classificação de Babel cultural
do final do século XX. Ela oferece-se à contemplação como um gigantesco mosaico, no
qual quem decide o que deve ser destacado e aproveitado no emaranhado de nós é o agente
humano, por afinidades e conveniências. O único imperativo categórico para inserir-se
no coletivo de cidadãos-usuários é estar conectado. Ao plugar-se, o internauta recebe o
passaporte carimbado para o ciberespaço: a conta numérica numa máquina, para uso
pessoal, com endereço eletrônico e senha intransferíveis. A esta identidade, às vezes
se soma a exposição individual perante a coletividade, através de um website
personalizado.
Outra modalidade identitária manifesta-se
nos canais de conversação textual on-line, os chats ou IRCs (Internet Relay Chat). O
usuário escolhe um pseudônimo para interagir com parceiros fisicamente separados e
desconhecidos. Os MUDs (Multi User Dungeon) e MOOs (Multi User Object Oriented) são
ambientes interativos onde também se adotam identidades anônimas e temporárias. Não é
propriamente necessário que todos os participantes estejam plugados ao mesmo tempo, e sim
que se baseiem na mesma interface para a comunicação partilhada.
A
DIALÉTICA DOS FLUXOS
Os usos imensuráveis da Internet refletem a
complexidade psíquica, afetiva, social, ética, cultural, econômica e
político-ideológica do mundo contemporâneo. Diante das telas dos monitores, trafegam o
voraz comércio eletrônico, a guerra entre os fabricantes de softwares, os hackers, os
vírus, a pornografia, projetos militares e seitas místicas. Em compensação, dispomos
de uma escala impressionante de informações, cultura e divertimento, programas
educacionais e científicos, bases públicas e privadas, trocas entre indivíduos, grupos
e instituições, e modalidades promissoras de intervenção política, cultural e social.
Para além do correio eletrônico, do
entretenimento e das pesquisas, a Internet afigura-se como fórum on-line capaz de
revitalizar movimentos civis, na atmosfera de permutas da cultura de redes. Organizações
não-governamentais, sindicatos, associações profissionais e partidos políticos
procuram estreitar vínculos e incrementar campanhas reivindicatórias valendo-se dos
efeitos de amplificação da Web. São pessoas e instituições identificadas com causas e
comprometimentos semelhantes, que se inter-relacionam, por ligações de diferentes
lugares do mundo, em grupos e listas de discussão, ou conferências eletrônicas. Elas
ainda alimentam a circularidade de conteúdos entre suas home pages, através de links que
se remetem e se referenciam uns aos outros, por temáticas correlatas.
Eis aí outra dimensão da ética por
interações: estimula processos tecnocomunicacionais de inserção político-social de
forças contra-hegemônicas, sobrepujando os filtros ideológicos e as políticas
editoriais dos complexos de mídia. É o que acontece quando um leitor desconfia da
credibilidade do noticiário de um jornal ou revista sobre a coligação de esquerda que
disputará as eleições presidenciais deste ano no Brasil.
Ele pode consultar dezenas de publicações
on-line sobre o assunto. Se não estiver satisfeito, visita as páginas eletrônicas dos
quatro partidos que formam a aliança: PT (http://www.pt.org.br),
PDT (http://www.pdt.org.br) , PSB (http://www.hexanet.com.br/PSB ) e PC do B (http://www.pcdob.org.br), nas quais estão expostos os
objetivos e compromissos do bloco. E se ainda assim não se convencer, resta-lhe refinar a
pesquisa nos programas de buscas. A garimpagem concorrerá para a formação de juízos
sem o contágio de manipulações sutis ou grosseiras.
A abundância de variedades na Internet
contraria a imaginação dos que se habituaram ao predomínio dos efeitos massivos de
simulação, ou daqueles que insistem em esgrimir conceitos sobre as mídias clássicas
que perderam validade no ciberespaço. Cedo ou tarde, eles precisarão considerar que a
arena multimídia on-line requisita planos específicos de comunicação, pois um número
crescente de segmentos sociais e de subjetividades migra para ela e secreta aspirações
diferenciadas.
É indispensável ressaltar que não concebo
o ciberespaço como uma esfera autônoma, divorciada dos embates sociais concretos. Ao
contrário, a práxis virtual guarda uma relação de complementaridade com o real, e não
de substituição de antigos dispositivos de comunicação. O virtual, conforme Pierre
Lévy, é uma existência potencial, que tende a atualizar-se. A atualização envolve
criação, o que implica produção inovadora de uma idéia ou de uma forma. O real, por
sua vez, corresponde à realização de possíveis já estabelecidos e que em nada
mudarão na sua determinação ou em sua natureza. Já a virtualização deve ser
entendida como "uma mutação de identidade, um deslocamento do centro de gravidade
ontológico". O sujeito passa da situação atual, correspondente a uma solução,
para um campo de interrogação que o obriga a propor coordenadas como resposta a uma
questão particular.[5]
Ponto nodal da simbiose real-virtual, a
Internet situa-se na base de criação de uma fronteira a um só tempo física e abstrata.
Física e tangível, porque sua infra-estrutura operacional é feita de interfaces
gráficas, de modems e de discos rígidos. Abstrata e intangível, pois os conteúdos
remetem à ordem da representação, da cognição e da emoção. Sem atributos físicos e
existindo independentemente deles, o ciberespaço tem força simbólica para ampliar as
percepções da realidade. O mundo on-line, conforme Derrick de Kerckhove, herdeiro de
Marshall McLuhan, define-se como "uma realidade que se pode tocar e sentir, ouvir e
ver através dos sentidos reais não só com ouvidos ou olhos imaginários"[6]. O virtual, aduz Kerckhove, estende
e expande sujeitos, por meio de tecnologias que não apenas prolongam as propriedades de
envio e recepção de mensagens, como penetram e modificam a consciência de seus
utilizadores, transformando-se em "extensões quase orgânicas do nosso ser mais
íntimo"[7].
Os processos de significação não se
anulam, eles se mesclam e acentuam relações de sinergia. A cibercultura não se
superpõe às culturas preexistentes, nem as aniquila. A dialética ativa desdobramentos e
remissões; no lugar de divisões e estacas demarcatórias, estabelecem-se os nexos, as
bricolagens e as hibridações. Identidades culturais organizadas podem ramificar-se nos
fluxos eletrônicos, sem perder seu enraizamento na memória afetiva das sociedades.[8]
Veja o caso da literatura latino-americana,
que experimenta um surto de integração virtual. Ícones sagrados como Gabriel
García-Márquez, Pablo Neruda, Julio Cortázar e Jorge Luis Borges têm excelentes
páginas elaboradas por universidades e centros de estudos. Ao mesmo tempo, dezenas de
sites e publicações estilhaçam o silêncio sobre autores da Nicarágua, de Trinidad
Tobago, da Venezuela, do Peru e da Guatemala. O circuito digital contribui não apenas
para divulgá-los, como para restabelecer laços de contigüidade cultural e insinuar uma
pluralização das tendências literárias em um espaço perceptivo desterritorializado. O
que parecia irremediavelmente estratificado no cume, a confraria dos notáveis; na
planície, a legião de novos e veteranos escritores sem vez na mídia e na estrutura
mercadológica da indústria editorial coliga-se na Web.[9]
O rádio não substituiu o jornal, a TV não
acabou com o rádio e a Internet não vai ocupar o lugar de ninguém. O que sobressai na
Web é a sua reformulação permanente, capaz de impedir a subsistência de monopólios de
difusão. Os fluxos ininterruptos, potencializados pelos recursos da hipermídia,
funcionam como ímãs eletrônicos: multiplicam-se as ciber-rádios, os ciberjornais, as
ciberagências publicitárias, os cibervídeos e as cibertelevisões. Os veículos mantêm
traços distintivos originais (o som radiofônico, o audiovisual televisivo) e imbricam-se
com as formas flexíveis e multissensoriais inerentes ao ecossistema digital.
Uma emissora de rádio no ciberespaço não
somente toca música, intercalada por notícias, anúncios e gags dos DJs; promove faixas
de CDs e fitas-demo, exibe videoclipes e shows, compila entrevistas, estoca clippings,
seleciona hotlinks, segmenta-se por gêneros (rock, pop, música popular brasileira,
música clássica, jazz). Já a edição on-line da The Paris Review (http://www.voyagerco.com/PR), com áudio e vídeo,
atualiza uma revista com 50 anos de tradição como magazine eletrônico. Além de
deliciar-se com coleções de fotos e ouvir gravações de depoimentos, como o de Woody
Allen para o número temático sobre humor, o visitante encontra transcrições de
entrevistas com 250 grandes escritores, artistas e intelectuais do século XX. Nomes da
envergadura de Ítalo Calvino, Pablo Picasso, William Faulkner, W. H. Auden, Ernst
Hemingway, Truman Capote, Lillian Hellman, Margueritte Yourcenar, Gore Vidal, Ezra Pound e
Vladimir Nabokov. Basta clicar o mouse para, como diria Mario Vargas Llosa a propósito da
ficção, "deslocar-se no espaço e no tempo sem sair de seu lugar nem de sua hora e
viver as mais ousadas aventuras do corpo, da mente e das paixões, sem perder o juízo ou
trair o coração".[10]
Seria um equívoco encarar a Internet como um
mercado paralelo e estanque, dissociado das demais mídias e das conjunturas sociais. Não
interligá-la àquelas instâncias significaria entendê-la como fim e não como um meio
para se atingir metas maiores. Haveria o risco de, paulatinamente, ela perder significado
histórico e importância cultural. A sua pujança provém de interações diretas e
interinfluências de toda ordem. Isolá-la seria negar a utopia essencial de
que podemos semear princípios interativos e comunitários do ciberespaço no oceano
informacional à nossa volta. Julgo perfeitamente viável entrosar os instrumentos
político-cultural-comunicacionais que o real e o virtual fornecem, como focos abertos a
mútuas alimentações, a interlocuções dialéticas e a energias reivindicantes. Sem
perder de vista que é no território físico, socialmente reconhecido e vivenciado, que
se concentram os grandes combates pelas hegemonias e pela construção do imaginário do
futuro.
VIDA
COMUNITÁRIA POR INTERAÇÕES
O vínculo humano com a Internet remete a um
espaço virtual comum, no qual a existência prescinde de cadeias de comando. O
crescimento exponencial do ciberespaço está ligado justamente à peculiaridade de
constituir uma esfera pública não-sujeita a regulamentações exógenas. Com isso,
reforça-se a evidência de que os estatutos éticos das comunidades virtuais se constroem
no interior de seus cosmos produtivos, por motivações cooperativas e coordenações de
qualidades e vocações individuais.
A ética por interações prospera nos
grupos, listas de discussão, conferências eletrônicas ou newsgroups
constelações de células independentes ou interdependentes, em que se agrupam distintos
idiomas, nacionalidades, níveis de escolaridade e credos.[11] Sem jamais terem se visto, as
pessoas conversam, trocam experiências, informam-se, fazem amizades, namoram, ou
simplesmente passam o tempo. Surgem parcerias, ajudas mútuas e laços de solidariedade
inclusive no sofrimento. Famílias de crianças com Síndrome de Down ou de jovens
viciados em drogas repartem esperanças e aflições. Portadores do vírus HIV e
aidéticos contam com 30 listas para debater seus problemas.
As tribos eletrônicas expandem-se em
direções imprevistas. Os deadheads trocam dicas sobre shows, CDs e fitas piratas. Os
cinéfilos contam com cinco grupos de discussão em português (dois sobre cinema
brasileiro, um sobre cinema em geral, um sobre cinema internacional e um sobre astros e
estrelas). Organizada na Nova Zelândia, a lista Queer Studies Aotearoa Gays, aborda os
direitos de gays, lésbicas e bissexuais. Marxistas dos quatro quadrantes organizam-se em
células virtuais para reavaliar os 150 anos do Manifesto Comunista. Os admiradores de
Gilles Deleuze, Félix Guattari, Michel Foucault, Jürgen Habermas e Jean Baudrillard
desfrutam de uma lista cult sobre a filosofia na modernidade.[12]
Para se ter uma noção da diversidade
temática, basta mencionar que o Universo Online maior provedor do Brasil, com mais
de 65 mil assinantes e média diária de 250 mil visitantes oferece 130 grupos de
discussão, divididos nas categorias cultura, saúde, ciência, hobbies, computação,
política, economia, sociedade, comportamento, viagem, jogos, Internet, educação,
esporte, negócios e outros (dentre os quais esoterismo, humor, jornalismo, religião,
etiqueta, radioamador e ufo).
Cada categoria subdivide-se em temas
específicos: a de cultura, por exemplo, tem sublistas de artes plásticas, arquitetura,
astrologia, carnaval, cinema, dança, ficção científica, fotografia, jazz e blues,
literatura, música erudita, letras de música, música popular, new age, poesia,
quadrinhos, rock, rock.metal, tamagotchi, teatro, televisão, televisão.arquivo-x,
televisão.jornada-nas-estrelas. A de esportes desdobra-se em futebol, fórmula indy,
fórmula 1, NBA e todos os esportes. Até os viciados em navegação dispõem de uma
sublista na categoria Internet.[13]
Em toda a Web, registra-se um crescimento
espetacular dos chats.[14] No dia
15 de maio de 1998, o Universo Online mantinha 542 salas de bate-papo, com 25 lugares
cada, funcionando 24 horas. No total, 13.343 vagas em salas classificadas por sexo,
idades, cidades e regiões, encontros, tema livre, imagens eróticas e outras imagens. Cem
mil pessoas passam por ali diariamente. A comparação não deixa dúvida quanto à
explosão de demanda: na primeira semana de março de 1997, eram apenas 160 salas, com
quatro mil vagas. O UOL acaba de pôr no ar, em fase experimental, o "Vídeo
Papo", com som e imagem sincronizados em tempo real.
Cinco pólos de magnetismo ajudam-nos a
esclarecer o afluxo aos chats:
a liberdade para relacionamentos de qualquer
espécie;
sincronicidade nas conversações;
a garantia de anonimato;
a ausência de censura;
a desobrigação de se submeter a
regulamentos.
Há que se admitir que a inexistência de
protocolos éticos rígidos e o uso de pseudônimos geram atitudes deletérias. Nas salas
sobre sexo, namoro e erotismo, são freqüentes insultos, pornografias e intromissões
descabidas. Claro indício de que a atmosfera de desrepressão por vezes se confunde com
catarses e liberação de instintos difusos. Para certas impropriedades há antídotos
virtuais. Se uma pessoa se sente incomodada ou ofendida com o teor de uma mensagem que lhe
é remetida, deve cortar unilateralmente o acesso, não respondendo ao agravo.
Críticos moralistas agarram-se à
convicção de que o caos da Internet dispensa responsabilidades individuais e grupais,
estimulando a permissividade. De fato, praticam-se excessos. Mas por que tanto espanto? A
sociedade de final de século está atravessada de abusos insuportáveis por metro
quadrado. (Os moralistas calam-se diante do desemprego estrutural, da brutal
concentração de renda e das desigualdades sociais, deprimentes subprodutos da panacéia
neoliberal.) Por que a Internet, sendo uma projeção da inteligência humana, com
interfaces cada vez mais próximas entre as mentes e as tecnologias, haveria de ser
exceção?
O grande diferencial da Internet consiste no
fato de que as comunidades virtuais, enquanto corpos orgânicos, definem e objetivam
valores éticos e códigos informais de conduta. Tais regras não provêm de fora, das
estruturas de poder, e em nada se confundem com uma espada de Dâmocles sobre as cabeças
dos internautas. Devem ser aceitas por consenso e adaptadas às singularidades, práticas
e tradições dos grupos. Paul Mathias refere-se à "criação ascendente de
valores" em coletivos virtuais, na medida em que elaboram coexistências regidas não
mais por princípios verticais e genéricos, e sim pela harmonização de perspectivas
individuais no seio de grupos afins.[15] As relações humanas tornam-se
intercambiantes, o que favorece a reelaboração sistemática de premissas e raios de
competência.
A chamada "netiqueta"[16] põe em relevo as seguintes
recomendações para a convivência nesses coletivos: letras
Não se deve enviar mensagens sobre
determinado assunto numa lista que trata de outro tema.
Para evitar perguntas recorrentes, consulte
os arquivos do grupo de discussão para ver se as respostas já se acham disponíveis.
Escreva mensagens breves, pois os membros de
uma lista estão interessados em debater pontos precisos.
Como os participantes geralmente são pessoas
ocupadas e recebem dezenas de mensagens por dia, é importante que o subject (assunto) do
e-mail seja definido com exatidão, para guiar a leitura.
As mensagens devem ser assinadas com os nomes
de cada membro do grupo. Nas listas concorridas, o endereço eletrônico é insuficiente
para a identificação.
Se alguém solicita, em e-mail genérico,
informações ou opiniões sobre um tema de sua alçada, atendê-lo é princípio
elementar de solidariedade.
Numa lista eletrônica, o e-mail nunca é
confidencial, o que torna desaconselháveis comentários desairosos, provocações
gratuitas ou indiscrições.
Não se deve inundar os chats com mensagens
repetidas. Espere que a pessoa responda, até porque ela pode estar se correspondendo,
simultaneamente, com outros interlocutores.
Use maiúsculas somente para dar ênfase a
uma palavra ou frase. Maiúsculas são difíceis de ler, e a impressão é a de que se
está gritando ao grafá-las.
Cuidado com imagens pornográficas. Antes de
armazená-las em página pessoal, verifique se o seu provedor concorda.
É proibido apropriar-se do trabalho
intelectual alheio. Cabem ações judiciais por uso indevido de imagens, textos ou
softwares. Antes de usar, em sua página pessoal, arquivos colhidos em outros sites, peça
autorização aos autores. A não ser que o proprietário dos direitos tenha colocado um
aviso liberando a reprodução do material ou condicionando-a à citação da fonte.
Sugere-se consultar o destinatário antes de
remeter arquivo atachado com mais de 300 kbytes.
A publicidade comercial é enfaticamente
desencorajada.
Os grupos de discussão cultuam uma
irrestrita liberdade de expressão, sendo refratários à censura. Porém, estão sujeitos
a idiossincrasias, desníveis culturais e condutas desviantes. Ataques pessoais e
declarações ofensivas normalmente não são toleradas. Nos casos graves ou
reincidências, os administradores das listas podem excluir os responsáveis.
Obviamente, a ciberética entendida
como conjunto de postulados de reciprocidade para a autogestão democrática do
ciberespaço tem sofrido transgressões inconcebíveis. A chamada máfia dos vírus
especializou-se em contaminar páginas e alarmar usuários e provedores com mensagens
falsas, congestionando linhas de transmissão.
No caso dos hackers, as investidas
irracionais caracterizam crimes digitais: acesso não-autorizado a informações e
computadores, cópia de software com copyright, captura de números de cartões de
crédito, mensagens falsas ou adulteradas, pornografia infantil. Geralmente atuam em
máquinas que permitem upload de softwares. A grande disputa no submundo digital é
conseguir a mais recente versão de um programa, quebrar-lhe a proteção (caso exista) e
divulgá-la antes de qualquer outro grupo. Agindo dessa maneira, os hackers mostram poder
e se tornam o pesadelo da indústria de informática, dos provedores e de governos.[17]
O presidente Bill Clinton liberou verba
suplementar para a segurança das redes governamentais, depois da invasão de computadores
do Pentágono por hackers, no início de março de 1998. O vice-secretário de Defesa,
John Hamre, considerou o episódio o "ataque mais organizado e sistemático" da
história do Pentágono: quatro sistemas da Marinha e sete da Força Aérea, em bases nos
Estados Unidos e em Okinawa, no Japão, ficaram comprometidos. Aparentemente, os sistemas
violados não tinham informações secretas. Semanas depois, o hacker Ekud Tannesbaum, de
18 anos, acusado pela sabotagem, apareceu na campanha publicitária de uma firma de
computadores. No anúncio, publicado no jornal israelense Haaretz, Ehud provoca:
"Para ir longe, você deve ter as melhores ferramentas."[18]
O Departamento de Justiça criou um centro de
inteligência para detectar e impedir invasões às redes oficiais e das indústrias de
infra-estrutura essencial. A operação contará com a participação do FBI, da CIA, do
Pentágono e outras agências, e tentará envolver empresas privadas e universidades. A
providência resultou do trabalho de uma comissão especial designada por Clinton, cujo
relatório concluiu que o nível de cooperação atual é inadequado diante do perigo de
um ataque cibernético. Em 1996, o Pentágono fez um exercício simulado de "guerra
informática". Alguns hackers foram escolhidos a dedo pelas Forças Armadas para
entrar no sistema interligado do Departamento de Defesa, com 800 provedores de serviços.
A ação provocou caos em várias bases militares.[19]
Páginas brasileiras não escapam de
atentados. Na madrugada de 13 de fevereiro de 1998, um grupo de hackers atacou 41
domínios virtuais, hospedados nos sites ez-bh.com.br, ibama.gov.br e ccard.com.br.
Ameaçaram voltar se não fossem cumpridas exigências como escola gratuita para crianças
de até 10 anos, terminais com acesso grátis à Internet instalados em 80% das praças
das grandes cidades brasileiras, privatização das estatais (dão como exemplo a
Petrobrás), redução de impostos em 40% e linhas digitais.[20] Preventivamente, a Embratel vai
recorrer a um sistema de firewall semelhante ao da Casa Branca, fabricado pela Digital
Corporation.
Os Estados Unidos discutem, com autoridades
da Grã-Bretanha, Alemanha, Japão, Itália, Canadá, França e Rússia, maneiras de deter
os crimes high-tech e os discursos racistas e fascistas na Web. "Um dos maiores
desafios atualmente é identificar os predadores on-line. A tecnologia atual permite a
estes criminosos mascarar sua localização e sua identidade. Temos que identificá-los e
levá-los aos tribunais", observa Janet Reno, procuradora-geral da Justiça dos
EUA[21]. Estados
norte-americanos vêm adaptando suas legislações para coibir o banditismo eletrônico.
Agentes do FBI e do Centro de Treinamento Federal para o Cumprimento das Leis (FLETC)
estão sendo treinados para lidar com as características específicas dos crimes
digitais. Cybercops (policiais cibernéticos) rastreiam canais de IRC freqüentados por
hackers que, aliás, chegam ao requinte de divulgar seus métodos em home pages.
O Comitê Gestor da Internet no Brasil
reservou 100 nomes de domínios para evitar possíveis piratarias, entre os quais
aeronáutica, aeroportos, angélica, baygon, botafogo, deputados, internet, itamaraty,
senado, www, nestlé e mercosul. O Comitê estuda incorporar a lista de marcas do
Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) para impedir que sejam concedidas,
como domínios, a entidades ou pessoas estranhas.
CIBERCIDADANIA
E CENSURA
Delitos que comprometem o exercício da
cibercidadania devem ser barrados. Mas a configuração intermundial da Internet, com
atualizações e propagações hiper-rápidas, torna infactível programar o tráfego em
rede. Por duas razões:
Improbabilidade tecnológica.
A informação julgada delituosa pode ser,
quase imediatamente e a custo nulo, transferida de um servidor para outro, ou duplicada
grande número de vezes. A cópia numérica, sendo idêntica à original, subsiste em
qualquer suporte informático. Foi o que aconteceu, em janeiro de 1996, com o livro Le
Grande Secret, no qual o antigo médico de François Mitterand, Claude Gluber, revela que
presidente francês, falecido no dia 8 daquele mês, sofria de câncer desde o seu
primeiro mandato, em 1981. A Justiça proibiu a comercialização da obra no dia seguinte
ao lançamento. Tarde demais: a primeira edição, de 40 mil exemplares, esgotara-se em
poucas horas. O livro de Gluber foi digitalizado, provocando uma avalanche de consultas
aos sites que o recopiaram. Como retirá-lo de circulação? Existiria sempre uma ou mais
cópias transitando pelo ciberespaço.[22]
Alto risco de censura.
O verbo programar representa, aqui, um
eufemismo de disciplinar. Isso afetaria irremediavelmente a espinha dorsal da Internet
seus fluxos ilimitados e insubmissos. A União Européia propõe liberar US$ 8
milhões, em 1998, e entre US$ 7 e 10 milhões, nos próximos três anos, para criar um
sistema europeu de informações destinado a suspender a veiculação de pornografia,
fraudes, preconceitos raciais ou violações de leis de segurança nacional, de
propriedade intelectual, marcas e patentes. O dinheiro ajudaria a financiar sistemas de
classificação que ajudem os pais ou professores a proteger as crianças de cenas de sexo
explícito ou de violência.[23]
Receia-se que a UE acabe instituindo
mecanismos de censura, com a agravante de que não se levariam em conta as legislações
específicas dos países. Entidades que defendem a auto-regulamentação da Internet
sustentam que há meios de conter a pornografia junto às crianças, sem interferência do
Executivo. Nos Estados Unidos, 400 provedores de conteúdo para a Web lançaram, em
dezembro de 1997, uma campanha educativa para incentivar os pais a recorrerem a programas
que bloqueiem a entrada em sites pornográficos.[24]
Os pais podem negar o acesso dos filhos
menores à Internet, ou só autorizá-lo a partir de certa idade, e obter softwares como o
SurfWatch, que corta o acesso a newsgroups, gophers e ftps com conteúdos explicitamente
pornográficos. O bloqueio é assegurado por uma senha que só os pais conhecem. O
programa atualiza automaticamente a lista de endereços restritos, sem intervenção do
usuário. Estão à venda softwares, como o NetNanny, que aciona um mecanismo de
desconexão imediata quando se digita um endereço arquivado como impróprio, e o
Cyberpatrol, que classifica o acesso por assunto e bloqueia a transmissão.[25]
Alguns provedores só estão aceitando
pagamento por cartão de crédito, para dificultar a navegação indiscriminada por
crianças e adolescentes. Outros exigem cadastramento prévio e senha para ingresso em
determinados links, possibilitando a triagem. A iniciativa da União Européia é até
tímida se comparada com a lei aprovada pelo Congresso norte-americano, em 1996, para
censurar a Internet. O draconiano Ato pela Decência nas Comunicações previa penas de
até dois anos de prisão e multas de U$ 250 mil para quem divulgasse materiais
considerados "ofensivos e indecentes" a menores de 18 anos. No início de 1997,
em memorável sentença, a Suprema Corte considerou a lei inconstitucional, destacando que
"o acesso ao caos" da Internet constitui um direito dos cidadãos. O caos, aí,
é sinônimo de livre expressão, elevada à potência planetária por meios
tecnologicamente avançados.[26]
A defesa da liberdade de expressão na Web
será árdua e prolongada. A começar pela tentação de impor direções morais e
gestões burocráticas no ciberespaço, de preferência sob a égide do Estado. É
exemplar o relato do sociólogo espanhol Manuel Castells sobre a guerra que travou, em
defesa da auto-regulamentação da Internet, no Alto Comitê de Especialistas em Sociedade
da Informação, da Comissão Européia:
"Depois de dois anos de trabalho,
chegamos ao informe final. Eu estava em minoria na comissão, e minha grande batalha era
sobretudo com os alemães, para quem o problema era como conseguir que os Estados
controlassem a Internet. Primeiro, é tecnologicamente impossível, mas eles não estavam
convencidos disso. Segundo, é uma política que afeta a liberdade de expressão.
Terceiro, é uma atitude absolutamente defensiva. Claro que na Internet há pornografia,
nazistas e muitas coisas que nos desagradam, mas na sociedade também tem. E nem por isso
temos que implantar um sistema burocrático que vigie cada cidadão.
O que devemos fazer é utilizar o
enorme potencial da Internet, por exemplo, para reviver a democracia, não enquanto
substituição da democracia representativa por meio do voto, e sim para organizar grupos
de conversação, plebiscitos indicativos, consultas sobre distintos temas, proporcionar
informação à população. A mim assusta que grupos de extrema direita sejam os que mais
estão utilizando a Internet. Agora, também os zapatistas do México, e muito bem.
Em compensação, no marco europeu, a
esquerda e os governos municipais utilizam a Internet apenas para informar os cidadãos em
termos genéricos, oferecendo listas de telefone ou guias municipais, coisas que têm
muito pouco valor agregado. A imensa capacidade da Internet para promover uma
mobilização da cidadania e um debate aberto dos conflitos não está sequer esboçada na
Europa. No final, o Comitê de Especialistas decidiu apoiar uma iniciativa desse tipo, mas
nos custou muito superar as reticências iniciais, inclusive nos meios sindicais."[27]
Uma das propostas em exame no Alto
Comissariado de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas é fiscalizar e
banir discursos que estimulem a violência ou incitem ao ódio racial na Internet. Como
prova da capacidade reativa das comunidades virtuais, cresce o número de sites que
combatem a discriminação racial, a exemplo da Magenta Foundation (http://www.magenta.magenta.nl/index.html),
da Holanda, que organiza caravanas e workshops de conscientização, e do Web Zumbi
(http://www.zumbi.ongba.org.br/home.html),
ONG da Bahia voltada à apuração de denúncias.
As pressões políticas e administrativas
não cessam. Mal começou o ano de 1998, e em paralelo ao escândalo de assédio sexual na
Casa Branca envolvendo Bill Clinton, os Estados Unidos surpreenderam a União Européia
com a proposta de privatizar a administração da Internet. Até agora, duas agências
a Internet Assigned Numbers Authority (IANA) e a Network Solutions Inc. (NSI)
supervisionam logisticamente a rede, por encargo do governo norte-americano. Mas o
contrato termina no final de 1998 e Washington não demonstra intenção de renová-lo.
O comissário de Tecnologia da Informação
da União Européia, Martin Bangemann, reagiu: "A posição norte-americana parece
não reconhecer a necessidade de se aplicar um enfoque internacional para a
administração da rede mundial de computadores." Para Bangemann, os Estados Unidos
consideram a Internet como de sua propriedade.[28] Em reunião da UE em Bruxelas, a
Inglaterra defendeu a tese de que, à medida que a Internet cresce e se desenvolve, o
enfoque dado a essa questão tem de ser abrangente. O governo socialista francês disse
que não aceita a imposição, por uma única nação (os EUA), de novas terminações
para domínios na Internet, como inf (além de com, gov, edu).[29]
A idéia de outorgar a um número limitado de
sociedades privadas a coordenação logística da Web choca-se com a intenção de
transferi-la a um organismo internacional sem fins lucrativos. Um grupo com este objetivo
foi criado em outubro de 1997 e conta com a participação de 88 sociedades de todo o
mundo. Os europeus temem que a proposta de Clinton, de aplicar na Internet as habituais
práticas comerciais de solução de conflitos de marcas daquele país, termine garantindo
a jurisdição dos Estados Unidos sobre a rede.
A UE defende uma participação equilibrada
do setor privado europeu na administração da Internet, bem como a aplicação de
preceitos comunitários, para evitar a oligopolização da infra-estrutura
técnico-operacional da Internet, particularmente por conglomerados norte-americanos. Uma
tentativa de "domar" a Web seria restringir drasticamente o acesso, o que
sufocaria direitos individuais e coletivos. O ditador nigeriano, general Sani Abacha,
proibiu conexões sem autorização oficial e mandou prender o jornalista Babafemi Ojudu.
Impedido pelo governo de exercer a sua profissão, Abacha recorria a um boletim
eletrônico, transmitido por e-mail.[30]
A Arábia Saudita proíbe conexões sem
licenças governamentais. No Japão, desde o ataque terrorista da seita Aum Shinrikyo, que
espalhou gás Sarin no metrô de Tóquio em março de 1995, o governo não pára de falar
em regulamentação da Internet. Tudo porque membros da seita se comunicavam virtualmente.
Ao longo de 1997, o Ministério da Justiça japonês fez o que pôde para monitorar
comunicações via telefone, BBS e Internet, inclusive retirando temporariamente do ar
provedores acusados de divulgar pornografia infantil. A caça às bruxas não se alastrou
por causa dos protestos de associações de usuários e de recursos judiciais.
Como reagiria Ernesto Che Guevara ao saber
que seu amigo e companheiro Fidel Castro fixou em US$ 260 a taxa mensal para navegação
na Internet, num país com salários em torno de US$ 20? Para usar apenas e-mail, os
cubanos pagam US$ 60 por mês. Ao recordar o bravo Che, não o faço apenas em reverência
a seu espírito rebelde, mas porque ele foi o primeiro líder de Sierra Maestra a perceber
a necessidade de se burlar o cerco da grande mídia norte-americana, criando um serviço
noticioso para divulgar a Revolução Cubana. Com U$ 100 mil que sobraram dos fundos da
guerrilha, Guevara fundou a agência Prensa Latina, com correspondentes no exterior e uma
meta que nos faz pensar na Internet dos anos 90: "livrar-se dos monopólios
capitalistas ianques da AP [Associated Press] e UPI [United Press International]".[31]
Desde que Cuba se conectou, em outubro de
1996, os serviços são gerenciados pelo Centro de Intercâmbio de Informação Atualizada
(CIIA), subordinado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. O acesso está
limitado a instituições acadêmicas, agências governamentais, missões diplomáticas,
empresas estatais e jornalistas estrangeiros. Fala-se em 600 usuários cadastrados. O
assunto Internet tem sido regularmente tratado pelos setores estratégicos dos
Ministérios e das Forças Armadas.
Os adversários acusam Fidel Castro de
restringir o acesso à Internet por motivo político manter sob rédea curta o
tráfego de informações. Jesus Martínez, diretor do CIIA, nega o fato e diz que é a
escassez de dinheiro e de equipamentos que impede que a maioria da população usufrua a
Web. Menos de 2% dos 11 milhões de habitantes têm computadores, geralmente antiquados.
Martínez garante que o governo quer expandir o uso da Internet e está modernizando o
sistema telefônico da ilha, apesar das dificuldades para importar componentes, por conta
do aberrante bloqueio econômico dos Estados Unidos. Segundo ele, 70 instituições
acessam a Web e pelo menos três mil funcionários utilizam correio eletrônico. "A
Internet pode beneficiar muito Cuba e qualquer país. Ela oferece um mundo de informação
em enormes bibliotecas e centros de pesquisa, além de possibilidades de negócios",
reconhece Jesus Martínez, para em seguida ter uma recaída: "Mas não esqueçamos
que a Internet, às vezes, também pode ser agressiva e até prejudicar."[32]
Em dezembro de 1997, o governo ditatorial da
China limitou o fluxo eletrônico, sob a patética alegação de que "a Internet é
usada para divulgar coisas nocivas e obter segredos de Estado". As medidas anunciadas
pelo vice-ministro da Segurança Pública, Zhu Entao, incluem uma longa lista de
"delitos", como o vazamento de informações confidenciais, a
"subversão" política e a difusão de material pornográfico. Segundo o
governo, o objetivo é também estabelecer uma proteção contra vírus e hackers. As
penas variam de "castigos penais" não especificados a multas de até US$ 1,8
mil a provedores de acesso e usuários. Entre os alvos do AI-5 chinês, estão os
movimentos separatistas do Tibet e da região muçulmana de Xinjiang, e dissidentes
chineses, que em suas páginas eletrônicas criticam o governo de Pequim. Zhu Entao, a
contragosto, admitiu que a Internet aumentou os intercâmbios culturais e científicos da
China. "Mas as conexões trouxeram problemas de segurança, incluindo a elaboração
e a publicação de informação nociva", afirmou o vice-ministro.[33]
O obscurantismo funcionou porque a baixa
densidade de utilização da Internet na China facilita a vigilância. A censura a
informações políticas e financeiras vem acarretando sérios prejuízos. Durante a
recente crise asiática, os chineses deixaram de acompanhar a transmissão on-line dos
pregões das Bolsas de Valores da região e de Shangai. Os operadores queixaram-se de que
perderam a possibilidade de atuar no mercado acionário com a velocidade que o crash
exigia. Pequim deve ter constatado que é fácil grampear ou cortar linhas telefônicas e
reprimir "infrações à segurança nacional", porém muito problemático frear
a Web, pois há o risco de se pagar um alto preço pela perda de quantidade e de qualidade
das informações.
No Irã, onde o fundamentalismo islâmico
considera a Internet um demônio capaz de corromper as mentes puras dos seguidores de
Alá, o acesso ao ciberespaço é limitado aos altos escalões governamentais, militares e
diplomáticos. Tudo seria um mar-de-rosas para o governo de Teerã se a rede não
estendesse suas veias pelo globo. Páginas e páginas eletrônicas sobre o Irã se
propagam à distância dos humores e da censura xiitas.[34] Fenômeno semelhante observou-se
recentemente na Indonésia: a máquina repressiva não conseguiu censurar as denúncias
dos desmandos praticados pelo general Mohammed Suharto em 32 anos de reinado absoluto,
veiculadas pela Web por líderes estudantis, sindicalistas e jornalistas de oposição,
durante a revolta popular que apeou do poder o ex-ditador.
CONCLUSÕES
PROVISÓRIAS
As ocorrências acima descritas ratificam que
a conformação universal e não-totalizável da Internet dificulta (mas não impede)
controles estritos, sejam eles territoriais, legais ou geopolíticos. As redes
informáticas alargam os contextos, universalizam as heterogeneidades culturais e
fragmentam macroestruturas de coesão. Nas zonas de visibilidade da Internet, ao menos em
tese, as contradições não precisam ser dissimuladas, porque é da essência do virtual
a veiculação simultânea, interagente e interpolar.
A Internet constitui uma vida comunitária
regulada por interações, e não por leis, decretos, portarias ou "medidas
provisórias". Os seres orgânicos das comunidades virtuais, desvencilhados da
coincidência histórica entre espaço e tempo, fazem valer o salvo-conduto para estar em
toda parte sem sair do lugar. Longe de dispensar os indivíduos de deveres éticos, o
ciberespaço propõe uma coexistência auto-regulada, em constantes revisões. Longe de
padronizar condutas com base numa "maioria moral" (normas e interdições a
serviço das totalidades dominantes), a ciberética apóia-se em regras e valores
consensuais estabelecidas pelas células de usuários, respeitando-se a pluralidade de
contextos, os projetos societários e, acima de tudo, a liberdade de manifestação do
pensamento.
Por sua natureza desterritorializada e
desordenada, a Internet resiste à regulamentação externa. Mas nem sempre escapa de
agressões e atos criminosos. Ninguém, de sã consciência, resigna-se às fraudes e ao
terrorismo digital. É preciso coibi-los, mas sem instaurar regimes autoritários de
vigilância e censura, ao atropelo de direitos fundamentais da cidadania. As legislações
sobre proteção do consumidor e de direitos de propriedade intelectual devem ser
aperfeiçoadas. O avanço tecnológico tem papel decisivo a desempenhar também nesse
plano. Espera-se o aprimoramento de programas capazes de:
ampliar a margem de segurança nas
transações eletrônicas;
bloquear, exclusivamente a critério dos
usuários, conteúdos impróprios e lesivos;
criar sistemas inteligentes que, nos marcos
legais, localizem e desarticulem o banditismo digital.
A ausência de ditames governamentais
representa a pedra-de-toque para assegurar à Internet condições de consolidar-se como
canal de informações e idéias, em moldes interativos e descentralizados. O campo de
batalha delimita-se. De um lado, elites obstinadas em estender à Web, sob variados
pretextos, a gama de comandos que exercem na cotidianidade. De outro, as forças sociais
transformadoras, que anseiam projetar o ciberespaço como ambiente propício a uma ética
de reciprocidades entre os sujeitos comunicantes.
Não me parece difícil discernir de que lado
estão as perspectivas de uma práxis fundada em processos de colaboração por
afinidades, sem monopólios ou coerções. Comunidades virtuais, entrelaçadas às ações
concretas dos movimentos coletivos, são como grãos que aspiram correlatar-se para tecer
dinâmicas éticas solidárias e formas evoluídas de opinião pública.

REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
[1] Jöel de Rosnay. Lhomme symbiotique. Paris:
Seuil, 1995, p. 79. Ver do mesmo autor: Un changement dère, em Actes du
Colloque LAprès-television: multimédia, virtuel, Internet. Valence:
CRAC-Scène Nationale, 1997; Ce que va changer la révolution informationelle, em Le
Monde Diplomatique, agosto de 1996.
[2] Henry Bakis. Communications et territoires. Paris: La
Documentation Française, 1990. p. 18.
[3] Pierre Lévy. O que é o virtual? Trad. Paulo Neves.
São Paulo: Editora 34, 1996. p. 113.
[4] Ver de Pierre Lévy: Cyberculture. Rapport au Conseil de
lEurope. Paris: Odile Jacob, 1997, sobretudo o capítulo Luniversel sans
totalité, essence de la cyberculture; O que é o virtual?, ob. cit.; Lintelligence
collective: por une anthropologie du cyberespace. Paris: La Découverte, 1995. Ver
também: Derrick de Kerckhove. Connected intelligence: the arrival of the Web
society. Toronto: Somerville House Publishing, 1997, sobretudo a terceira parte,
Connectivity.
[5] Pierre Lévy. O que é o virtual?, ob. cit., p. 17-18.
[6] Derrick de Kerckhove. A pele da cultura: uma
investigação sobre a nova realidade eletrônica. Trad. Luís Soares e Catarina Carvalho.
Lisboa: Relógio DÁgua, 1997, p. 80.
[7] Ibidem, p. 34 e 142-3. Kerckhove acrescenta (p. 34): "A
realidade visual ainda está mais ajustada a nós. Acrescenta o tato à visão e audição
e está mais próxima de revestir totalmente o sistema nervoso humano do que alguma
tecnologia até hoje o fez. Com a realidade virtual e a telepresença robótica,
projetamos literalmente para o exterior a nossa consciência e vemo-la
objetivamente. Esta é a primeira vez que o homem o consegue fazer."
[8] Sobre as relações entre identidades culturais e redes
eletrônicas de comunicação, ver Manuel Castells. La era de la información:
economia, sociedad y cultura (vol. 2: El poder de la identidad). Barcelona: Alianza
Editorial, 1997.
[9] Consultar as bases de dados Rincón Literario (http://www.mundolatino.org/cultura/litera)
e Literatura Web (http://members.tripod.com/~luisedwin/literatu.htm).
[10] Mario Vargas Llosa. Sobre a ficção, em El País,
25 de março de 1995.
[11] Sobre grupos de discussão,
comunidades e relações virtuais, ver: F. Sudweeks, M. McLaughlin e S. Rafaeli (eds.). Network
and netplay: virtual groups on the Internet. Boston: AAAI/Mit Press, 1998;
Pierre-Léonard Harvey. Cyberespace et communautique. Appropriation. Réseaux.
Groupes virtuels. Quebec: Les Presses de l'Université Laval, 1996; Ana Maria
Nicolaci-da-Costa. Na malha da rede: os impactos íntimos da Internet. Rio de
Janeiro: Campus, 1997; Sherry Turkle. Life on the screen: identity in the age of
Internet. Nova York: Touchstone, 1997; Howard Rheingold. Les communautés virtuelles.
Paris: Addison Wesley-France, 1995.
[12] Para compilar grupos e listas
de discussão, digite por exemplo: http://www.liszt.com;
http://www.reference.com; http://www.dejanews.com. Listas sobre
cinema brasileiro estão disponíveis na Biblioteca Virtual de Estudos Culturais, do
Programa Prossiga, do CNPq: http://www.prossiga.lncc.br/rei/estudos_culturais. O endereço da
Queer Studies Aotearoa Gays é http://nz.com/NZ/Queer/gas.html.
Sobre o Manifesto Comunista, ver o site do Partido Comunista Brasileiro (http://www.pcb.org.br). A lista de
filosofia está em http://jefferson.village.Virginia.EDU/~spoons
.
[13] Dados obtidos no site do
Universo Online (http://www.uol.com.br/forum)
em 30 de abril de 1998.
[14] O Universe Internet (http://www.universe.com.br/chats.html)
disponibiliza links para 10 dos maiores chats brasileiros.
[15] Paul Mathias. La cité Internet. Paris: Presses de
Sciences Po, 1997, p. 52.
[16] Sobre ética na Internet, ver:
Pierre Lévy. A globalização dos significados, em Folha de S. Paulo (Caderno
Mais!), 7 de dezembro de 1997; Réseau des cégeps et des collèges francophones du
Canada. Règles de conduite sur Internet, disponível em http://rccfc.ca/regles.htm;
Netiqueta, em Estilo Web, fevereiro de 1998, em http://ww2.zaz.com.br/estiloweb. Consultar ainda Web Ethics, em http://www.journalism.net.com/column7.htm;
Ethics on the Web, em http://www5.fullerton.edu/les/ethics_list.html.
[17] Pesquisa divulgada em março de 1998 pelo Computer Security
Institute e pelo FBI revela que os break-ins na segurança de 241 sistemas corporativos ou
institucionais norte-americanos causaram prejuízos de U$ 136 milhões em 1997. O
resultado comprova um vertiginoso crescimento não apenas dos ataques a sistemas (36% a
mais do que no ano anterior), mas também dos prejuízos financeiros (26% a mais). Os
ataques foram de vários tipos: 44% registraram acesso não-autorizado por funcionários;
25% disseram ter havido ataque do tipo denial of service (recusa de serviço). O sistema
percebe que está sendo invadido e desliga todas as máquinas. Outros 18% citaram furto de
informação proprietária; 15% sofreram fraudes financeiras; e 14% tiveram suas redes ou
dados sabotados. As organizações que citaram a conexão à Internet como um ponto
freqüente de entrada dos invasores cresceram de 47% em 1997 para 54% este ano. Ver O
Estado de S. Paulo, 5 de março de 1998.
[18] Folha de S. Paulo, 12 de abril de 1998.
[19] Flávia Seckles. Pentágono faz aliança com hackers, em Jornal
do Brasil, 8 de março de 1998.
[20] O Dia (Informática), 20 de fevereiro de 1998.
[21] Globo On, 4 de dezembro de 1997.
[22] Em 23 de outubro de 1996, Gluber e seus editores foram
condenados a pagar 100 mil francos à viúva do ex-presidente, Danielle Mitterand, e 80
mil francos a cada um de seus três filhos, "por intolerável atentado aos
sentimentos familiares mais profundos". A violação do segredo médico custou a
Gluber uma pena de quatro meses de prisão, com direito a sursis.
[23] Globo On, 27 de novembro de 1997.
[24] Globo On, 3 de dezembro de 1997.
[25] Lúcia Reggiani. Programas bloqueiam acesso, em Folha de
S. Paulo, 13 de maio de 1998.
[26] Numa prova de que o conservadorismo norte-americano não se
conforma com o estilo Internet, o senador republicano Dan Coats apresentou, em novembro de
1997, novo projeto de lei, menos draconiano do que o Ato pela Decência nas
Comunicações, para proibir a veiculação de "pornografia e material
indecente" na rede. Globo On, 7 de novembro de 1997.
[27] Manuel Castells. La izquierda tiene una actitud retrógada
respecto a las tecnologías de la información, em Enredando, Barcelona, 21 de
outubro de 1997, disponível em http://enredando.com/entrevistas3.html.
[28] Zero Horal Digital, 27
de fevereiro de 1998.
[29] Reuters Online, 27 de fevereiro de 1998.
[30] Adam Clayton Powell. Digital dissident, em Wired,
abril de 1998.
[31] Ver Jon Lee Anderson. Che Guevara: uma biografia.
Trad. M. H. C. Côrtes. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997, p. 474.
[32] El Nuevo Herald, 26 de
outubro de 1997, disponível em http://ella.netpoint.net/cubanet/CNews/y97/oct97/27o3.htm.
Ver ainda Globo On, 20 de outubro de 1997; Notícias Intercom, 2 de
setembro de 1997, disponível em http://www.noticias.com/n970915.htm. No site do governo cubano (http://www.cubaweb.cu), estão
disponíveis duas edições on line do jornal oficial Granma: a nacional (apenas
em espanhol) e a internacional (em espanhol, português e inglês).
[33] Globo On, 31 de dezembro de 1997.
[34] Ver os sites IranSeek (http://www.iranseek.com) e Persian
Interest Links & Other Resources (http://www.mage.com/links.html) Home page.

Originalmente publicado na Revista Ciberlegenda, número 1, 1998.